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abaixo, dois textos.

um, meu, resenha de “a timidez do monstro”, livro de poemas do paulo scott com ilustrações do guilherme pilla.

outro, de cesar teixeira, análise lúcida sobre esta onda (já nem tão nova) de batismo de “bois”.

o primeiro foi publicado ontem no diário da manhã, coluna do zema.

o segundo, não sei se chegou a ser publicado em algum lugar. talvez o seja amanhã, na mesma coluna do zema.

em tempo: meu texto para o colunão de ontem (o colunão passa, agora, a ser quinzenal, mais detalhes no blogue de wr, link ao lado) não foi publicado, por motivo de força maior. é sobre “sexo puro”, disco de estréia da cantora carioca suely mesquita. fica para o próximo número, que deve circular dia 9 de julho.

em tempo, e não menos importante: hoje é dia internacional de luta contra a tortura.

– um –

A violência do monstro

Em “A timidez do monstro”, o gaúcho Paulo Scott dilacera. Tendo ou não uma opinião formada sobre “poesia”, (não) é hora de rever seus conceitos (?).

O “cara” passa ligeiro andando de skate. Corre o risco de te atropelar e machucarem-se, os dois, o cara e você – e/ou vice-versa. Raspa e, zum!, passa. “Filho da puta!”, você pensa em dizer/gritar, mas não diz/grita. E não por covardia. Antes que você o consiga fazer, ele se esborracha: nada tão grave, um pouco de sangue aqui e ali. Longe da morte ainda, ele se levanta e vai embora, skate na mão. O que não significa a derrota, o abandono, a desistência. Só uma pausa. E mais rápida do que você pensa.

“A timidez do monstro” (Editora Objetiva, 2005) é isso aí. A poesia de Paulo Scott é isso, essa velocidade toda, toda essa violência. Páginas em preto – não há espaço para páginas em branco na literatura de Elrodris, pseudônimo do poeta-skatista – parecem esconder o monstro tímido do título. Ou economizar mais violência, uma ou outra ilustração de Guilherme Pilla a menos, no “violento” projeto gráfico.

Sobre o autor, a advertência do poeta Fabrício Carpinejar é certeira – e por que não dizer?, violenta: “Scott não veio para brincar, satisfazer egos, brindar com espumantes. É um profeta, paranoicamente criativo como um profeta, com estratégias militares de um profeta. Não peça que leia sua mão, ele vai cortá-la”.

O monstro – o próprio autor? – no escuro, o poema “Luz” diz assim:

lambe
lambe
é aqui

Certeiro, não? Certeiro também em batismos, “Padre” Scott já publicou “Histórias curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimentos dos monstros” – seriam os monstros uma obsessão? – sob o citado pseudônimo, antes, e na última bienal do livro em São Paulo botou “Senhor Escuridão” na praça. (uma praça escura? Nunca é demais perguntar, a escuridão, outra obsessão).

Querem mais e estão tímidos, com medo do monstro e com medo de pedir? Tomem:

avião decola e se inclina em direção ao Uruguai
estendo a ponta do canivete contra a janela
rasgo Porto Alegre ao meio

Acima, “Pão com osso duro”; sobre o skate, lá em cima, “Skate”, abaixo:

rápido, só enxergo vogais
quando tento sorrir
o pescoço dá um rabo
de azulejos quebrados

Num P. S. (post scriptum), poderia dizer: ninguém fica im(p)une à poesia de P.S. (Paulo Scott).

– dois –

A política do couro de boi e a beatificação de Sarney

por Cesar Teixeira*

Em meados de junho a TV Mirante exibiu cenas do batizado do Boi de Axixá na Igreja da Sé, onde a madrinha Roseana exalta a devoção dos maranhenses aos santos padroeiros “homenageados no próprio couro do boi”. Surge então a imagem do boi dançando. Junto com São João Batista, no couro bordado em miçanga e canutilho, está José Sarney à sombra da bandeira do Estado.

O boi de Francisco Naiva é um dos raros no sotaque de orquestra que conseguiram manter a beleza coreográfica, rítmica e melódica originais do folguedo, além de priorizar os brincantes da comunidade de Axixá. Porém, é doloroso ver mais uma vez o patrimônio cultural do povo maranhense ser utilizado como outdoor de interesses políticos ou disfarçada moeda de troca.

Ninguém é proibido de receber ou prestar homenagens, batizar ou prover brincadeiras juninas e carnavalescas, como tem se dado ao longo dos anos. Tal prática, no entanto, se torna intolerável quando as lantejoulas políticas ofuscam o brilho da festa, sobretudo em tempo de campanha eleitoral.

Pode-se enxergar no couro do boi a cangalha onde, ao reverenciar o amo por admiração ou visando alguma graça, os personagens reais colocam o seu pescoço. Nele já se insinua a publicidade feita por Sarney em torno de sua autobeatificação, patente no caso do Convento das Mercês, onde pretende sepultar-se no jazigo ali construído.

“Trata-se do meu mausoléu, que as pessoas irão visitar em peregrinação”, disse o senador em entrevista de rádio reproduzida pela sua emissora de TV em novembro do ano passado, onde condenava a aprovação da lei que devolvia o convento ao Estado, inviabilizando o seu enterro.

Crendo-se imortal, por pertencer à Academia Brasileira de Letras, talvez considere justo candidatar-se a padroeiro. Mas o Congresso das Alturas é bem diferente daquele de Brasília. A julgar pela lista de maldades que cometeu na terra, no mínimo terá suas orelhas puxadas em Plenário e será obrigado a pular fogueira perpétua só pela saliência. Não terá votos nem ex-votos.

Essa obsessão de se tornar santo – que poderia ser caso de psiquiatria ou exorcismo – se ajusta melhor no campo da esperteza política, e também revela o maniqueísmo da classe burguesa ao transfigurar símbolos culturais para a afirmação de uma hierarquia social. A malversação da estética popular, em prol de uma ideologia reacionária, atinge agora o jardim-suspenso da sacralização.

As obras públicas, com ou sem fachadas, há muito têm servido de couro de boi, ou outdoor, para os rajados da família Sarney, que abusam desse artifício como merchandising político sem gastar um tostão do bolso. Essa doença hereditária contagia órgãos estaduais e municipais, craques em utilizar o dinheiro da população como se fosse de sua propriedade.

Por ser inconstitucional e antiética, tal prática já deveria ter sido punida com rigor por vias judiciais e administrativas, obrigando seus autores a indenizar a sociedade, depois de terem seus nomes retirados de tribunais, pontes, escolas, avenidas, ruas, creches, hospitais, rodoviárias, favelas, etc., da capital e do interior do Maranhão (sem falar de outros estados).

Após 40 anos contribuindo para o agravamento das desgraças sociais do Maranhão, a propaganda da oligarquia Sarney beira à crueldade, sobretudo quando passa a desvirtuar a história, através do estelionato político. O currículo mais superficial do senador pelo Amapá bastaria para bani-lo para sempre dos palácios, ou do mais humilde casebre de taipa e palha.

Sarney foi aluno de Vitorino Freire, um dos políticos mais ladinos do País. Superou o mestre, passando-lhe a perna. Mentiu aos camponeses quando em 1965 candidatou-se ao governo do Estado, sendo muitos deles mortos, exilados e torturados pelo regime militar, de quem o senador foi aliado. Para preservar o status político, quando a ditadura expirava, virou encosto de Tancredo. Entrou pela janela e saiu pelos fundos do Palácio do Planalto, depois beijou a mão de Collor, Itamar, FHC, Lula…

Mas continua perseguindo sem dó seus adversários, inclusive os que pertenceram ou estão sendo descartados do seu grupo parafolclórico.

A dinastia Sarney não seria inteligente ao utilizar a cultura popular como mídia política em prejuízo de quem a produz, fazendo crer o contrário, além de chamuscar a alma de muitos artistas no fogo das vaidades? Bobagem. Trata-se de um artifício medieval hoje digitalizado pela academia marqueteira. Não tem nada de novo, é pura esperteza!

Foi assim que a sorridente madrinha do Boi de Axixá completou a obra do pai em oito anos de governo, condenando o Maranhão à indigência. A oligarquia transformou o Estado num imenso outdoor da miséria, num couro de boi onde Catirina prega as miçangas da fome depois de provar o fel de outra língua de mentira – a língua de Sarney.

*Jornalista e compositor

8 respostas para “2”

  1. e eis a íntegra da carta do movimento nacional de direitos humanos (mndh) pelo dia de hoje:CARTA ABERTADIA INTERNACIONAL DE LUTA CONTRA A TORTURA O MNDH tem afirmado há anos que a tortura e a impunidade expressam a incapacidade do Estado brasileiro de construir condições concretas para a efetivação dos Direitos Humanos. Por isso, entendemos que é necessário ampliar de forma significativa os esforços para o enfrentamento deste crime, tornando o combate a tortura uma política pública de Estado.Nesse sentido, aproveitamos o dia internacional de luta contra a tortura para indicar a necessidade de pactuar uma nova agenda de luta envolvendo a sociedade civil organizada e todos os órgãos do poder público a se juntarem numa luta constante, permanente e incansável para erradicar de vez a tortura no nosso país e conclamamos que todas as autoridades manifestem publicamente a afirmação de que o Estado brasileiro não tolera tortura, porque tortura é crime, um crime covarde e arcaico. Como ponto de partida, apresentamos algumas propostas voltadas para o fortalecimento de estratégias de mobilização, combate, monitoramento e responsabilização:– Retomar a Campanha Nacional Permanente de Combate à Tortura e à Impunidade ampliando-a para lidar com crimes correlatos, como: violência policial, execuções sumárias. Para isto é preciso fortalecer os comitês e centrais estaduais contra tortura existentes, buscando ir progressivamente constituindo esses instrumentos em todos os Estados do país. Nesse sentido, destacamos que, embora seja fundamental oferecer canais públicos para as denúncias, o disque denúncia deve ser entendido como um meio e não como um fim. Daí a relevância prioritária da reorganização das centrais estaduais e, especialmente, dos comitês políticos, já que estas são as instâncias que efetivamente podem viabilizar o andamento dos casos no sistema de justiça e segurança pública. – Aprimorar o banco de dados do SOS tortura já existente, desenvolvendo não só novas pesquisas e publicações sobre o fenômeno da violência institucional como ainda para acompanhar o andamento dos casos de tortura e correlatos nos órgãos do sistema de justiça e segurança pública. – Realizar divulgação anual de relatório sobre tortura dando visibilidade a casos exemplares de investigação e punição. – Pela imediata ratificação do Protocolo Facultativo à Convenção da ONU contra a tortura e outros tratamentos ou penas cruéis, desumanos ou degradantes, que apesar de já ter alcançado o número de ratificações necessárias para a sua entrada em vigor no âmbito das Nações Unidas, no Brasil ainda encontra-se em trâmite no Congresso Nacional. Este instrumento é de imensa relevância no campo preventivo, pois estabelece um sistema de supervisão sistemático e independente para monitorar o tratamento das pessoas detidas (sistema prisional e unidades de internação de adolescentes) através de visitas regulares aos locais de detenção sem necessidade de aviso prévio. Essa possibilidade pode ajudar a sociedade civil a ver os reais problemas em especial do sistema prisional para então construir algumas ações positivas.– Assegurar a apresentação imediata do preso a uma autoridade judicial no momento da detenção, conforme proposição da Convenção Americana sobre Direitos Humanos – Pacto de San José da Costa Rica. – Lutar para garantir a presença de um defensor público 24 horas nos presídios e unidades de internação de adolescentes.– Exigir o rigoroso cumprimento do inciso II, § 2 º da Lei nº 9455/97, que implica na responsabilização daqueles que se omitem diante da prática da tortura. Para tanto, é importante atribuir visibilidade aos casos que envolvem a omissão de agentes públicos, visando acionar os mecanismos de responsabilização criminal e civil.– Utilizar os pactos contra a tortura firmados nos estados e em nível nacional como instrumentos de cobrança das responsabilidades dos órgãos públicos. – Lutar pela qualificação e independência das perícias e dos mecanismos de controle externo da atuação policial. – Exigir investimento na especialização técnica das polícias, com ênfase nos métodos científicos de investigação e nas diretrizes internacionais sobre o uso da força destacando os meios não letais para a resolução de situações de conflito. – Fortalecer os conselhos de direitos humanos, segurança e penitenciários, assim como a sociedade civil organizada para exercer o controle social do sistema de justiça e segurança pública de forma mais qualificada, exigindo o cumprimento rigoroso da Lei de Execução Penal. – Priorizar uma interpretação da lei 9455/97 que esteja em consonância com os instrumentos jurídico-normativos internacionais que definem o crime de tortura. Para maior eficácia da Lei de Tortura no Brasil seria importante que o tipo penal qualificasse o agente público como detentor da autoria, já que a grande maioria das alegações de tortura envolve agentes públicos e ocorre no âmbito institucional.– Abrir um amplo processo de discussão nacional, envolvendo as entidades da sociedade civil e os órgãos do sistema de justiça e segurança pública voltado para a construção de um novo modelo de polícia. – Necessidade de colocar o combate à tortura na agenda política dos Estados adaptando as suas Legislações locais às Normas Constitucionais e Internacionais, ressaltando a importância da atuação da sociedade civil nesse trabalho, bem como resgatando experiências bem sucedidas.– Três caminhos a perseguir: estruturar as Ouvidorias com legislações específicas nos Estados que garantam a autonomia funcional e administrativa, bem como a independência que significa está respaldada politicamente por uma instância no mínimo consultiva, tipo: os Conselhos; Dotar as corregedorias de autonomia operativa e funcional, aprovando projetos de lei nos Estados que regulem as atribuições do corregedor, com mandato por tempo determinado em lei (ver modelo da polícia federal); exigir dos Ministérios Públicos o controle externo das atividades policiais conforme determina o art. 129 par. 7° da Constituição. – Aprimorar os mecanismos legais de apuração, de forma a garantir o afastamento imediato do agressor acusado do exercício da profissão, quando se tratar de agente publico de segurança e do sistema carcerário.– Regulamentar e reconhecer o poder de investigação dos Ministérios Públicos para que estes possam dar celeridade e independência aos atos investigativos de violações aos Direitos Humanos. Concluímos lembrando que a tortura é violação inaceitável dos Direitos Humanos, constituindo crime contra a humanidade. Por isso estimulamos uma ampla divulgação desta carta com o intuito de aprofundar a mobilização e a organização da sociedade na luta contra a tortura. NA LUTA PELA VIDA, CONTRA VIOLÊNCIA, TORTURAR JAMAIS!!!!Brasília 26 de junho de 2006Coordenação Nacional do MNDH

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