Chorografia do Maranhão: João Soeiro

[O Imparcial, 30 de março de 2014]

Professor de violão popular da EMEM e músico de igreja, o violonista João Soeiro é o 29º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

João Soeiro trajava uma camisa de bolso e deu seu depoimento à Chorografia do Maranhão na Quitanda Rede Mandioca. Pode até ser mera coincidência, mas nestas linhas iniciais já aparecem duas experiências suas com o choro: os grupos Camisa de Bolso e Choro de Quitanda, por que passou.

Nascido em Pinheiro/MA, em 4 de julho de 1972, João José Soeiro Pereira é professor de violão popular na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo, filho da dona de casa Lucília dos Santos Soeiro Pereira e do boêmio – de profissão – Mário Pereira, “casado três vezes, estudou para ser padre, foi criado por três freiras. Largou a batina pela boêmia”.

Com cerca de 40 composições, algumas já registradas, o 29º. entrevistado da série transita bem entre dar aulas, tocar na noite e na igreja. “Fui um crente que revolucionou a igreja”, diz, sorrindo. Antes do violão, Soeiro tocou cavaquinho, que aprendeu com um pescador de Tutóia. Além da EMEM, dá aulas no Colégio Educator e em projetos sociais, incluindo o Musicar e a Orquestra Tocando o Choro, do Sesc.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Além de boêmio e de ter estudado para ser padre, teu pai fazia o quê? Meu pai foi detentor de muitas riquezas das três freiras [que o criaram], deixaram muito ouro, muita terra para ele. Ele não fazia nada, era boêmio. Por conta das grandes amizades, na política, arrumaram um emprego para ele no IPEM [o Instituto de Previdência do Estado do Maranhão], funcionário público, final de carreira já, arrumaram um serviço na Secretaria de Saúde.

Além de músico, você tem outra profissão? Eu fiz de tudo. Fui comerciante, balconista, farmacêutico, trabalhei em oficina mecânica, forrador de gesso, ajudante de pedreiro e encanador. [Hoje ajudo como] Zelador da igreja evangélica.

O que você ouvia em casa quando era pequeno? Eu ouvia muito [os cantores] Orlando Silva, muito Nelson Gonçalves, essa coisa da boêmia mesmo, Altemar Dutra, ouvia choro também, Waldir Azevedo [cavaquinista], Pedacinhos do céu, o disco Pedacinhos do céu tocava direto lá em casa, meu pai tocava esse choro.

Isso tocava em discos que ele comprava, no rádio, ele era um grande comprador de discos? A gente ganhou uma vitrola, uma vitrola da Philips, momento comercial [risos], então os amigos, meu pai tinha grandes amizades, eles traziam os discos para ele, a gente ouvia em casa, e ele tocava muito chorinho também. Meu pai tocava muito choro, meu irmão também.

Com que idade você veio para São Luís? Em 1981, quando minha mãe vem a falecer, meu irmão, que eu não conhecia, mais velho, o primeiro filho de meu pai, vai buscar meu outro irmão de 14 anos, para viver num comércio em Belém, ele tinha um comércio, tocava. Aí meu irmão não vai, não quer ir, e eu quis ir, “rapaz, eu vou”, com nove anos de idade, vontade de conhecer os novos horizontes, fui para Belém, com esse meu irmão. Esse meu irmão meu pai já tinha levado, meu pai já estava com Mal de Parkinson, já não tocava mais, já estava bem idoso. Meu irmão me leva para Belém, também boêmio, comerciante, sempre gostou de boa música, tocava, aprendeu uns choros que meu pai tocava. Aí eu começo a querer pegar no violão, mas ele não deixava, ele tinha um ciúme danado! Esse violão meu pai comprou em 58, já tinha 10 anos quando meu pai comprou, ele é de 1948, e meu pai tinha comprado em 58. Esse meu irmão tinha um bar, tocava no bar. Em 84 a gente veio para São Luís. Aqui a gente montou o Conjunto Vinagreira, lá no Angelim. Quando a gente chegou aqui ele montou um barzinho menor e a gente começou a tocar. Esse meu irmão, que eu chamo hoje de pai, seu Edson, todo domingo ouve o Chorinhos e Chorões [programa de rádio apresentado pelo chororrepórter Ricarte Almeida Santos na Rádio Universidade FM, 106,9MHz]. Ele era um colecionador de chorinho, gosta muito de Saraiva [saxofonista], adora aquele choro Lágrimas de namorados [de J. Luna e Luiz dos Santos], me ensinou. Eu digo que esse foi o único choro que eu ensinei pra Juca [do Cavaco], Juca me ensinou todos os choros [risos]. Foi a partir daí, de 84, eu já com 12 anos, lá eu começo a tocar cavaquinho, lá na roda, os caras tocando pandeiro, eu tocava cavaquinho fazendo a base, só o centro mesmo, não solava. Quando dá em 87 começam a ir os grandes mestres da Escola de Música na minha casa: Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], Domingos Santos [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014], Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013], eles começaram a frequentar lá o bar de seu Edson, lá em casa. Aí com essa influência eles “rapaz, bota esse moleque na Escola de Música”. Foi aí que eu fui para a Escola de Música.

Quem foram teus primeiros mestres de cavaquinho? Olha, meu primeiro mestre de cavaquinho foi seu Assis, um pescador, lá de Tutóia, analfabeto. Foi ele quem me ensinou os primeiros acordes de cavaquinho. Ele era frequentador de nosso bar, lá. Foi meu primeiro mestre de cavaquinho, eu comecei a tocar cavaquinho. Só que a minha grande paixão era o violão, meu pai tocava, meu irmão tocava.

E quando foi que o violão entrou na tua vida? O violão entra mesmo na minha vida por conta da igreja [Congregacional]. Eu entro na igreja em 1984. Só que eu fiquei dividido entre a igreja e o bar, eu não largava nem a igreja nem o bar. Eu fui o primeiro irmão revolucionário [risos], é verdade, isso é fato, verídico. [O primeiro] que revolucionou essa coisa de o pastor deixar tocar no mundo e estar na igreja. Eles [os pastores] viram que não tinha jeito: a minha musicalidade brasileira era muito forte e eu não aguentava tocar aquelas coisas americanas na igreja. Eu disse: “rapaz, eu gosto é de samba, é de chorinho, é de baião, é de bumba meu boi, essa música é nossa e é isso que me encanta”. O pessoal ficou “rapaz, esse moleque é doido”. O que eu achei legal é que eles não desistiram da minha pessoa, mesmo eu sendo assim. Eu fiquei no bar e na igreja, tocava no bar e tocava na igreja.

Quem te ensinou violão para você passar a tocar na igreja, as primeiras lições, o começo da história, o mestre principal? Rapaz, foi o seu Edson. Foi ele que me ensinou os primeiros acordes. Aí a galera da igreja foi me passando, começaram a me passar as músicas da igreja. Antes meu irmão brigava para eu não pegar violão e eu aprendia olhando. Ele dizia que eu conseguia decorar as posições sem ter o instrumento. Eu peguei um dia um pedaço de ripa, preguei umas cordinhas e comecei a treinar. Aí ele viu que eu tinha jeito pra coisa e começou a liberar o violão para eu tocar. Aí começou a história.

Qual era a formação do Vinagreira? O Conjunto Vinagreira era seu Buca, um taxista, no pandeiro, seu Maranhão na cabaça, o meu irmão, seu Edson, no violão, e o seu Assis no cavaquinho, ou eu, quando ele faltava. Aí tinham vários curiosos cantando, mas o grupo instrumental era esse aí.

Isso durou quanto tempo? E por que acabou? Isso vai de 85 a 93. Nossos amigos infelizmente foram falecendo, seu Assis faleceu, seu Buca foi embora. Meu irmão foi enfraquecendo, as condições financeiras para manter o bar, boêmio dono de bar é complicado, aí foi definhando. Mas eu digo que o Vinagreira não acabou, restou este que vos fala, uma raiz de lá do Vinagreira, que estava no empirismo, no senso comum. Foi a partir desses grandes mestres da Escola de Música que eu fui começar a saber o que era uma nota.

Depois do Vinagreira você participou de outros grupos? Há um interlúdio, um tempo de reflexão em que eu comecei a estudar e ser lapidado. Fui para a Escola de Música, comecei a tirar os vícios, os grandes mestres me ensinando. Como eu tocava, eu queria tocar, estar lá no meio, mas eu não tinha técnica apurada ainda para tocar com os grandes mestres, os caras estavam noutro nível. Eu tocava na base do “empurra, lá vai ele”. Quando foi em 2002, que eu passo no concurso para ser professor da Escola de Música, aí sim, eu começo a montar grupos lá dentro da Escola de Música, com meus alunos, grupos de choro, como eu queria ter feito. A partir de uma viagem, em 2004, com Osmarzinho [Osmar Jr., saxofonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 5 de janeiro de 2014], nós fizemos umas apresentações juntos em Brasília, tocamos um choro chamado Confusão, Osmarzinho arrebentou, a gente fazendo a base, todo mundo chegou pra junto: “lá no Maranhão tem choro?”. “Tem choro sim!”. O primeiro grupo que eu toquei realmente choro, foi um grupo que foi até Ricarte quem botou o nome: o Choro de Quitanda. Formação: Zezé na flauta, João Soeiro no cavaquinho, Nonato Privado no violão e Lazico [Lázaro Pereira] no pandeiro. Foi o primeiro grupo em que eu toquei assim já mais lapidado.

Foi no Clube do Choro [Recebe]? Foi no Chorinhos e Chorões, nós fizemos um programa.

E a família sempre te apoiou nessa escolha de ser músico? Sempre houve um ambiente favorável ou as pessoas brecavam? “Olha, João, isso aqui não dá futuro”, ou coisa do tipo? Como todo músico sofreu essa pressão de que “música é coisa de vagabundo”, nesse período, em que não se via ainda o profissionalismo na música, era notório nas pessoas, na própria igreja que eu tocava, “rapaz, tu tem que estudar outra coisa, fazer outra coisa, isso é coisa de boêmio, tu vai acabar sendo cachaceiro que nem teu pai”, as pessoas já diziam que meu pai era cachaceiro. A partir daí eu comecei a fazer outras coisas também, por conta dessa pressão. Eu tinha que me manter, morava de favor, com meu irmão. Larguei os estudos da música para fazer outras coisas, fui fiscal de ônibus, trabalhei três anos na [empresa] São Benedito.

Hoje você vive de música? Hoje, graças a Deus, eu vivo de música. Sou realizado. Sou professor da Escola de Música, sou professor do Colégio Educator, trabalho para o Sesc [Serviço Social do Comércio], toco na noite, toco com meus amigos, e hoje eu tenho o prazer de dizer: do palito de fósforo à pizza mais gostosa, à comida mais gostosa eu pago com música, com os acordes. Meu filho quando era pequeno, eu dizia que ia tocar, ele achava que eu tocava e o dinheiro saia do violão [risos].

Além do Vinagreira e do Choro de Quitanda, quais outros grupos musicais você já integrou? Eu já integrei Os Cinco Companheiros, choro de gafieira, a partir dessa viagem com Osmarzinho, o Camisa de Bolso está com três anos, a gente já fez várias apresentações no shopping. Essa é uma história muito engraçada. O Camisa de Bolso começa lá no Antigamente [extinto bar na Praia Grande], eu, Roquinho [cavaquinista] e o filho dele [o percussionista Léo Caroço], e todo mundo que me conhece sabe que eu toco dançando, brincando, fazendo munganga ou gatimonha, como diz Raimundo Luiz [risos], e a gente tocando lá no Reviver, de repente vem um gringozão, mais de dois metros, na minha direção, na direção do grupo. Eu fiquei assim atônito, “rapaz, esse cara vai me dar uma bolacha!”. De repente ele tira alguma coisa do bolso e bota no meu bolso, na minha camisa. Aí, que eu olho para Roquinho, tá com a camisa lisa, e o filho dele com a camisa lisa, só eu com camisa de bolso. Que eu olho pra dentro, cem dólares! [gargalhadas dos chororrepórteres]. Aí eu disse: “nunca mais toco de camisa lisa, só de camisa de bolso”, batizei o grupo de Camisa de Bolso. Depois outras senhoras botaram mais uns 40 reais, e eu disse “olha, eu só toco de camisa de bolso, a partir de hoje”. É uma história verídica. Aí também tive o prazer de fazer participações com o [Instrumental] Pixinguinha, mas os grupos de choro que a gente integrou foram esses.

E grupos de samba? Eu tenho sido chamado pra fazer com Rafael Guterres [cavaquinista], toquei com o [grupo] Amigos do Samba.

Eu lembro que você participou daquele show em homenagem a Noel Rosa [o show Noel, Rosa Secular, de Chico Saldanha, Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho, com Cesar Teixeira na primeira edição, apresentado em 2010 e reprisado em 2011, vencedor de um Prêmio Universidade FM]. O que significou aquilo para você? Aquilo foi muito significativo para mim. O centenário de Noel Rosa, eu ser chamado para fazer o violão seis cordas, com o Domingos Santos no sete cordas. Mudou muita coisa na minha cabeça, culturalmente, harmonicamente, no que é Noel Rosa, a gente vai entender que era um gênio realmente do samba, com 26 anos deixar mais de 200 músicas. Nós tínhamos ali Josias Sobrinho, Joãozinho Ribeiro, Chico Saldanha, Célia Maria [a lista de participações especiais se completava com Lena Machado, Lenita Pinheiro e Léo Spirro], e instrumentistas como Juca do Cavaco, Domingos, o grande João Neto [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014], Arlindo [Carvalho, percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de agosto de 2013], um trabalho maravilhoso.

E disco? Você gravou algum disco? Tem participação? Não. Eu tenho músicas gravadas. Um choro meu que está no cd [Made in Brazil] de Robertinho [Chinês, bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], Chorando de saudade. E tenho composições, a minha música O menino da feira foi agora para as eliminatórias finais do Festival Viva. Eu fiz essa música, eu indo para a Escola de Música, e tinha um menino dormindo no ônibus. Eu empurrei ele e disse: “o que é, rapaz, tu tá xilado uma hora dessas, oito e meia da manhã?”. E ele disse: “não, tio, é que eu junto verdura na feira pro meu pai, pra gente botar pros animais”. Depois ele desceu, saiu correndo e eu fiz uma canção pra ele assim [canta, se acompanhando ao violão]: “tão pouca vida/ e já cansado/ do estresse urbano/ da sacola da feira/ tão poucos sonhos/ todos frustrados/ (…)/ Lá vai o menino da feira/ chutando o repolho/ pensando que é bola/ pedindo pra alguém pra pegar a sacola/ sobrou o limão/ não deu pra ir pra escola// Lá foi o menino da feira/ sacola vazia/ não deu pra juntar/ cebola, tomate/ tá tudo caro/ não deu pra ninguém// Lá foi o menino sonhando, sonhando/ com a próxima feira/ será que algum dia ele come uma pera?/ será que tem feira?”. Essa música está no disco do Tony Soubler [cantor], ele gravou essa música com arranjo do Marquinhos Lussaray [o violonista e guitarrista Marcos Lussaray]. As duas músicas minhas que ele gravou, essa e Mulheres. Só um pedacinho pra ver se vocês aprovam. Essa música, na verdade, eu fiz pensando em como Adão se sentia nos dias em que ele estava sem mulher [canta, se acompanhando ao violão]: “Antes de você chegar/ havia tristeza, encoberta a beleza estava/ e no campo e nas florestas/ não se ouvia nenhuma festa/ (…)/ nem havia tão fácil sorrir/ sem você, mulher/ o mundo era menor/ foi então que o criador percebeu/ que a solidão o homem entristeceu/ e fez você, mulher/ harmonia, alegria pelo campo, e a fantasia”.

Você faz letra e música? É, letra e música. Até então eu só fazia música gospel, que é meu mundo, meu universo. Mas tudo assim, samba. Eu tenho um samba que foi gravado por uma galera de Goiânia, que é [canta, se acompanhando ao violão]: “essa força que vem lá de dentro do meu coração/ força tremenda, que não dá não, pra explicar/ mas se eu pego a viola, com todo carinho/ e ouço o gemido do meu cavaquinho/ se tenho um pandeiro/ na ginga, na bossa do samba que traz/ se é na poesia/ ou nos versos de uma linda canção/ eu tenho o Senhor como centro maior da inspiração/ (…)”.

Atualmente você está integrando algum grupo? Os Cinco Companheiros e o Camisa de Bolso são grupos que não acabam. A gente está sempre fazendo algum evento. Rapaz, eu esqueci aqui de um grupo maravilhoso que eu fiz parte durante dois anos, o Nós da Música, que é um grupo da Tania Rego. Era eu, Tania Rego, Adriana Soraya e Nonatinho na percussão. A gente tocava bossa nova, era muito gostoso.

Você também se envolveu em projetos sociais com a música. Hoje, na verdade, eu sou coordenador de um projeto de música chamado Musicar, em duas comunidades, na Divineia e no Maiobão. É desenvolvido pelo Sesc. Hoje eu sou regente. A partir de 2007 a gente criou uma orquestra de choro com os meninos. Tem um menino muito bom, tocando, Raul, fez recital na Escola agora. Estamos na ativa, uma orquestra tocando choro.

A cada ano tem alunos novos, que entram? Como é que funciona? Isso! E os alunos que vão se destacando a gente vai inserindo na orquestra. A orquestra hoje é no Maiobão, o sonho do Sesc é trazer para a Deodoro.

Qual a importância de contribuir com comunidades tidas como carentes, com este tipo de iniciativa? Eu me sinto muito feliz. Os relatos que a gente tem lá na comunidade são de benefícios diretos da música para estes jovens. Na escola, concentração, na família, o comportamento. A gente faz reuniões periódicas com os pais e eles trazem este depoimento pra gente. “Meu filho melhorou a concentração”, “meu filho está mais obediente em casa”, “meu filho está mais caseiro, por conta de estar estudando um instrumento”. E fora que no projeto nós já temos alunos na UFMA, alunos na Escola de Música, tudo isso é qualidade de vida que foi levada para eles através da música, e a gente é muito feliz com isso. Quando a gente começou a levar o choro, disseram: “mas choro com essa juventude?” O que ficou notório? O povo gosta de boa música, às vezes não tem é onde ouvir. Além disso, eu trabalho com musicalização infantil, sou o Tio João, na Companhia Vovó Beth, adoro trabalhar com isso, dou aula para a garotada, de dois anos de idade até…

Para você, o que é o choro? O choro é o ápice do estudo musical do instrumentista. Simplesmente por que ele é a música brasileira mais difícil de ser tocada. Pela sua complexidade rítmica, harmônica, melódica. Eu converso com meus amigos, olha, Pixinguinha faz cinco choros em fá, você analisa o campo harmônico dos cinco choros, é muito parecido, e as melodias são totalmente diferentes. Incrível, você vê Os cinco companheiros é em fá, vai pra ré menor e a terceira parte é em si bemol; Chorei, a mesma coisa; Cheguei, a mesma coisa; Proezas de Solon, a mesma coisa. E todas essas quatro músicas, não é por que você aprendeu a tocar uma que você sabe tocar as outras. Não! É a música mais complexa que existe, não desmerecendo os outros ritmos.

Quem é o chorão, de toda a história, que mais te fascina? Eu sou apaixonado por Waldir Azevedo. Foram as músicas que eu ouvi na infância, ouvi desde pequeno, acho o cavaquinho um instrumento belíssimo, maravilhoso.

Você se considera um chorão? [Pensativo] Sim. Eu me considero um chorão por que eu não sei viver sem o choro. Mesmo quando eu não estou tocando, eu tenho que ouvir, por que o choro faz parte da minha identidade. As minhas composições, o ritmo, é tudo com choro. A gente na Escola de Música, com esses grandes mestres, eu sempre balancei em criar esses eventos, assim, esse Dia do Choro, fui um dos primeiros a fazer, 23 de abril [data de nascimento de Alfredo da Rocha Viana Filho, o Pixinguinha, em que se comemora o Dia Nacional do Choro], hoje é um evento grande, mas fomos um dos primeiros, eu e Nonatinho [percussionista]. Foi a partir dali que todo 23 de abril a gente faz um evento do choro em São Luís.

Entre as pessoas para quem você deu aulas, quem você destacaria? Eu tive a honra de dar aula para Robertinho [Chinês], é um exímio instrumentista, Rafael Guterres, fui agraciado agora com um show de Israel Costa [cantor], que foi meu aluno de percepção na Escola de Música, gravou cd agora. E outros, Lee Fan, foi meu aluno de cavaco, hoje é flautista, toca sax, está tocando piano também. É muita honra, e saber que hoje eles estão no meio musical. Os meninos do projeto lá do Maiobão, Raul, e Rardson e Adenardson, foram meus alunos do zero, começaram sem saber onde botar os dedos no violão e hoje estão aí.

Chorografia do Maranhão: Domingos Santos

[O Imparcial, 16 de março de 2014]

Violonista sete cordas do Instrumental Pixinguinha, o “miritibano” Domingos Santos é o 28º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Quando Domingos da Silva Santos nasceu, em 3 de julho de 1955, Miritiba já passara a se chamar Humberto de Campos, em homenagem ao escritor maranhense nascido ali. Miritibano, como se chamavam os que nasciam na cidade, dá nome à faixa de abertura de Choros Maranhenses [2005], disco de estreia do Instrumental Pixinguinha, do qual é titular do violão sete cordas.

O músico deu seu depoimento à Chorografia do Maranhão na Sala Turíbio Santos [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 29 de setembro de 2013], em que dá aulas na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo [EMEM].

Filho do saxofonista e comerciante Raimundo Nonato Amaral dos Santos e da dona de casa Maria José da Silva Santos, o músico é bacharel em Geografia, mas nunca atuou na área. “A música bateu mais, não foi preciso andar atrás de emprego, me agarrei com ela”.

A seu lado, dos outros professores da EMEM com que forma o Pixinguinha, e de outros mestres já saudosos, seu falecido pai figura na lista de compositores de Choros Maranhenses. Seu grupo gravou Não se esqueça de mim.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Como era o universo em casa, familiar, era propício à música? Eu morava numa casa de festa. Papai era músico. Ele tinha uma orquestra que tocava as festas de Humberto de Campos, das redondezas, não era só da cidade. Eram bateria, banjo, tuba, trombone, saxofone, trompete e pandeiro. Tocava a região inteira lá.

E o que se ouvia em casa? Papai tocava choro. Na verdade a gente não tinha nem rádio. A gente só escutava as festas. Mamãe fazia essa festa de Santo Antônio, lá o pessoal amanhecia. Amanhecia tocando choro, cantando.

Teu pai além de tocar era professor de música? Ele deu aulas para alguns lá. Já morreu com 94 anos, até 80 e pouco ainda andou dando aula para uma criançada lá. Nada foi assim pra diante.

A vida dele era só música ou ele tinha outra profissão? Ele tinha um comércio. Lá, Humberto de Campos, era uma região muito pobre, a história é farinha e peixe, só isso [A pedido do flautista Paulinho Oliveira, também professor da EMEM, Domingos Santos conta uma história:]. Eu estudava aqui na Escola de Música, tinha um professor de piano que falava assim pra mim: “rapaz, faz de conta que tu estás pegando uma laranja”. E eu: “rapaz, lá no interior só tem manga” [risos dos chororrepórteres e do entrevistado]. Mamãe fazia remédios caseiros, e comprava remédio em São Luís e revendia lá.

Teu pai era saxofonista? Saxofonista. Tocador mesmo! Lia partitura que era uma beleza. Inclusive quando o Pixinguinha, depois que acabou, a gente fez uma nova formação, eu, Marcelo [Moreira, violonista], Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], Paulinho, a gente foi tocar na festa de Cururupu, e ele estava lá e tocou com a gente.

Com que idade você veio para São Luís? Eu vim fazer o ginásio no Liceu, em 1973.

Vocês são quantos irmãos? Nós somos nove. Morreu uma. São quatro homens e cinco mulheres. Aí morreu uma.

Quando teu pai ia fazer festas, você garoto, acompanhava ele nessas festas? Não. Eu vim acompanhar depois, nas rezas lá de casa. Tinha as ladainhas, aí eu passei a tocar. Ele tocava as ladainhas lá com esse grupo. Depois de muito tempo é que eu comecei. Eu tenho a [gravação da] ladainha tocada com eles, com essa formação. A gente estudava música lá em casa e outro dia descobrimos que papai tinha um violão dentro do guarda roupa. Alguém comprou no comércio, não tinha dinheiro para pagar e deu esse violão. E ele tocava um pouco de violão também. Aí ensinou um acorde para outro irmão meu, eu aprendi, ele que já me ensinou. Aí eu comecei a tocar. Passei a tocar no Ginásio Bandeirante, na época, festas de dia das mães, dia das crianças. Lá também funcionou o Clube Alvorada de Leôncio Rodrigues, e ele fazia show de calouros. E eu passei a tocar nesses shows, com 12, 13 anos.

Foi essa a idade com que você começou a tocar em ladainhas? Com 12, 13 anos eu comecei a estudar música com papai. Depois, com uns 13 anos, a gente descobriu que ele tinha um violão, ele sabia um pouco de violão, começou a ensinar pra gente, e a gente começou. Aí passamos a tocar, só de ouvido. Engraçado que o primeiro solo de violão que eu fiz, eu aprendi com minha vó, que tocava violão. Meu avô também tocava, a parte materna toda tocava.

Você vindo dessa linhagem musical, teu filho seguiu na música? Meu filho mora com a mãe dele, não mora aqui. A gente inclusive tem pouco contato.

Você vindo dessa tradição de família musical, seu pai tocava sax. Como é que você optou pelo violão? É por que todo mundo lá em casa tocava um pouquinho. Foi a época em que eu vim para cá para São Luís. Joaquim [Santos, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 8 de dezembro de 2013] morava na casa da minha tia, na Rua do Ribeirão [Centro], era muito amigo de Viriato Gaspar [poeta maranhense radicado em Brasília], que é meu primo. Em 1981 eu vim estudar na Escola de Música. Aí eu participei em 1985 do Festival Viva [de Música Popular do Maranhão], Fátima Passarinho, que tem esse nome por causa da música [Canto de Passarinho]. Na época Gerô [o artista popular Jeremias Pereira da Silva] botou como se fosse minha e do irmão dele, ele participou com várias músicas e só podia parece que duas [pelo regulamento]. É minha e de Gerô, poucas pessoas sabem disso. Inclusive a gente participou de festival na UFMA, há poucos dias eu estava folheando uma revista e olhei uma música, minha e de Gerô, que eu nem sei como é, a melodia eu não lembro.

Essa música que Fátima [Passarinho] defendeu no [Festival] Viva, você tocou? Toquei no Festival. Na gravação é [o multi-instrumentista Arlindo] Pipiu que toca.

Quem foram teus principais mestres? De música foi papai. Partitura musical. Mas professor de violão mesmo foi Marcelo. Só tinha ele na Escola de Música quando eu cheguei.

Quando você deu o salto do seis cordas para o sete cordas? Foi uma necessidade. O Instrumental Pixinguinha, na primeira formação, era Carbrasa [percussionista], Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Marcelo, eu, Paulinho [flautista] e [o bandolinista César] Jansen. Era a primeira formação, ensaiamos seis meses para tocarmos dois shows [a Suíte Retratos, de Radamés Gnattali, maestro e compositor gaúcho]. Depois teve a gravação do disco de Rosa Reis, Estrela, música de Joãozinho [Ribeiro, compositor]. Aí começou uma história que Marcelo disse que o bandolim de Jansen estava desafinado, a flauta de Paulinho estava desafinada, tinha que refazer. Aí Jansen entregou a partitura dele para Marcelo. Inclusive Marcelo fez no violão a parte do bandolim nessa gravação de Estrela. Ah, esqueci do nome de Biné [do Cavaco], tocava cavaquinho. Aí acabou o grupo. Paulinho não foi refazer, Rosemary [Fontoura, pianista] fez no teclado, Jansen não foi refazer, Marcelo fez no violão.

Quem é o grande violonista que mais te inspira? Eu, na verdade, passava o ano todo esperando Turíbio e João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013] virem tocar aqui. Eram só eles quem tocavam aqui. Eu não conhecia outra pessoa. Tudo o que eu aprendi de violão foi com Marcelo. Marcelo é um cara… mas eu fiz curso com João Pedro, com Joaquim, com Turíbio, e viajei. Eu fiz cursos em Londrina, em Brasília, com Eustáquio Grilo, aqueles cursos de verão, e Henrique Pinto. E as outras coisas é assistindo mesmo por aqui, o que aparece.

Teu pai, além de músico, instrumentista, mestre de banda, também era compositor. Papai tem cento e poucas músicas. Eu vou editar, até falei com Zezé. É um acervo significativo, muita música. Uma vez eu fui para Pindaré, fui tocar com Osmar [do Trombone, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013]. Papai tocava suas próprias músicas em festas. Ele tocava forró, tocava samba. O pai de Osmar [José Furtado, saxofonista] passou uma meia hora tocando uma música. Aí ele perguntou: “e o senhor não termina essa música?” Aí ele disse: “não, rapaz, acabou a música e eu fui inventando”. Outro dia Maurício Carrilho [violonista] veio aqui e disse que Pixinguinha fazia isso. As músicas tinham a primeira, a segunda e a terceira parte, e geralmente ele improvisava outra música. Papai faliu o comércio dele por que ele levava músicos para lá e ficavam tocando, eles tocavam dentro do comércio, faliu o comércio dele. As primeiras pessoas com quem eu toquei, aqui em São Luís, na noite, foi com Hamilton Rayol [cantor] e Antônio Vieira [compositor e percussionista]. Eu estudava com Hamilton na Escola de Música, a gente estudava na mesma turma. Um dia ele me viu tocando violão, Fernando Cafeteira [violonista] viajava e toda vez que ele viajava ele me levava. Era ali no Petisco, que era de Biné [Aranha], ali na Fonte do Ribeirão, tocando acústico.

Que linha predominava na composição de teu pai? Choro. E tinha música que tinha letra, letra dele.

E você compondo? Eu tenho 20 e poucas músicas. Eu faço choro e valsa, não sei fazer outra coisa.

A música de teu pai foi gravada pelo [Instrumental] Pixinguinha. Foi. Não se esqueça de mim. Essa música eu tenho uma gravação antiga, a gente tocando lá em Cururupu, ele mesmo tocando. Papai deixou de tocar por que mamãe morreu. Ele tava com 92 anos, não quis mais viver. Abandonou instrumento, perdeu a vontade de viver.

Dá para viver de música? Eu vivo de música. Eu não preciso de muito dinheiro para viver bem. O dinheiro que eu ganho dá pra viver legal. Eu dou aula aqui [na EMEM], eu dou aula particular, eu toco, não toco mais por que não quero. Carnaval, por exemplo, eu não quero mais tocar.

De que grupos musicais você já participou? O primeiro grupo foi quando eu fazia o bacharelado em Geografia, lá no grupo eu tocava cavaquinho, no Geosamba [risos dos chororrepórteres]. Eu abandonei total o cavaco, hoje em dia eu só pego. Eu participei do Amigos do Samba, do Cacuriá de Dona Teté e do Pixinguinha. Tinha dia que eu tocava nos três grupos no mesmo dia. O em que eu passei mais tempo foi o Pixinguinha.

O que significa esse grupo para você? Significa tudo. Na verdade eu sou o único componente da primeira formação, que fiquei. Tem uma pergunta que eu não respondi, né? O negócio do violão…

Sim, o pulo do violão de seis para o sete cordas. Quando a gente terminou os dois shows, acabou a história da primeira formação. Aí nós tentamos fazer, éramos eu, Zezé, Paulinho e Paulo Akomabu, tocou pandeiro na segunda formação. Sempre foi complicado pandeiro e cavaquinho. Era Athos [Lima] no cavaquinho, mas ele dormia até 12 horas e não tocava de manhã. Depois ele virou roqueiro. Quando a gente ia tocar de manhã, a gente ia sem cavaquinho. Ubiratan [Sousa, multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013] também tem essa história. Uma vez eu pedi uma corda do violão sete cordas, Ubiratan mandou um recado por Paulinho. Aí eu liguei para ele, ele dormindo, a mãe dizia que ele não estava. Aí ele me disse: “rapaz, quando tu vier do pagode tu me liga”, era de madrugada, nessa época eu tocava num pagode.

O Pixinguinha já tem mais de 20 anos e demorou bastante a gravar o disco de estreia. Não há vontade do grupo de gravar um segundo disco? Já teve essa ideia, essa história. Nesse livro de Zezé [Choros Maranhenses – Caderno de Partituras, organizado pelo músico] era para ser feito, só que alguns componentes, Juca [do Cavaco], por exemplo, é um cara que não gosta de gravar. Eu não sei por que, ele é um cara que saca muita coisa de choro, é um cara que lê muito.

Além do disco do Pixinguinha e do de Rosa Reis, há outros discos que têm teu sete cordas? Toquei no de Zeca Tocantins [Terreiro de Todo Canto].

O que significa o choro para você? A melhor música brasileira. Eu quando chego em casa, eu não digo que é choro, é a música instrumental. A música instrumental é muito bacana.

Que nomes você admira nesse meio? Eu tenho admiração pelo Serra [de Almeida, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013], ontem encontrei-o, fazia tempo que não o via, é um baita dum flautista. Os violões vocês sabem, a primeira vez que eu vi Agnaldo [Sete Cordas, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013] tocar eu fiquei admirado, os baixos que ele faz, não aprendeu com ninguém, aprendeu com Dino [o violonista sete cordas Horondino José da Silva, do Conjunto Época de Ouro]. Gordo Elinaldo [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 27 de outubro de 2013] toca muito bem, Solano. A nossa música instrumental melhorou demais.

Isso deve-se a quê, esse avanço de grau, de qualificação? Ao estudo. Antigamente a gente não via o choro tocado bem aqui. O pessoal só olhava a televisão. Maurício Carrilho está vindo por aqui, sempre, na Escola. A gente conhecer as outras pessoas, a gente aprende olhando os outros tocarem.

Você acha que a internet também contribui para isso? Eu acho que tudo contribui, Youtube, aquela coisa toda.

Você é refratário à tecnologia? Você baixa música? Eu não sou muito da tecnologia, mas eu acho que é importante. Baixo. Até pouco tempo eu não sabia. Eu tenho um sobrinho que é craque, me ensinou.

Como você tem observado o desenvolvimento do choro no Brasil? A história do Radamés, aquele divisor, dali pra cá todo mundo passou a estudar. Antigamente era um solista e os outros acompanhando, também é bonito. Eu escuto umas coisas modernas, acho legal, mas o choro, eu quando escuto Vibrações [o disco de Jacob do Bandolim], com aquele [conjunto] Época de Ouro, eu fico arrepiado.

Há quem diga que é o melhor disco de choro da história. É uma das gravações que eu mais gosto, aquela gravação deles. O lado moderno eu acho bonito também, não pode ser todo tempo do mesmo jeito. Sem a tradição o moderno não existiria.

Você se considera, a si e ao Pixinguinha, moderno, tradicional ou as duas coisas? Eu me considero tradicional. Eu quando vou escrever uma música é muito romântico. Hermeto [Pascoal, compositor e multi-instrumentista] durante um ano escreveu uma música por dia. Eu passei um tempo com um caderno de partituras, tinha uma ideia, anotava. Tenho uma porrada de músicas que, se eu quisesse fazer hoje a segunda parte, eu podia fazer.

O que te inspira para compor? Às vezes eu penso numa música, eu acordo, naturalmente. Eu penso num tema e vou desenvolvendo ele. Qualquer coisa.

Como você observa o choro no Maranhão hoje? Se o Clube do Choro não tivesse parado estaria melhor. O projeto Clube do Choro [Recebe] deu um pontapé inicial na história. Se não tivesse, não tinha hoje um monte de garoto tocando choro.

Dessa gurizada quem te chama a atenção? Tem um monte de gente tocando bem. Robertinho Chinês [bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], Wendell [Cosme, bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013].

Onde o Pixinguinha está tocando hoje? Só aqui na Escola. Temos viajado por projetos da Escola para o interior.

O que você ainda sonha em fazer com a música? Um cd com minhas músicas.

[O músico posa para fotos tocando, com arranjo de choro, Essas emoções, do recém-falecido Donato Alves, do Boi de Axixá] Você acha que o nosso repertório de música popular pode ser chorificado? Pode. Eu mesmo estou procurando isso. Nem tudo poderia virar choro, mas o lado instrumental sim, os arranjos para violão.

Você acha que ajuda o músico de choro tocar música popular e vice-versa? Acho que sim. O instrumentista tem que tocar a música popular. Tem muita música bonita, muita toada de bumba meu boi.

Um aniversário alegre, outro triste, e uma entrevista

Hoje a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), entidade que tenho a enorme honra e responsabilidade de presidir, completa 36 anos. A data será festejada com a realização do 6º. Baile do Parangolé.

*

Há 10 anos tombava Irmã Dorothy Stang, vítima da violência, do latifúndio e dos conflitos agrários no vizinho Pará, um dos campeões brasileiros no assunto, nem tão distante assim, não apenas geograficamente, do Maranhão.

*

Fui entrevistado pelo blogueiro Robert Lobato. Na entrevista, concedida por conta da repercussão de nota em que a SMDH critica a MP 185, editada pelo governo Flávio Dino, comento, além da pauta central, questões como a redução da maioridade penal, o discurso senso comum de que “bandido bom é bandido morto” e a democratização da mídia, entre outras temáticas em direitos humanos.

Maranhão na Tela e CineraMA fomentam realização cinematográfica no estado

[Essa saiu no Vias de Fato de fevereiro, já nas bancas. O Maranhão na Tela já acabou e as inscrições para o CineraMA, idem; segue até amanhã, na Sala Impar, dO Imparcial, a mostra Anim!arte]

Vias de Fato conversou com Mavi Simão, idealizadora e produtora das duas iniciativas

Divulgação

Idealizado e realizado desde 2007 pela cineasta Mavi Simão (foto), através de sua produtora, a Mil Ciclos, o festival Maranhão na Tela acontece entre os próximos dias 22 e 31 de janeiro. Além de sessões de exibição e mostras temáticas, a programação inclui oficinas e cursos e pode ser conferida no site do festival.

Incansável, Mavi se vê às voltas também com a realização do projeto CineraMA, que está com um concurso de argumentos aberto até o próximo dia 30 de janeiro – 10 argumentos serão selecionados, os cinco melhores recebem premiação em dinheiro e todos serão trabalhados para virar roteiro e, posteriormente, ainda em 2015, filmes curtas-metragens.

Mavi Simão formou-se em Cinema após abandonar os cursos de Educação Artística e Jornalismo, embora tenha atuado no último, bem como em publicidade e televisão. Em mais de 20 anos de carreira foi apresentadora, roteirista, produtora, editora, locutora e o que mais pintasse. Seu único emprego formal foi como Coordenadora de Núcleo no Canal Futura (RJ), onde era responsável pela gestão criativa e executiva de programas de TV em diversos formatos. Desde 2006 trabalha exclusivamente com cinema.

Idealizadora e produtora das duas empreitadas, ela conversou com o Vias de Fato sobre o Maranhão na Tela e o projeto CineraMA, iniciativas, que movimentam o cenário cinematográfico do Maranhão.

Vias de Fato – Em sua sétima edição, como você avalia, hoje, a importância do Maranhão na Tela?

Mavi Simão – O Maranhão na Tela tem foco no fomento a produção e é isso que diferencia o festival, que tem se consolidado mais a cada edição. Como não temos uma faculdade de cinema em São Luís, ou escolas que ofereçam cursos de extensão, a maratona de capacitação que realizamos é sempre muito aguardada e acredito que seja nessa atividade de capacitação que resida a importância do festival.

Que destaques você aponta nesta edição do Festival? Esse ano reestruturamos a curadoria, antes quase toda composta por filmes convidados. Com a criação de uma mostra competitiva exclusiva para filmes maranhenses, a produção local passar a ser nosso grande destaque. Esse ano também passamos a convidar somente longas-metragens inéditos e com excelente carreira nos festivais de 2014. Completando o “museu de grandes novidades”, estamos trazendo o Festival Anim!arte (Festival Internacional de Animação Estudantil) na íntegra. São 330 animações do mundo inteiro!

O Maranhão na Tela sempre se preocupou, para além das sessões de exibição, em mostras competitivas ou não, com a questão da formação. Que avanços podem ser percebidos ao longo dos anos? Ou ainda estamos engatinhando? Na capacitação em cinema ainda somos muito carentes, daí a grande procura quando são oferecidos cursos na área, não só no Maranhão na Tela, como nos demais festivais realizados em São Luís.

Outro projeto desenvolvido por você atualmente é o CineraMA, cujas inscrições estão abertas até o fim de janeiro. O que é o projeto e quais os seus objetivos? O CineraMA é um projeto de realização de curtas-metragens que visa fomentar o surgimentos de novos roteiristas.

O CineraMA, além de um concurso de argumentos, a transformação dos argumentos selecionados em roteiros e a realização de 10 curtas-metragens ao longo de 2015, também trará diversas festas temáticas ao longo do processo, a primeira realizada em dezembro passado, no Chico Discos. Comente um pouco mais a ideia. As festas são uma forma de envolver as pessoas no projeto, mesmo que não diretamente. Como todo processo de realização dos filmes levará quase um ano, a ideia é poder socializar o que está acontecendo ao final de cada grande etapa.

De que modo CineraMA e Maranhão na tela dialogam entre si, além de ter a mesma produção/idealização? Os dois projetos dialogam na questão do fomento, mesmo que cada um tenha um foco, os dois visam contribuir para o desenvolvimento do cinema maranhense.

Você acredita que ter cursado Cinema fora do Maranhão te dá algum diferencial? Se sim, quais? Sim acredito. Pra mim fez toda diferença, me deu uma visão do todo, me permitiu ver como a prática e a teoria cinematográfica se relacionam. Isso sem falar do contato com os professores e profissionais que me deram aula. Já trouxe vários deles pra cá e sei que são bons professores. Eu tenho a possibilidade de pensar meus projetos com muito mais consistência, graças e essa formação em Cinema.

Quais as maiores dificuldades, hoje, a quem quer realizar cinema no Maranhão? E em que medida projetos como estes, idealizados e desenvolvidos por você, têm ajudado a superar estas dificuldades? A grande dificuldade, não só daqui, é viabilizar os projetos. E aqui ainda existe a dificuldade de formatar o projeto e enquadrar em leis de incentivo. É muito difícil fazer cinema sem ser através das políticas públicas de incentivo. Nesse sentido, colaboramos através dos cursos que oferecemos nessa área.

Chorografia do Maranhão: Vandico

[O Imparcial, 2 de março de 2014]

Seu apelido emprestou o nome a uma das mais famosas turmas de samba de São Luís. O percussionista Vandico é o 27º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Era uma segunda-feira à noite e Vandico abriu a pesada porta de um velho casarão na Rua do Giz, Praia Grande, para receber a chororreportagem: adentramos o Samba Sem Telhado, palco da Turma do Vandico há quase uma década – pelo vão entre as paredes é possível olhar o céu.

Os chororrepórteres ajudaram o entrevistado a compor o cenário, arrastando bonecos de típicos malandros, boêmios, além de uma espécie de “boneco de Olinda” representando o entrevistado. E é claro, as sombrinhas, estandarte da Turma do Vandico, uma das mais populares e tradicionais do Maranhão.

O percussionista Evandro José Araújo Lima é funcionário público, repetindo uma dobradinha que já esteve muito em voga nas artes nacionais. Nasceu em 29 de maio de 1965, na Rua de Nazaré, “com parteira”, filho de Olga Silva de Araújo, “dona de casa, boa de cozinha, doceira já com uma empresa há 35 anos, a Mãe Olga Doces e Salgados”, e do político Evandro Bessa de Lima, “vereador por três mandatos, chegou a ser prefeito de São Luís por cerca de três meses. Ele faleceu em 1977, eu tinha 12 anos. Quem ficou sendo pai e mãe foi a Mãe Olga”.

Vandico é casado com Ana Paula Martins Rodrigues. Sua turma de samba, por onde já passaram muitos bambas, começou a se reunir em 1986, na casa em que nasceu. Há nove anos mudou de endereço, para o Samba Sem Telhado em que deu seu depoimento à Chorografia do Maranhão. Talvez para fazer valer a máxima do baiano Tom Zé: “na vida quem perde o telhado/ em troca recebe as estrelas”.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Você já nasceu onde fazia o samba? Sim, onde foi criado o movimento da Turma do Vandico, em 1986.

Essa tua influência para a música, para o carnaval, vem de quem? Como surgiu isso? Eu acredito que você nascendo na ilha, você já nasce com o rufar dos tambores. Principalmente onde eu nasci, no Centro Histórico, na Praia Grande, o movimento que já existia na época, bumba meu boi, tambor de crioula. E ouvindo. Eu tinha como vizinho o Sindicato dos Estivadores, onde faziam festas memoráveis. A padroeira deles é Nossa Senhora da Vitória [padroeira de São Luís]. Nas festas só se entrava de terno e as mulheres de longo. Lá eu conheci, sempre estava atento, guri, não podia entrar, eu tive o prazer de ouvir Nonato e Seu Conjunto, não a Tribo de Jah, era outro nome antes da Tribo de Jah, que eram só eles, deficientes [refere-se à deficiência visual dos instrumentistas da banda, numa época em que a formação ainda não contava com o vocalista Fauzy Beidoun], o reggae. Os festejos de Nossa Senhora da Vitória tinham ladainhas, tudo. Acabou! Infelizmente acabou.

E em tua casa? O que se ouvia? O que teus pais gostavam? Minha mãe gostava muito de boleros e meu pai gostava de samba. Mas ele quase não tinha tempo. Dentro de casa mesmo eu já começava a construir os próprios instrumentos. Eu lembro do bloco de sujo, a gente criava latinhas pra fazer o bloco. Eu tinha vizinhos que, aos domingos, aquela calma na rua, colocavam muito instrumental, aquelas orquestras americanas, muita música clássica. Isso se ouvia demais. O próprio vinil de Nonato e Seu Conjunto, sambas, Martinho da Vila, Paulinho da Viola. Tinha na época, até no repertório das emissoras, uma música bem mais agradável. Isso aí tudo fazia parte, eu sempre ouvindo, atento, os próprios sambas-enredos. Lembro, eu guri, indo pro Araçagy, não tinha nada, na Kombi de um padrinho, a gente fazia uma batucada e cantava todos os sambas-enredos. Hoje, pra eu saber uma letra de um samba-enredo, é difícil!

Você é membro de uma família tradicional, e jovem manifestou interesse pela música, pela percussão. Como foi a reação da família quando você escolheu este universo? Houve alguma resistência? Não, não. Eu acho que foi bem tranquila. Inclusive eu tinha um grande sonho, papai ainda vivo, eu sempre fui invocado com percussão, principalmente com bateria. E nós saímos para a Rua da Paz, antiga Casa São Jorge, para comprar uma bateria. Aquela empolgação e tal. Nesse primeiro momento eu não consegui a bateria, não foi possível. Com isso eu sempre criando, comprando outros instrumentos e montando uma bateria. Já com 18 anos de idade, meu primeiro salário, funcionário do município, eu comprei uma timba na Casa São Jorge, com vassourinha. Foi meu primeiro instrumento profissional. Pela sonoridade eu já comecei a me apaixonar. O som grave me atrai, eu já tinha visto os amigos [tocando]. Eu sempre fui empolgado com isso, a nossa cultura popular.

Essa relação tua com a música tem alguma coisa de espiritual? Não exatamente. É interessante isso. Na verdade a minha [relação] seria a paixão pelo ritmo. E curiosidade: de todas as manifestações, que na verdade é o que me atrai, são as batidas. As pessoas me veem com colar e pensam “pô, Vandico é pai de santo” [risos dos chororrepórteres], muita gente pensa isso. Eu tava num aniversário e um cara falando: “Vandico, eu me amarro nesse teu jeito de vestir, eu não tinha coragem de andar desse jeito”. A Helena, minha filha, de seis aninhos, me vê falando com os amigos, um dia ela indagou, a gente vinha de carro, e eu falei com um amigo meu, médico, de terno, e ela: “papai, por que o senhor não se veste desse jeito? Seus amigos se vestem bem” [risos dos chororrepórteres]. E eu disse: “minha filha, eu sou artista”. Ela estava se formando no ABC [concluindo o jardim de infância] e eu disse: “olha, tudo bem, na sua formatura eu vou”, aí eu fui com uma calça de linho e uma camisa branca, não fui de terno, não.

A partir de quantos anos você começou a batucar, a se interessar por música e dizer que isso ia fazer parte da tua vida? Olha, meu grande brinquedo foi bola. Bola era um negócio que me fascinava. Eu ia para uma escolinha no Rio, meu pai faleceu e eu fiquei por aqui. Cheguei a jogar nos times maranhenses. Mas a questão do instrumento, a percussão, acho que com sete anos de idade eu já comecei a me interessar. Já é diferente meu filhão, de um ano e oito meses, ele já pega o repique, direitinho, senta na cadeirinha dele e bate. É uma diferença!

Além de músico você tem outra profissão? Sou funcionário público municipal há 25 anos, assalariado. Sou assistente administrativo, hoje estou na Secretaria de Urbanismo. Eu tive momentos assim, com a música, no próprio colégio [Santa Teresa], participando de bandas. Eu tive um grupo chamado Jam 4, que era um instrumental regional. Tive uma época no Tonga Trio, com Léo Spirro e Oberdan [Oliveira], tudo isso foi uma escola. Entrei no lugar de Zé Carlos [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 10 de novembro de 2013].

Você começou a tocar profissionalmente com que idade? 18 anos.

Timba? Timba. Foi a época em que eu entrei no Hibiscos [extinto restaurante, localizado na Vila Palmeira, onde o Tonga Trio apresentou-se por várias temporadas], eu passei um ano e seis meses. O último contrato deles lá no Hibiscos eu participei. Acompanhar grandes artistas foi um aprendizado para mim. Tive um primeiro momento na Escola de Música [do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo], passei uma temporada lá, parei, depois voltei.

Quem foram teus professores? Pixixita, professor Zé Carlos [o músico José Carlos Martins, o Pixixita], a parte de fundamentos. Na época a escola era [de formação musical] erudita.

Quem é tua grande inspiração na percussão? Eu vou te ser sincero: quando eu comecei a tocar timba e tive essa paixão por ela, tinha uns caras aqui, que eram Jeca, Carbrasa. Eram uns caras que já faziam esse trabalho, depois foi muito rápida a amizade, essa troca de informação, de instrumentos. Foi muito interessante.

Como surgiu a ideia do samba que você manteve durante muito tempo na Rua de Nazaré? A padaria ainda funciona? Houve uma época em que já estava ficando insuportável de cheio. A loja continua, a Mãe Olga Doces e Salgados. Na verdade, com esse movimento, e essa minha paixão também pelo futebol, a gente começou, nos nossos encontros de bola, sempre as reuniões tinham um bate papo e um bom sambinha. Cada um levava seu instrumento e batia um sambinha. Aí eu tive a ideia de convidá-los para a loja, a loja é a mesma casa. Onde era o quarto do velho [seu falecido pai] hoje é a loja. A gente se reunia, ia pra lá fazer o sambinha. Num certo momento, numa sexta-feira, na roda, tivemos a ideia de sair em cortejo pela Praia Grande. Naquele primeiro momento, todo mundo concordando com a ideia, animação, me veio a ideia de ter algo para puxar esse grupo. Eu peguei a sombrinha da minha mãe e saímos dançando pela Praia Grande. Quando a sombrinha voltou, não era um guarda-chuva, voltou só os talos, por conta do vento. Aí começamos, nessa época, a fazer estes encontros. Botamos o nome Turma do Vandico, depois veio o Grupo Magia. Com isso foram 19 anos, esse movimento na Rua de Nazaré, sempre às sextas-feiras.

Foi de quando a quando? Começou em 1986 e há oito anos estamos aqui [no Samba Sem Telhado].

Você falou em uma turma de bola, mas quem eram os músicos? Havia músicos hoje reconhecidos? Tem. Tinha Isaac Barros, Tadeu, a turma de Nonatinho, Luizinho, Inhu, é Mário, hoje ele é segurança, da PM, a gente esquece nomes, Marcílio, Nivaldo [Santos] esteve depois. Depois veio Cacá [do Banjo], Neto Peperi, depois, na formação de um grupo, nós fizemos Vandico, Carbrasa, fizemos um momento lá no Caminho da Boiada, com Chico Chinês, Neto Peperi, Costa Neto, Álex, mineiro…

Então, de certa forma, o movimento da Rua de Nazaré serviu de embrião para grupos como o Magia e o Espinha de Bacalhau? O Espinha de Bacalhau já era antes, já tinha a formação. Depois que formou a Turma do Vandico eles andaram se apresentando, fizemos Bailes do Bigorrilho aqui na Casa da Fésta [no Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho, na Praia Grande]. Como o Estação, que não era Estação, era com a turma, aí criaram o grupo. É mais ou menos isso.

Dá pra viver de música? Você ganha algo com música ou só gasta? Não. Música, não. A música é uma paixão. Eu não posso viver sem ela, ela desopila, é uma coisa que você gosta de fazer. Hoje eu tento nivelar, empatar. A própria Turma do Vandico sempre foi mais pra se divertir. Hoje eu procuro não gastar com ela. Pego recursos pra que empate, na própria venda da cerveja. A Turma do Vandico é feita por amigos, que vêm de bom coração. É um movimento que você tem uma referência da tradição da música maranhense, da boa música. Na verdade você consegue realmente agradar, o próprio instrumentista vem e consegue estar bem no local. Tem essa energia maravilhosa.

Não dá para classificar a Turma do Vandico como uma banda. Ela é mais um movimento pelo qual passam músicos, sem uma formação fixa. Você já citou alguns, mas eu queria que você lembrasse algumas personalidades da música do Maranhão que já passaram pela Turma do Vandico, isto é, os ambientes da Rua de Nazaré e do Samba Sem Telhado. Isso! Exatamente! Neto Peperi, Chico Chinês, Nivaldo, Cacá, Valdinar, Jó, Dinho, esses meninos que estão fazendo sucesso agora, o [grupo] Argumento, eu tenho uma foto lá. Eu diria que muitos beberam dessa fonte. Estivemos participando de um festival que teve na Vila Palmeira, apresentando uma música de Oberdan, nós ficamos em terceiro lugar, onde eu estive com Dona Ivone Lara, Zeca Pagodinho, aquela turma toda. Quem mais? Álex, às vezes você perde os nomes, não é? João Neto [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014]! Juca do Cavaco, hoje é um dos nossos maestros da Turma do Vandico, Chico Nô. Sávio Araújo esteve por lá, Josias Sobrinho, Joãozinho Ribeiro, Cesar Teixeira, César Nascimento, Célia Leite, a última agora que deu uma palhinha com a gente, Patativa. Léo Spirro, Domingos Santos, Privado.

Vandico e o choro: a partir de quando essa relação começa? O choro, eu participando ativamente do choro, acho que tem uns 15 anos. Eu já ouvia muito. Dilermando Reis [violonista], eu tinha um vinil de Dilermando Reis. O choro, o pandeiro é um instrumento importantíssimo, e difícil de ser executado. Pretendo ainda ser um grande pandeirista.

Com quem, primeiro, você começou a tocar? O Feitiço da Ilha já tem oito anos, mais ou menos isso, quase 10. [Comecei] Nos encontros, Biné do Cavaco, Paulo Trabulsi [cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Agnaldo [Sete Cordas, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013], Serrinha [o flautista Serra de Almeida, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013]. Aí vem Osmar do Trombone [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013], eu tive o prazer de estar em rodas de choro com… [demora a lembrar do nome e exclama alto:] Zé Hemetério [multi-instrumentista]! Às vezes você perde o nome, cara, das figuras. Eu acredito que o percussionista tem que estar nessas variações, conhecendo os artistas, tocando com eles. Essa é a universidade musical, a vida que você tem nos bares, nas ruas, fazendo serenatas, saraus. Eu era do Santa Tereza ainda, fazia sarau com Djalma [Chaves, cantor e compositor]. Outra figura também interessante que eu vi muito ainda jovem foi Gilberto, Gilberto que foi do Peso [Banda O Peso], Fantoches.

De uns anos para cá, 2009 mais precisamente, o Feitiço da Ilha tem andado mais articulado, tocado com mais regularidade. A que você credita isso? A uma valorização do choro em São Luís, a uma organização da cena, ou a quê? Eu acredito que, na verdade, até a própria vontade do artista em querer fazer esse grande trabalho. Choro foi a nossa primeira música, estilo, instrumental. Com as figuras mais jovens também, a própria Escola Lilah Lisboa, ela te prepara para esses estilos. O Feitiço da Ilha, com Juca, Domingos Santos [violão sete cordas] fez parte, maravilhoso, e Chico Nô, começamos na calçada da Rua do Giz, em frente ao Restaurante da Dadá [o Cantinho da Estrela], a boa música condizia com o cartão postal que é a Praia Grande. É o que falta. De lá partimos para a calçada do [antigo] Hotel Central [na Praça D. Pedro II], chegamos a ser citados na revista da TAM por Zeca Baleiro.

Por lá passaram alguns grandes nomes do cenário nacional tocando com vocês, não é? Zé Barbeiro [violonista sete cordas], Hélcio Brenha [saxofonista], Celsinho Silva [pandeirista]. Teve um rodão depois, que não foi lá na calçada. Acredito que além da resistência e de você colocar para fora esse movimento do choro, da música instrumental, e você pegar os pontos que realmente seriam um atrativo do próprio espaço para essa boa música, eu acredito que há público para isso, inclusive sente-se muita falta disso, o próprio Clube do Choro [Recebe, projeto sediado no Bar e Restaurante Chico Canhoto entre 2007 e 2010] faz uma falta, tem que ser reativado, com certeza. Eu tive conhecimento de uma roda de choro na [praça] Gonçalves Dias. São movimentos que o público maranhense precisa.

E um cd da Turma do Vandico? Nós temos músicas, um repertório para gravar esse ano, inclusive com nossos compositores.

Quem são os nossos compositores? Zé Paulo, Chico Nô, Isaac [Barros], Neto Peperi, Quirino, Serrinha [do grupo Serrinha e Cia.] ficou de fazer uma, o próprio Oberdan já fez uma, Joãozinho [Ribeiro] me disse que tem duas.

Um momento importante de tua carreira foi o show Rosa Secular [Noel, Rosa secular teve duas edições, a primeira também com Cesar Teixeira], que veio a ganhar Prêmio Universidade. O que significou para você estar ali junto de [os compositores] Joãozinho [Ribeiro], Josias [Sobrinho], [Chico] Saldanha, seus convidados especiais e aquela banda enorme e supertalentosa? Na verdade eu me sinto muito feliz em estar com estes monstros da música brasileira. E o [show em homenagem a] Noel Rosa fez com que a gente tivesse mais contatos, o músico, os compositores, os artistas, num movimento que foi muito importante para a cidade. Eu sempre aprendo nesses movimentos que sou convidado, participo, com essas pessoas maravilhosas. Tanto com os músicos quanto com os compositores que estiveram nesse show. Foi uma celebração da música maranhense junto com um público maravilhoso. Foi um espetáculo, um show que eu diria que se a gente voltasse atrás, eu sempre digo para os amigos que eu nasci numa época errada, eu queria ter nascido no século 18, 19. Aquele show do Noel Rosa lembrou até o Teatro de Revista. Foi uma celebração maravilhosa, isso para meu currículo, de artista, de produtor cultural, de percussionista, ritmista, foi muito interessante.

Qual a importância do choro na cena brasileira? Eu acredito que é o ABC de todo músico, de todo artista, está com ele, na sua cartilha, o choro. Além de proporcionar viagens maravilhosas, aonde você chegar você é muito bem recebido. Eu, particularmente, vivo um momento muito gostoso de minha vida fazendo parte do Feitiço da Ilha, mostrando nos cantos da cidade o choro. ABC não no sentido de ser fácil de fazer: os grandes chorões eram escolados maestros.

Como você avalia o choro que se faz hoje no Maranhão? Nós temos um movimento maravilhoso, instrumentistas fabulosos. Tem muita rapaziada nova já inserida, saindo da Escola [de Música] e se interessando pelo choro.

Você é um cara muito ligado, valoriza demais a cultura popular maranhense. Você acha que ela pode ser misturada ao choro? Sim, claro. Deve. Com certeza! Eu crio em cima do choro a minha performance musical. Em cima, não tirando, mas acrescentando, a musicalidade em cima do instrumental de choro. Eu acho interessantíssimo, isso vem de dentro. Por que não? De repente a Bela mocidade [toada de bumba meu boi de autoria do recém-falecido Donato Alves] vira um clássico do choro, não procede?

O que significa o carnaval para Vandico? É minha alegria! Meu dia a dia. É fazer as pessoas felizes, compartilhar momentos maravilhosos. Eu acho que o carnaval, não só na sua época, mas em todo momento que eu participo dos movimentos culturais, até propriamente dentro de casa, você tem que ser alegre. A Turma do Vandico, o próprio Vandico, é uma alegria e com muito prazer de se resgatar o nosso grande carnaval de São Luís do Maranhão. Já estive em momentos maravilhosos em carnavais em interiores, que infelizmente acabaram por influência de musicalidades que realmente não têm a ver com nossa cultura, com nosso carnaval, que eu particularmente sou do carnaval de rua, essa é a cara do Maranhão.

Que tipo de sentimento te ocorre quando você pega sua sombrinha, sai em cortejo e vê todo aquele povo te seguindo? A minha missão na Turma do Vandico é fazer esses cortejos. A cada cortejo que é feito, todas essas pessoas amigas, que acompanham a Turma, são simpatizantes, isso me deixa muito feliz. São 28 anos de atividades, de movimento, e você não vê uma briga. A gente consegue manter essa tradição junto com nosso estandarte, nosso guarda-chuva, tocando nosso apito.

Sambista e carnavalesco eu sei que a resposta seria sim, mas você se considera um chorão? Eu estou a cada vez mais me botando essa camisa, pela afinidade e pelas parcerias, os companheiros dessa área. Eu vejo que hoje é a musicalidade que me deixa muito bem.

Você tem uma cara que é como se fosse a cara do carnaval, ao mesmo tempo em que a Turma do Vandico tem um slogan, “é só alegria”. O que deixa Vandico triste? O que me deixa triste é o desrespeito ao artista maranhense. Nós temos uma batucada ímpar, bloco tradicional, tambor de crioula, a batucada do [bloco] Fuzileiros da Fuzarca, inconfundível. Nós temos tudo isso, onde os compositores e artistas maranhenses se prestam a fazer um grande carnaval, mas não são valorizados pelos nossos gestores.

Como você observa o abandono da Praia Grande? É o cartão postal da cidade. A Praia Grande precisa ser revigorada em todos os aspectos. Falta capacidade, competência para que você faça um grande trabalho, invista. Isso aqui é um lugar belíssimo. Do jeito que está você vê o turista vindo, batendo foto. Ela vive um momento muito cruel, a poluição sonora, o descaso no seu entorno todo. É preciso que se veja com bons olhos esse momento que o Centro Histórico está vivendo. Nós estamos praticamente nos momentos políticos de eleições, que se pense realmente em quem vai dirigir futuramente o estado e veja isso com o maior carinho. E convido-os [os candidatos] a passearem na Praia Grande, só assim veremos os problemas que a Praia Grande tem.

O que você achou da exclusão arbitrária de Chico Maranhão e Cesar Teixeira da programação carnavalesca oficial do Governo do Maranhão? São dois grandes compositores, têm tudo a ver com o carnaval, fico também triste por isso, por que se eles não estão com suas apresentações no palco, as músicas deles estão sendo tocadas por aí. A bandeira do artista bate em todos os sentidos e pra todos os lados, ela não pode ser rotulada: “você não pode, você não deve, aquele não pode”, assim não funciona. Eu fico triste com esta situação.

[nota do blogue: era domingo de carnaval; o jornal cortou a última pergunta]

Chorografia do Maranhão: João Eudes

[O Imparcial, 16 de fevereiro de 2014]

Com trânsito livre entre o choro e gêneros da cultura popular maranhense, o violonista sete cordas é o 26º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos


TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Para a sexta-feira (24 de janeiro) em que João Eudes deu seu depoimento à Chorografia do Maranhão estava anunciado o lançamento de Cinco Gerações, disco de estreia de Osmar do Trombone [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013] com o filho Osmar Jr. [saxofonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 5 de janeiro de 2014]. A chuva que caía entre o fim de tarde e começo da noite em São Luís desencorajava qualquer chorão a sair de casa – depois São Pedro deu uma trégua e o show aconteceu, com a presença da chororreportagem, que seguiu da entrevista para o Barulhinho Bom [bar na Lagoa da Jansen].

João Eudes Martins Júnior nasceu em São Luís – mais precisamente na Maternidade Marly Sarney, na Cohab – em 26 de janeiro de 1980, filho do mecânico João Eudes Martins e da funcionária pública Clarice da Silva. No braço direito, tatuado, o nome de Ana Carolina, 5, sua filha.

Da infância, ele traz a lembrança de festas em casa, regadas a muita música, de onde pinçou o gosto pela música instrumental, embora essa não fosse predominante na trilha sonora nem na coleção de discos de seu pai.

Um dos mais respeitados violonistas sete cordas na cena choro do Maranhão na atualidade, João Eudes é figura fácil em rodas de choro e samba e é um dos músicos preferidos de figurões que visitam a Ilha em shows. Passeia com desenvoltura pela música instrumental, particularmente o choro, e por ritmos da cultura popular do Maranhão – depois do choro, seu gênero predileto é a batida do bloco tradicional.

O músico concedeu a entrevista na Quitanda Rede Mandioca (Rua do Alecrim, 343, Centro, ao lado da Cáritas Brasileira Regional Maranhão), novo point gastronômico-cultural da cidade, e foi regado a croquetes de queijo e coxinhas de frango, ambos a base de massa de mandioca e fritos no azeite de coco babaçu.

Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Você tem outra profissão além de músico? Não. Já tive. Fui professor de informática, professor particular. Hoje [sou] só músico.

E o ambiente musical em tua casa? Em tua vivência doméstica, familiar, o que te motivou a estudar, a fazer música? A questão musical foi através de meu pai. É uma pessoa que gosta muito de festas, hoje nem tanto, já está com mais de 70 anos. Sempre convidava os amigos para ir lá para casa e colocava várias músicas. Engraçado é que a música instrumental não rolava muito lá em casa, mas foi uma música que chamou muito a minha atenção quando eu era criança ainda. Rolava na minha casa mais era carimbó, sirimbó, samba, [as cantoras] Clara Nunes, Elis Regina, lambadão.

Ele tocava ou só ouvia? Ele era um grande comprador de discos? Só ouvia. Sim, lá em casa sempre teve muitos discos. Mais do meio dele, tipo, o Pinduca [cantor e compositor paraense] lançava um disco e ele já estava comprando.

Desde quando você começou a se interessar por música? Com 11, 12 anos eu queria estudar, mas meus pais não deixaram. Diziam: “esse negócio de música, é melhor seguir outra profissão”. Aí eu fui estudar já com 20 anos.

E o violão? Era esse o instrumento que sempre te chamava a atenção? Sim, sempre. O violão, a música instrumental, principalmente o choro, eu escuto isso desde criança, pela [rádio] Universidade, pela 106 [106,9MHz, a frequência da FM]. Eu me lembro, eu com nove anos, eu já gravava fitas e guardava pra escutar, eram músicas que me chamavam a atenção, o choro, [os compositores] Chico Buarque, Vinicius [de Moraes], João Bosco. Mas eu não tinha a convivência com este gênero na minha casa.

Então o rádio foi um grande incentivador? Sim, o rádio foi um grande incentivador para eu gostar desse estilo de música.

Você consegue fazer um paralelo entre o rádio que você ouvia na infância, com 10, 11 anos, e o rádio que você ouve hoje? Percebe alguma diferença? Eu acho que a qualidade caiu um pouco. Em geral. A [rádio] Universidade caiu, pode ser a questão da evolução da tecnologia, tudo isso tem influência. As outras rádios, que tocam músicas mais comuns, caíram bastante.

Quando você decidiu estudar música, já caiu direto no sete cordas? Não. Eu comecei a estudar música no violão seis cordas, como todo mundo começa, aquele negócio, pega o violão do amigo, compra uma revistinha na banca. Naquela época, 1999, 2000, não tinha tanta informação quanto hoje. Não era fácil você comprar um livro de música, hoje em dia você entra na internet e baixa, já tem um vídeo de um cara que gravou alguma coisa, já te ensina algo. Na minha época não existia isso, então eu tive que aprender com os amigos, as revistinhas. Eu tive uma facilidade, em um ano eu já tocava uma porrada de músicas, mas tinha os empregos paralelos, então eu não me dedicava tanto.

Você estudou informática na juventude? Estudei, fiz faculdade até o quinto período, no Ceuma, Sistema de Informação.

Quando foi que você percebeu que a música é que era o negócio e você resolveu largar tudo? Foi nessa época aí que eu fazia faculdade. Por que lá eu já fazia alguns eventos e já tocava música instrumental. O professor já falava assim: “rapaz, vai ter um evento aí, tu não quer tocar umas quatrozinhas só pra…”, e eu “rapaz, na hora”. Eu me preparava, ia lá, tocava. Eu já estava começando a tocar na noite, acompanhando um, acompanhando outro, festa, aniversário, já estava começando a ganhar um dinheiro. Aí eu comecei a tocar mesmo, já com outras pessoas, mais profissionais, acabei largando a faculdade e ingressando no mundo da música.

Dá para dizer que o rádio foi o teu primeiro professor e a noite a segunda? Claro! O gosto da música, na verdade, veio por causa de meu pai, que sempre gostou. Eu, na barriga da minha mãe, já escutava música, meu pai já gostava. Mas esse gosto pelo gênero [o choro], que eu tenho, com certeza a influência maior foi do rádio.

Depois dos 20 anos, quando você se decidiu mesmo pela música, você passou a receber apoio dos pais, ou eles continuaram resistindo? Não. Ainda teve muita resistência, brigas, lições de moral. Aquela coisa: “rapaz, vai ficar nesse negócio, só beber cachaça!”, sabe como é que é, né? Eu nunca tive [incentivo] assim. Meu pai é um cara que não é formado, não tem tanta instrução. Então o negócio dele é trabalhar mesmo, mas ele não consegue enxergar na música algo que possa ser encarado como profissão. Mas hoje mudou muito. Hoje eu vivo totalmente da música, então hoje ele me respeita, tem o maior carinho por mim.

Você hoje vive apenas de música? Só de música. Como que eu vivo só de música? Deixa eu explicar: além de tocar música instrumental, também toco os gêneros regionais. Eu toco em blocos tradicionais, sou arranjador de blocos tradicionais desde 2007, toco no Boi Pirilampo já há sete anos, comando a parte musical, arranjos, a maioria dos arranjos é meu, toco em escolas de samba. A gente sabe que em São Luís a produção musical é pequena, em termos financeiros, não de composições, de letras. A questão que é pequena é a produção para gerar a grana, no caso.

Teve o rádio e a noite, mas houve uma hora em que você sentiu necessidade de estudar música. Quando você entrou pra Escola [de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo]? Eu entrei de 2005 pra 2006, por aí. Fiz todas as percepções, falta um recital e duas disciplinas para receber o diploma lá.

Você está na universidade? Sim, sexto período, na UFMA, Licenciatura em Música.

Além do rádio e da noite, quem foram outros mestres decisivos na tua orientação violonística? O principal foi João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], esse foi o maior incentivador. Eu tenho um amigo, também, chamado Tom, um grande violonista, tenho o maior carinho, fez uma grande diferença quando eu me dediquei aos estudos. O nome dele é Elton.

João Pedro foi teu professor na Escola? Não, foi meu professor particular. Na verdade foi assim: ele me olhou tocando no Clube do Choro Recebe e perguntou “rapaz, tu não quer pegar umas aulas só pra consertar essa mão aí?”, e eu: “rapaz, na hora!”. Aí eu fui assistir aula com ele, sem problema nenhum. Com o maior prazer. Na verdade, ele foi meu professor mesmo de violão. E tive na Escola de Música também o Antonio de Jesus.

E no sete cordas teve alguém? Não, no sete cordas ninguém. O sete cordas, na verdade, quando eu ouvia o choro, eu sabia que tinha um violão diferente. E eu via as pessoas tocando seis cordas e não era aquilo. Que instrumento doido é esse? Aí um dia Costa Neto [violonista sete cordas] chegou num barzinho, eu estava com um amigo, começando a tocar, ele chegou com o violão sete cordas. Rapaz, eu fiquei doido, “esse é que é o violão do choro”. Eu nem queria mais tocar meu violão, queria só ouvi-lo tocando. Depois eu conversei com ele: “rapaz, tu não quer me emprestar teu violão?”. O meu seis cordas estava novinho, mas eu não estava nem aí. Eu já o conhecia há algum tempo, mas não sabia que ele tocava sete cordas. Ele me emprestou um mês o violão. Foi um mês que eu estudei. Nessa época eu estava desempregado, estudava 10, 12 horas direto esse violão. Daí eu nunca mais larguei. Ele me emprestou, e eu fiquei ainda um tempo tocando seis cordas. Quando começou o Clube do Choro [Recebe], o Chorando Calado, eu tocava seis cordas. Às vezes afinava como sete cordas, ficava tocando assim e treinando: era uma forma de eu aprender.

Quem é o sete cordas, daqui ou de fora, vivo ou morto, que mais te inspira? O maior, que todo mundo sabe, é o Dino [Horondino José da Silva], que ele foi o criador, o mentor desse negócio todo, mas o Raphael Rabello foi o maior violonista de todos os tempos. Acho que ele é inspiração para todo violonista que queira tocar legal. Aos 16 anos ele já foi considerado um dos melhores sete cordas do mundo.

E dessa geração nova? O Félix Jr. e o Rogério Caetano são dois violonistas sete cordas muito bons. Na linha do sete cordas, por que o Yamandu [Costa] toca sete cordas, mas é solista, e quando a gente fala em sete cordas, fala em acompanhamento. Solista, acho que não tem ninguém igual a ele.

Voltando à coleção de discos de teu pai: você falou que era predominantemente música de festa e, pelo meio, havia coisas de música instrumental. Daquela época você lembra de algum nome que te tenha chamado a atenção, que tenha se destacado? Ah, lembro: Vieira e seu Conjunto era um disco instrumental que meu pai escutava. Taí! Era só guitarrada. Eu gostava demais daquilo ali.

Algum outro? Sim. Baden Powell [violonista] era um preferido meu. Baden Powell tocava na rádio também. Mais do que qualquer outro instrumentista. Por que além de ele fazer música instrumental, também tinha música cantada, os afrossambas, e tinha como adquirir o disco dele. Não era fácil adquirir discos de choro. Mas de música instrumental, primeiro foram as guitarradas de seu Vieira [dedilha algo do ritmo no sete cordas], escutei muito na minha vida, carimbó de Pinduca, sirimbó, na doideira [risos].

Você fez uma distinção entre o acompanhante e o solista. Você é um reconhecido acompanhador na cena musical de São Luís. Você tem alguma pretensão de passar a solista? Tenho uma grande pretensão de passar a solista [a pedido da chororreportagem executa Sons de Carrilhões, de João Pernambuco, posando para fotos].

A gente observa que quando os grandes nomes do samba, do cenário nacional, vêm à São Luís, eles [os produtores] recorrem a você para tocar com eles. Isso é importante. Que tipo de sentimento te traz, além da grana no bolso? É legal você ter uma experiência, uma relação. A relação é sempre boa, nunca houve problemas. A relação é musical, não de amizade, mas é legal por que você compartilha de trabalhos diferentes.

Cite alguns nomes do cenário nacional com quem você já tocou. Moacyr Luz, Toninho Geraes, Monarco, Marquinho Satã, o show passado de Zé da Velha e Silvério Pontes, Nicolas Krassik, toquei aqui e toquei com ele no Rio, Moyséis Marques, Mariana Bernardes, Thaís Macedo, Julieta Brandão, Nina Wirtz, Elisa D’Or, Edu Krieger, gente boa, é um cara com quem eu tenho amizade.

E o Chorando Calado? Acho que foi um grupo muito importante para a época. Acho que a gente incentivou muitos músicos da nossa geração. Por que todo mundo tratava o choro como se fosse música de velho. Quando viram a gente tocando, com alegria, com a pegada… eu tenho saudade, foi uma época em que a gente aprendeu muita coisa.

O que significou o grupo para você? Foi um grupo que teve uma grande importância nessa música instrumental do Maranhão. Todo mundo viu a gente jovem, tocando, estudando pra caramba pra poder tocar. Foi um dos grupos muito importantes para a minha base musical.

Vocês já pensaram em reeditar o grupo ou acabou? Já, já pensamos. A gente sabe que essas coisas nunca acabam. Na verdade o que aconteceu é que cada um seguiu uma coisa, cada um teve uma oportunidade e [o grupo] foi se dispersando. Ano passado, no começo do ano, a gente sentou, até no estúdio, pra reformular o grupo, gravamos o vídeo de uma música, um arranjo que a gente fez para Boi de Lágrimas [toada de Raimundo Makarra]. Começamos a engatinhar e começaram a aparecer trabalhos para um e para outro, viagem não sei pra onde.

Com as mesmas pessoas ou com alguma novidade? Com algumas novidades, o Lee [Fan, flautista e cavaquinhista] e o Henrique [Jr., violonista].

Além do Chorando Calado e do Boi Pirilampo, de que outros grupos você já fez parte? Como membro do grupo? Os blocos tradicionais Os Feras, Os Vigaristas, Os Tradicionais do Ritimo. Eu sou muito desse meio, de bloco tradicional. Eu participei de vários blocos. Eu participei de três bumba bois, o Pirilampo foi o em que durei mais. Participei do Boi Brilho da Comunidade, está terminando de gravar o cd, esse ano sai, no São João, e do Boi de Palha, que é um boi bem mais antigo que o Pirilampo. Participei, viajei, toquei em vários lugares com ele.

De que discos você já participou da gravação? Eu participei agora de um que Zeca Baleiro produziu [A palavra acesa de José Chagas, produzido por Zeca Baleiro e Celso Borges], de poemas de José Chagas, na faixa de Cesar Teixeira [Campoema, poema de José Chagas musicado por Cesar Teixeira]. De bloco tradicional eu participei de praticamente todos. De bumba boi eu toquei em discos do Pirilampo. No samba: Isaac Barros, Feijoada Completa, está para sair, Madrilenus, está para sair, Turma do Cafuné, eu estou produzindo, está para sair, é um grupo da Cidade Operária. Fiz agora uma gravação num projeto do Ronald Pinheiro [compositor] com Augusto Bastos [músico], gravamos eu e Wendell [Cosme, bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013] duas faixas no cd.

O que significou para você ser chamado por Cesar para participar da gravação? Significou muito. Além de serem os poemas de José Chagas, que já é importante, foi um convite de Cesar. Eu fiquei até surpreso. Eu já tinha tocado em shows dele, é um dos maiores compositores de todos os tempos. Eu fiquei altamente honrado.

Você acha que há uma relação entre o choro e os ritmos da cultura popular do Maranhão? Você, que transita com desenvoltura em ambos, que tipo de informações leva de um a outro? Eu acho que há várias cabeças para pensar isso. Tem gente que tem grupo de samba e não gosta de colocar a regionalidade, e tem grupos que gostam. Eu acho muito importante ter. Não adianta fazer o samba do jeito que o cara do Rio toca, por que para eles vai ser a mesma coisa, não tem diferença. O que faz a gente ser diferente é tu ter uma marca, ter uma identidade. Qual é a nossa identidade? É bumba boi, é bloco tradicional, é tambor de crioula. São os estilos, os gêneros que são caracterizados de São Luís, do Maranhão. Todo mundo deveria explorar isso. Isso não quer dizer que você vai tocar uma música e vai tocar o tempo todo só o boi ou o tambor de crioula. Não. Pega um samba, mistura um pouquinho aqui e ali.

Você compõe? Componho. Eu tenho algumas coisas instrumentais que eu faço. Tem coisas na minha cabeça que eu nunca escrevi. Tem coisas que eu gravo no celular, outras eu já anoto num programa de computador, em partitura. Uma coisa que estou estudando bastante agora é essa questão de arranjos e direção musical. São Luís ainda está precisando melhorar muito essa questão, de profissionalismo. A gente não pode comparar com São Paulo, há o tamanho da cidade, a população, mas quanto mais profissional, melhor.

O que é o choro para você? Qual a importância dessa música? A importância dessa música é a base musical para todo o Brasil. Tudo o que você imaginar, que você analisar, vem do choro. A bossa nova, o samba. Se você pegar os choros antigos, até hoje, muita gente ainda faz as melodias muito parecidas com o choro.

Você se considera um chorão? Não. Eu me considero um apreciador do choro. O cara quando se considera um chorão tem que ter uma base de choro bem violenta, tem que estar muito envolvido com isso.

Mas você não acha a expressão “chorão” reducionista? Não, eu não vejo dessa forma. É uma coisa boa para o músico, dizer que é chorão. Eu não me considero chorão, mas é uma linguagem que eu escuto muito, diariamente. Depois do choro é o bloco tradicional, depois vem o bumba boi.

Chorografia do Maranhão: João Neto

[O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014]

Tendo integrado praticamente todos os grupos de choro de São Luís, o flautista João Neto é o 25º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Um chuvisco anunciava a noite em São Luís do Maranhão. A tradicional e pacata quitanda de Seu João, na Rua do Ribeirão, já abrigara, aquele dia, um ensaio fotográfico da cantora Alexandra Nicolas – o casarão lhe serviu de cenário ao encarte de Festejos, disco de estreia lançado ano passado. Ao fim dos trabalhos, ela degustava uma cerveja gelada por ali, na companhia da amiga e designer Raquel Noronha.

Era mais uma feliz coincidência das tantas que a Chorografia do Maranhão já proporcionou aos chororrepórteres que logo se juntariam a elas, mais próximos do balcão. O entrevistado da ocasião era o flautista João Neto, de passagem pela Ilha para curtir as férias de virada de ano – atualmente o músico mora em Belo Horizonte/MG, onde cursa mestrado em Música na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Alexandra Nicolas preparava a primeira edição da temporada de Festejos na Praça, show que apresentou 18 de janeiro no coreto da Praça Gonçalves Dias. João Neto deu uma canja na abertura, compondo o grupo Cantinho do Choro, que tem ocupado aquele logradouro em fins de tardes de sábado.

Raimundo João Matos Costa Neto nasceu em São Luís em 3 de julho de 1978, ano em que seu tio Josias Sobrinho [compositor] teve gravadas suas quatro primeiras músicas por Papete, no antológico Bandeira de Aço, lançado pela Discos Marcus Pereira. Ainda criança João Neto engatinhava entre instrumentos musicais na casa da avó Ingrácia, onde aconteciam os ensaios do grupo Rabo de Vaca, formado por Josias e outros bambas.

Ao tio Josias ele afirma dever as maiores influências, desde antes de ter se decidido pela flauta – passou por violão e toca também flautim, pífano, clarinete, cavaquinho e percussão. É filho do dentista Francisco Carlos Guterres Costa e da dona de casa Francisca Tereza Morais Silva.

Ano passado graduou-se no curso de Licenciatura em Música da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) com a monografia Um panorama histórico-cultural sobre vida e obra de compositores de Choro da Baixada maranhense: breve análise musical de obras já editadas.

A entrevista que ele concedeu à Chorografia do Maranhão foi musicalmente ilustrada por Língua de preto (Honorino Lopes), André de sapato novo (André Victor Correia) e Rosa (Pixinguinha/ Otávio de Souza), que começou com a voz de Alexandra Nicolas e terminou com um coral formado por todos os presentes à quitanda, que aquela noite teve o expediente aumentado.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Como era o ambiente musical em tua casa, na tua infância? Minha infância, de zero aos seis, sete anos, ela foi meio assim, dinâmica, em relação à casa em que eu estava. Eu ficava um tempo na casa da avó, um tempo na casa da outra avó. Uma dessas avós é dona Ingrácia, mãe de Josias. E lá rolavam os ensaios do Rabo de Vaca. Então eu já estava ali com dois anos, fui conhecido por Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], por Beto Pereira [cantor e compositor], desde criança eu estava ali naquela história. A família, muito musical, além de Josias, meu tio Armando tocava clarinete, meu tio Paulo toca violão, nada profissionalmente. Só quem seguiu profissionalmente foi Josias, compositor. Mas sempre em casa teve música, desde a infância até hoje, as festas são regadas a muita música. Sempre teve esse contato, em casa, minha mãe escutando Elis Regina, Chico Buarque.

Quando foi que você percebeu que iria encarar a música profissionalmente? Foi em Campina Grande. Fui morar em Campina Grande e lá tem um cara que hoje está nascendo aqui, o Madian [cantor e compositor], estudava lá. Eu fui pra lá, sabia que ele morava lá, morei numa república, pra fazer vestibular pra João Pessoa, um vestibular mais ou menos, na malandragem, já tocando violão. Eu fui pra Campina Grande pra tentar o vestibular para Odontologia em João Pessoa, meu pai é dentista e eu queria ser igual papai. Ele não queria. Eu cheguei e comecei a tocar violão pra caramba, Djavan, Chico Buarque, e foi uma escola muito legal. Foi a primeira vez que eu ganhei dinheiro tocando, foi com Madian e uma ex-mulher dele, uma grande cantora, de uma família de músicos lá da Paraíba. Eu tocava um tempo e Madian tocava outro tempo. Eu falei: “pô, dá pra ganhar dinheiro!”, tomando uísque, puta churrascaria lá, buffetzão. “Eu quero é isso pra mim!” Fiz vestibular, não passei, voltei pra cá, depois de seis meses em Campina Grande, vi o surgimento do [grupo] Cabruêra, um movimento musical muito forte.

Aí você voltou para São Luís. Veio fazer o quê? Eu tinha que estudar alguma coisa, acabei entrando no Ceuma, fiz dois anos de Direito. E paralelo, depois de um ano de Direito, passei em Filosofia na UFMA, e ao mesmo tempo tocando violão.

Você concluiu Filosofia? Que nada! Nenhum dos dois. Abandonei e fui para São Paulo, essa época já tocando flauta.

Significa dizer que tua profissão mesmo é a música? Não tem outra profissão? Não. Ter, tem outras coisas, meu pai tem uma clínica, eu trabalhei na parte administrativa coisa de cinco, seis meses, só. É difícil falar em profissão músico, pra mim, principalmente. Eu nunca toquei pra ganhar dinheiro. O dinheiro vem em consequência de minha arte. Eu vejo minha carreira como uma coisa da minha vida. Se eu for displicente com minha carreira eu estou sendo displicente com minha vida.

Mas cada vez mais você é cobrado para tocar profissionalmente. Isso! É uma consequência.

Não dá para dizer que você não é músico profissional. Não dá. Eu vivo da música.

Quando você fez essas outras tentativas. Odontologia, chegou a fazer vestibular, depois Direito, depois Filosofia. Elas eram, de algum modo, uma imposição da família? Eram. Eu tinha que corresponder a alguma coisa, eu não podia ficar ali. A gente deve uma satisfação. Músico é [visto como] vagabundo, né, cara? Principalmente flauta, flauta é luxo, entre aspas. O grupo tem violão, o grupo tem baixo, tem bateria, cavaquinho, mas a flauta vem muito depois. E depois que eu conheci flauta, eu larguei violão assim de uma forma. Virou meu amigo, parceiro, vez ou outra eu falo com ele.

Quando e como é que se deu a passagem do violão para a flauta? Há 12 anos, quando eu peguei a flauta transversal.

O que te motivou? Quem foi a pessoa que fez com que você se decidisse a tocar flauta? Foi um cara chamado Fabiano, que já tá lá com papai do céu já. Morreu muito novo, um cara que eu conheci em Campina Grande, era de Maceió. Era um cara surpreendente, tocava violão, baixo, teclado, bateria, trabalhava com tudo isso, e flauta também. Certa vez a gente na casa dele, eu e Madian, tocando lá, Djavan, um monte de música, ele pegou a flauta, começou a destruir, tocando um monte de coisas, tinha várias flautas doces na casa dele. Eu fiquei encantado e falei: “pô, Fabiano, como é que a gente faz aqui?” Ele falou: “não tem segredo, é só ouvido”. Eu fiquei mais encucado ainda, meio com raiva dele. Eu pensei: “esse cara toca pra caramba, não quer ensinar, dar um toque pros amigos”. Quando eu peguei a primeira flauta doce, que eu fui entender o que ele quis dizer lá atrás. Esse cara, esse encontro, esse dia foi que [interrompe-se]. Depois disso eu cheguei, fui pesquisar os flautistas, fui ajudado por muita gente.

Quem são os mestres que você considera essenciais? Na música, em primeiro lugar, para mim é Josias. Quando viu que eu estava tocando já chegou, me abraçou, eu tava tocando violão, me botou no palco, num show dele, eu já toquei violão com Josias, quando viu a flauta a mesma coisa. Musicalmente foi um cara que eu devo até hoje, até hoje é um parâmetro que eu tenho. Em relação à flauta o primeiro foi Zezé.

A família sempre te apoiou na decisão de buscar a música como caminho? A família da minha mãe sim. É muito musical, minha avó, que é um lance matriarcal forte pra caramba na família, meu avô morreu muito novo, com cinquenta e poucos anos, ela que segurou a onda toda. Lê muito, 86 anos, não assiste novela, passa o dia lendo, fazendo crochê. Escreve, no aniversário de 80 anos ela deu um presente à família, fez um livro de poemas. Toda uma espiritualidade muito forte. Tenho tios que me apoiam financeiramente, compram instrumentos, dão força, “taí, pega essa grana”, não é só “ah, é lindo!”, apoiam, investem. Tem incentivo da família.

Você falou de uma fase violão que rolava muito Djavan, Chico Buarque. Como é que foi a aproximação com os grupos de rock, principalmente a Mandorová? A Mandorová nem é um rock, a gente tocava rock. Tinha umas músicas que eram rock, mas a gente misturava, bumba boi, Josias, muita música nossa. A gente misturava isso por causa das influências de todo mundo. Veio uma galera de Campinas, Madian fez parte um tempo. Ela começou meio que um monte de gente, a gente conseguiu gravar umas coisas, eu já não tocava violão, já tocava flauta, pífano e percussão. Violão eu não tinha como meu instrumento, eu tinha como meu amigo. Eu gostava de cantar, mas essa voz, só nariz [risos]. Tudo que eu tocava eu cantava. Teve uma época que eu tinha o songbook de Chico Buarque, eu tocava mais de 60 músicas do Chico Buarque, aquelas melodias empenadas, ficava em casa, estudava. Mas a flauta veio e chegou e “peraí”, ela que me capturou, eu não escolhi.

Como é que foi a tua chegada ao universo do choro? Logo depois da flauta transversal, que eu comecei a tocar, Zezé pirou. Eu morei ali na época do Rabo de Vaca, ele “pô, sobrinho de Josias, tocando flauta!”. Não, vem aqui, vem aqui, me botou na Escola de Música [do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo], eu nem tinha feito prova, fiz Escola de Música, todas as percepções, ele me dava aula, “traz a flauta aqui”, me dava aula. Teve um tempo que se passava um ano e meio pra pegar em instrumento, só tendo aula de teoria, era algo meio maçante, o cara doido pra pegar no instrumento, hoje mudou isso. Então, Zezé foi um cara fundamental, até hoje é.

A música pra você é uma importante fonte de renda? Dá pra viver de música? O viver de música, viver de tocar. Eu não penso mais num futuro artístico pra mim. Eu penso num futuro acadêmico, que é uma coisa que vai me segurar, eu vou poder escolher o que quero tocar.

O professor pagando as contas do músico. Mais ou menos isso, mas pra mim é muito difícil separar o professor do músico. Tem gente que é um puta músico e não sabe ser professor, tem gente que é um puta professor e não toca porra nenhuma. Essas duas coisas são muito ligadas, eu amo ensinar, um projeto do Sesc que eu fazia parte, eu me coço todinho lá em casa, sem poder ensinar pra garotada, eu olho as fotos, aquilo era muito importante, 10 alunos tocando flauta. Minha vontade de estar lá é tão grande quanto minha vontade de voltar para cá e ir dar aulas na UFMA, na UEMA, crescer. Essa coisa da educação musical é uma coisa fundamental pra gente, pra definir um gosto musical. É tão grande essa nossa riqueza cultural, ao mesmo tempo a gente se submete a outras culturas impostas. Chega pra juventude, ninguém sabe quem é Coxinho, Mestre Felipe, Dona Teté [mestres da cultura popular, representantes, respectivamente, do bumba meu boi, tambor de crioula e cacuriá]. Isso é uma coisa que eu tenho como objetivo, além da vida artística, que é um sonho, uma coisa utópica, viver, ter filho, só tocando como flautista. O professor é um pé no chão, uma coisa palpável pra caramba, é uma coisa que eu estou construindo e com o choro, choro no Maranhão, na Baixada maranhense.

Houve um tempo aqui em que você tocava em 11 dos 10 grupos de choro que existiam. Teve um período em que o choro estava na crista da onda. Como é que você avalia o mercado de trabalho para o músico instrumentista em São Luís e em Belo Horizonte, se é que é possível algum tipo de comparação? Teve uma época que, por conta de uma efervescência do ritmo, ou uma influência do que estava acontecendo no Rio de Janeiro, do choro na Lapa, essa coisa de eu estar em vários grupos aconteceu exatamente concomitantemente com o projeto Clube do Choro Recebe, que propiciou a formação de outros grupos, além dos bares, cerca de cinco anos atrás, tinha o Por Acaso que tinha choro toda terça, o Antigamente toda segunda, o Feijão de Corda, na Ponta d’Areia, sexta-feira tinha no Tropical Shopping Center, o Clube do Choro Recebe todo sábado, vários lugares tinham choro. O fato de eu tocar com um monte de gente, quando eu estava chegando do Rio de Janeiro, Zezé fez um viaduto de safena, três pontes, ele falou, “ó, te vira aí”. Eu já fiquei no lugar dele no [Instrumental] Pixinguinha, na Escola de Música dando aulas no lugar dele, na Escola Municipal, e com o Xaxados e Perdidos.

Você está onde quer, fazendo mestrado hoje em Minas. Dá pra falar em saudade dessa cena de São Luís? Lógico! Faz com que surja os grupos, o movimento. Hoje, onde é que a gente tem choro? Só no Brisamar [hotel]. Fixo, só no Brisamar, pra reunir o pessoal que toca choro. Se não tem movimento, não tem avanço, não tem jeito. A efervescência desse movimento em São Luís fez surgir o Choro Pungado, Os Cinco Companheiros, os Madrilenus, que foi formado para acompanhar seu Eudes [Américo, compositor]. Em relação a Belo Horizonte, lá tem choro todo dia. Todo dia tem lugar onde tem choro, de segunda a segunda. O dia em que eu cheguei foi uma segunda-feira que eu fui pro Salomão [bar]. Nesse mesmo dia ele falou: “ó, toda segunda-feira vem pra cá!”, a galera na roda. Lá são dois dias, segunda e quinta. Toda segunda eu tenho ido. Pedra Azul [o cantor e compositor mineiro Paulinho Pedra Azul] tá toda segunda lá com a gente, já levou Fabiana Cozza [cantora], Silvério [Pontes, trompetista]… é um bar que a galera vai mesmo.

Além do Mandorová e do Choro Pungado de que outros grupos musicais você já participou, de choro ou não? Mandorová, Xaxados e Perdidos. Artistas que já toquei: Josias, toco até hoje, Rosa Reis, Cacuriá de Dona Teté, Omar Cutrim, Carlinhos Veloz, Alexandra Nicolas… De choro, o grupo Um a Zero, toco no [Instrumental] Pixinguinha, estou de férias nessa temporada, Tira-Teima, uma temporada, de reserva, de substituto, Choro Pungado, Urubu Malandro, Quartetaço, Os Cinco Companheiros eu fiz uma participação, o Não Chora que eu Choro, que era meu, Azeite Brasil.

E discos que têm tua flauta? Tem alguns. Que eu lembre assim, tem a Lena Machado [Samba de Minha Aldeia, 2010], Rosa Reis [Brincos, 2009], agora o que saiu do Osmar [do Trombone, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013; Cinco Gerações, 2013], Gildomar Marinho [Olho de Boi, 2009]. Tem algumas produções de bumba meu boi daqui, muita coisa, “pô, vem gravar uma faixa”, às vezes sai, os caras nem me dão o disco. Grupo de samba tem o Vamu di Samba, que eu gravei os dois dvds dele, tem algumas produções que eu já fiz parte. O cd do Cláudio Leite, não sei se já saiu.

Há um grupo no cenário chorístico que deu o que falar, tanto do ponto de vista estético quanto das relações internas. O que significou para você o Choro Pungado? Não significou: significa. O Choro Pungado é mais ou menos assim um ideal. Eu acho que tanto pra mim quanto pra maioria dos que participavam, eu levo a sério mesmo. A gente conseguiu, assim de uma forma legal, descontraída, conseguimos compor, brincar com a música maranhense e choro, fundidos, de uma forma legal, livre, pelos integrantes terem uma desenvoltura musical muito avançada, eu acho, as coisas ficam mais fáceis, fluem mais rápido. Tanto que em pouco tempo de grupo a gente já tinha conseguido, pela crítica, vocês, Ubiratan Sousa [multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013] falou da gente, conseguimos vários elogios. Mas como você falou das relações, dentro do grupo, acontece, foi uma coisa muito rápida, o grupo teve uma vida curta, fatores extramusicais, agenda, por exemplo, Rui Mário [sanfoneiro, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 7 de julho de 2013], trabalha muito em estúdio, Luiz Jr. [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013] toca com todo mundo, eu também toco com muita gente, então foi assim desgastando a história dos compromissos. Mas eu acredito que musicalmente falando foi um passo à frente nesse cenário musical do choro no Maranhão. Foi uma experiência muito válida em relação à inovação, à fusão, à hibridação, tentar misturar essas coisas que estão muito dentro da gente. Pra mim é uma pena ter acabado, ter terminado cedo assim. A gente podia construir mais coisa, avançar muito mais. Teve meio que uma pressa em fazer sucesso, faltou uma perseverança, faltou mais trabalho, mais sentar e conversar, não querer logo fazer um dvd, por exemplo. Foi uma coisa legal, mas não foi legal, em relação a produto. O amadurecimento já estava vindo justamente nas nossas composições, sentados, ensaiando, e compondo.

Hoje em dia você participa de algum grupo? Lá em Minas você está só nas rodas? Não. É muito prematura minha chegada em Minas. É muito difícil você chegar e já conquistar um espaço. Eu cheguei há quatro meses e vou ficar só mais quatro. Tem muitos flautistas bons, os caras tocam pra caramba. Você chegar e já pegar um espaço, se inserir no mercado, é muito difícil, tem que ser extraordinário.

Como é que você tem conciliado a atividade acadêmica com a atividade musical? Tá sendo muito difícil. É uma transição bem peculiar. A parte acadêmica exige muito tempo, parar para ler, lá na UFMG não brincam, os professores são alto nível, minha orientadora é formada em Sorbonne, tem doutorado em Sorbonne. Eu suei a camisa pra conseguir conciliar.

Qual a discussão da tua dissertação? Eu vou tentar fazer uma mescla da musicologia histórica com a etnomusicologia. Isso da etnomusicologia eu fiz agora, numa cadeira que eu fiz, fiz etnografias da III Semana Seu Geraldo [de Música], em São Paulo, do Bandão [da Escola Portátil de Música], lá no Rio, eu fiquei meio que apaixonado por etnomusicologia.

Fala um pouco de tuas pesquisas, tanto na graduação como no mestrado. O que você fez e o que vai fazer? Na graduação, no trabalho de conclusão, eu tentei mostrar que na Baixada maranhense tem compositores de choro. Peguei alguns compositores de choro, o Josias, o Osmar, um cara que eu descobri, que ninguém conhece, que eu descobri lá em Guimarães, seu Moisés Ferreira, um cara que era teatrólogo. Esse cara é que foi assim a válvula, o estopim, de dizer, “pô, tem!”. Eu estava meio em dúvida sobre o que fazer. Eu pensei também nessa fusão do choro com a música maranhense, nos arranjos de Ubiratan no disco do Biné do Banjo [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 31 de março de 2013; Visitação, 2011], que ficaram muito interessantes, eu pensei em falar deles. Eu percebi que a dimensão do choro, dos compositores de choro na Baixada maranhense é muito maior que um trabalho focado. É um trabalho que eu posso levar, posso pesquisar a minha vida toda. No meu TCC eu peguei o escopo de que existe, uma comprovação, fiz entrevistas com Osmar, Josias, seu Raimundo Abreu, lá de Cajari, um grande professor de música de lá. Tive como suporte teórico, suporte de pesquisa, a obra de João Mohana [padre, médico e escritor], aquele livro A grande música do Maranhão. Ele começou em Viana. É o único registro que a gente tem escrito disso. Joaquim Santos [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 8 de dezembro de 2013] colaborou. Osmar, o avô dele, seu Macico [Marcelino Fernandes Furtado, flautista] foi um puta mestre de banda, fez arranjos de choro, foi um cara que recebia as partituras e fazia arranjos. Essa parte do mestrado eu quero justamente fazer isso, além da continuação do que eu fiz no TCC eu quero pegar material, do acervo João Mohana também.

Além de multi-instrumentista você desenvolve outras habilidades no campo da música? Arranjos, composição? Eu tenho composições. Na Mandorová a gente tocava umas duas, no Choro Pungado a gente gravou uma, um baião chamado Vim de lá, pá-pá-ri-ra-ri-pá-rá-rá [cantarola o ritmo], que eu fiz no pífano, depois a gente adequou para a flauta.

A Mandorová foi uma experiência boa? Foi fundamental. Com ela eu fui para São Paulo, passamos dois anos tocando, abrimos shows, saímos em jornal, passamos em matéria nacional do Jornal Hoje [da Rede Globo de Televisão], fizemos coisa de 10 interiores em São Paulo. Tocamos muito aqui no Canto do Tonico [extinto bar, na Rua Portugal, Praia Grande].

Pra você, o que é o choro? Se a gente vir pela história do choro, ele já começa importante. Começa como uma maneira de tocar, uma coisa que foi trazida, aquele amálgama da brasilidade no século XIX, meio que fez surgir aquela história toda de uma forma brasileira de tocar, depois virou dança, depois virou maxixe, depois virou tudo isso. Eu encaro isso como uma identidade brasileira, musical, mas além, social: uma identidade social, o choro. Se você leu O Choro [O Choro – Reminiscências dos Chorões Antigos], do Alexandre Gonçalves [Pinto], que fez o primeiro registro, em 1936, ele falou dos caras que tocavam, que faziam parte daquela história, que estavam na roda. Pra mim o choro é essa identidade brasileira, que por mais que mude a moda, que venha dessa transição de uma coisa pra outra, do violão pra isso, da jovem guarda pr’aquilo, o choro está sempre ali de alicerce. Desde a sua gênese, de sua aparição, seu apogeu, 1920, 1930, desde ali, ele pode ter caído mercadologicamente, financeiramente, tudo, esse campo artístico em volta do choro, mas ele nunca deixou de ser produzido. Se a gente falar na década de 1980, o rock’n roll, os melhores discos de Raphael Rabello [violonista sete cordas] foram lançados na década de 80, Baden Powell [violonista], Camerata Carioca.

Há quem ache que o choro é uma coisa estática, estagnada. Você acha que o choro é uma música fechada ou uma música aberta? A música em si é aberta. O que fecha é a cabeça das pessoas. Eu posso chegar numa roda de choro falando de choro, tocando do jeito que eu gosto, a galera pode não gostar. Yamandu Costa [violonista sete cordas], Hamilton de Holanda [bandolinista], Pixinguinha [Alfredo da Rocha Viana Filho, compositor e multi-instrumentista], na época dele, “esse cara é doido!”.

Você se considera um chorão? Não. Eu amo o choro, amo tocar choro, mas eu não me enquadro numa especificidade, num estereótipo. Mesmo dentro do choro, da linguagem choro, do gênero, você vê o ritmo baião, maxixe, tango, flamenco, é um universo. Como é que se vai dizer que é só uma coisa? É o mesmo que dizer “eu sou roqueiro”, eu acho que limita. Eu sou músico!

Chorografia do Maranhão: Ignez Perdigão

[O Imparcial, 19 de janeiro de 2014]

Radicada no Rio de Janeiro desde a década de 1970, a multi-instrumentista maranhense Ignez Perdigão é a 24º. entrevistada da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Ignez Eleonora Moraes Perdigão nasceu no Hospital Português, em 27 de maio de 1954. De lá foi direto para o Monte Castelo, onde morou até os 16 anos, quando se mudou para o Rio de Janeiro, onde vive até hoje. A casa de sua família – hoje uma loja de armas que ela não reconhece mais – ficava entre o antigo Cine Monte Castelo e a Igreja de Nossa Senhora da Conceição.

A multi-instrumentista nasceu em uma família de músicos, nem todos profissionais. Seu pai, o advogado Fernando Eugênio dos Reis Perdigão, teve formação musical que lhe permitiu um duo de violino e piano com Eder Santos, seu compadre, padrinho da menina Ignez. Sua mãe, Joina Cavalcante de Moraes Perdigão, gostava muito de cantar em casa, acompanhando a enorme coleção de discos que punham para tocar.

Do avô, Ignez herdou uma flauta de ébano – “está até hoje comigo”. O violino de seu Fernando foi herdado por Matias Correa, seu filho, contrabaixista, colega de Choro na Feira: “foi o primeiro instrumento do Matias”. A linhagem musical, iniciada com um bisavô violinista, continua: seus três filhos seguiram a profissão da mãe e, como ela, tocam vários instrumentos. Além de Matias, as cantoras Mariana Bernardes [cavaquinhista e violonista] e Alice Passos [flautista]. Ignez domina, além do cavaquinho pelo qual é mais conhecida, flauta, violão, piano e percussão.

Na cadência do samba. Capa. Reprodução

Aproveitando a passagem da musicista por sua São Luís natal, ocasião em que veio passar as festas de fim de ano com a família maranhense, a chororreportagem ouviu seu depoimento no Bar do Léo, em uma tarde de sábado cujos trabalhos foram iniciados com a audição de Na cadência do samba, disco de estreia do Choro na Feira, grupo integrado por ela – com o filho Matias, mais Clarice Magalhães [percussão], Marcelo Bernardes [saxofone, flauta e clarinete], Franklin da Flauta e Domingos Teixeira, o Bilinho [violões de seis e sete cordas].

À equipe da Chorografia do Maranhão juntou-se Leonildo Peixoto, proprietário do estabelecimento e DJ residente, que, entre idas e vindas no cuidado com os fregueses e o repertório, ouviu atentamente o trecho em que Ignez contou de sua convivência com Mário Lago [compositor, ator, dramaturgo e escritor], e lamentou um show perdido há 15 anos. Leia a seguir os melhores momentos das quase quatro horas de conversa.

Como era o universo musical na família? Meu pai ouvia muita música nos momentos de lazer dele em casa, que eram raros, praticamente fim de semana. Sabadão, domingo, ele botava o uisquinho dele, botava música, tinha uma boa quantidade de discos de 78 rotações, e 45 e, sobretudo, dava livre acesso a gente, a manusear estes discos. A gente tinha uma radiola. A infância mais remota, que eu lembro, eu era a irmã mais nova, minha irmã na escola, eu sozinha em casa, de criança, ouvindo música. Eram aqueles disquinhos da série Disquinho, do João de Barro [compositor], com arranjo do Radamés Gnattali [arranjador, compositor e instrumentista], e eu fascinada com aqueles arranjos, ouvindo aquilo. Às vezes de tanto tocar, o disco arranhava. Eu digo que a origem da minha composição com compassos alternados vem daí: o disco arranhava e eu não tirava, eu ficava assim: “pela estrada afora, eu vou/ pela estrada afora, eu vou/ pela estrada afora, eu vou” [cantarola simulando o arranhão do vinil, risos dos chororrepórteres]. E o barato era eu conseguir cantar junto, por que aquilo é uma conta complicada em termos de fração do tempo. Até minha mãe vir lá de dentro [imita um grito]: “Ignez Eleonora, tira esse negócio!”

Você tem essa lembrança a partir de que idade? Muito pequena. Eu fui pra escola já com cinco anos, à beira dos seis. É essa fase de quatro a cinco anos. Eu fui pra escola em 1960, com cinco anos, no mesmo ano eu fiz seis.

Que discos teu pai tinha? O que a gente ouvia lá. Meu pai tinha de tudo. A gente ouvia muito o Bolero de Ravel, tomando o uisquinho dele lá, ele regia junto, se empolgava. E eu também punha, sem ele mesmo, só para ouvir. Eu queria ouvir aquela coisa que fascinava meu pai e de certa forma passou a me fascinar também. Se ouvia muita música erudita e um pouco de jazz também, ele ouvia bastante.

Teus filhos são todos músicos? Eles vivem de música ou a música é um hobby? Não tem nenhuma ovelha negra na família [risos dos chororrepórteres e da entrevistada]. A gente sobrevive de música. Quem faz música instrumental, sobrevive de música, no caso, eu e o Matias. As minhas filhas são cantoras, basicamente. A Mariana toca cavaco, toca violão, desengoma um piano direitinho, mas ela é cantora, inegavelmente a força maior de expressão dela é o canto. A Alice [Passos] também. Alice toca flauta, toca na Orquestra Corações Futuristas do Egberto Gismonti [compositor e multi-instrumentista].

Os discos do Choro na Feira [grupo integrado pela entrevistada] são independentes. O primeiro [Na cadência do samba, 2000] foi feito sob encomenda. Fale um pouco desse processo. O rumo que meu grupo de choro tomou é o seguinte: a gente grava, a gente vende, o dinheiro que a gente apura com a nossa carreira discográfica é para alimentar nossa carreira discográfica. Ninguém bota dinheiro no bolso. É completamente independente, salvo o primeiro disco, esse que estava tocando aqui [Léo havia tocado o disco instantes antes do início da entrevista], ele foi feito sob encomenda para que fizesse parte do livro do Haroldo Costa, Na cadência do samba, que é mais ou menos um álbum fotográfico comentado, de músicas, de músicos, dos 100 anos do samba. Foi feito por décadas, um samba de cada década. Tudo foi decisão deles, os arranjos nossos, a produção nossa, eles pagaram estúdio, convidados, direitos autorais, é um disco caro, as cópias, nos deram mil cópias, e nós somos donos do disco.

Então ele está esgotado, mas vocês podem fazer novas edições. Podemos. Acontece que ele é muito caro, por conta dos direitos autorais. A gente vendeu esses mil discos e a partir daí fizemos o segundo [Choro na Feira, 2003], com o dinheiro do segundo fizemos o terceiro [Maxixes, pitombas e afins, 2005]. A partir do segundo ele tomou um rumo bastante autoral. Este último [Pedra riscada, 2010], as músicas são todas de compositores do grupo, tirando uma faixa do Pedro Paes, um clarinetista maravilhoso.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Quando e como é que você começou a se interessar pela música, a praticá-la efetivamente? Eu comecei a tocar violão na casa dos vizinhos, eu não tinha violão. Como eu estudava piano, mas também não tinha piano em casa para treinar. E violão era uma coisa mais portátil, eu fiquei brincando, comecei a aprender umas coisas. Meu pai quando se deu conta que eu estava tocando, no primeiro Natal, me deu um violão, eu devia ter de 10 para 11 anos. Aí ele me colocou logo para ter aula com Ubiratan [Sousa, músico, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], meu primeiro professor de violão. Ele me dava um repertório meio erudito, sempre mais para o solo, uma aproximação mais técnica. É uma coisa que eu guardo hoje em dia. Eu não tenho aula de instrumentista, eu não tenho pendor. Eu amo tocar todos os instrumentos que eu já toquei e toco, mas eu não tenho espírito, aquela disciplina de estudar todo dia. Aquilo que Ubiratan me deu, misturado um pouco, quando eu fui pro Rio, com o que [o violonista] Jodacil Damasceno me deu, me deram a base técnica. Eu saí daqui com 16 anos e já me encontrava e reunia, nós nos reuníamos muito. Quem? [Os compositores] Sérgio Habibe, Giordano Mochel.

Cesar Teixeira? Cesar não. Cesar eu fui conhecer no Rio. Foi ele quem me apresentou o cavaquinho. Eu tocava flauta, que quem me apresentou foi o Sérgio, e eu comecei a tocar flauta, eu era violonista, cantava e tocava violão. [O compositor] Ronaldo Mota também, era uma turminha que se reunia, ouvia música, eu ficava encantada com as músicas deles, todos já compunham. Eu era mascote total. Popó [o compositor Claudio Valente]…

Tua saída com 16 anos foi para o Rio já? Ela deveu-se à música ou foi por outra razão? Essa saída foi por que o meu pai aposentou-se aqui e já há alguns anos era convidado pelo João Calmon, um amigo dele, para ir trabalhar no Rio, no serviço jurídico dos Diários Associados [rede de meios de comunicação de propriedade de Assis Chateaubriand]. Mas meu pai muito ligado à faculdade [de Direito da Universidade Federal do Maranhão], foi secretário da faculdade e aposentou-se como diretor. Aí o João disse: “agora, Fernando, vens ou não vens?” Minha mãe quis ir, se ela não quisesse não teríamos ido, ficou botando pilha, e nós aceitamos. Fomos, portanto, por questões de trabalho do meu pai, que resolveu mudar para lá com minha mãe. Meu pai foi seis meses antes, para ajeitar o terreno, e nós fomos depois.

Desde então você está no Rio? Desde então. Falando no Monte Castelo, a minha maior influência foram os tambores. Em algum lugar ali que eu não sei precisar onde, tinha uma casa de mina, onde também tocavam outros tambores festeiros. Todas as noites eu dormia ouvindo o tambor. Tanto que a primeira vez que eu dormi no Rio, fui de férias, devia ter uns sete anos, eu deitei para dormir e ouvi o tambor. Ecoava dentro da minha cabeça. Isso sim foi uma grande influência em toda a minha compreensão musical. Eu tenho uma compreensão de tambor que eu fui identificando depois, quando eu estive em festivais de música africana, com representantes de música de toda África, negra, muçulmana, vários tipos de música, a minha identificação foi muito forte.

Tua chegada ao Rio com 16 anos: como é que foi tua inserção no mundo musical do Rio de Janeiro? Nesse ano em que eu cheguei ao Rio, em 1971, a minha ligação foi com o Jodacil Damasceno. Eu fui imediatamente matriculada para ter aula particular na casa dele. E depois eu fiz um curso na Proarte, isso já em 1971, 72, eu já estava na PUC, entrei para Direito. Aí sim, foi meu primeiro contato com choro, apesar de Jodacil já me apresentar algumas coisas de choro ao violão. Eu tinha alguma técnica, então ele foi logo me aplicando esse repertório. Na Proarte eu fui aluna do Léo Soares, também um grande professor de música, tudo em curso de verão. Como eu já tocava cavaquinho, fui convidada a integrar grupos de choro que se formaram lá, na Proarte. E o cavaquinho se deve ao Cesar, que veio com o pessoal do Laborarte, acho, e levou o cavaquinho. E numa festa eu peguei o cavaquinho e comecei a entender a afinação, rapidamente entendi e comecei. Aquele instrumento no meu colo parecia um neném e eu não queria mais largar.

Parece que é o instrumento pelo qual você é mais reconhecida. É. Na verdade, os anos foram moldando a minha prática instrumental. Todo o tempo que eu trabalhei com Mário Lago, eu toquei violão. Tocava cavaco também e flauta, mas basicamente violão, fui diretora dele. Toquei violão algum tempo com o Zeca [Pagodinho, cantor], toquei com a Jovelina [Pérola Negra, cantora], toquei com Dominguinhos do Estácio [intérprete de sambas-enredo da Estácio de Sá, escola de samba carioca]. Aí passaram a me requisitar mais pro cavaco, a Cristina Buarque [cantora] e o Mauro Duarte [compositor], toquei muitos anos com eles. Tocava cavaco por que tinha o Paulão Sete Cordas no violão.

Como era a figura de Mário Lago, na convivência artística? [Fã de Mário Lago, Léo é convidado pelos chororrepórteres a sentar e ouvir o depoimento da entrevistada sobre o ídolo] Mário era uma figura extraordinária. Tinha meia dúzia de pessoas naquele Teatro Arthur Azevedo [ela comenta um show de Mário Lago em São Luís, em 1998, que Léo confessou lamentar ter perdido].

Você estava no palco? Estava. Eu dirigia o show dele nessa época. Eu tinha feito o roteiro e os arranjos e ele a direção musical. O Mário ocupou dentro do meu imaginário a figura do pai. A figura física, um ser conversador, contador de histórias, bem humorado. Não tinha cansaço pra ele. Um homem já com 80 e poucos anos, viajava como estudante, mochileiro [risos]. Ia pros jantares, só não ia pras noitadas depois, mas até o jantar depois do show ele acompanhava. Era uma pessoa sensacional. Pra você ter uma ideia de um ser coerente com as convicções dele, a gente ganhava um, ele ganhava dois. Era essa a proporção. Ele escrevia, toda a parte de texto era dele, e isso era tudo muito aberto. Às vezes ele recebia o dinheiro e dava pra gente contar. Às vezes o filho dele não tava, quem fazia isso era o Mariozinho, o filho tinha ido fazer qualquer coisa, ele dizia: “contem aí que eu não tenho saco de contar dinheiro. Divide o meu pacote, divide o de vocês”, era uma pessoa sensacional. Tinha uma característica dele que eu adorava, que era o seguinte: a ligação dele, como autor de teatro, teatro de revista, fez muita televisão, e como tinha trabalhado muito com música para teatro, depois de cada show ele dizia: “Ignez, aquela entrada demorou um pouco”, e eu dizia “é isso mesmo, aconteceu de uma coisa não estar no lugar, na hora de o menino pegar a percussão…”, ele cobrava muito isso, era um cara muito esperto. Às vezes a gente ia fazer um show num lugar e acontecia de pedirem para ele fazer um comercial, sei lá, sabonete, uma coisa dessas. Ele sempre precisando de dinheiro, velho comunista sempre precisa de dinheiro [risos], ele topava fazer, mas chegava na hora, ele dirigia o comercial, ele mudava o texto [risos dos chororrepórteres], ficava ensinando todo mundo como fazer. “Não, isso aqui tá uma porcaria, não se pode dizer isso”. Ele era uma figura adorável, tenho muita saudade dele.

Maxixes, pitombas e afins. Capa. Reprodução

Em que grupos e projetos musicais você se envolveu? Originalmente, se eu tivesse um temperamento de pensar mais em meu potencial musical e a minha vontade, eu teria sido compositora. Teria ido pra UFBA, que era meu projeto inicial quando eu larguei Direito. Fazer composição lá. Lá estavam [o compositor e regente] Lindembergue Cardoso, [o musicólogo e professor alemão Hans Joachim] Koellreuter, [o violoncelista e professor suíço Anton Walter] Smetak, o pessoal de música eletroacústica, que era uma coisa que me interessava muito. Mas não lamento nada, o que aconteceu, aconteceu. Não fui, não tive como, não poderia trabalhar e fazer um curso de composição, que era um curso pesado. Acabei ficando no Rio, fazendo a Fifierj do Instituto Villa-Lobos, que pertencia à Fifierj, hoje pertence à Unirio. Abandonando o curso, larguei no segundo ano, larguei grávida da minha filha mais velha [Mariana Bernardes], e fazendo cursos. Aqui e ali, estudei particular com Koelreutter, estudei harmonia e contraponto na casa dele, estudei um pouco com João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], antes, estudei teoria e solfejo, e fui fazendo um currículo meu. E trabalhando. Já tocava choro, e nesse ano, 1975, 76, formamos o primeiro grupo de choro, com volume de trabalho, chamava Éramos Felizes. Era Zé Renato, Juca Filho, que hoje em dia faz mais textos de programas de humor, Marco Aurélio, bandolinista, Marcelo Bernardes [clarinetista e saxofonista], eu, e o Petchó, que era cartunista paulista, já morreu, meu primeiro pandeirista. Esse grupo percorreu grande parte das praças do subúrbio, tínhamos um contrato com a então Secretaria de Esportes e Lazer do Rio de Janeiro. A gente fazia a primeira ou última sexta-feira do mês, pegava um trem, num ponto qualquer de estação, a secretaria montava a estrutura de palco e som, e nós tocávamos choro ali. Tínhamos alguns contratos, viagens, e esse mesmo grupo, essas mesmas pessoas, tinham outro grupo que chamava Cantares, e aí no Cantares a gente tocava as composições de Zé Renato, do Juca. A gente ouviu muita coisa, tocava muito choro. Eu me lembro dum choro que a gente aprendeu com um senhor que vendia amendoim perto da estação, da parada de ônibus onde a gente ia pegar ônibus pra Usina, foi onde a Mariana nasceu. Depois, num desses discos do Choro na Feira [Maxixes, pitombas e afins] a gente gravou esse choro [Chorinho do Zé Feio], que não era do homem do amendoim: ele mostrou pra gente no lá-lá-ia, o Marcelo tirou no clarinete e a gente nunca esqueceu esse choro. Era dum amigo dele, chamado Zé Feio [José Ignácio de Oliveira]. Ele era de Minas, esse vendedor de amendoim, e o Zé Feio também era de Minas. A gente conseguiu chegar na família do Zé Feio, pra pedir autorização pra gravar. Nem a família conhecia, ele era alcoólatra, a família era contra o fato de ele ser músico, então ele escondia a produção. Foi a primeira música do Zé Feio gravada, foi muito interessante. A música instrumental era para nós a maior expressão. Eu me considero bem mais da música instrumental que da canção. Hermeto [Pascoal, multi-instrumentista] era um grande mestre. Milton [Nascimento, cantor, compositor e multi-instrumentista] foi outra grande influência, como cantor, mas também como músico maravilhoso que é. A vida me levou pra junto dele, acabei fazendo arranjo pra música dele.

Você começou a estudar e tocar ainda na infância. A partir de que momento você percebeu que a música tomaria um rumo profissional? O piano eu não diria que foi algo somente para contribuir na educação da moça. Eu não segui no piano por que minha mãe decidiu não comprar o instrumento, por que era um móvel muito grande para a sala. Eu tenho paixão por piano, eu sempre tive piano, eu ganhei um piano na gravidez da Mariana, e desde então eu tenho piano em casa, todos tocam piano, Matias tem uma boa técnica. O que acontece: enquanto eu morava aqui, eu não vislumbrava uma carreira profissional. Eu nunca estive com pessoas que fossem músicos profissionais, que pra mim fossem uma referência. Eu acho que não existia, na época. Existiam músicos de banda, tinha baile, músicos de baile, o pessoal da Escola Técnica [hoje Ifma], que era ali pertinho. Pra mim a música não era uma profissão, era uma coisa que se fazia, não tinha faculdade de música, aliás, recentemente é que aqui foi ter. Não tinha a Escola de Música. Tinha a Scam [Sociedade de Cultura Artística do Maranhão]. Isso começou a se desenhar pra mim, na verdade, quando entrei na PUC, pra fazer Direito, e fui para o grupo universitário de música, um grupo de música que, digamos, dava uma feição permitida aos movimentos estudantis. A gente tocava coisas da Violeta Parra, Mercedes Sosa. Eu conheci músicos e fui me inteirando da possibilidade da música profissional. Eu já estava há quatro anos, 1975 foi meu ano limite, estava querendo chutar o balde e chutei. Abandonei o curso de Direito, para desespero de meu pobre pai.

Com o abandono do curso de Direito você nunca teve outra profissão na vida que não fosse a música? Não, nunca. A partir daí, eu queria ir pra UFBA, não fui, não tinha condições, não tinha mais nenhum apoio familiar. Entrei no IVL [o Instituto Villa-Lobos], larguei o IVL, que era dirigido por um médico general que fazia arbitrariedades ali naquele curso de música. Saí grávida e voltei grávida: fiz vestibular novamente com a Mariana.

E o Choro na Feira? O grupo surge por conta dos saraus na feira livre? Depois do Éramos Felizes eu sempre estive perto do choro, tocando aqui e acolá, mas não tive mais nenhum grupo de choro. Perfeitamente: eu morava em Laranjeiras e tinha uma feira, onde eu frequentemente ia, onde ficava o cavaquinhista do [conjunto] Galo Preto até hoje, Alexandre [Paiva]: ele era produtor de vegetais hidropônicos, ele e a mulher. Um belo dia ele disse pra mim: “Ignez, toca pra esse rapaz aí! Ele está me perturbando, querendo que eu toque pra ele e eu não posso tocar agora” Era um menino que entregava sacolas pra ele, e eu fiquei tocando, e me divertindo com o cavaquinho, com o menino, com as pessoas que passavam. Uns riam, outros paravam meio assustados. A gente já tinha tido essa experiência, de tocar nas praças, mas com a estrutura do Estado. De certa maneira isso afasta as pessoas, impõe uma distância, o cidadão desconfia por princípio, tem sempre alguém ganhando muito mais do que o que está sendo feito. A gente tinha tido uma iniciativa, em outras épocas, com o [violonista sete cordas] Raphael Rabello, Antonio Santana, de tocar no Largo do Machado, sem estrutura nenhuma. Fizemos isso umas duas vezes, mas não foi adiante. Aí eu resolvi chamar o Bilinho [o violonista Domingos Teixeira], a falecida Tina Pereira, tocava flauta, e ia chamar a Mariana, minha filha, tocava pandeiro bem, e eu chamei a Clarice. Depois no programa do Altamiro Carrilho [flautista] na Rádio MEC, eu fui saber pelo rádio, ao vivo, que ela, quando foi chamada, pensou que tivesse dinheiro nisso [risos], e não tinha nada. Aí passamos a ir toda semana, esses quatro. Depois foram chegando o Marcelo, que mora ali em Laranjeiras, o Franklin [da Flauta], pai do Matias, também chegou, o Matias foi o último que chegou no Choro na Feira. E a partir daí o produtor encomendou o disco, pro livro Na cadência do samba, e tudo começou. Nesse primeiro o Matias não gravou, quem gravou foi o Sérgio Barroso, um baixista super conhecido, da bossa nova.

Esse projeto da feira acabou? Nós ficamos de 2000 a 2010, 10 anos tocando todo sábado na feira. Aí isso foi passando por uma transformação. Aquilo não é uma praça exatamente, é uma ilha urbana, tecnicamente. Juntou um monte de gente. Juntando muita gente sempre aparece político e comerciante. Apareceram os vendilhões do templo [risos] e a música foi ficando assim [em segundo plano]. O pessoal que ia, Elton Medeiros [compositor], Cristina [Buarque], que eram frequentadores habituais, de todo sábado, foram embora, por que eles não conseguiam mais ouvir. As pessoas bebendo se exaltavam, falavam mais alto. O Elton Medeiros falou que nós éramos a única sala de concerto a céu aberto que ele tinha conhecido.

Seis anos depois, Bruno Batista e Claudio Lima reapresentam Hein?

Blogue conversou com os artistas sobre o show, parceria, amizade, projetos e discos futuros

Foto: Vivian Pereira
Foto: Vivian Pereira

 

Quando me abriram a porta do Estúdio Sonora, do músico Luiz Jr., ele (violão sete cordas), João Simas (guitarra) e Rui Mário (teclado) acompanhavam Bruno Batista (voz e violão) e Claudio Lima (voz) em Zanza (Carlinhos Brown).

Passaram a música várias vezes, com Rui Mário chegando a trocar o teclado pela sanfona, para ver o que soava melhor no arranjo. Estavam arredondando-a para o espetáculo Hein?, sucesso de público e crítica que depois de seis anos volta a ser apresentado hoje (27), às 20h30, no Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy, Rua do Egito, Centro; ingressos: R$ 30,00, à venda na bilheteria do Teatro).

Bruno Batista e Claudio Lima são dois dos mais interessantes artistas da música produzida no Brasil atualmente. O primeiro tem três discos gravados: o homônimo Bruno Batista (2004), Eu não sei sofrer em inglês (2010) e (2014). Claudio Lima estreou antes, com um disco que levava seu nome (2001), e depois lançou Cada mesa é um palco (2006), dividido com o pianista Rubens Salles.

Responsável pelos belos projetos gráficos de seus dois discos, Claudio Lima assinou também o do segundo de Bruno Batista. Atualmente está gravando seu terceiro disco, ainda sem título.

Quando apresentaram a primeira edição de Hein?, em 2008, no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho), ninguém – nem eles mesmos – entendeu o porquê de o show não ter ganhado uma temporada ou turnê – promessa que já fazem para a edição de agora.

Depois de Zanza, o grupo deu um break para café e cigarros. Este blogue aproveitou para conversar com Bruno Batista e Claudio Lima, que além de Hein?, falaram de amizade, parceria, projetos e discos futuros. Depois da conversa o blogue ainda ouviu Menina amanhã de manhã, outra de outro baiano, Tom Zé, que comparece ao repertório do show, batizado por uma parceria dele com Vicente Barreto.

Claudio sempre me parece mais tímido fora do palco. No palco ele cresce…
Bruno Batista – [risos] Agora… por que no palco, antes, era a mesma coisa.
Claudio Lima – A mão no bolso [risos].

Eu li que Guaraná Jesus [Chocolate Jesus, de Tom Waits, versão de Carlos Careqa] está no repertório do show.
Bruno –Eu sou fãzaço do Tom Waits. Quando Careqa fez aquele disco de versões [À espera de Tom, 2008], eu falei “pô, que massa!”. E quando chegou em Guaraná Jesus eu fiquei puto: “quem era pra ter feito isso era eu!” [risos]. Tinha que ter tido essa ideia, sensacional a sacada dele. Aí a gente resolveu colocar no show, eu trouxe pra Claudio, ele se amarrou também, tá legal pra caramba.

Seis anos depois vocês voltam com Hein? O show na época foi sucesso de público e crítica e havia uma cobrança. Por que a demora? E o que significa essa volta?
Claudio – Foi até uma surpresa na época.
Bruno – Ambos tínhamos lançado apenas um disco [nota do blogue: Claudio Lima já havia lançado Cada mesa é um palco, de 2006]. Claudio Lima tinha o Claudio Lima, que foi um disco arrebatador, todo mundo falava. Eu lancei o meu [Bruno Batista, de 2004] dois ou três anos depois, e quando eu lancei o meu a gente se conheceu. Eu já o conhecia através do trabalho do disco dele, ele conheceu o meu, a gente se aproximou através de amigos em comum, e já rolou aquela energia boa, a gente se gostou de cara.
Claudio – Acho que a primeira vez que a gente sentou, na casa de Alex [Palhano, jornalista], tu me mostrou “hoje eu quero solidão” [cantarola o verso inicial de Despedida, de Bruno Batista], eu falei: “eu quero!”.
Bruno – Exatamente! Na verdade, foi na audição do disco. Eu tava com o disco pronto, fui fazer uma audição e tu tava lá. Nesse mesmo dia tu gostou de Despedida e de Eu não ouvi todos os discos, quis gravar e tal. Afinou, pessoalmente, musicalmente, fizemos o primeiro Hein? O show foi um sucesso. A gente cometeu um erro, na época, de não ter feito uma temporada do show.

Por que não ter repetido antes?
Claudio – Eu provoquei bruno no face [a rede social facebook]: “vamos ressuscitar o Hein??” Foi só um comentariozinho.
Bruno – Exatamente!
Claudio – Eu tou vendo que a cena aqui tá bem legal.

Quando foi essa provocação?
Claudio – Foi esse ano, começo desse ano.
Bruno – A provocação para refazer o Hein? foi esse ano, mas a gente já tinha um projeto de fazer um disco juntos. E como a gente ainda não conseguiu fazer isso, bom, tá demorando demais, talvez por causa do disco que venha a ideia de refazer o Hein?

Mas vão conseguir fazer o disco juntos, não é?
Bruno – [enfático:] Vamos! É um projeto pessoal nosso, meu e dele. Agora não vai dar, ele vai lançar o disco dele proximamente. Não vai demorar, né?
Claudio – [irônico] Não, não vai demorar. Depende só de… grana [risos].

Como está essa feitura de teu disco novo, o terceiro disco?
Claudio – A pré-produção tá pronta, com as bases de Eduardo Patrício [músico maranhense radicado em Curitiba, assinou as bases eletrônicas de Cada mesa é um palco]. Eu fiz um show, Rosa dos ventos [título de uma música de Bruno Batista, vencedora do Festival Viva 400 anos, que celebrou o aniversário de fundação da capital maranhense], eu estava excitado com as bases do Eduardo e chamei Luiz Jr., briguei com Luiz Jr. para ele tocar em cima das bases [risos].

Há um momento muito bonito de Rosa dos ventos [o show aconteceu dia 21 de fevereiro de 2014, no Teatro da Cidade de São Luís], que está no youtube, que é Salomé, de Fabreu [o poeta Fernando Abreu] e Magah [o cantor e compositor Marcos Magah]. Ela está no teu disco novo?
Claudio – Não sei. Não sei, mas eu acho que sim.
Bruno – É linda aquela música!
Claudio – Por que o que acontece: eu tou com essas bases, aí vou chamar músicos, começar a gravar, alguma coisa pode acontecer. Essa é uma. Tem outra do Magah que eu também tou com vontade, dele e de Acsa [Serafim, cantora e compositora], nunca foi tocada.

E o que tem no repertório desse novo Hein??
Bruno – O repertório é todo diferente. A gente pensou em fazer umas canções de que a gente gostava, começou com isso. A gente não sabia muito bem o que fazer e começamos apanhando algumas canções de que a gente gostava pessoalmente. No meio do processo eu senti Claudio cutucando ali, mas não falava direito o que era. Aí ele falou: “Bruno, eu tou sentindo falta de inéditas”. Aí eu achei que isso seria o grande lance. Eu tinha acabado de lançar um disco [Lá, 2014], no começo desse ano, e quando você lança um disco você acaba com seu estoque, as que eu tinha eu gravei [risos]. Como o disco saiu em março, eu já vinha compondo algumas coisas, comecei a apresentar uma série de canções pra ele.
Claudio – Começou a vasculhar as gavetas, os sentimentos.
Bruno – Tanto que tem música que ainda não estava pronta, que está sendo terminada agora, terminando a letra agora, eram só embriões. Mas o repertório do show, basicamente é esse: canções que a gente gosta de cantar, que a gente tem afinidade.
Claudio – Mas a gente manteve um formato, intuitivamente, um formato que foi o primeiro Hein?. Tipo colocar uma música muito conhecida, colocar inéditas. Por que quando eu cantei Rosa dos ventos no primeiro Hein? – eu cantei Rosa dos ventos –, era inédita. Foi a primeira vez que a música foi cantada. Teve mais inéditas?
BrunoHilda Regina [faixa de Eu não sei sofrer em inglês, de 2010] era inédita, eu fui gravar depois. Mas eu acho que esse show tem mais inéditas que o anterior, tem quatro ou cinco. Por que se depender da gente, a gente bota só as coisas que são meio lado b, então a gente tenta dosar um pouquinho.

Então Hein? mescla um pouco de um tributo a artistas que acabaram colaborando por moldar vocês enquanto artistas, quer dizer, referências – Tom Zé, Tom Waits – a um repertório inédito teu. Tudo que é inédito é teu ou há inéditas de outros artistas?
Bruno – Não. Até poderia ter tido. Calhou de ser. A gente não pensou isso: “vamos botar inéditas minhas”. Acabou acontecendo. Comecei a mostrar algumas coisas e elas preencheram o show e a gente não foi atrás [de repertório inédito de outros compositores]. Basicamente é isso: inéditas minhas e um tributo a artistas que nos formaram musicalmente.

Estou sentindo uma timidez de vocês em não entregar o ouro [risos]: Tom Zé eu sei que tem por conta da faixa-título, Tom Waits por que eu li na matéria [#hein? A volta, de Patrícia Cunha, nO Imparcial de 23 de novembro de 2014], Carlinhos Brown por que ouvi vocês cantando. O quê mais?
Bruno – Fagner. Roque Ferreira, que é um cara que cada vez que passa, desde que eu descobri a obra dele, me apaixonei, a gente vai botar uma música dele. Carlinhos Brown, Tom Waits, Carlos Careqa, Tom Zé. É o seguinte: se fôssemos pegar os formadores mesmo, teria que botar Elomar, Chico Buarque. O repertório é de coisas que a gente está ouvindo e gosta de cantar e de alguma forma influenciam no que a gente faz.
Claudio – Tem [Gilberto] Gil também.
Bruno – Sim, Gil, um dos grandes mestres nossos.

E vocês, fora de Hein?, têm se encontrado de vez em quando, às vezes não no palco. Teve Rosa dos ventos, com que vocês ganharam o festival, um compondo, outro cantando. Estão sempre em contato.
Claudio – Que pagou a pré-produção de meu disco.
Bruno – Sempre. Sempre que eu venho à São Luís a gente se encontra. Nós, além de parceiros musicais, somos amigos. As primeiras audições de meu disco, eu sempre mando pra Claudio, música nova. Tem uma música que vai entrar no Hein?, chamada Senhora da alegria, que, assim que eu fiz, mandei pra Claudio. A gente se conhece, sabe que o outro vai gostar de ouvir. A gente está sempre em contato, é amigo.

E teu disco novo? Por que você mostrou muita coisa inédita lá na Ponta do Bonfim [Bruno Batista cantou na edição do evento que trouxe Danilo Caymmi à São Luís].
Bruno – Mostrei. Mas esse disco não vai ser para agora. Eu lancei o em março de 2014. Esse ano foi atípico para a produção no Brasil. Todo mundo lamentou não ter circulado, Copa do Mundo no Brasil, eleições, o dinheiro ficou apertado para todo mundo, não tinha verba de incentivo. Eu ainda não consegui fazer esse disco andar da maneira que eu gostaria. O ano que vem vai ser dedicado a tentar andar com , colocar ele na roda, então meu próximo disco vai ficar provavelmente para 2016. Mas a criação, a composição ela não para. Ainda bem.

Claudio, você está trabalhando no terceiro disco e já comentaram o projeto de gravar um disco em conjunto. Algum sonho de fazer um disco teu cantando só músicas de Bruno?
Claudio – [gargalhadas]. Eu faria um disco só com músicas de Bruno.
Bruno – É. Tem dois discos para fazer: o nosso e esse, que eu farei com o maior prazer do mundo.

E você está envolvido com o de Naeno [compositor piauiense, tio de Bruno], não é?
Bruno – O disco de Naeno é um disco que me deu um superprazer. Além de ser meu tio é um compositor que eu acho maravilhoso. Inclusive, agora que tu falou, me deu uma pena de não ter colocado uma música de tio Naeno nesse show, cara.

Ainda dá tempo!
Bruno – [gargalhadas] O disco de Naeno eu fiz a produção artística, chamei Swami Jr. [violonista] e Guilherme Kastrup [percussionista] para a produção musical, tem participações especiais de Monica Salmaso, Chico César, Zeca Baleiro. Eu peguei o repertório dele todo, selecionamos 13 faixas, algumas já gravadas, outras completamente inéditas. Eu queria fazer um panorama da obra dele. Era a primeira vez que ele ia fazer um disco fora, com esse tipo de músico, esse tipo de produção, achei que merecia isso. Tá lindo, tá muito bonito, está sendo prensado agora, até o Natal deve estar pronto, e a gente deve lançar ano que vem. Esse disco tem uma curiosidade: o Dominguinhos ia participar dele. Eu liguei para Dominguinhos, ele estava saindo de Recife para Fortaleza, e falou “olha, chegando em Fortaleza daqui a uma semana”, ele só andava de carro, “e lá eu vou gravar a participação no disco de Naeno. Nesse meio tempo ele adoeceu terminalmente e a gente não teve a oportunidade de ter Dominguinhos no disco, que é uma grande referência pra meu tio. Nossa, seria pra gente uma honra imensa. Mas apesar disso o disco está maravilhoso.

Apesar de uma banda enxuta estão escudados pelo que há de melhor, em termos de instrumentistas, em São Luís, no Maranhão. Como é que foi a escolha dessa banda, o entrosamento de vocês?
Claudio – A gente já trabalha com Luiz Jr., eu, Bruno separadamente. Você já fez um show com essa formação, né?
Bruno – Só Jr. e Rui Mário.
Claudio – E deu vontade de chamar alguém da nova geração pra dar uma provocada. A gente chamou o Simas.
Bruno – Pra misturar as linguagens.
Claudio – E tirá-los de uma zona de conforto. Eu adoro estranhamento, adoro botar músico pra brigar [gargalhadas]. Meu primeiro disco foi um dj [Eduardo Corelli], não é músico, tem uma cultura musical maravilhosa. Na época ele se travestia, tu imagina o cara vir de São Paulo e chegar lá no estúdio de Henrique Duailibe [gargalhadas]. No primeiro momento já teve aquele [gesticula e imita sons de objetos se quebrando]. E ele não sabia da linguagem musical, andamento, tom. E me perguntavam: “como é que tu quer, Claudio?” “Eu não sei, resolvam!”. Foi assim que surgiu o primeiro disco.
Bruno – É isso! A gente queria misturar linguagens. Tem o Jr. e o Rui, que a gente toca há muito tempo, eu sou fãzaço dos dois, e a gente queria fazer um show acústico. Eu sou compositor, por excelência. Claudio é intérprete, adora canção, adora letra, aquele universo da canção. A gente pensou numa formação mais acústica, menor, onde a canção fosse a vedete e as letras fossem bem ditas, bem compreendidas, e nisso, querendo misturar linguagens, a gente optou por essa formação, que tá dando o maior pé, da maneira como a gente pensava ser. Vai ficar foda!

Há perspectiva de temporada, turnê?
Bruno – [enfático] Tem! Eu não vou ter medo de falar isso em entrevista, é até uma forma de a gente se cobrar depois.

Chorografia do Maranhão: Osmarzinho

[O Imparcial, 5 de janeiro de 2014]

Radicado há três anos em Belo Horizonte/MG, onde cursa bacharelado em Música na UFMG, Osmarzinho é o 23º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Acompanhado do pai coruja Osmar do Trombone [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013], o saxofonista Osmarzinho recebeu a chororreportagem no aconchegante Cafofo da Tia Dica, botequim-restaurante por detrás da Livraria Poeme-se, na Praia Grande.

A cidade andava a passos lentos, no recesso entre o Natal e o Ano Novo e no Centro Histórico não era diferente: o movimento era fraco para uma tarde de sexta-feira. A Chorografia do Maranhão aproveitou a passagem do músico pela Ilha: ele veio visitar e passar as festas de fim de ano com a família.

Osmar Pereira Furtado Junior nasceu em 4 de março de 1982, em São Luís. Filho de Osmar Pereira Furtado, o Osmar do Trombone, e Anete Lauleta Furtado, dona de casa, hoje sócia-proprietária da Lauleta’s Pizzas, na Cohab.

Osmarzinho – como era chamado nas rodas de choro em São Luís – ou Osmar Jr. – como é conhecido nas de Belo Horizonte –, como preferir o freguês, cursa Bacharelado em Música na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com o saxofone como instrumento específico. O primeiro entrevistado da série em 2014 mora há três anos na capital mineira e terminará a graduação no fim deste ano.

Antes de resolver dedicar-se integralmente à música, com o apoio da família, cursou ainda quatro períodos de Administração e, antes, arriscou-se num curso técnico em Eletrônica, de nível médio. Mas confessa: entrou no Cefet [hoje Ifma] só por causa da banda de música: “passou dois anos, eu não toquei nem uma vez, aí eu larguei o curso”.

A entrevista que Osmarzinho concedeu à Chorografia do Maranhão foi musicalmente ilustrada por Natureza, de Saraiva, e Saxofone, por que choras?, de Ratinho, imortalizada por Abel Ferreira, referências para seu fazer musical. Os irmãos Almeida Santos seguraram as lágrimas ao lembrar-se de Raimundo Juruca, para quem o primeiro era simplesmente “o rei do sax soprano”. Afinal de contas, é ao falecido pai que devem a paixão pelo choro.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Além de músico você tem outra profissão? Hoje em Belo Horizonte você está trabalhando profissionalmente com música? Não. Só músico mesmo. Eu trabalho com música. Estou em Belo Horizonte só com música mesmo. Profissionalmente com música. Em vários grupos.

Não tem uma pensão do Osmar [do Trombone, pai de Osmarzinho]? De vez em quando ajuda. Eu ganho uma bolsa da faculdade, mas quando a coisa aperta eu digo “opa, manda uma grana aí que o negócio apertou!”

[Osmar do Trombone] Tu fizeste ainda o quarto período de Administração.

[Osmarzinho] É, fiz o quarto período, mas minha cabeça estava voltada só para a música. Aí eu não consegui, peguei e tranquei, falei lá em casa: “ó, o meu lance é música. Eu vou estudar pra fazer o vestibular de música”. Aí eu lembrei que tinha Belo Horizonte, eu tinha pegado uma aula com um professor de saxofone, o Dilson Florêncio. Aí passei na primeira etapa, fui fazer a segunda, voltei pra São Luís, pra receber o resultado, passei, e fui embora em definitivo, pra começar o ano letivo.

Você tinha parentes em Belo Horizonte? Não.

Osmarzinho, o fato de você vir de uma família musical, ajuda ou atrapalha? Ajuda muito. Eu tive muito contato, no ambiente familiar, muito contato com a música a partir daí. Ouvindo muita música instrumental, principalmente samba, choro. Eu peguei o choro e o samba como referências.

Como é que o sax apareceu para você? Como é que foi essa decisão? Desde quando você começou a estudar música e a partir de quando você escolheu o sax? Foi aos 14 anos. Eu comecei a ter o contato com a música mesmo. Eu aprendi a ler partitura, primeiro, com meu avô, aí eu comecei a tocar teclado. Comprava revistinhas. Aí fui passar as férias na casa de meu avô e ele chegou pra mim: “meu filho, tu não quer aprender a tocar saxofone?” “Eu quero!”. Aí eu me interessei, ele me passou a escala do instrumento, eu fui praticando, peguei afinidade com o instrumento. Já com o trombone, antes de eu pegar saxofone eu tentei soprar o trombone, mas não tinha jeito, não tinha embocadura nenhuma.

[Osmar do Trombone] Eu fiquei frustrado com isso [risos dos chororrepórteres].

[Osmarzinho] Até hoje eu tou só no saxofone.

[Osmar do Trombone] Todos os saxes, né, Junior?

[Osmarzinho] Isso, todos os saxes.

Osmarzinho, não teve nenhuma restrição à tua atividade musical? Ou sempre teve apoio? No sentido de que você vem de uma família musical em que todos desenvolveram atividades musicais paralelas, teu pai na Cemar, teu avô, salvo engano tinha outra profissão. Não teve um negócio do tipo “vai fazer outra coisa” e música ficar em segundo plano? Eu comecei a fazer Administração e minha mãe queria que eu seguisse outra profissão pra ver se eu tinha um retorno financeiro mais rápido, mais seguro. Só que eu comecei a fazer, achava que era isso que eu queria. Mas acho que a gente tem que escolher uma profissão que a gente goste realmente. Por que se não a gente não consegue fazer nada.

Você se sente feliz? Eu me sinto feliz ao fazer música. Independentemente de ganhar muito ou pouco ela está em primeiro lugar para mim.

Como é tua vida de músico profissional em Belo Horizonte? Com que frequência você toca e como é conciliar isso com as atividades acadêmicas? Lá eu toco mais nos fins de semana, nas sextas e sábados. Durante a semana, de segunda a sexta, eu fico mais na faculdade. Lá dentro eu participo de vários grupos, de formações diferentes. A gente tem esse trabalho, tem as disciplinas em que a gente pode se inscrever.

Um desses grupos é o Quarteto de Saxofones, que participou do disco de Osmar [do Trombone, Cinco Gerações, 2013], não é? É. O Quarteto de Saxofones é uma das disciplinas do meu curso, que eu posso ou não participar em cada semestre.

A tua chegada à universidade, sendo um cara que já tocava, inclusive muito bem, em vários grupos aqui em São Luís, como é que foi a acolhida junto a outros músicos, a professores? Como é que eles avaliaram a tua chegada e qual foi a repercussão imediata quando te viram tocar? Assim que eu cheguei lá eu escolhi um grupo, a Big Band. Fiz um teste para bolsista, passei, desde o primeiro semestre. Comecei a fazer os ensaios. Começaram a me ver tocar, com uma pegada já bem desenvolvida no instrumento, e fui aprimorando a cada semestre. Eles gostaram muito. Ficaram meio admirados, por eu vir do Nordeste, um lugar tão longe.

Você toca os quatro tipos de saxofone, não é? Sim. O sax soprano é o que eu toco, o que eu comecei. O saxofone alto é o que eu estudo no curso de bacharelado. Eu faço meu curso todo com o saxofone alto. Se eu quisesse optar pelos outros, em cada semestre fazer um tipo de saxofone, eu poderia. Mas eu optei pelo alto até acabar o curso. Mas nas outras disciplinas, em outras formações, outros grupos, eu toco sax tenor e o último saxofone, que eu estou passando a tocar agora, é o sax barítono, tem seis meses.

Para um leigo em música, além do timbre, quais as diferenças entre estes instrumentos? Sax soprano é o instrumento mais agudo. É sax soprano, contralto ou sax alto, tenor e barítono. Como se fosse a classificação da voz humana. Em questão de adaptação é mais a questão da boquilha mesmo, de jogar o ar pra dentro do instrumento, é de forma diferente. O timbre de cada um: mais agudo, mais grave, mais médio. Cada tipo de música a gente adapta para um instrumento diferente.

Você pretende fazer logo mestrado? Como você está encarando a questão acadêmica? Ou, terminando, pretende voltar logo para cá? Pra eu voltar pra cá, só se eu tiver uma coisa garantida, algum concurso.

O mercado lá é melhor pra você? O mercado lá é melhor. A gente ganha até mais, tocando na noite. Tem uma tabela, não se pode pagar menos. Com relação ao mestrado acho que vou fazer mais lá pra frente. Eu quero apostar mais na vida profissional, tocar em um grupo em que eu seja reconhecido. Estou apostando nisso.

Outro maranhense que está lá é [o flautista] João Neto. Vocês se encontram? Como é o convívio? Tem uma colônia maranhense? O João Neto foi pra lá agora recente e já está se enturmando. Eu o apresentei a algumas rodas de choro, ele enturmou com a galera, já está tocando em grupos de samba. Eu sempre ligo pra ele: “e aí, Neto, dá pra gente ir lá na roda hoje?”, e ele: “vamos lá, eu cheguei, não dá pra ficar sem tocar aqui, não”. O pessoal está gostando muito do trabalho dele.

Qual a importância do teu pai nas tuas escolhas musicais, na tua carreira? É muito importante. Dos quatro filhos eu fui o único que escolheu o lado da música e abraçou. Eu escolhi a música para seguir como profissão. No caso dele, ele teve que fazer outras coisas para sobreviver. Era outra época. Ele me influenciou muito no ambiente familiar, eu sempre escutei música através dele. Isso me influenciou bastante para eu ter uma escolha musical assim.

Quem foram os teus grandes mestres do sax, além de teu avô, José Furtado? Assim que eu entrei na Escola de Música [do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo], eu tive o professor Cleômenes Teixeira, que chegou a dar aula lá, depois faleceu. Depois a Javandilma [Ferreira], peguei muita aula com ela, está em Recife agora. E teve Tomaz de Aquino, mestre Tomaz. Depois disso a convivência com meu avô e com meu pai, tocando em rodas de choro, música carnavalesca.

Você falou há pouco que participa de vários grupos dentro da universidade, entre eles o Quarteto de Saxofones. Eu queria que você falasse dos outros e mesmo de grupos de que você participou aqui em São Luís e participa lá em Belo Horizonte, fora do universo acadêmico. Lá dentro da universidade eu toco na Big Band, no Quarteto de Saxofones. Tem um grupo, em uma matéria em que a gente toca as músicas do Moacir Santos…

[Os chororrepórteres interrompem, espantados] Moacir Santos é uma matéria? Isso é sensacional! É. Tem dois anos que eu tou fazendo essa disciplina. São esses grupos em que eu trabalho dentro da universidade. E fora da universidade eu toco em banda de samba rock, Joãozito e A Parceria. Joãozito é o nome do cantor e o resto do conjunto é A Parceria. Também fazemos banda de baile. Tem um grupo instrumental, Os Oito, é bem recente, tem um ano agora, são seis sopros, três saxofones, um trompete, dois trombones, um baixo e uma bateria. A gente toca só música brasileira. No último evento em que a gente tocou Silvério [Pontes, trompetista] veio, tocou uma música dele, o grupo fez o arranjo para ele tocar, foi muito bacana. Lá em Belo Horizonte é isso.

E antes, em São Luís? De que grupos você participou? Em São Luís eu participei de bandas de forró, Fogo da Paixão, Cana com Uva, bumba meu boi, Osmarmanjos, Os Cinco Companheiros.

O que significou para você, como músico, tocar nOs Cinco Companheiros? Foi o primeiro grupo em que eu pratiquei o repertório de choro e samba. Isso me ajudou muito a pegar experiência como músico. Até meu pai, quando eu tocava, bem no começo, eu tocava só lendo partitura. E ele falou: “rapaz, tem que tocar de ouvido, se não tu vai ficar bitolado”. Aí eu fui desenvolvendo o ouvido. Me ajudou bastante.

Você acha que Os Cinco Companheiros acabou ou está de recesso? [Osmar do Trombone] Ele [o grupo] está adormecido.

[Osmarzinho] É, ele está de recesso, adormecido. Aqui [em São Luís] eu acho que o Clube do Choro ainda vai voltar a juntar a galera. Não pode deixar morrer. Tem que juntar os grupos, mesmo que não tenha retorno financeiro, nem que seja uma vez por mês, numa praça.

O que significou para você tocar neste disco [Cinco Gerações]? Achei muito importante. Pelo fato de eu ter saído para Belo Horizonte, eu já fui divulgar a nossa música, maranhense, como resgatar as coisas da minha família. Foi uma coisa que eu conquistei durante esse tempo que eu estou lá. É a realização de um sonho, não só meu, mas de meu pai também, da família toda.

[Osmar do Trombone] Fala do último dia 4 [de dezembro de 2013], que a gente foi homenageado lá no Palácio das Artes.

[Osmarzinho] No Palácio das Artes meu pai foi entrevistado. Eu fiz uma prova para ser bolsista de um grupo de choro do Palácio das Artes. A diretora do Palácio das Artes, Patrícia Avelar, deu oportunidade para cada componente, se tivesse uma música autoral, inserir no repertório. Eu peguei e coloquei uma música do meu pai, que é o título do cd, Cinco Gerações. Ela pegou e falou: “tu não quer fazer uma entrevista com teu pai? Contando a história das cinco gerações?” Eu topei na hora, marcamos os dias, coincidiu de meu pai estar lá na data. Ele deu a entrevista, falou sobre as cinco gerações, tocou a música. No dia 4 teve um show no teatro do Palácio das Artes, eles mostraram a entrevista no vídeo, aí eu chamei meu pai para tocar a música junto comigo.

Você falou de sua receptividade em Belo Horizonte, mas a gente percebe que teu pai também foi muito bem acolhido. Como você percebe, como filho, a chegada de teu pai na capital mineira? Antes de meu pai ir à Belo Horizonte eu já falava de meu pai: papai toca trombone, toca choro pra caramba. Ele foi lá e a primeira roda que eu levei foi lá no Mosteiro [bar, reduto chorístico da capital mineira]: “esse aqui que é meu pai”. “Ah, rapaz, tu trouxe teu pai mesmo. Tu vivia falando, agora eu quero ver”! Aí ele tirou o instrumento e mandou ver.

[Osmar do Trombone] Apareceram vários anjos da guarda lá, inclusive gente que patrocinou o cd.

Cinco Gerações foi tua primeira experiência de estúdio ou você já tinha feito outros discos? Eu já tinha gravado outras músicas em outros CDs, de amigos. Mas experiência de produzir um cd, é a primeira vez, assim. E não é muito fácil, não. Fazer arranjos, pensar um monte de instrumentos.

Por falar nisso, além de instrumentista, que outras habilidades você desenvolve na música? Eu gosto de interpretar, estudo pra isso. Composição tem um choro em que eu comecei a trabalhar. Faço arranjos, principalmente de sopro.

[Osmar do Trombone] Tem uma disciplina [de arranjo, na faculdade].

Você falou em discos de amigos nos quais gravou. Pode citar alguns? Gravei disco de vários estilos: brega, Tatau Matos, Fuzileiros da Fuzarca, Vagabundos do Jegue, Gabriel Melônio, Boi Brilho da Ilha, Boi de Palha. Basicamente foram esses.

O que é o choro para você? E qual a importância dessa música, na tua opinião? É um dos gêneros musicais que eu mais aprecio e mais tenho prazer em tocar, mais me satisfaz musicalmente. Apesar de eu tocar outros gêneros.

O choro é uma escola, para você? É uma escola. A gente pode pegar técnica, sonoridade, improviso. Se eu for escolher uma música para improvisar eu prefiro improvisar dentro do choro.

Osmarzinho, você se considera um chorão? Considero. Hoje eu me considero. Por essa jornada, esse mergulho que a gente deu. Hoje tenho uma identidade de chorão.

Em algumas rodas de choro, toda a experiência musical por que você passou, você foi levado por seu pai, suponho. Quando você faz isso com ele em Belo Horizonte, tem uma retribuição aí? Ele te apresentou ao mundo da música e você agora apresenta a ele a Minas da música. Tem. Até hoje eu tenho aprendido com ele. A gente nunca deixa de estar aprendendo. Todo dia a gente está aprendendo alguma coisa com alguém. Você tem um conhecimento, eu tenho outro, a gente troca e está sempre aprendendo.

Você viveu o choro em São Luís e agora vive o choro em Belo Horizonte. Dá para fazer um comparativo? As diferenças estão mais nas composições. As daqui vão puxar para o lado mais rítmico da região, eu já observei isso. Lá de Minas já puxa mais pro lado do congado, das danças mais tradicionais.

Você acha que a cultura popular influencia o choro tanto lá quanto aqui? Influencia muito. As células rítmicas, como têm aqui, no bumba meu boi, até as composições de meu pai, ele coloca algumas frases. Influencia bastante, está dentro da alma da pessoa, da cultura de cada região. Foi mais nesse aspecto que percebi.

Você acha importante atualizar o choro, renovar? Ou é importante ter as duas coisas: o tradicional e os inovadores? É importante renovar, mas com cuidado. Para não fugir da proposta que o choro passa. Às vezes as pessoas confundem tocar choro e inserir outros estilos dentro do choro, e começa a fugir um pouco da tradição do choro. Eu acho que não é muito interessante, não.

Você tem alguma influência do jazz no fazer musical, saxofonístico? Eu escuto mais jazz do que toco. Acaba que a gente pega uma influência, de tanto escutar. É como perguntaram para o Silvério Pontes: “você toca jazz?” E ele: “não, eu só escuto”. Chet Baker, Miles Davis, eu gosto de escutar, direto. Mas acaba que a gente vai absorvendo isso e a gente vai pegando umas frases naturalmente, sempre vêm. Não tem como deixar de ter [influência].

Os três anos que você está fora coincidem com o fim do [projeto] Clube do Choro Recebe. Você tem acompanhado a cena do Maranhão? O que você tem percebido depois disso? Em relação a cenário, comportamento de donos de bares e grupos, que não deixaram de existir, mas deixaram ao menos de se apresentar? Eu estou meio por fora. Quando as coisas estão acontecendo em um lugar, tem um movimento, a gente fica sabendo, logo de imediato, de um jeito ou de outro. Nunca mais eu ouvi falar nada de São Luís. Eu acho que está um pouco apagado, adormecido. Eu estava conversando com João Soeiro [violonista, integrante dOs Cinco Companheiros], ele disse que ia armar algo pra gente se encontrar.

Osmar, qual é a sensação para um pai, ver o filho fazer essa escolha e seguir a profissão do pai e ir além? [Osmar do Trombone, emocionado] Tu é doido? Sem palavras!

É motivo de orgulho? [Osmar do Trombone, chorando] Demais! Inexplicável, indescritível a emoção que a gente sente, de ver. Os outros filhos cada um seguiu uma profissão. Mas o filho que segue a profissão que você abraça, que você incorpora, a musicalidade. Isso aí é indescritível.

Reverberando na #Felis

Marcelino Freire voltou à Ilha. Premiado escritor, autor do ótimo Nossos ossos, entre outros, ministrou oficina de criação literária, pelo projeto Quebras, e de quebra participou da 8ª. Feira do Livro de São Luís.

Eu que sempre imaginei entrevistá-lo, acabei entrevistado por ele, baita honra e responsabilidade, para o quadro Reverbera, do Quebras. Outros personagens da cultura do Maranhão também foram entrevistados por ele, como Bruno Azevêdo e Celso Borges.

Confiram!

Obituário: Léo Capiba

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Neste domingo de finados a música do Maranhão amanheceu mais triste: perdeu o sorriso largo e fácil de Léo Capiba, falecido na noite de sábado (1º.), vítima de ataque cardíaco.

Cearense do Crato, radicado em São Luís há quase 30 anos, Capiba tinha 67 anos e chegou a adiar, por problemas de saúde, o show Desde que o samba é samba, anunciado para 17 de outubro passado.

O Regional Tira-Teima, que deve lançar em breve o disco de estreia, registrou duas composições suas: Pra ser feliz, dedicada à esposa Sandra Tavora, com quem teve três filhos, e Zona do agrião, que usa metáforas futebolísticas para falar de amor.

No disco Memória – Música no Maranhão, lançado em 1997, sob direção musical e arranjos de João Pedro Borges, Léo Capiba cantou e tocou pandeiro em Não vá deixar o samba da vila, do compositor madredivino Henrique Martiniano Reis, o Sapo.

Confiram o depoimento que Léo Capiba deu à série Chorografia do Maranhão em abril passado. Continue Lendo “Obituário: Léo Capiba”

Chorografia do Maranhão: Paulo Trabulsi

[O Imparcial, 22 de dezembro de 2013]

Titular do cavaquinho solo do Regional Tira-Teima, mais antigo grupamento de choro em atividade no Maranhão, Paulo Trabulsi é o 22º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Um cortejo natalino interrompeu a entrevista que Paulo Trabulsi concedeu à Chorografia do Maranhão, no ECI Museu, na Praia Grande. Titular do cavaquinho do Regional Tira-Teima, o músico atendeu a mãe ao telefone: “estou em uma entrevista. A Bia [filha do músico] está comigo”, a avó queria saber da neta, que atendeu outras ligações enquanto ele conversava com os chororrepórteres.

A conversa aconteceu à boca da noite de 17 de dezembro passado, ocasião em que esperávamos, todos, o recital de lançamento de João Pedro Borges – violonista por excelência, perfil de Sinhô [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013] escrito pelo jornalista Wilson Marques. Depois da conversa, Paulo Trabulsi, entre outros amigos, subiu ao palco em que o ex-integrante da Camerata Carioca desfilou um repertório que lhe marcou a trajetória, com participações especiais, além do entrevistado, de Serra de Almeida [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013], Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], Francisco Solano [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Juca do Cavaco, Ubiratan Sousa [multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], Chico Saldanha [compositor] e Simão Pedro Amaral [professor de canto da EMEM].

Filho do farmacêutido Sadi Ari Ericeira e da contadora Mary Trabulsi Ericeira, Paulo César Trabulsi Ericeira nasceu em São Luís em 28 de novembro de 1957. Funcionário da Caixa Econômica Federal desde 1979 sempre conciliou o ofício de bancário com o de músico – com a segunda profissão gasta parte do dinheiro que ganha na primeira.

Paulo Trabulsi cursou até o nono período de engenharia mecânica e, por força do trabalho no banco, estudou processamento de dados.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Como era o ambiente musical na casa, na família? Se praticava música, se ouvia, ou ambas as coisas? Era um ambiente em que se ouvia muita música. Meu pai tinha um gosto musical extremamente apurado. Eu nesta época, muito jovem, cinco, seis anos de idade, nessa época o que papai ouvia era jazz americano e muito choro. Música instrumental de modo geral. Papai tinha a coleção completa de Jacob do Bandolim. Então, eu ouço Jacob, tá impregnado na minha cabeça…

Mais do que Waldir Azevedo? Mais do que Waldir Azevedo. Desde muito jovem. Então eu cresci escutando isso.

Jacob, para você, acaba sendo uma referência, mesmo você sendo cavaquinhista e ele bandolinista. Tenho muito mais referência no som de Jacob, que eu ouvi muito mais. Embora papai também tivesse discos de Waldir Azevedo.

E sua mãe? Mamãe só apreciava, mas não tinha esse gosto musical apurado. Ela era muito orgulhosa de nós filhos, eu e Sadi, meu irmão, dos cinco filhos nós ficamos com essa veia musical. Mamãe tinha prazer de nos ver aprender a tocar alguma coisa.

A partir de quando você se interessou por aprender música? Desde muito jovem, seis, sete anos de idade, mamãe comprou um violão e eu comecei a aprender sozinho, observando. Era uma musicalidade muito grande. Eu me recordo que papai levava a gente para aqueles bailes de carnaval no Lítero, e eu ficava o baile inteirinho olhando pra banda tocar. E na época, depois eu vim descobrir, o guitarrista da banda era o Agnaldo Sete Cordas [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013]. Eu ficava hipnotizado por aquele senhor tocando aquela guitarra, tão melodiosa, tão harmônica. Tempos depois, a gente se identificou: “eu me lembro de ti, tu não era aquele gordinho que ficava ali na frente?”

Você teve algum estudo formal de música ou sempre foi autodidata? Tive depois. Depois eu fiz violão clássico aqui na Escola de Música [do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo].

Hoje você é reconhecido como um de nossos principais cavaquinhistas. Como se deu a passagem do violão para o cavaquinho? O cavaquinho apareceu depois, eu vendo alguém tocar, eu acho que foi o Carvalhinho [Trabulsi atende a mãe ao celular]. Nessa época eu conheci Juca, Vadeco [cavaquinhista do grupo Espinha de Bacalhau] e nós praticamente começamos juntos. Vadeco já tocava e era o cara, já solava coisas de Waldir Azevedo e nós não sabíamos nada. Ele foi aquela fonte de inspiração pra gente.

Isso era que ano? Isso foi 1974, 73. Eu já me dou com Juca e com o irmão dele há muitos anos.

Quem você considera seu grande mestre do cavaquinho, quem mais te ensinou? Eu aprendi a tocar cavaquinho escutando Waldir Azevedo. Botava o vinil de Waldir Azevedo, nessa época não tinha cd, não tinha nada. Agora tu imagina aprender a tocar Brasileirinho, naquela velocidade que ele tocava, num disco de vinil. Ia voltar um pedacinho era um sofrimento, tira o braço, “perdi”, volta de novo, foi desse jeito. Eu aprendi a tocar dessa forma. Nessa época a gente fazia umas rodas de choro aqui na [rua de] São Pantaleão, tinha Magno Frias, com Ricardo Frias, o próprio Juca do Cavaco, Vadeco, Cotia. Foi dessa forma que eu comecei minha carreira de chorão. Um belo dia o professor Ubiratan, maestro Ubiratan, me encontrou tocando numa dessas rodas. Tinha aberto uma vaga no Regional Tira-Teima, que já existia e eu nem sabia. Era justamente a vaga que o [jornalista e compositor] Cesar Teixeira ocupava como cavaquinhista e saiu, por um motivo que eu não sei qual foi. Eu estava bem no começo e fui chamado para fazer uma espécie de experiência. Esse ensaio foi marcado para a casa de Ubiratan, na São Pantaleão. Outra figura importante, eu não posso deixar de falar, foi Joacilo [Frota], me deu muita noção harmônica de samba e choro.

Você conviveu com Juca na Rua do Norte e foi chamado para um ensaio na casa de Ubiratan na São Pantaleão. Você morava onde, nessa época? Aqui pelo Centro, também? Não. Até hoje mamãe mora no mesmo local, na Rua Silvio Romero, no Retiro Natal. O ponto de referência era a estação do bonde, onde ficou a Cobal, o Horto. Juca eu conheci no [Colégio] Marista.

Ali por perto da casa de seu Vieira [o falecido compositor Antonio Vieira, percussionista da primeira formação do Tira-Teima]. Exatamente, na mesma rua de Vieira. Eu cresci com Antonio Vieira por ali, influência musical. Pois bem, primeiro ensaio. Eu chego lá já encontro as feras formadas: Adelino Valente no bandolim, Ubiratan no violão de seis cordas, Fernando Cafeteira no outro violão, Chico Saldanha no outro violão, Antonio Vieira, percussão, Arlindo Carvalho [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de agosto de 2013] numa outra percussão e Hamilton Rayol, cantor. Se não me falha a memória eles tocaram Noites cariocas [de Jacob do Bandolim]. E eu todo atrapalhado, só via as cabeças balançando assim negativamente. “Me lasquei, não vão me querer aqui” [risos]. Por que realmente eu não sabia nada. Mas ali naquele momento eu vi que minha identidade com a música era aquela coisa ali. Era aquela coisa: daqui eu não saio.

Quer dizer: mesmo errando você se sentiu em casa. Quer dizer: uma chance para aprender. A minha vertente musical é essa. Eles estavam muito na frente, eu estava começando. Mas rapidamente eu me dediquei, estudei. Passado algum tempo eu já estava no nível deles. Quer dizer, não no nível deles, Ubiratan é um cara… mas a minha evolução foi muito rápido.

Teus pais sempre apoiaram? Nunca teve uma reprimenda, “meu filho, vai procurar outra coisa pra fazer”? Sempre apoiaram. Nunca! Ainda falando sobre o Tira-Teima, por que a minha história se confunde com a do Tira-Teima. Daí pra frente, tudo foi Tira-Teima. Então, até 79 este grupo existiu com essa formação, depois entrou [o percussionista] Carbrasa, se não me engano, Jorge Cotia, eles botaram como uma forma de me tirar [risos], mas não me tiraram, Jorge Cotia tocava cavaquinho. Em 79 eu entrei na Caixa e logo em seguida me jogaram pro interior, pra Bacabal. Ubiratan foi embora pra São Paulo junto com Chico Saldanha. Quando eu voltei em 82 o Tira-Teima já não existia nessa época, estava esfacelado. Aí eu fiz parte do Regional Alma Brasileira, que era [o bandolinista] César Jansen, [o violonista] Natan, o próprio Fernando Cafeteira e Carbrasa. Esse grupo durou mais ou menos um ano. Logo em seguida eu conheci Serra de Almeida, em 84, e nós fundamos essa nova versão do Tira-Teima. Aí foi Serra de Almeida, Gordo Elinaldo [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 27 de outubro de 2013], Zeca do Cavaco [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013], Carbrasa, que depois saiu e entrou Zé Carlos [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 10 de novembro de 2013]. Anos depois saiu Gordo pra entrada do Solano, que é a formação que se mantém até hoje. Mas a gente tem contato com todo mundo, Adelino Valente é nosso amigo, Arlindo Carvalho está sempre com a gente. Inclusive a gente está gravando, finalmente, nosso primeiro disco e a ideia é tê-los como convidados.

O que significou para você ter participado do antológico Lances de Agora [disco gravado em 1978 na sacristia da Igreja do Desterro, em São Luís], de Chico Maranhão? Lances de Agora foi um divisor de águas muito importante. Eu ter participado deste disco foi uma coisa extremamente importante na minha carreira musical. Foi o Regional Tira-Teima com a participação de Sérgio Habibe [o compositor tocou flauta em Lances de Agora], [o compositor] Ronald Pinheiro, bandolim, e mais uns dois percussionistas, cujo nome não lembro agora. Pitoco, no clarinete. Foi extremamente importante pra mim. Foi o primeiro disco de que eu participei. Depois eu participei de outros.

Lances de Agora, pelo fato de ter sido gravado em uma igreja, é ainda um disco mais comentado que ouvido. Este ano ele e Bandeira de Aço [disco lançado por Papete em 1978] completaram 35 anos e nós vimos festividades aqui e acolá para celebrar Bandeira de Aço, que é muito importante e merece, mas nem se ouviu falar em Lances de Agora. É um disco também do catálogo da [gravadora Discos] Marcus Pereira, mas que ao contrário de Bandeira de Aço, sequer chegou ao formato digital, não teve reedição em cd. A que você acha que se credita o desinteresse, o quase completo esquecimento e o que poderia ser feito para mudar este quadro? Do ponto de vista musical não existe razão de Lances de Agora ser preterido junto a Bandeira de Aço. A qualidade musical, o disco é bom de A a Z, composições belíssimas de Chico Maranhão. Velho amigo poeta, Meu samba choro, Ponto de fuga, Cirano [faixas de Lances de Agora]. Realmente eu não sei te responder. Musicalmente este disco tem uma qualidade muito grande. Tem uma importância muito grande para o cancioneiro popular do Maranhão.

Você podia lembrar um pouco o clima das gravações? Era um aparelho pequeno, tipo rolo de fita daqueles carretéis. Todo mundo gravando simultaneamente, não tinha aquela história de cada um gravar a sua. Errou, todo mundo começava de novo.

Essa pergunta pode soar óbvia, boba até. Mas tem que ser feita: o que significa o Tira-Teima para você? O Tira-Teima é minha vida musical toda. A minha vida musical está mesclada e fundida com o Tira-Teima. É a minha referência musical, foi o que eu fiz a vida inteira.

Se o grupo deixasse de existir você certamente sentiria muito. Iria sentir muita falta. Eu passei uma época da minha vida sendo violonista, acompanhando cantores e compositores. Mas a minha vida musical, a minha identidade musical é o Regional Tira-Teima, regional de choro. É um amor à primeira vista, um encantamento mesmo.

A que você credita tanta demora para definir a feitura do primeiro disco? Já são 40 anos do Regional. Foi problema interno do grupo, de como seria feito, se as músicas teriam arranjos próprios, se a gente ia delegar. Por falta de consenso, as coisas foram atrasando, atrasando. Ainda um dia desses falávamos sobre isso: uma vertente do grupo defendia que os arranjos deveriam ser arranjos próprios, e a outra que contratássemos arranjadores para fazer. Isso tudo atrasou o projeto, mas agora já está em andamento.

E o que ficou definido, no final das contas? [Risos] Ficou definido o meio termo: a metade o arranjador, que Ubiratan já fez, e a outra metade arranjos do grupo.

Mas o disco está andando. Já está tudo fechado: repertório, participações especiais? O disco está andando. Já estamos em estúdio, Gordo Elinaldo é nosso guru.

O que significa para vocês a participação do Ubiratan neste disco, já que ele foi um dos fundadores do grupo? Eu acho extremamente pertinente justamente por este motivo: pelo fato de ele ter sido fundador do grupo. Ele participar dessa forma é fundamental.

Uma volta às origens, já que o convite é também uma forma de homenageá-lo, mas com o pé no futuro, na medida em que vocês devem trazer um repertório, ao menos parte dele, inédito e autoral. Exatamente. E quase todo formado por músicas de autores maranhenses.

O que vai ter? Podes adiantar? Tem três choros de Serra de Almeida, Dom Chiquinho, Imbolada e Choro Nobre. Tem dois choros meus, Gente do Choro e Meiguice, um choro que eu fiz para minha filha. Gente do Choro vai ser cantada por Zé Carlos. Tem Companheiro, que é um choro meu e de Solano. Tem uma valsa que João Pedro fez pra Serra, chamada Simples como Serra. Tem duas músicas de Léo Capiba. Tem uma música chamada Apelo, que a gente descobriu que é de Nhozinho Santos. Até então a gente dava como autor desconhecido, Ubiratan foi quem descobriu que é dele. E tem dois choros na forma, que a gente está terminando de fazer para entrar no disco.

Como tem sido, ao longo de todos estes anos, conciliar a atividade musical com o ofício de bancário? Não foi tão complicado, por que o expediente no banco é de segunda a sexta, em horário bancário, das 10 às 16 [horas]. As atividades musicais geralmente são à noite ou em fins de semana. E os ensaios também à noite. Eu não tive grandes problemas em conciliar as duas atividades. Salvo quando pintava uma viagem para fazer show, aí ou eu conseguia uma folgazinha ou não ia.

Além de Lances de Agora, de que outros discos você participou? Fiz um grupo chamado Canto de Rua, uns rapazes que tocam samba, fiz Joãozinho Ribeiro [o inédito Milhões de Uns, gravado ao vivo no Teatro Arthur Azevedo], fiz Cabeh [Esquina da Solidão, lançado postumamente], produzi e gravei o disco de Anna Cláudia [cantora paraense radicada em São Luís, com quem Paulo Trabulsi foi casado], fiz Cesar Teixeira [Shopping Brazil, 2004], Serrinha [e Companhia, grupo de samba e pagode] com Tributo a Zé Hemetério e Das cinzas à paixão [faixas de Na palma da mão, de autoria, respectivamente de Gordo Elinaldo e Cesar Teixeira]. Memória [da Música do Maranhão, disco coletivo que registrou a obra de vários compositores da velha guarda], Antonio Vieira [O samba é bom, 2001]. Estou participando agora do disco de Gordo Elinaldo, já gravamos.

E shows? O de Carlinhos Veloz [Sobre Cordas, apresentado no Teatro Arthur Azevedo] foi muito importante, eu tenho a filmagem lá em casa. Foi um negócio emocionante, o regional tocou, foi super aplaudido. O de Turíbio Santos, João Pedro Borges. Nós participamos com duas atrações internacionais, Jerzy Milewski, um violinista polonês, que tocou com a esposa dele, Marcelo Bratke, um pianista, o Tira-Teima tocou com ele. E shows com vários artistas maranhenses, Fátima Passarinho, Lena Machado, Alberto Trabulsi, Anna Cláudia, Zeca Baleiro, foi realmente muita gente. Com Antonio Vieira nós fomos a São Paulo, fizemos Sesc. Participei de quatro festivais da Fenai, a Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa. Inclusive Gente do Choro foi de um festival em João Pessoa, na Paraíba.

Entre estes shows de destaque você incluiria o Recital de Música Brasileira, com João Pedro Borges e Célia Maria? Sim. Foi um show importantíssimo, em que participamos eu, Celson [Mendes, violonista], o pandeirista Lazico. Foi sucesso, um trabalho para mim extremamente importante. Teve uma coisa interessante [risos], eu participando de um dos encontros da Escola Portátil de Choro, eu fui lá como aluno de Luciana Rabello e tava lá no aulão dela. E um dos alunos, um rapaz bem jovem, me viu e me reconheceu: “o senhor não estava naquele show da TV Senado, acompanhando João Pedro Borges?” “Sou eu”. “E o quê que o senhor está fazendo aqui?” [risos]. Eu achei graça, “rapaz, eu tou aprendendo junto com vocês”.

O que é o choro? Qual a importância dessa música? O choro tem aquelas explicações históricas do choro, que derivou das polcas, mazurcas, schottisches europeias e se fundiu com os ritmos africano, os lundus da vida, e a coisa, o choro é um produto que vem evoluindo, vem em transformação. No início da história do choro, Chiquinha Gonzaga, Antonio Calado, todo choro era maxixe. De Pixinguinha pra cá a coisa tomou outra forma, aí que colocaram pandeiro no choro e virou o que é, como é tocado hoje. Mas se você notar, está o tempo todo em transformação. Essa nova geração de chorões já está dando outro tratamento, a música vem evoluindo, vem se transformando ao longo dos anos. É um organismo vivo.

Você se considera um chorão? [Rápido e enfático:] Eu sou um chorão!

Curso de museologia e curadoria lança Projeto Goeldi em São Luís

Com 40 horas, incluindo atividades práticas, curso começa hoje (22) e acontece até sexta-feira (26), no Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho

Lani Goeldi ministrará curso em São Luís. Foto: divulgação
Lani Goeldi ministrará curso em São Luís. Foto: divulgação

 

Tem início hoje (22) – e segue até sexta-feira (26), no Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho (Rua do Giz, Praia Grande) – um Curso de Museologia e Curadoria da Arte, ministrado por Paulo Vergolino, museólogo, curador de arte e produtor cultural independente, e Lani Goeldi, curadora de arte e gestora cultural.

O curso lança, em São Luís, o Projeto Goeldi, uma série de atividades em comemoração pelos 120 anos do artista, que os completaria em 2015. Na Ilha o curso tem produção da Bureau Cultural e percorrerá outras cidades do país.

O curso “tem carga horária de 40 horas e é voltado para profissionais que já atuam ou desejam atuar em instituições culturais públicas e privadas, de patrimônio material, preservação da memória, montagem e supervisão de exposições de arte, execução e revisão de catálogo de exposição, crítica, arquitetura e colecionismo, entre outras atividades”, informa o material de divulgação. São 50 vagas, com investimento de R$ 300,00.

Sobre a atividade, por e-mail, Lani Goeldi, sobrinha-neta do artista plástico, gravurista e professor Oswaldo Goeldi, conversou com este blogue com exclusividade.

Você tem um currículo invejável e traz um sobrenome importante para as artes no Brasil. Qual o peso de ser uma Goeldi? Bem, a principio não acredito que haja um “peso”, no real sentido da palavra, há sim uma enorme responsabilidade em fazer jus aos que meus antepassados fizeram, tanto meu bisavô Emilio Goeldi, como Oswaldo Goeldi, seu filho. Porém, existem outros que também tiveram feitos e ações incríveis e não foram tão glorificados assim, como Adelina Goeldi, esposa de Emilio, que muito embora sua família tenha sido uma das mais ricas do país, se preocupava demais com os menos favorecidos. Outro membro importante foi Walther Eugenio Goeldi, irmão mais velho de Oswaldo que foi um brilhante arquiteto. Enfim, tantos feitos que seria impossível detalhar. Mas, o mais importante eu acredito, é enfatizar não os feitos e aptidões de cada um, mas sim, as ações, o caráter, suas verdades e seus conflitos. Foi assim que me apaixonei por este trabalho, buscar e pesquisar infinitamente o que todo mundo gostaria de saber: o lado humano de cada um.

Há algum tempo um movimento vem transformando os museus em organismos vivos em vez de meros “depósitos de coisas velhas”. Qual a importância desta mudança na postura destas casas em tempos hipertecnologizados, em que qualquer acervo pode estar disponível em alguns toques na tela de um celular, por exemplo? Os museus foram fundados baseados em coleções particulares e que não eram abertas para o público. Isso se deu por volta do século XVIII, com a revolução Francesa. No século XIX estas casas começam a pipocar pelo mundo inteiro com a pretensão de reterem o conhecimento do mundo. Muito poucos conseguiram – as lacunas são graves e às vezes bem visíveis. Como é o caso do MASP – que não tem até hoje uma Tarsila do Amaral digna daquele Museu. Em relação às mudanças, acredito que sempre serão bem vindas. Acredito que um Museu que apenas se preocupa com o passado – FECHA!  [grifo da entrevistada] Ou tende a ficar ultrapassado. Museus que não se preocupam em se modernizar estão fadados ao esquecimento e serão comidos pela poeira do tempo. Porém, é importante dizer que não há recurso algum que substitua a visita a uma instituição. Ver o objeto não tem preço e tecnologia tem que ser usada como material de apoio e não como forma de substituição do acervo museológico em si.

O curso de museologia e curadoria de arte, que será ministrado por você e por Paulo Vergolino integra uma gama mais ampla de ações que celebram os 120 anos de Oswaldo Goeldi, seu tio-avô. É aberto não somente a quem já é do ramo, mas também a quem pretende nele ingressar. Como você resumiria a importância deste momento formativo? Vejo como forma de inclusão. Possuímos uma defasagem imensa no que diz respeito à Educação nesse país. Todo tipo de forma de educar a população, é sempre bem-vinda, válida e justa – Educação não tem preço e é a única coisa que ninguém pode lhe tirar. Portanto, nosso Curso está voltado a todos os públicos, formatado por profissionais que de longa data se dedicaram num trabalho de imersão dentro da arte. Além de enfocar um assunto que poucos dominam, talvez pela falta de conhecimento. Nosso intuito é levar conhecimento para o bem dos profissionais de todas as regiões do país, principalmente para fora do eixo Rio-São Paulo, um pouco de nossa experiência e compartilhar nossos conhecimentos, para que esta fonte seja utilizada e canalizada de uma forma correta honesta e assim que possam seguir em frente. Se isso vier a acontecer já estaremos felizes.

O curso prevê uma atividade prática em grupo. Em que consiste? Sim – esta é uma atividade prevista pelo professor Paulo Vergolino, museólogo de formação,  uma visita a um Museu da cidade onde o curso será sediado. No caso de museologia, veremos da prática como ocorre a museologia em um museu vivo. Como se dá a importância em se ter um museólogo cuidando do acervo. E se este museu não tiver um profissional em seu quadro de funcionários, o que pode ser feito para que este quadro mude no futuro.

O mercado de arte tem para onde crescer no Brasil? Quais as perspectivas para os próximos 10 anos? Isso é uma pergunta difícil – saibamos que arte sempre foi artigo de luxo. E esteve sempre vinculado a quem tem muito dinheiro. O que posso dizer é que Arte ainda vai continuar existindo.  Porém, prever como o mercado de arte vai reagir e tendenciar as vendas, isso é bem complicado. As casas de leilões ainda estão aí e os galeristas continuam com suas galerias em atividade. O que quer dizer que a demanda existe. Segundo o último Congresso de Art Market, promovido pela Universidade de Zurich, as perspectivas continuam em ascendência principalmente em relação aos artistas brasileiros. Devemos lembrar que Arte também é moda, artistas sobem as suas cotações e descem conforme o mercado dita. Mas a Arte aqui no Brasil ainda é só para brasileiros. Os mercados internacionais ainda estão descobrindo e engatinhando sobre o Brasil. Vale lembrar que o Brasil é um país muito novo e, portanto, tem muito que caminhar para se fazer conhecer e ser respeitado lá fora. Afinal, acredito que somos mais que futebol e carnaval.

A usurpação e o banditismo sempre estão presentes em retratos de mercados de arte em obras de ficção. O que há nisso de próximo com a realidade? Bem, em se tratando das obras, vivemos assolados de obras falsas – principalmente de artistas consagrados. Entre os mais famosos estão Volpi, Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Tarsila, incluindo Goeldi, entre outros. A única saída para esse problema é a descoberta e prisão dos falsários. E consequentemente a destruição em massa do que é falso. A formação de uma polícia e de profissionais que possam atuar nessa área é fundamental para coibir essa prática. No que tange a exploração da temática exploratória da escória humana, sabemos que tudo que sempre transgrediu a sociedade é o que realmente chama atenção, inclusive daqueles que muitas vezes não tem coragem de transgredir, e aí veem na obra de arte um meio de abraçar determinada causa ou ideia. Creio que isso sempre existiu, em toda história da arte, haja visto que muitos artistas foram guerreiros, homossexuais, bêbados, adúlteros, loucos, etc. Pessoas muitas vezes viveram à  margem da sociedade e que mais tarde vieram a ser reconhecidos por seus pelos trabalhos.

Qual a sua opinião sobre o Museu da Memória Republicada, instalado no Convento das Mercês? É um típico exemplo do patrimonialismo e culto à personalidade, um prédio enorme, cheio de objetos pessoais do senador José Sarney, ex-presidente da república. Bem, é uma situação complicada – até porque museus produzidos para abrigar acervos particulares ou para homenagear alguém são práticas até comuns no mundo, lembremos, por exemplo, o que se formou a volta do Túmulo de Napoleão em Paris. Muito já ouvi falar deste museu, será agora que terei a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, bem como seu acervo. Mas como museu baseado neste contexto, só o tempo poderá nos dizer como ele caminhará, afinal ele foi constituído há bem pouco tempo.

No Maranhão diversas obras de arte outrora públicas enfeitam residências de particulares. Qual a importância destas obras serem devolvidas à visitação pública? O professor Paulo Vergolino, uma vez ouviu dizer que “esse país não tem jeito” – está assolado e atolado por um desgoverno que só pensa em si e em encher o seu bolso e de seus descendentes. Minha avó, Josepha Goeldi, cunhada de Oswaldo Goeldi, era de São Luís/MA, filha de um seringueiro e uma índia, porém conseguiu ser professora. Acreditava que a conscientização dos atos de um ser humano era tudo para a formação de seu caráter. E baseado nestes valores é que iniciamos, a partir do acervo documental que ela guardou, a Instituição que somos hoje, criada há mais de 10 anos. Porém, com o acervo de Goeldi não foi diferente, com a instituição do Projeto Goeldi, moralizamos o mercado e inclusive a conscientização dos colecionadores. Acreditamos que não adianta nada possuir uma obra de arte tão valiosa e tão difícil de adquirir, guardar por anos a fio, sendo que não se tem certeza se nossos filhos ou netos terão a mesma consideração ou mesmo gosto para preservá-la da mesma forma. A saída para essa situação em minha opinião é apenas uma – EDUCAÇÃO DE QUALIDADE [grifo da entrevistada]. Um povo educado e bem instruído nestas proporções não deixa que isso aconteça. Os museus têm que ser palco da educação e estar a serviço do povo e suas coleções são parte desse legado. Para nós, profissionais da área, resta fazer acontecer. Não será fácil, mas temos que nos unir e pressionar quem ocupa o poder para que essas práticas mudem. Se houver vontade haverá já um começo.

Filosofia na tela

[Vias de Fato, agosto/2014]

Nota do blogue: a convite de Dida Maranhão, com quem já tinha trabalhado quando assessorei Lourival Tavares, fiz a assessoria de comunicação para o lançamento do filme O camelo, o leão e a criança, do diretor paranaense radicado no Maranhão Paulo Blitos. Conversei com ele antes de ver o filme (tinha visto apenas um trailer), embora a entrevista só tenha sido publicada depois da sessão de estreia. Por isso, por exemplo, não aparecem, nem no texto de abertura, nem na entrevista, qualquer elogio à sublime trilha sonora, de autoria de Joaquim Santos, expert nisso, ou qualquer opinião sobre o filme, bem feito e bonito, embora me incomodem as cenas de making of integradas à trama.

Vias de Fato entrevistou o ator e diretor paranaense Paulo Blitos, que acaba de lançar O camelo, o leão e a criança, seu primeiro longa-metragem. Filme está em cartaz nos Cines Praia Grande e Lume

O ator e diretor durante a entrevista no Cafofo da Tia Dica. Foto: Zema Ribeiro
O ator e diretor durante a entrevista no Cafofo da Tia Dica. Foto: Zema Ribeiro

POR ZEMA RIBEIRO

A sinopse de O camelo, o leão e a criança, primeiro longa-metragem do ator e diretor paranaense Paulo Blitos, 60 anos, fala em “espantoso, estranho e inusitado, tal como se inserem, de modo geral inadvertidos, no curso da vida cotidiana”.

O filme mescla a história de vida de seus três personagens à tipologia do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, encontrada no capítulo Das três transformações, de seu clássico Assim falava Zaratustra.

Com uma peça de teatro, alguns curtas e uma aposentadoria na bagagem, o ex-engenheiro chegou à São Luís há pouco mais de um ano, para realizar o filme, e acabou morando.

Em cartaz nos Cines Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande) e Lume (Edifício Office Tower, Renascença), O camelo, o leão e a criança teve sessão de estreia no último dia 21 de agosto, no primeiro. O filme foi rodado entre o Paraná (Curitiba) e o Maranhão (São Luís, Morros e Santo Amaro).

No Cafofo da Tia Dica, por detrás da livraria Poeme-se, na Praia Grande, o diretor conversou com o Vias de Fato sobre o filme e sua trajetória, do Paraná ao Maranhão, desde a engenharia até o cinema.

Paulo Blitos em cena de “O camelo, o leão e a criança”. Frame do vídeo. Reprodução

 

Como surgiu a ideia de um filme com essa tipologia nietzschiana? O camelo, o leão e a criança é retirado da tipologia do Nietzsche. Eu peguei a tipologia e tentei observar se isso acontecia nas histórias de pessoas. O filme é baseado em histórias reais. Tem três personagens centrais. Um personagem, que é a linha mestra do filme, que é um professor [interpretado por Paulo Blitos], a história é baseada em minha história.

Como o cinema entrou em sua vida? Eu sou engenheiro de formação. Trabalhei 30 anos em uma empresa, comecei como engenheiro, fui gerente, depois de cerca de 15 anos, larguei tudo [as atividades de engenharia e gerência], e fui trabalhar com treinamento, dentro da própria empresa. Larguei mão da engenharia, como eu digo “eu fui engenheiro”. Fui trabalhar com treinamento, a coisa da implantação da Qualidade Total, naquele tempo. Teve um gerente de área que bancou e eu fui trabalhar na área operacional. Nessa empresa eu me aposentei. Lá eu comecei a me envolver com arte, fui fazer curso de teatro para fazer treinamento. Foi através do curso de teatro, que eu fiz com um rapaz [Mauro Zanatta], que inclusive é um dos atores que está fazendo o trabalho [de O camelo, o leão e a criança] agora com a gente. Eu levei o teatro para dentro da organização, isso foi inovador, nessa área, nas empresas, em Curitiba.

Qual era a empresa? A Copel, uma empresa do setor elétrico [patrocina o filme, através da Lei de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura]. É uma empresa renomada em termos de treinamento, sempre contratando pessoas para fazer treinamento, mas não tinha essa coisa do teatro, da arte. Eu fui fazer teatro para aprender e acabei levando para dentro da empresa, montamos um grupo de teatro. Daí a arte começou a entrar em minha história. Nessa época eu já estava largando a engenharia, e buscando coisas mais filosóficas, estudava Física Quântica, Filosofia, eu gostava de usar isso dentro do treinamento, não ficar naquela coisa muito mecanicista, muito cartesiana. Então fiz esse curso que me ajudou. Sempre li bastante. Eu lia Nietzsche com 17 anos. Não entendia nada. Mas eu adorava! [risos]. Muita gente passou por essa experiência. Eu sempre gostei de Filosofia, mas acabei enveredando por outro caminho. Depois eu voltei, mas queria aplicar isso, não ficar só no hobby.

E sua carreira de ator e diretor? Houve uma carreira para além das atividades na empresa? A primeira atuação foi em 1999, no teatro. Eu comecei com treinamento em 1994, com esse rapaz, fiz um curso em Curitiba, para poder dar os cursos que eu dava na empresa. Ele me criou, digamos assim, foi o primeiro professor de teatro que eu tive. Ele me preparou para a questão da interpretação, e até hoje. Eu tive um trabalho premiado em um festival no sul, em Pinhais [no Paraná], Tuareg [exibido dia 16 no Cine Praia Grande, em sessão seguida de debate com o ator], curta-metragem rodado nos Lençóis [Maranhenses]. É um monólogo, eu ganhei o prêmio de melhor ator nesse festival. O teatro foi minha entrada como ator, fiz uma peça só, no circuito externo, o resto trabalhei mais na empresa, fazia algumas esquetes com atores que trabalhavam comigo. Eu me dedicava mais à empresa, acabei não me dedicando muito a uma carreira de ator. Sempre tive uma coisa de buscar, gosto quando tenho uma participação também na construção do texto. Essa peça que a gente fez, a gente fez muitas conversas sobre física quântica, espiritualidade, daí saiu o roteiro. Eu sempre procuro me envolver com o tema dos trabalhos que eu faço, no teatro e agora no cinema. Eu tenho que estar sentido, o afeto tem que estar presente. Eu fiz um curta que era de um amigo meu [Jul Leardini], parceiro no teatro, ele fez o roteiro de minha primeira peça, foi diretor, é codiretor desse filme [O camelo, o leão e a criança]. Ele ia ser o diretor, se o filme fosse rodado em Curitiba, mas como eu trouxe o filme para cá, eu assumi a direção, por uma contingência.

Você está morando em São Luís? Sim. Há um ano. Vim para São Luís fazer o filme, precisei ficar e gostei de ficar.

Fale um pouco das locações do filme. O filme foi rodado em Curitiba, São Luís, Lençóis, em Santo Amaro, e Morros. Em Curitiba nós fizemos algumas cenas internas, quase não aparece a cidade, e algumas cenas no campo, área rural, não dá para saber que é Curitiba. São Luís dá para saber que é a cidade, as cenas externas caracterizam bem a cidade.

De sua aposentadoria para o teatro e cinema foi um salto automático? Quando eu me aposentei, fiquei parado um tempo, fiz palestras fora, não estava mais querendo ficar na área organizacional. Primeiro fizemos um curta, não deu certo. Desenvolvemos o roteiro juntos, eu e esse meu amigo que era meu diretor, o Jul Leardini, na época nós nos juntamos, tinha uma outra pessoa, uma mulher que era minha companheira na época, e a gente fez o roteiro. Umas discussões, umas conversas dos três, questões filosóficas, existenciais, fizemos as filmagens. Foi em 2009, meu início no cinema foi em 2009, é recente. Eu me aposentei em 2008. Ele estava fazendo o curso de cinema em Curitiba, achamos um câmera interessado, mas não deu certo. A ideia do filme foi legal, mas o filme não chegou a ser concluído. Tem baixa resolução, a gente não quis nem colocar no youtube. Está parado, não foi concluído. Em 2011 começamos um segundo, com o mesmo pessoal, mudamos os câmeras. Pegamos a produtora que hoje está aqui comigo. Fizemos um curta chamado Ser lacerante, concluído no final de 2012. E fizemos uma animação, um curta, super oito, tem um festival de super oito em Curitiba, é super curta, tem três, quatro minutos. Este foi premiado e o roteiro é meu.

Filmes curta-metragem ainda têm uma vida muito restrita ao circuito de festivais. Qual a vida de teus filmes, em termos de exibição? Ser lacerante é um filme pesado, não foi selecionado por festivais. Esse de super oito foi feito para o festival. O terceiro foi Tuareg, para um festival em Taguatinga [no Distrito Federal] e para Pinhais, onde teve essa premiação. Curta no Brasil basicamente é festival. Hoje alguns canais, o Canal Brasil, parece que começam a exibir. O Tuareg não foi selecionado aqui no Guarnicê [festival de cine-vídeo].

E o processo de financiamento de tuas obras? O Tuareg eu banquei. Os outros foram feitos em cooperativa. Ser lacerante, que foi concluído, o que não foi concluído também. Cada um dá seu trabalho e se acontecer alguma premiação a gente divide. Em Tuareg nós gastamos cerca de 10 mil. Para O camelo, o leão e a criança captamos 80 mil de 277 mil. É um filme com uma proposta, uma linguagem mais artística, não tão convencional, não tão linear, hollywoodiana. A ideia é trabalhar muito com zoom, com luz, trabalhar com close, conseguimos um orçamento mais em conta [o filme tem patrocínio da Copel, através da Lei de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura].

Voltando à São Luís: como foi a decisão de fazer o filme aqui? Eu e minha produtora estamos juntos desde o começo [o início de sua carreira]. Eles [parte da equipe de produção do filme] vieram para cá em maio do ano passado, morar. Eu vim visita-los em junho, tínhamos uma ideia de fazer alguma coisa, um texto que eu tinha, que acabou gerando o Tuareg. Fomos para os Lençóis conhecer e acabamos filmando em cinco dias. Eu já tinha mandado o projeto [de O camelo, o leão e a criança] para a Lei Rouanet, aprovamos no final de 2012. Quando eu estava aqui, em junho, visitando-os, saiu a notícia de que havíamos sido contemplados com 80 mil, um terço do valor pedido. Estávamos aqui, eu e a produtora. A ideia era fazer o filme lá, o Jul ia ser nosso diretor. Daí resolvi vir para cá e fazer aqui. Apostamos nisso, viemos para cá, trouxemos tudo o que precisávamos. Vim fazer o filme e fui ficando, experimentei morar. O resultado foi o filme, vou lançar o filme em Curitiba também.

Gostaria que você comentasse um pouco do elenco e das personagens. Mauro Zanatta, que foi meu professor, interpreta o personagem baseado na vida do Jul, ele representa ser manco, o Jul tem uma paralisia. A ideia é que ele está representando de fato o próprio diretor [Jul Leardini, codiretor de O camelo, o leão e a criança]. Meu personagem se baseia na história de um professor, tem um pouco da minha história, das minhas ideias. O terceiro personagem é uma médica, esposa de meu consultor. Ela passou elementos da história dela, usamos no roteiro, para essa atriz interpretá-la. É uma médica muito ligada com espiritualidade, misticismo.

Como foi desenvolver o roteiro? Eu e Jul já tínhamos uma história anterior, dos filmes anteriores. Nos primeiros filmes a gente fala muito da gente. Os primeiros curtas são trabalhos filosóficos, não tem muito enredo, muita história pessoal. A ideia foi juntar essa questão filosófica, que a gente trata nos curtas, num filme falando de nossas histórias, fazendo uma ponte com a Filosofia. Daí veio a história do Nietzsche, do camelo, do leão e da criança. Conseguimos identificar, na história do Julmar [Jul Leardini], ele sofrendo discriminação por causa da paralisia dele, eu tenho uma história em relação a vícios, na verdade peguei um pouco da história do meu pai, foi alcoólatra, teve internações, eu junto com minha história. A médica apareceu depois. Nós não tínhamos uma mulher e queríamos uma ligada com o misticismo. Nossas conversas filosóficas elas versavam sobre questões sociais, filosofia, ciência, e espiritualidade. Buscávamos alguém que pudesse falar de uma vivência mística, de cura. Essa médica, além da cura da medicina mesmo, isso está no âmbito retratado no filme, ela volta-se mais para a questão da mística. Ela trouxe a história dela, dentro das práticas religiosas. Ela passa por meditação, budismo, e acaba desenvolvendo uma relação com religiões amazônicas, ayahuasca, Santo Daime, o professor também acaba usando. A gente trouxe tudo isso para o filme. Montamos o roteiro a partir de dados trazidos por essas histórias pessoais. Aí tivemos a participação desse meu amigo psicanalista [João Perci Schiavon, consultor do filme], ele trabalha muito a questão da psicanálise com a arte. Ele trouxe isso para o filme também. O professor faz essa ponte.

É possível resumir as intenções do filme? É a gente conseguir ver essa tipologia que o Nietzsche apresenta na história de três pessoas comuns e a gente conseguir perceber as fases de camelo que nós vivemos, a fase de leão, até a fase de criança. Conseguir enxergar essa tipologia. Nós pegamos essa tipologia específica e vamos ver como é que isso se encaixa na minha história pessoal, na história do ator e na história dessa médica. As histórias caminham em paralelo. Os três personagens estão se mostrando desde o início do filme. Há uma linearidade, a fase camelo no começo, mais característica para um e para outro, o professor que tem uma característica mais forte, o camelo do ator já mistura um pouco com a discriminação, a sociedade age sobre, e a da mística [a médica] com a religião. O professor tem uma relação mais subjetiva, mais psicológica, dele mesmo, o ator está mais ligado com a questão com a sociedade, e a mística está mais ligada com a questão religiosa, a espiritualidade, com a prática religiosa. Eu convergi essas três linhas para chegar ao professor. O professor é a linha mestra. Você consegue perceber as situações claramente, camelo e leão. A criança é outra história: eu usei de metalinguagens, vamos dizer assim. Eu não conseguia dizer onde é que está essa criança. Tem muito a ver com o super homem do Nietzsche. Eu não conseguia achar uma saída para isso, mas eu sinto que tem uma criança em alguns momentos da minha vida, em alguns momentos em que estou entregue para aquilo, os cursos que eu fazia.

A criança é uma constante? O Nietzsche fala que a criança não tem passado nem futuro: ela é inteira no presente. Não há diferenciação entre ela e o objeto: ela é o objeto. É o corpo que se configura. “Ame aquilo que te acontece, você é aquilo que te acontece”. Eu tenho momentos de criança, mas eu não consigo pegar e traduzir isso em uma atividade como eu consigo ver meu processo de leão, meu processo de camelo, assim como eu conseguia ver o processo do ator e da médica. Essa criança talvez não seja um processo para chegada, talvez o leão e o camelo sejam. É preciso passar pelo camelo, depois ser leão, pra chegar na criança finalmente. Como são passos, eles conseguem se apresentar como processo. A criança, como é mais um estado, vai se apresentar de forma não completa, não continuada, ela vai se apresentar em flashes, em situação, principalmente para a gente, que vem sempre sendo camelo e leão. Como é que eu mostro isso no filme? Eu tive uma sacada que espero que passe no filme.

Antes de São Luís, você sempre morou em Curitiba? Estive em Florianópolis um tempo, outro no Rio, mas sempre em Curitiba. Isso aqui [São Luís] é muito rico, é muito para entender ainda. Tem uma cultura que ao mesmo tempo em que reage, se opõe ao desenvolvimento neoliberal cultural europeu, acho que o Sul acabou se entregando muito mais a isso, Paraná, São Paulo, Porto Alegre, Minas, a coisa do europeu está muito mais clara, mais visível, aqui se tem uma coisa mais africana, indígena, europeia também. É para entender. Eu vejo uma desobediência civil, às vezes, parece que o povo faz só para desobedecer mesmo, a gente vê isso na rua, no trânsito, no jeito, alguns costumes. Eu vejo uma coisa às vezes tribal, deslumbramentos às vezes. Às vezes eu brinco, o carro é o espelhinho, tem uma disputa no trânsito. Por outro lado é interessante, não se submeteu. No Sul o que se vê: não se vê a pobreza na cidade, você vê a cidade limpa, a pobreza está na periferia. Aqui você vai na [Avenida dos] Holandeses, vira a esquina, é uma coisa mais verdadeira, um retrato de nossa civilização ocidental.

Da engenharia para a filosofia e o cinema e parece que agora para a antropologia. [Risos] A filosofia acaba buscando. No filme, a fala final conta uma história dos nômades, Deleuze [Gilles Deleuze, filósofo francês] fala muito nisso, é um cara que eu respeito na filosofia. Esse meu amigo consultor tem uma ligação forte com o Deleuze, é tradutor de Deleuze aqui no Brasil. Não está explícito, mas está lá. Tem essa coisa não linear, uma coisa assim, a gente até mexe com a questão do tempo, mas não o tempo cronológico. A personagem começa remetendo a uma história que teria acontecido no passado. As primeiras cenas são os três em preto e branco. Só que eles estão com a mesma figura de hoje, até o final do filme, e isso é proposital. Poderíamos ter feito o cara mais novo, maquiagem, outro ator, mas queremos sair dessa linearidade, dessa cronologia. A gente trata também essa coisa da filosofia com alguns textos, no filme. Uma característica do filme é essa: você não sabe se o professor é casado, se é pai, se é filho, se é homossexual, se não é. Você sabe da problemática dele, é tratar da questão, do problema dele, como ele se relaciona com as coisas da vida dele. O filme não mostra questões pessoais, isso para todos os personagens. Eles podem ser qualquer coisa, não vai fazer diferença. A gente trata das questões para as quais o filme foi feito: a questão do conhecimento, a questão do vício, a questão da discriminação e a mulher com a questão da religiosidade.

Ficha técnica: Roteiro e Direção: Paulo Blitos. >>> Codireção: Jul Leardini. >>> Produção: Paulo Blitos e Sync Cultural. >>> Elenco Principal: Paulo Blitos, Mauro Zanatta (preparação de elenco em Curitiba), Vanessa Gonsioroski, Raimundo Reis. >>> Direção de Fotografia e Câmera: Evandro Martin. >>> Som, Edição e Montagem: Edemar Miqueta. >>> Trilha Sonora: Joaquim Santos. >>> Direção de Produção: Élida Aragão (Maranhão), Suzana Aragão (Paraná). >>> Direção de Arte: Dida Maranhão. >>> Argumento: Paulo Blitos, João Perci Schiavon, Jul Leardini, Ana Lahis Tano Schiavon. >>> Consultor: João Perci Schiavon >>> Preparação de elenco (no Maranhão): Igor Nascimento.