Chorografia do Maranhão: Adelino Valente

[O Imparcial, 20 de julho de 2014]

Engenheiro civil, professor universitário, bandolinista e pianista, fundador do Regional Tira-Teima, Adelino Valente é o 36º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

A entrevista com Adelino Valente, em sua casa, no Calhau, começa com ele mostrando uma velha fotografia emoldurada sobre uma mesa de centro: ao lado de outros músicos, ele figura como integrante do Conjunto Marista, sua “primeira escola musical”, um grupo especializado em jovem guarda, cujo sucesso extrapolou os muros do tradicional colégio, então no Centro de São Luís, e chegou a fazer muitos shows em cidades do interior, próximas à capital.

Sobre o piano vários discos, sobretudo de pianistas nacionais e internacionais, entre a bossa nova e o jazz, e um retrato de Letice Valente, sua filha, psicóloga e cantora, que ele elogia.

Adelino Valente da Silva Filho é filho de Dóris Moura da Silva e Adelino Valente da Silva, um português que chegou a vice-cônsul de Portugal, tendo aportado por aqui já com uma vocação musical. É o quinto de oito irmãos, todos com aptidões musicais. Em 16 de setembro de 1953, quando nasceu, sua família morava na Rua dos Afogados, esquina com Rua da Alegria, onde funcionava o vice-consulado de Portugal.

Arregimentador e arranjador de Antoniologia Vieira, disco dedicado à obra do compositor Antonio Vieira, com a participação de diversos nomes da música do Maranhão, entre os quais Zeca do Cavaco [cantor e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013], Zé Carlos [cantor e percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 10 de novembro de 2013] e Léo Capiba [cantor e percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de maio de 2014], chegou a acompanhar o compositor, ao bandolim e piano, no teatro do Itaú Cultural, em São Paulo, em 2005. Também dividiu um disco, hoje esgotado, com o violonista Turíbio Santos [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 29 de setembro de 2013].

 

Adelino Valente define-se como “um apaixonado pela música, engenharia e magistério”. Seu depoimento à Chorografia do Maranhão foi ilustrado musicalmente por Todo o Sentimento [Chico Buarque e Cristóvão Bastos] e um medley de Ernesto Nazareth, executados ao piano.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Quando sua vocação para a música começou a aparecer? Minhas duas irmãs, Ana Clara e Fátima, estudavam piano. Eu, com cinco, seis anos, lembro de papai reclamando: “vocês não estão progredindo, vocês precisam estudar mais”. Quem ensinava minhas irmãs era Maria José Cunha, uma professora da Rua do Sol, Sinhazinha Carvalho, tia de [os irmãos] Marcelo [Carvalho, pianista] e Tutuca [cantor, compositor e produtor cultural], então, papai sempre reclamando, ele era muito exigente pra que todo mundo tocasse. E elas diziam: “papai, a gente nem piano tem, como é que a gente vai progredir?” Papai, “bom, se for o caso a gente vai comprar um piano”, e terminou comprando. Quando esse piano chegou eu tinha uns oito anos de idade. Quando minhas irmãs começaram a estudar, aquilo batia aqui no coração e eu não sabia explicar o porquê. Eu querendo me aproximar e elas me dando bisca, “sai daqui menino, tu vais desafinar o piano novo”. Eu não conseguia nem botar um dedo numa tecla. Meu irmão Fernando Silva, que estudava violino, chegou em casa, abriu o piano, tocou boleros, eu achava maravilhoso. Ele me deu oportunidade: “vem ouvir aqui, deixa eu te mostrar”. A primeira noção que eu tive de piano: tem essas duas pretinhas, o dó tá bem aqui; tem essas três pretinhas, o fá tá bem aqui [aponta teclas no instrumento], nunca me esqueci disso. Eu sentia uma emoção diferente; com oito anos consegui chegar ao piano, minhas irmãs não estavam lá. Eu comecei a tocar as músicas bobinhas que eu sabia, Parabéns a você, muito fácil, Noite feliz, eu cheguei e comecei a catar. Comecei a ver que o que eu sabia aqui dentro eu conseguia passar para o piano com a mão direita. Uma das vezes mamãe escutou eu tocar uma música de brincar de roda, e ela chamou papai: “Adelininho tá tocando Atirei o pau no gato”. Papai, que era músico, percebeu em mim alguma tendência musical. Com isso, minhas duas irmãs, que já tocavam clássicos, começaram a desistir. E eu comecei a chegar perto do meu primeiro instrumento, o piano. Com 10 anos, Fernando Silva, hoje juiz aposentado, começou a me orientar, eu achava que ele era o maestro. Nessa época eu já estudava no Marista e lá encontrei outras pessoas com aptidão musical. Esse grupo musical do Marista foi uma pré-escola, onde tivemos uma orientação importante do professor Ubiratan Sousa [multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013]. Ele era do Liceu [Maranhense] e conheceu nosso grupo.

 

Esse grupo era o Conjunto Marista? Sim. O mais novo era Luiz Fernando [guitarrista], Celso [baterista] era o mais velho. Eu [contrabaixo], Rodrigo Caracas [tecladista] e Jomar Sadok [guitarrista] somos da mesma faixa etária. A gente começou a tocar tudo o que Roberto Carlos lançava, jovem guarda etc. Ubiratan chegou lá uma vez, nunca esqueço, mostrando a harmonia de Garota da Ipanema [Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes]. Aquilo, cada vez que ele mostrava, era um impacto. Acabou que terminei me especializando nisso, harmonias complicadas, dissonâncias, jazz, bossa. Mas naquele tempo… eu sei que esse conjunto nosso foi uma coisa importantíssima. Eu tocava em casa, devagarinho, minhas irmãs se conformaram e no Marista começou isso. Durou uns seis, sete anos. E todas as sessões [os eventos] no colégio tinham que ter participação desse grupo. E tocar bem naquela época era tocar igual ao disco.

Quem você considera seus principais mestres no piano? Eu já tive os principais mestres depois de bastante tempo. César Camargo Mariano, Cristóvão Bastos, Gilson Peranzzetta e Tom Jobim, entre outros.

Mesmo sem ter tido aulas com eles? Ou você teve aulas com algum deles? Pessoalmente não. Eu ia fazer a escola de Antonio Adolfo, no Rio, mas não cheguei a frequentar. Ele é maravilhoso, a filha dele, Carol Saboia, maravilhosa também. Isso foi numa etapa bem posterior, por que o primeiro instrumento foi piano, mas eu não continuei tocando fora de casa.

Então teu irmão acabou cumprindo um papel de te encaminhar para o piano. O primeiro mestre foi meu irmão. Fernando Silva, advogado, juiz, ele tem atualmente um piano de cauda em casa. No Marista eu tocava contrabaixo, meu professor era o Neném [da banda Os Incríveis, fenômeno da jovem guarda].

Ao que parece você já estava caminhando para ser multi-instrumentista. É, eu tocava ouvindo bastante o Pitomba [contrabaixista], do Nonato e Seu Conjunto. Eu ia para o [clube] Jaguarema, no carnaval, eu não dançava, eu e meu irmão Luis Fernando ficávamos observando. Olhei muito Agnaldo [Sete Cordas, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013] também, ele era guitarrista dos Fantoches. Neném, fora daqui, e Pitomba, aqui, foram dois caras em que me inspirei muito para tocar contrabaixo. Tinha também o Osmar, filho do maestro Pedro Gromwell, que tocava baixo acústico.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Você chegou a conhecer o professor Pedro Gromwell? Eu conheci, tive duas aulas com ele de violino, eu tinha apenas sete anos de idade, mas fiquei com medo. Ele era um senhor com o cabelo partido no meio, e papai dizia “tu vais ter que aprender com ele”. Ele me deu duas aulas teóricas. A primeira noção de compasso e tempo, eu não cheguei a pegar em instrumento nenhum. Ele chegou, na primeira aula, eu já estava dividindo. Eu, sem um preparo psicológico. Ele era um cara moreno, com os olhos claros, o cabelo partido no meio, uma gravata borboleta, era estranho. Mas foi bom. Na verdade, eu sou 90% autodidata. Depois eu fiz uns cursos por correspondência, harmonia para piano. É uma coisa intuitiva que foi crescendo.

O que vocês ouviam em casa, em termos de música? O que papai ouvia era fado, a música portuguesa. Eu realmente nunca fui muito voltado para ela. Ele trazia discos de Portugal, novidades, gravações. É uma música muito sentimental, mas não me emocionava, em termos de harmonia eu achava muito simples. E papai além de violino, tocava um pouco de violão.

Isso se mantém hoje ou sua relação com o fado mudou? Se mantém. Eu ouço se alguém tocar, mas eu comprar, eu não compro. Eu prefiro o trabalho da música brasileira. Agora papai se emocionava, chorava, ouvindo.

A música nunca pareceu ter a perspectiva de profissão. Não gostaria de dizer que ela tem ou teve um papel secundário, mas você tem outras formações? Sempre gostei muito de Matemática e Física. Eu entrei na Universidade para cursar Engenharia Civil e depois Licenciatura Plena. Fiz as pós-graduações já como professor da Universidade Federal do Maranhão. Agora, a paixão de nascença é a arte musical.

Houve alguma fase de sua vida em que você viveu de música? Ou ela sempre foi mais hobby? Levo a música muito a sério, sou muito perfeccionista, não é tocar por tocar. A música é um complemento. Apareceu um trabalho, ótimo! Não apareceu, a gente tem como se manter.

Com quem você aprendeu bandolim? É o seguinte: papai me deu as primeiras noções e eu fui evoluindo, ele tirando algumas dúvidas; como ele queria que eu estudasse violino e não deu certo, ele disse “meu filho, você vai estudar guitarra portuguesa”. Guitarra portuguesa é o xodó de todo português. Fomos passar umas férias em São Paulo e papai me levou na escola do professor Manoel Marques. Era o cara da guitarra portuguesa aqui no Brasil. Chegamos lá, pelo sotaque um já reconheceu que o outro era português, “esse é meu filho, tem 14 anos, toca um pouco de piano, um pouco de bandolim”. O professor me recebeu, pediu que eu tocasse os instrumentos que eu já estava tocando e ele se interessou: “esse menino tem que ficar aqui, não pode voltar para São Luís”, mas é tudo aquela coisa que você não tem condições de decidir. “Olha, o que ele já toca de bandolim, não vai dar trabalho nenhum para passar para a guitarra portuguesa, agora ele tem que passar aqui uns três meses, estudando a teoria musical”. É outra coisa que não vingou. Ele me deu um método de guitarra portuguesa, eu tenho até hoje guardado. Aí, papai tinha uma guitarra portuguesa, a influência dele foi fundamental. Ele não era um exímio tocador, mas na época, para a gente, era. Eu já estava tocando bandolim e a guitarra portuguesa era uma coisa nova, eu cheguei a tocar, com o livrinho do professor. Eu nunca tive dificuldade de tocar nenhum instrumento. Todos os instrumentos que eu peguei, eu consegui entender e tocar. Mas a gente precisa definir uns dois ou três instrumentos, no máximo.

 

Além do piano e bandolim, que outros instrumentos você toca? No segundo científico do colégio Marista, eu devia ter uns 17 anos, mais ou menos. Regina Telles [professora de artes], muito conhecida, apresentava um programa num canal de televisão, e eu fui escolhido para tocar todos os instrumentos que eu sabia. Eu cheguei a tocar 12 instrumentos,acompanhado por Zé Américo Bastos e Ubiratan Sousa. Não lembro se Antonio Paiva participou no baixo. Eu toquei piano, contrabaixo, bandolim, cavaquinho, violão, flauta doce, lápis – um instrumento inventado por nós no Marista, batendo o lápis no dente –, toquei Tico Tico no fubá [Zequinha de Abreu], toquei também guitarra e pistom. Não sei se esqueci de algum instrumento. Fiquei conhecido lá como o homem 10 instrumentos. Foi um programa muito bom, divulgou um trabalho, não lembro agora o canal. Eu fazia parte da banda do colégio Marista, era cornetista solo. O pistom eu toquei olhando o Helinho do Nonato [e Seu Conjunto]. Eu acabei me dedicando a dois instrumentos: o bandolim e o piano.

 

Antoniologia Vieira. Capa. Reprodução
Antoniologia Vieira. Capa. Reprodução

Foi por essa época que surgiu o Regional Tira-Teima? Como foi essa história? Ubiratan queria montar esse grupo. O bandolinista que ele conhecia era eu, do Marista. Na época em que ele me conheceu eu já me apresentava ao bandolim, fora do conjunto Marista. Dizia-me Ubiratan, “vamos montar um grupo”, mas quem? Ubiratan me ligou falando “encontrei um percussionista maravilhoso, vou levar no teu apartamento”. Liguei pra papai, pra ele ir conhecer a formação do grupo. Quando eu chego lá, vejo um senhor. Ubiratan me apresentou ao percussionista. “Como é seu nome?” “Antonio Vieira”. Ele foi o primeiro percussionista do Tira-Teima. Nós somos fundadores, sob o comando de Ubiratan. Eu peguei o bandolim, nesse tempo estava me dedicando muito, o piano estava até esquecido. Papai gostou, deu sua opinião favorável. Faltava cavaquinho, violão. Ubiratan convidou Cesar Teixeira, ele foi o primeiro cavaquinista do Tira-Teima. Às vezes ele ia num [ensaio], não podia ir em outro, chegou-se à conclusão que não ia dar, tinha outras ocupações, composição, inteligente demais, gosto muito dele. Ubiratan lembrou que tinha um rapaz estudando violão com ele, “muito interessado, Paulinho”. Eu disse: “rapaz, Paulinho é primo de minha esposa”. Era Paulo Trabulsi [cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], eu o conhecia do Marista. Paulo chegou se justificando, “olha, pessoal, eu estou começando, eu toco violão, cavaquinho eu estou arranhando”. Começou a treinar, Ubiratan orientando. Aí ficou Paulo no cavaquinho. Nós começamos a ser conhecidos até fora do Maranhão. Nos encontramos com o [Conjunto] Época de Ouro, Six [Francisco de Assis Carvalho da Silva, advogado e cavaquinhista, fundador do Clube do Choro de Brasília]. O Regional foi crescendo, faltava um violão, foi entrando gente. Arlindo [Carvalho, percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de agosto de 2013] assumiu a segunda percussão, Fernando Vieira, que chamavam Fernando Cafeteira, já falecido, tocava violão, Chico Saldanha [compositor] também e depois Sadi Ericeira [violonista, irmão de Paulo Trabulsi].  Nós tivemos a grande sorte de contar com Hamilton Rayol como crooner, que voz maravilhosa! Faleceu com 57 anos. Ele cantava muito choro e muita MPB de qualidade. Feitio de oração [Noel Rosa e Vadico], Olhos nos olhos, de Chico Buarque, dentre outras canções. Além de grande cantor era uma pessoa maravilhosa. O Regional seguia seu trabalho e intuitivamente Vieira começou a me mostrar suas composições. Ao final dos ensaios, pegava o violão, tocava, eu ficava admirado. “Vieira, isso dá um trabalho bonito! A gente vai ter que fazer um disco”. Depois Zeca Baleiro entrou na jogada também. O disco que eu fiz [Antoniologia Vieira] foi primeiro,mas o show [O samba é bom, produzido por Zeca Baleiro, disco gravado ao vivo no Teatro Arthur Azevedo] foi primeiro a ser apresentado. Isso foi por volta de 2000. O Regional Tira-Teima já tinha acabado em 1984 por que Ubiratan foi embora daqui, se mudou para São Paulo. O Regional acabou com essa formação.

De onde vem o nome Tira-Teima? Tira-Teima é uma música de Ubiratan. É como se fosse um desafio para alguma música. É uma música muito bonita, inclusive nós tocávamos no grupo, entre outras. O Regional acabou em 1984, mais ou menos, mas a gente se encontrava sempre que podíamos.

Lances de agora. Capa. Reprodução

Por que você não tocou em Lances de Agora [1978], de Chico Maranhão? Eu ia tocar nesse disco, só tem que no dia da gravação [o disco foi gravado em quatro dias na sacristia da Igreja do Desterro] nasceu o Bruno, meu primeiro filho, artista, dublador de filmes e Analista de Sistemas, hoje residindo no Rio de Janeiro.

Além do Conjunto Marista e do Tira-Teima, de que outros grupos musicais você participou? A gente montou um grupo de bossa e jazz, eu no piano, Luiz Cláudio [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 8 de junho de 2014] na percussão, Paulo Lima no baixo e Athos [Lima], filho dele [Paulo], na guitarra. O baterista era Celso Raposo, o mesmo do conjunto Marista. O grupo se apresentou em vários eventos sociais. Depois Paulo Lima saiu e entrou Antonio Paiva. Esse grupo tinha uma das melhores cantoras do Maranhão, que eu considero até hoje e pouca gente conhece: Lúcia Faria. É a Leny Andrade do Maranhão! Ela cantou muito por muito tempo no Rio de Janeiro, acompanhada por grandes pianistas, dentre eles Luiz Eça. Depois nós montamos o Quarteto Insensatez. A formação inicial sou eu no piano, Luiz Mochel [cantor], voz, [Arlindo] Pipiu no contrabaixo acústico e Arlindo Carvalho na bateria. Depois Pipiu se ocupou com o seu estúdio, aí entrou o Antonio Paiva no lugar dele, alternando com Pedro Duarte [contrabaixista e saxofonista]. Estamos fazendo diversos shows com a integração de Milla Camões e participação de Marina Vasconcelos [cantoras].

E como está a atividade musical hoje? O Insensatez a partir de agosto, setembro, voltará às suas atividades musicais. Tive participação especial como pianista em oito músicas no show do Marconi [Rezende, cantor], o último, [celebrando os] 70 anos de Chico Buarque, um show maravilhoso no Barulhinho Bom, muita gente, jovem, inclusive. Já estou começando a preparar um novo show, provavelmente em agosto, de Roberto Rafa [cantor e compositor]. Estudamos juntos no Marista, já fiz dois shows com ele, depois que ele retornou, ele passou 20 anos em Brasília. Em 2012 tocamos no Teatro Arthur Azevedo, depois na sede da Caixa Econômica [a APCEF, Associação do Pessoal da Caixa].

Além de multi-instrumentista você desempenha outras funções na música? Faço arranjos e componho temas. Depois que sair aposentado como professor da Universidade Federal do Maranhão pretendo começar a gravar os meus discos, com convidados, a maior parte de músicas de maranhenses. Aqui nós temos belas canções. Uma música que eu quero gravar, chama-se Fuga e Anti-fuga, de Sérgio Habibe. É lindíssima! Já mostrei para ele o arranjo que fiz no piano. Pretendo também incluir nesses trabalhos, músicas de Marcelo Carvalho, Tutuca, Ubiratan Sousa, Giordano Mochel, Luiz Reis e Tânia Maria, dentre outros compositores maranhenses.

Quem são os instrumentistas, no piano e no bandolim, que te chamam a atenção, hoje? No piano, Gilson Peranzzetta, César Camargo Mariano, Francis Hime, Cristovão Bastos. No bandolim, Jacob foi o mestre, Hamilton de Holanda, Déo Rian e admiro demais o Joel Nascimento.

No piano você dá mais ênfase à bossa; no bandolim, ao choro. O que significa essa música para você? Pra mim o choro é o Brasil. A bossa nova já é uma mistura que vem dos Estados Unidos, com o jazz misturado com o samba, com aquela batida atravessada. Mas no bandolim eu não toco só choro, eu toco música popular brasileira.

A geração Y (d)e Tom Zé

Vira lata na via láctea. Capa. Reprodução

 

 

Desde o disco manifesto do movimento tropicalista, em 1968, Tom Zé mostrou-se um dos mais férteis compositores daquela geração. Relegado ao ostracismo na década de 1980, foi redescoberto graças à garimpagem de David Byrne, que o devolveu a prateleiras de lojas de discos e a palcos, no Brasil e no exterior. Os episódios são bastante conhecidos.

Também o descobriram e redescobriram-no novas gerações de músicos brasileiros, seja através de regravações ou da influência confessa. De Com defeito de fabricação (1998) para cá, o iraraense tem mantido um intenso diálogo criativo com artistas mais jovens – Tom Zé conta 78 anos, com fôlego de adolescente.

Vira lata na via láctea [2014], seu disco mais recente, é recheado de exemplos, entre parcerias e participações especiais. A zombeteira Geração Y (GY), faixa de abertura, tira onda com o amor, as manifestações de rua e a tecnologia: “oh, oh, yes!/ wireless/ um ET/ dentro do HD/ mas, além disso/ o ambiente é compromisso/ porque já somos o pós-humano/ a nova turma antropomórfica do bando”, diz a letra da parceria com Henrique Marcusso.

Entre os destaques, Pour Elis, homenagem à Elis Regina, em que Tom Zé musica um texto de Fernando Faro – um dos homens de tevê mais importantes para a música brasileira –, cantada em dueto com Milton Nascimento. A pequena suburbana, que fecha o disco, é um marco: trata-se da primeira parceria do baiano com o conterrâneo Caetano Veloso, cantada em dueto com o próprio.

Parceria com Criolo, Banca de jornal, um “samba-editorialista”, como o classifica o próprio Tom Zé, em que divide os vocais com o rapper, é, de longe, a mais radiofônica, com a letra inspirada citando diversos jornais e revistas brasileiros: “Veja! Isto É – poca/ lenha/ no grande bate-boca/ e ainda escrevo/ uma Carta Capital/ para os Caros Amigos/ desta banca de jornal”.

Entre parcerias, composições e participações especiais, ainda comparecem ao disco Tiago Araripe (autor de A quantas anda você?), Elifas Andreato (parceiro em Salva humanidade), Marcelo Segreto (Filarmônica de Pasárgada, parceiro em Guga na lavagem; violão), Tim Bernardes (O Terno, parceiro em Papa perdoa Tom Zé; voz, guitarra, órgão, percussão), Kiko Dinucci (guitarra, violão, percussão), Rodrigo Campos (cavaco), Silva (programação), Tatá Aeroplano (Cérebro Eletrônico; apitos, brinquedos, coro) e Trupe Chá de Boldo (vocais e arranjos).

A depender dessas trocas, fusões e ousadias, no auge das juventudes – a própria e as alheias –, o garoto Tom Zé ainda vai (cada vez mais) longe.

Confiram Tom Zé e Criolo em Banca de jornal:

Gildomar Marinho lançará dois discos em 2015

Fotosca: Zema Ribeiro
Fotosca: Zema Ribeiro

 

Fortaleza – Numa conexão em Fortaleza/CE, a caminho do Recife/PE, marquei com o amigo e compositor Gildomar Marinho. Entre alguns chopes, no tempo curto entre um avião e outro, ele revelou estar gravando nada menos que dois discos, ambos com previsão de lançamento ainda este ano.

“São dois trabalhos bastante distintos, Porta sentidos e Mar do Gil. O primeiro deve ser lançado apenas em vinil, em tiragem limitada”, contou-me, ainda com dúvidas sobre o assunto. Mas ambos, a exemplos dos outros três discos de Gildomar lançados até aqui, devem ser disponibilizados para download.

Sem previsão de visitar a terra natal, o Maranhão acabou não sendo palco dos lançamentos de Tocantes e Pedra de Cantaria, apesar de shows bissextos, a exemplo do Salão do Livro de Imperatriz e no L’Apero, em São Luís. Olho de boi, o disco de estreia, foi lançado no Teatro João do Vale. Gildomar revela, no entanto, à vontade de se apresentar mais por estas bandas.

Gravados no estúdio Som do Mar, em Fortaleza, os discos novos têm direção musical do percussionista Hoto Jr. Nos repertórios, completamente autorais e inéditos, parcerias com o radialista Ricarte Almeida Santos, o poeta arariense Ely Cruz e com este que vos perturba.

“Já vendi um carro”, revelou-me, sem perder o senso de humor, a fonte de financiamento da gravação dos discos. Gildomar deve recorrer ao financiamento coletivo para as etapas de mixagem, masterização, prensagem e lançamento.

Chorografia do Maranhão: Nonatinho

[O Imparcial, 6 de julho de 2014]

Natural de Penalva, professor da Escola de Música e pandeirista do Instrumental Pixinguinha, o percussionista Nonatinho é o 35º. Entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Raimundo Nonato Soeiro Oliveira aparentava certa timidez quando a chororreportagem o encontrou na porta da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo [EMEM]. Carregando o case com o pandeiro, o músico convida o primeiro chororrepórter a entrar e sentar. A tevê da recepção transmite Bélgica e Estados Unidos, pelas oitavas de final da Copa do Mundo, e instrumentista e entrevistador dividem educadamente as atenções entre a partida e a conversa – não necessariamente nessa ordem.

No papo, Nonatinho, como é mais conhecido o percussionista do Instrumental Pixinguinha, professor da EMEM há 12 anos, revela ter lido algumas edições anteriores da série Chorografia do Maranhão, cuja 35ª. edição traria seu depoimento. O chororrepórter tranquiliza-o contando causos de entrevistas anteriores, informando-lhe que a conversa tem um caráter completamente informal.

Mas o penalvense nascido em 9 de julho de 1967 já parecia ter perdido totalmente a timidez. Com a chegada do restante do time, diga-se, o outro chororrepórter e o chorofotógrafo, o professor conduziu todos ao salão Leny Cotrim Nagy, o mesmo em que a série conversou com Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], seu colega de Escola e Pixinguinha.

Filho de José Oliveira, comerciante e músico, e da dona de casa Maria José Soeiro Oliveira, Nonatinho é o único homem entre os cinco filhos. Já apresentou monografia ao curso de graduação em Música da Universidade Federal do Maranhão. “Estou concluindo uns créditos que fiquei devendo”, disse ele, que pretende publicar o trabalho.

No dia seguinte à entrevista, pelo chat do facebook, ele complementou-a, destacando a importância da série e de Deus – é evangélico – em sua vida: “Hoje sou evangélico e tudo o que faço me sinto na obrigação de agradecer a Deus. Inclusive por um bom período atuei como ministro de louvor. Não fiz isso na entrevista. Como esse é um registro que vai permanecer na história do nosso estado não gostaria de perder a oportunidade de falar dEle”, registrou.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Teu pai sustentava a família com música? Eu não sei dizer. A partir de quando eu tinha uns cinco anos, ele sustentava com um comércio. Quando se desfez a história dos conjuntos, cada colega procurou seu rumo, uns foram ser alfaiates, sapateiros, comerciantes. Ele foi ser comerciante e também trabalhar numa terra herdada, ele foi tomar conta. Ele ainda chegou a trazer algum sustento, mas em épocas festivas, carnaval, ele parava o comércio para se dedicar um pouco à música. A vida dele era basicamente isso, ele gostava muito de pescar, chamava o pessoal, passava três dias, vinha, tudo ele comercializava.

Você lembra, na infância, de como era a atmosfera musical em tua casa? O que se ouvia? Geralmente essas festas que ele fazia eram de promessa. Ele gostava muito de fazer o Baile de São Gonçalo, tambor de crioula. Sempre que ele fazia, ele fazia o barraco ao lado e fazia o baile. Eu ouvia o que as bandas tocavam na época, forró, sempre instrumental, não tinha nada cantado, marchas. Depois eles começaram a tocar a própria discoteca [a disco music], imitando as radiolas.

Você acha que o fato de seu pai ser baterista e percussionista influenciou no teu fazer musical ou você só veio se interessar por isso depois? Essa influência foi total. A minha mãe tinha um problema muito sério, os primeiros filhos dela, ou ela abortava ou, quando nascia, geralmente com dois anos, no máximo, morriam. Eu sou de um grupo que entre três, um morria, dentre esses três eu escapei. Eu via que meu pai lutava muito comigo nesse sentido, de me mostrar as coisas, me mostrar a vida. Quando eu me entendi ele me levava pra festa, eu tava o tempo todo do lado dele. Quando ele ia tocar fora, ele levava, ele tinha a preocupação de tentar passar. Quando a festa ia ser lá, os colegas dele deixavam os instrumentos, então o meu brinquedo passou a ser esses instrumentos. Às vezes na própria quitanda ele montava a bateria e ficava tocando, o pessoal gostava de vê-lo tocando, e ele tocava muito bem, diziam isso. Hoje essa coisa de apreciar, de ver músico tocar, de ver performance, vai muito [da herança] dele. Depois, passado um tempo, ele viu que eu precisava estudar, eu tive que ir para a cidade, Penalva.

Você morava num povoado. Como era o nome? Bom Jesus, que era [onde ficava] a terra dele com os três irmãos.

Essa lembrança de você ir para festas acompanhando teu pai, você tem desde que idade? Acho que aos oito anos. É aquela coisa de garoto que vai sendo levado e de repente está ali envolvido.

Então sempre houve apoio por parte de teus pais para que você seguisse o ofício da música? Sim, da parte do meu pai. A minha mãe não gostava muito, pela própria questão, pra ela não era uma profissão, não trouxe muita coisa para ela, mesmo como esposa, tanto que quando ela viu que eu queria estudar música, ela disse “será que tu vai seguir o mesmo caminho do teu pai?”, aquela coisa. Ele mesmo, por essa questão de não ter aquele sucesso, dizia “vai depender de você, você tem outras opções”. Ele tinha um filho do primeiro casamento, esse filho fez concurso para a marinha, era enfermeiro, vivia bem. E ele vivia me apontando: “olha, segue o exemplo de teu irmão, teu irmão tá bem”. A vontade dele mesmo era que eu fosse militar.

Você chegou a tocar com ele nessas festas? Não cheguei a tocar. Cheguei a dar umas canjas, ele me botava, em determinado momento, ele dizia “olha meu filho aí”, e os músicos gostavam, ficavam elogiando.

Você tocava o quê? Pandeiro? Bateria. Tem uma coisa interessante que eu acho que marcou muito, era um senhor que tocava sempre do lado dele, muito bem. Ele ia muito lá pra casa, era muito amigo de meu pai. Quando era festa ele era o primeiro a chegar. Não consigo lembrar [o nome dele], eu era muito garoto. Eu lembro dessa pessoa, tocava muito bem, ele tinha uma forma, meu pai dizia [que ele] “jogava muito bem”. Ele não falava tocar, falava jogar.

Você chegou a estudar música em Penalva ou só depois de vir à São Luís? Quando eu saí de lá, eu perdi totalmente o contato com música. Fui mesmo [para a sede de Penalva] para estudar, morar com um padrinho, foi mesmo a questão de estudo, não tive mais oportunidade. Mas eu ficava assim, aquela coisa tava dentro do sangue. Quando eu saía do colégio, no meu caminho tinha uma casa que tinha um conjunto, eles ensaiavam. Às vezes eu saía da escola e ficava ali em frente ouvindo. Mas também não passava daquilo, não cheguei a me aproximar. Passei aquele tempo todo mais dedicado aos estudos, recuperar o tempo perdido. Eu só fui estudar mesmo a partir dos nove anos. Lá no interior as escolas não tinham muita base. Aí perdi totalmente o contato. Ele [seu pai] também deixou mais de fazer festa. Com 14 anos eu voltei pra lá [para o povoado Bom Jesus], e já fui ter outra vida, na roça mesmo. Passei aquela fase de adolescência, que eu não queria mais ficar, queria voltar para casa [dos pais]. Só vim retomar [o contato com música] quando eu vim pra cá [para São Luís].

Quando é que você veio para cá? Eu vim com 17 anos. A oportunidade que eu tive de vir para cá para São Luís foi o seguinte: na época tinha uma juíza, ela ia medir as terras e papai pegou amizade com essa juíza e um advogado. Uma dessas vezes, eu indo para lá, levar alguns documentos, ela disse: “rapaz, tu não quer ir para São Luís? Não quer trabalhar lá em casa? Você pode trabalhar de vigia, estou precisando de alguém”, ela vivia procurando. Eu disse “olha, vou falar com meu pai, se ele aceitar…” Aí fui falar com ele, ele disse “tu que sabe”. Quando ele disse “tu que sabe”, no outro dia eu já estava lá com a bolsa e foi uma nova fase. Eu via a possibilidade de retomar meus estudos. Mas não pensando na questão musical.

Você disse que passou um tempo afastado da música. Você chegou a ter outra formação, que não a musical? Não, só trabalhando lá mesmo. A princípio foi como vigia mesmo, depois eu comecei a trabalhar com documentos, levava documentos no tribunal eleitoral, ela era juíza eleitoral. Eu fiquei como uma pessoa de ir resolvendo as coisas, e morando na casa dela.

E a partir de quando você se interessou novamente pela música? Outra coisa interessante. Eu já estava querendo trabalhar, arrumar outro tipo de trabalho, procurar uma independência maior, até em termos de moradia, ajudar os pais. Aí um dia eu vi no jornal um anúncio que um escritório estava precisando de pessoas. Eu peguei o dinheiro, sempre fui de guardar, aí saí para comprar uma beca bacana, calça social, sapato social, para ir ao escritório. Na época era a Mesbla [extinta loja de departamentos], era ali na Rua Grande. Quando eu chego lá, eu não sei por que, no segundo andar, bem na prateleira, a primeira coisa que deu na vista foi um pandeiro, um pandeirinho vermelho. A princípio eu pensei que era decoração. Uma loja de roupa, vendia outras coisas, estava lá. Chamei o vendedor: “vem cá, esse instrumento aí está à venda?” Aí ele deu o valor. O que vocês acham? Eu comprei a roupa ou o pandeiro? [risos]. Comprei o pandeiro!

Aí você nem foi ao escritório? Nem fui. Aí depois bateu a depressão. O quê que eu vou fazer com isso? Aí era época de eleição, nessa época os candidatos pegavam os ônibus, levavam o povo em caravanas para votar. Eu fui numa, levei o pandeiro. Quando o ônibus parou bem em frente à casa de meu tio, sempre muito rígido, da Sucam [a extinta Superintendência de Campanhas de Saúde Pública, órgão do governo federal], mandava estudar, queria ver as coisas melhores. Quando ele me viu chegar com o instrumento, que eu fui cumprimentá-lo, ele disse: “ah, tu tá nessa bagunça?” Depois eu fui à casa de meu pai, pensei que ele também ia falar algo, ele disse: “agora você vai ser um músico, comprou seu instrumento”. Aquilo foi tão forte em mim que eu disse “rapaz, agora eu vou estudar”. Foi um incentivo. Voltei para São Luís, mas sem saber onde estudar, onde procurar. Um belo dia eu vi um jornal falando da Rita Ribeiro [cantora, hoje Rita Beneditto], foi quando eu soube que havia uma escola de música. Eu guardei esse jornal, já estava no Liceu Maranhense. E com esse pandeirinho já comecei a formar grupos, a gente fazia apresentações, mas já de olho na Escola [de Música]. Comecei primeiro no Liceu. Quando foi em 1992, eu passando por acaso na Rua de Santo Antonio, ouvi o som dos instrumentos, “ah, é aqui que é a Escola”. Foi uma entrada para nunca mais sair.

Quem te recebeu? Eu fiz o teste com Raimundo Luiz [bandolinista, hoje diretor da EMEM, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013] e tudo aconteceu muito rápido, por que eu já tinha essa experiência do interior, com o pai com banda. Eu comecei logo a participar de grupos. Meus primeiros parceiros foram a Java, que hoje está na Paraíba, é professora de sax, o Fernando, foi professor aqui, hoje está em Brasília. Começamos a nos apresentar no auditório.

Você entrou [na EMEM] para estudar percussão? Bateria. Havia uma bateria que ficava lá no mirante e ninguém usava. Havia um grupo de jazz, eu me entrosei com eles e comecei. Depois eu entrei nos grupos, tipo Big Band, depois Metal e Cia. Como eu já estava no Metal e Cia. com [Antonio] Padilha, foram contratados Rogério [Leitão, baterista] e Jeca [percussionista] e eu comecei a ter aulas com eles. O Jeca mais, o Rogério me influenciou muito na coisa da leitura, ele sempre estava pelos corredores lendo, com métodos.

Como é que o Instrumental Pixinguinha surge nessa história? Eu costumava ver o Instrumental ensaiando, as apresentações, mas eram só professores, na época. Eram [os instrumentos de] cordas, Garrincha [baterista] e Lazico [Lázaro Pereira, percussionista]. Me chamava a atenção, mas não me interessava na época, por que meu trabalho era a Big Band, o Metal e algumas coisas de MPB, eu comecei com Shirley, é uma cantora de coral, que resolveu cantar em algumas salas. Foram as primeiras apresentações que eu fiz fora, fizemos no DAC [o Departamento de Assuntos Culturais da Universidade Federal do Maranhão], éramos eu, Nonato Privado [violonista] e ela. Eu tinha vontade [de tocar no Instrumental Pixinguinha], mas tinha muito receio, pois tinha-os como mestres. Marcelo [Moreira, violonista], Lazico, eu considerava muito bom no pandeiro, “será que eu vou conseguir tocar?” Quando surgiu a oportunidade de ir para Brasília, fazer um curso de verão, eu me entrosei com a turma, Marcelo, Raimundo, e eles “vamos ali, tem uma turma de choro e tal”. Na época eu andava com um pandeiro 12 [polegadas], a turma se reunia lá, mas não tinha pandeirista. Eu cheguei com o pandeiro, comecei a tocar, eu sem saber com quem eu estava tocando [risos]. A gente passou 15 dias lá fazendo o curso de verão. Depois Raimundo chegou e disse assim: “rapaz, tu sabe quem tá tocando aí?” Eu: “quem?” E ele: “Henrique Cazes [cavaquinista]” Aí foi que caiu a ficha! Quando foi no outro dia, o pessoal se reunia, sempre muito brincalhões, um deles: “e aí, pandeiro? Vai hoje?” Aí aquela música começou a entrar. Eu sempre fui um cara muito inseguro, às vezes eu sabia que tinha aquela coisa dentro de mim, mas não sabia se eu queria ser músico. E entra outra figura, do interior, um senhor que sempre me deu muita força, falava de meu pai, dizia “olha, você vai ser um grande músico”, me incentivava. Uma vez eu organizei lá a questão do 7 de setembro [as comemorações alusivas ao Dia da Independência do Brasil] e ele se empolgou muito com isso, eu sempre gostei de participar das bandinhas, tocando tarol. Certo dia a gente tocando lá, eu vi esse senhor assistindo, montado no cavalo. Quando eu olhei para ele, o vi com aquele sorriso, como quem diz “eu não disse?” E por incrível que pareça, quando eu cheguei em Brasília me veio essa figura. Aí bateu o medo, mas eu lembrei dele dizendo “você consegue, você é capaz”. Quando eu voltei eu sabia que era o caminho que eu queria. Comecei a acompanhar o Pixinguinha onde eles iam, nos bares, na praia. Aí eu procurei ver uma oportunidade de estar dando canjas, pedia pra Lazico, nas primeiras oportunidades que não dava para Lazico eu já estava lá tocando.

Teu interesse por choro começa com esse curso de verão em Brasília ou já existia antes alguma relação tua com essa música? Eu acho que começa lá, quando eu vi os mestres, a forma como os vi tocando, eu me encantei. Foi muito forte. Raimundo ainda me levou, a gente saiu, e numa dessas, tinha acabado um concerto, “vamos ali que o cara vai estar lá”, o Henrique Cazes. Ficamos nós três, eu gravei a conversa toda, até hoje eu tenho pena dessa fita, que eu perdi. Só eu, ele e Raimundo. Ele começou a falar de Pixinguinha, do choro, de várias pessoas, contou várias histórias.

O Cazes, então, teve um papel importante nessa tua aproximação com o choro. Isso, com certeza!

Além do Pixinguinha, da Big Band e do Metal e Cia., você participou de outros grupos musicais? Não. Depois eu comecei a fazer uns trabalhos com [a cantora] Rosa Reis e MPB, bares, acompanhando cantores, comecei a ser conhecido. Até hoje toco com [a cantora] Laura Lobato, principalmente confraternizações, casamentos. Chegamos a tocar uma temporada num shopping, outra no Zanzibar [bar na Av. Litorânea, extinto] na época.

Você também fez o caminho de entrar na Escola como aluno e depois se tornou professor. Como é que se deu essa transição? Como foi que você se tornou professor da Escola? Exato! Professor eu só vim ser de fato quando eu entrei como concursado, em 2000. Eu sempre estive por ali, participando com os grupos. O Mestre Tomaz me levou para o Convento das Mercês, estavam iniciando um trabalho com os meninos, tinha uns meninos de percussão, ele era o maestro da banda, e eu fui, estava precisando. Foi o meu primeiro trabalho como professor, carteira assinada. Quando eu vinha do Convento das Mercês pra Escola de Música na Rua de Santo Antonio, eu passava aqui atrás [nos fundos da EMEM, na Rua do Giz], era a época em que estavam reformando este prédio. E eu dizia para mim mesmo que quando a escola viesse pra cá, eu tinha que ser professor aqui, meio que profetizava que ia ser professor. Era meu caminho todos os dias. Meus colegas também haviam se tornado professores, Fernando, Java, eles me incentivavam muito. Depois teve outra oportunidade, eu fui para Curitiba. Lá eu conheci o Bolão [Oscar Bolão, baterista e percussionista], já foi totalmente divisor de águas. Também tive a oportunidade de conhecer o Luiz Otávio Braga [violonista], um cara muito bacana mesmo! Dei sorte de chegar nos lugares e não ter pandeiro, “ah, você é pandeirista, chega aqui”. Aí teve o concurso, quando eu vim de lá eu já vim pensando, comecei a me preparar. Eu tava numa fase, ou seria professor ou ia desistir de música, foi uma fase complicada. Todo mundo estava buscando uma, digamos, estabilidade.

Você participou de um capítulo muito importante da música do Maranhão, que foi a gravação do disco do Instrumental Pixinguinha [Choros Maranhenses, 2005], o primeiro disco exclusivamente de choro gravado por aqui. O que isso significou para você? Pra mim, na época, foi oportunidade. De estar registrando um trabalho, era o primeiro cd maranhense de choro, de compositores maranhenses. Na época eu não sei se eu tinha noção do que eu estava fazendo, da importância. Hoje eu vejo isso. Foi um momento muito importante pra gente.

Quase 10 anos depois do lançamento do disco de vocês, os membros do Pixinguinha têm conversado, pensado sobre o lançamento do segundo cd? Tem-se pensado, Juca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014] tem falado. Teve uma fase que eu tava meio, “rapaz, tu está no Pixinguinha, não tá, como é?”. Cada um estava para um lado, independente, fazendo trabalhos. Sempre que tem um projeto é preciso reunir, o disco está ainda mais como um projeto, pelo menos para mim.

Você relatou que o choro veio depois do curso de verão em Brasília. Hoje você se considera um chorão? Pergunta difícil! [risos]. Primeiro eu teria que saber o que é um chorão, o que é ser chorão. Por que hoje na verdade eu faço de tudo, eu toco de tudo. Pra ser chorão, seria um cara que está participando de todos os movimentos, tudo o que é movimento estar lá, participando ativamente. Eu sou um músico que adquiri habilidades de tocar em qualquer estilo. Eu toco em big band, orquestra de jazz, MPB. Mas tenho um respeito muito grande pelo choro, foi onde encontrei maior oportunidade de trabalho. Como músico, foi o choro que me deu isso. Eu sempre tive medo do rótulo. Tipo: se o cara é roqueiro, ele pode tocar samba, mas ninguém vai chamá-lo para tocar, por que acha que ele só sabe tocar aquilo.

Qual a importância do choro? É uma música nossa, talvez onde a gente possa ter tudo o que a gente precisa para se desenvolver como músico. Em todas as áreas. Para desenvolver os ouvidos, você vai ouvir as mais lindas melodias, as mais lindas harmonias criadas, deixadas aí, permanecendo por mais de século, música com qualidade. O choro é uma escola. Todo músico, dentro do Brasil, que quer ser músico, tem que passar pelo choro. É uma fonte, uma fonte que hoje está vindo gente de todo lugar do mundo querendo beber dessa fonte.

Se ela é tudo isso, por que ter medo de se assumir como chorão? Exatamente por isso! [risos]

O choro praticado no Rio tem como base rítmica o samba. A ida dos nordestinos para o Rio de Janeiro levou outros ritmos que foram incorporados nas rodas de choro, como o baião, o calango, o frevo. Você acha que os ritmos do Maranhão, tão ricos e tão plurais, podem ser incorporados nas rodas de choro? Com certeza! Se você observar no disco do Instrumental Pixinguinha, tem uma levada naquela música [Candiru, faixa que abre o disco] do Zezé Alves [parceria com Omar Cutrim] que tem uma levada de lelê [imita com a boca a batida do pandeiro].

Mas isso ainda é muito tímido por aqui. É. O choro é uma música muito aberta, cabe tudo o que você colocar. Você pode botar o maracatu, o samba, o baião, ele pega de tudo. O choro na verdade é uma forma de tocar. Falta se assumir, “esse é meu ritmo” e colocar lá.

Ian Ramil mostra personalidade e talento em disco de estreia

Ian. Capa. Reprodução

 

A música está no DNA de Ian Ramil. Filho de Vitor Ramil, sobrinho de Kleiton e Kledir, ele consegue mostrar uma voz própria em seu disco de estreia, assinado simplesmente Ian [2014], completamente autoral – a dispensa do sobrenome no título do álbum talvez seja uma tentativa de minimizar a responsabilidade pela herança da família musical.

O álbum tem produção de Matias Cella, que pilota vários instrumentos – contrabaixo, ukelele, guitarra, escaleta, violão, bongô. Outro instrumentista que comparece é o percussionista Marcos Suzano – que dividiu um disco, Satolep sambatown (2007), com o pai do estreante. O próprio Ian Ramil toca violão, guitarra e cuatro – espécie de violão de quatro cordas, originário da Venezuela, popular em alguns países da América latina. A voz do tio Kleiton pode ser ouvida em duas faixas, nos coros de Rota e Over and over.

Ao contrário do pai, que em discos como délibáb (2010) e Foi no mês que vem (2013), aproxima-se de países e artistas vizinhos, Ian Ramil canta em português e inglês, aproximando-se, em determinados momentos, de nomes como os mato-grossenses do Vanguart. Ian foi gravado em Buenos Aires e vem embalado em belo projeto gráfico de Virgílio Neto.

Outras influências, ele confessa no encarte do disco: Beatles em Nescafé (“Eu cuspo nescafé/ e você chora leite de manhã/ amarro o meu sapato/ e tu veste o sutiã/ (…)/ cadê o nosso amor? me diz onde/ vou correndo pegar o bonde/ que linha liga o teu coração ao meu?”) e Jorge Ben (assim mesmo, sem o Jor posterior) em Entre o cume e o pé (“eu já não sou infantil/ só quando eu quero/ quando convém eu brinco e pulo/ se desconvém eu sério”).

Transe aborda o amor entre metáforas gastronômicas e geográficas (“que que eu faço?/ me afogo em ti!/ eu posso logo ser um peixe?/ ou quer primeiro um puta barco de sushi?/ me diz pra gente se entender/ te pego em casa e digo: linda eu vejo o sol no teu olhar/ só pra nadar a noite nesse rio”) em faixa pontuada pela tuba de Santiago Castellani.

Entre o serrote de Diego Galaz e a guitarra de Ian Ramil, o personagem de Ímã ralo equilibra-se entre dois extremos: “às vezes ele pensa que é um ímã/ é que todo o mundo parece que quer colar/ em outras ele acha que é o ralo/ onde aquele mundo todo quer escoar/ (…)/ a personalidade desse cara é uma piada/ atraindo e escoando o que ele é”, diz a letra. Nela, Ian explora algumas possibilidades vocais, ele mesmo equilibrando-se entre a aproximação ou o distanciamento do conforto oferecido pelo sobrenome da família. Personalidade e talento ele prova ter de sobra neste consistente disco de estreia.

Confiram Ian Ramil em Suvenir.

Festa para Pixixita reúne tribo da música

Em edição anterior da Tribo do Pixixita, a cantora Flávia Bittencourt, acompanhada pelo Instrumental Pixinguinha, com Chico Nô ao pandeiro. Foto: Taciano Brito
Em edição anterior da Tribo do Pixixita, a cantora Flávia Bittencourt, acompanhada pelo Instrumental Pixinguinha, com Chico Nô ao pandeiro. Foto: Taciano Brito

 

Não conheci José Carlos Martins (1/4/1952-12/4/2002), o Pixixita, pessoalmente. Sua fama, no entanto, está impregnada de tal modo na cidade que é impossível não se sentir, de algum modo, próximo dele.

Alguns músicos citaram-no como professor, amigo ou influência, ao longo da série Chorografia do Maranhão. A um deles, Ricarte Almeida Santos, um dos parceiros da empreitada, respondeu: “eu não tive a honra de conhecê-lo, mas conheci Nelsinho, um cara bacana, gente fina”.

É por aí.

Nelsinho é filho de Pixixita. Também é, já, uma espécie de lenda urbana, professor de capoeira, o sorriso sempre a iluminar a ensolarada São Luís, que vez em quando a gente encontra flanando por aí, por aqui, por ali.

Pixixita era professor da Escola de Música. Feições indígenas, entre a inocência de um curumim e a sabedoria de um pajé. Mais que a música, sua grande paixão, o professor foi um cultivador de amizades.

Maranhense de Imperatriz, o cantor e compositor Chico Nô é um dos que não escondem a amizade, admiração, carinho, respeito e saudades de Pixixita, falecido em 2002, em um acidente automobilístico.

Em 2004, no evento semanal A vida é uma festa, Chico Nô homenageou o mestre amigo. Da tertúlia capitaneada pelo poetamúsico ZéMaria Medeiros, a Tribo do Pixixita – como passou a ser chamada a homenagem – ganhou vida própria e não existe abril sem ela, no calendário cultural da cidade que Pixixita tanto amou.

Produzida por Luiza Maria, Chico Nô e Nelsinho, a Tribo do Pixixita chega em 2015 à sua 12ª. edição, agregando uma constelação de craques da música produzida por estas plagas (sem contar os que aparecem sem ser anunciados), mais “pixixitesco” impossível: Angela Gullar, Beto Ehongue, Chico Nô, Chico Saldanha, Criolina, Erivaldo e Didã, Flávia Bittencourt, Gerude, Instrumental Pixinguinha, Josias Sobrinho, Marcos Magah, Ronald Pinheiro, Rosa Reis e Sérgio Habibe.

A festa acontece no Malagueta (Renascença II), neste sábado (11), às 20h30. Os ingressos custam R$ 20,00, à venda no local.

Um show de responsa: vai chover pedra!

Luciana Simões volta às origens regueiras em show dedicado ao roots; apresentação acontece nesta quinta, no Amsterdam

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O início da carreira de Luciana Simões remete ao ritmo internacionalmente popularizado por Bob Marley. Ainda menina ela estourou como vocalista da banda maranhense Mystical Roots, que alcançou relativo sucesso fora do estado. O reconhecimento chegou a alçá-la ao posto de vocalista da Natiruts.

Em 2007, com o marido Alê Muniz, lançou o primeiro disco do duo Criolina, formado pelo casal. Dois anos depois foi a vez de Cine Tropical, sucesso de público e crítica, um disco dançante, cujas faixas emulam gêneros cinematográficos.

Enquanto a dupla grava o terceiro disco, Luciana resolveu dar um passeio fora do estúdio e prestar reverência a mestres do gênero a que se dedicou no início da carreira. O nome do show já dá pistas do que será a noite: Bota teu capacete, regueiro. Acompanhada de Isaías Alves (bateria), João Paulo (contrabaixo), João Simas (guitarra), Beavis (teclado), Daniel (trombone) e Hugo Carafunim (trompete), ela desfilará um repertório de clássicos do roots reggae.

O show acontece nesta quinta-feira (9), às 22h, no Amsterdam Music Pub (Lagoa). Os ingressos individuais custam R$ 15,00 (pista) e a mesa para quatro pessoas R$ 80,00. A abertura fica por conta do DJ Misk Brown.

Através de uma rede social, ela conversou com o blogue.

A quantas anda o terceiro disco do duo Criolina? Está em fase de gravação. Em menos de um mês será lançado um EP intitulado Latino americano, com quatro faixas, juntamente com o clipe, captado através do Catarse [site de financiamento coletivo, que arrecadou o dinheiro que viabilizou a realização do clipe], da faixa-título.

Uma das máximas do DJ Neto Miler diz que “reggae é espiritual”. Você concorda com ele? Acredito na espiritualidade que o reggae traz, sim. A música é um veículo condutor das energias. O próprio ritmo já nos convida a mergulhar no íntimo e a expressar nosso contentamento através da dança ou da meditação. A história do reggae na ilha é antiga e cheia de teorias, mas acredito haver uma herança africana que nos atrai para o reggae. Rodei o Brasil cantando reggae e posso dizer que nunca vi essa relação das pessoas com o reggae como vejo aqui em São Luís.

Voltar às origens e ao reggae roots é recarregar as baterias? O que mais você faz para manter as baterias sempre carregadas? Para manter as baterias carregadas tenho que me alimentar do que me desperta interesse. Acho que o olhar curioso me faz ver a beleza das coisas. A música é uma fonte de descobertas que nunca seca. As histórias por trás das músicas também me encantam. O que significa um movimento musical ou uma música [risos].

O que o público pode esperar desta tua apresentação solo, em termos de repertório e energia? O público pode esperar uma entrega porque a saudade de cantar reggae é grande. O reggae que gosto de ouvir e de cantar vem do rhythm’n blues. É old school. Das antigas. Nem na Jamaica se toca mais. Só aqui mesmo que ouvimos essas pérolas. Artistas como [os cantores jamaicanos] Gregory Isaacs, que nos trouxe o lovers rockers, Hugh Mundell com o dub, Dennis Brown, Alton Ellis, Ken Boothe e tantos outros. Vai ser uma noite de entusiasmo, de recordação, de reencontro. Lancei um post e estou colhendo as músicas que as pessoas querem ouvir [em uma rede social, a cantora recebeu sugestões de fãs para compor o repertório].

Agora é pra valer!

[release]

TEMPORADA CELEBRA 60 ANOS DE JOÃOZINHO RIBEIRO*

Compositor realizará shows bimestrais até o fim de 2015. Apresentações serão seguidas de sessões de autógrafos do disco Milhões de Uns – Vol. 1. Estreia acontece neste sábado (11), no Bar do Léo

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Milhões de Uns – Vol. 1 apresenta uma significativa, embora pequena, parte da obra musical do poeta e compositor Joãozinho Ribeiro, que completa 60 anos de idade neste recém-iniciado abril. É o primeiro registro lançado com o autor interpretando sua obra, coalhado de participações especiais, gravado ao vivo em duas memoráveis noites no Teatro Arthur Azevedo, em novembro de 2012 – a exceção é a gravação em estúdio de Elba Ramalho para Asas da paixão (Joãozinho Ribeiro).

Milhões de Uns - Vol. 1. Capa. Reprodução
Milhões de Uns – Vol. 1. Capa. Reprodução

É que Milhões de Uns não é apenas o título de uma das mais conhecidas músicas do artista, vencedora do Prêmio Universidade FM há mais de 10 anos, na magistral interpretação de Célia Maria. A música que batiza o disco de estreia é a mais perfeita tradução do que são a vida e obra do bacharel em Direito, funcionário público e professor universitário nascido João Batista Ribeiro Filho.

A constelação presente ao disco reflete sua importância para a música produzida no Maranhão ao longo dos últimos mais de 30 anos. Ali estão nomes como o Coral São João (a faixa-título), Milla Camões (Coisa de Deus), Célia Maria (Saiba, rapaz), Zeca Baleiro (Palavra e Erva santa), Chico César (Anonimato e Erva santa), Alê Muniz (Planos urbanos), Lena Machado (Rua Grande), Chico Saldanha (Matraca matreira) e Elba Ramalho, a interpretar sambas, choros, blues, reggaes, forrós e marchinhas, o que demonstra a versatilidade de Joãozinho Ribeiro.

Variedade refletida também no leque de parceiros: Betto Pereira (Coisa de Deus), Alê Muniz (Planos urbanos), Chico César (Anonimato), Marco Cruz (Tá chegando a hora) e Zezé Alves (Rua Grande).

O autor e seus convidados são escudados pela banda Milhões de Uns, outra constelação de craques à parte: Arlindo Carvalho (percussão), Danilo Costa (saxofone tenor e flauta), Firmino Campos (vocal), George Gomes (bateria), Hugo Carafunim (trompete), Klayjane (vocal), Luiz Jr. (violão sete cordas, guitarra semiacústica e viola caipira), Paulo Trabulsi (cavaquinho), Rui Mário (sanfona e teclado), Serginho Carvalho (contrabaixo) e Wanderson Silva (percussão).

Se médicos chegaram a desenganar o moleque João aos nove anos de idade, apostando-lhe cinco anos de sobrevida, o menino cresceu, tornou-se Joãozinho Ribeiro e teima em viver e fazer arte, desde um Festival Universitário de Música na UFMA, em 1979. Com seu otimismo quase insuportável, como gracejou Zeca Baleiro durante a gravação do disco, um de seus bordões é “eu não morro nem que me matem”, frase de quem teima em lutar pelas coisas que acredita, como diz outra conhecida canção sua.

Para festejar os seis ponto zero, Joãozinho Ribeiro, sempre acompanhado de convidados especiais, inicia neste sábado (11), às 21h, no Bar do Léo, uma temporada que circulará alguns bares e outros logradouros ludovicenses. A ideia é realizar, a partir deste início de março, shows bimestrais até o fim do ano – a empreitada tem apoio da Fundação Municipal de Cultura (Func).

Para a estreia estão escalados Célia Maria e Chico Saldanha. Os shows terão um formato intimista. As apresentações têm entrada franca. Milhões de Uns – Vol. 1 pode ser adquirido na ocasião, no local, e ainda nos seguintes pontos de venda espalhados pela Ilha: Livraria Poeme-se (Praia Grande), Banca do Dácio (Praia Grande), Rodrigo Cds Maranhenses (Praia Grande), Banca do Valdir (Renascença I), Papos & Sapatos (Lagoa da Jansen), Quitanda Rede Mandioca (Rua do Alecrim), Banca do Mundo de Coisas (Renascença II) e Play Som (Tropical Shopping).

Serviço

O quê: show Milhões de Uns. Lançamento do cd homônimo.
Quem: Joãozinho Ribeiro e banda. Participações especiais: Célia Maria e Chico Saldanha.
Quando: dia 11 de abril (sábado), às 21h.
Onde: Bar do Léo (Hortomercado do Vinhais).
Quanto: entrada franca.
Apoio: Fundação Municipal de Cultura (Func).

*Este texto é uma versão atualizada de um release postado anteriormente.

Chorografia do Maranhão: Os Irmãos Gomes

[O Imparcial, 22 de junho de 2014]

A 34ª. edição da Chorografia do Maranhão é misto de entrevista e homenagem. Entrevistamos os Irmãos Gomes, naturais de Rosário, e homenageamos seu pai, o compositor Nuna Gomes, também oriundo da cidade banhada pelo Itapecuru.

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: MURILO SANTOS

Ladeados pelos chororrepórteres, Os Irmãos Gomes. Da esquerda para a direita: Bastico (violão), Zequinha do Sax e Biné do Cavaco (violão). Foto: Murilo Santos
Ladeados pelos chororrepórteres, Os Irmãos Gomes. Da esquerda para a direita: Bastico (violão), Zequinha do Sax e Biné do Cavaco (violão). Foto: Murilo Santos

 

Vem de Rosário o trio de entrevistados da 34ª. edição da série Chorografia do Maranhão. Os Irmãos Gomes, filhos da doméstica e costureira Isabel Pereira da Silva Gomes e de Nionílio Alódio Gomes (1904-1985), barbeiro e músico mais conhecido pela alcunha de Capitão Nuna Gomes, herdaram do pai o gosto e talento pela música.

Desfalcados do fotógrafo titular, Murilo Santos assumiu o posto e clicou no Bar do Léo o depoimento a Ricarte Almeida Santos e Zema Ribeiro de Benedito do Espírito Santo Silva Gomes, o Biné do Cavaco (nascido em 6 de agosto de 1953), José Raimundo Silva Gomes, o Zequinha do Sax (6 de fevereiro de 1940) e Sebastião de Jesus Silva Gomes, o Bastico (14 de setembro de 1948).

Autor de obra pequena – muito se perdeu na própria memória, pela falta de registro – Nuna Gomes é nome fundamental na galeria de compositores de choro do Maranhão. Sua Um sorriso foi registrada em Choros Maranhenses (2005), do Instrumental Pixinguinha, primeiro disco autoral de choro registrado no Maranhão – Biné do Cavaco integrou o grupo em sua formação inicial, no começo da década de 1990.

 

A conversa foi ilustrada musicalmente por, entre outras, Saxofone, por que choras? (Ratinho) e Siboney (Ernesto Lecuona).

Além de músicos, vocês têm outras profissões?
Biné – Eu tentei ser aeroviário, trabalhei uns 10 anos, trabalhei na Vasp, Transbrasil, mas com o tempo fiz uma empresa pra mim, tentei ser empresário. Resultou agora já há 14 anos abri minha escola de música, já formei dois filhos e acho que vou me aposentar nisso, como professor de música.
Zequinha – Eu fui funcionário público federal, trabalhei muitos anos nos Correios, carteiro, passei 17 anos, quase 18, nos Correios. Aí eu fui redistribuído para a Escola Técnica, na época era Escola Técnica Federal do Maranhão, cheguei lá em 1978 e lá eu me aposentei, trabalhando uma parte como músico, ensinando na banda de música, e outros anos eu trabalhei como supervisor, passei nove anos como supervisor e nove anos como professor na banda de música. Ensinei muita gente lá.
Bastico – Além de músico eu consegui fazer cursos profissionalizantes na Escola Técnica Federal do Maranhão. Consegui fazer as profissões de tornearia, marcenaria, eletricidade, bombeiro hidráulico, solda elétrica e oxigênio, tipografia, e fora outras profissões como xerografia. E algumas com atividades durante algum tempo. Outras já até abolidas, como o caso da tipografia. Algumas exercidas, outras não. Atualmente sou só músico. Continua, essa é padrão.
Biné – Não tem saída: lá em casa a gente encerra com música.

Como era o universo da infância de vocês? Era musical? Como era o clima na casa de vocês?
Zequinha – Lá em casa sempre foi. Ainda em Rosário, aqui. Lá em Rosário a gente era muito novo.
Biné – Eu vim de Rosário com seis anos, sete. Mas lá em casa sempre foi música.
Zequinha – Eu era o mais velho. Lá eu aprendi a tocar o clarinete, com o professor da época, João dos Santos, grande músico. Eu comecei a tocar cabaça coberta com botão de cueca, ia fazer festa pra ganhar dinheiro.
Biné – O músico do interior, na época, tinha três classes. Zequinha entrou na terceira, pra depois ir pra segunda e depois pra primeira. Na terceira entrava cabaça, pandeiro; o cantor já era da segunda, com banjo. Agora o cara do sax, do pistom, já era da primeira.
Zequinha – Eu entrei como cabacista, da terceira. Era como se aquele ganhasse cem reais, o outro 80 e eu ganhava 60. Eu não achava legal, por que eu trabalhava mais, ainda cantava. Moral da história: eu comecei a aprender, fui estudar música, passei uns meses. Depois comecei a tocar clarinete. Aí vim pro quartel, passei um ano, quando eu voltei pra Rosário, seis meses ou um pouco menos, eu ganhei uma nomeação no Correio de São Luís e tive que vir pra cá. Eu não tinha conhecimento nenhum, a não ser o quartel.
Biné – Eu me lembro que papai dizia que a gente só vinha pra São Luís quando Zequinha estivesse empregado.
Zequinha – Aí com poucos meses eu estava empregado, aluguei uma casa e disse para mamãe botar tudo dentro do caminhão que a casa já estava alugada. Aí eles vieram pra cá, ali no Monte Castelo, eu gosto muito do bairro. Tudo o que eu precisava ter eu tive lá. Passei 10 anos lá, durante o tempo de solteiro. Ali eu saía pra tocar.

Capitão Nuna Gomes. Sem data. Autoria desconhecida
Capitão Nuna Gomes. Sem data. Autoria desconhecida

 

Além da genética, o fato de o pai de vocês tocar, vocês acham que houve outro fator decisivo para vocês seguirem a carreira de músicos?
Biné – Sobrevivência!
Zequinha – Eu, me ajudou demais. Aqui eu fiz conjuntos, naquela época era conjunto musical, participei de vários. Isso tudo a gente faturava, e bem, na época. Eles já vieram depois. Eu tinha que arrumar um jeito para ajudar na despesa de casa. Nós éramos nove irmãos, mais os dois pais, e alguns amigos que moravam. Tinha que ter dinheiro pra poder segurar, e com a música eu ganhava muito mais do que o próprio salário no Correio. Até hoje.

O violonista Bastico. Foto: Murilo Santos
O violonista Bastico. Foto: Murilo Santos

 

Bastico, você, filho de Nuna, que tocava bandolim e violino, o que te fez escolher o violão? Eu já te vi tocando seis cordas, sete cordas, guitarra, baixo. O que te levou aos instrumentos de cordas?
Bastico – Esse fator de nosso pai ter sido músico e concentrar em sua volta muitos músicos, a apreciação da arte em si, me chamava a atenção, eu como criança. Apesar de me chamar a atenção não havia em nosso pai uma permissão ou uma preferência para que qualquer um de nós seguisse os dons que ele tinha, que era ser músico ou barbeiro. Ele aspirava, como geralmente todos os pais, alguma coisa melhor que a que ele continha. Mas como esse dom é uma origem que se alastra por toda a família. Chamava-me a atenção, aquela reunião, a forma de meu pai tocar, a forma de meu irmão mais velho, Denisal, tocar, e outros amigos e alunos dele. Mas eu não expunha meu interesse a meu pai nem a ninguém. Eu procurei captar às escondidas. Na ausência dele, na forma mais oculta possível, pegando instrumento dele, sem o conhecimento dele. Isto com pouca idade, meus oito, nove, 10 anos. Até chegar o momento do conhecimento: num determinado momento em que ele necessitava de uma pessoa que tocasse violão para que ele pudesse fazer uma apresentação. E ele, que não sabia que eu já havia captado alguma coisa dele e das outras pessoas que com ele tocavam, foi surpreendido pela minha irmã para poder tomar conhecimento de que eu já tocava as músicas que ele precisaria tocar. A partir desse momento eu fui levado junto com ele para um compromisso, em que ele faria o oferecimento de duas músicas, uma valsa e um chorinho, de autoria dele, eu passei a ser um músico assediado por ele, já. Então eu passei a fazer parte das apresentações, das amizades dele. A partir daí meu desenvolvimento foi baseado no que ele fazia, da forma que ele tocava, na qualidade que ele desenvolvia o instrumento e o meu irmão também. A música é um dom natural de família. A partir daquele instante, já vindo pra cá, houve outras evoluções.

Zequinha do Sax e Biné do Cavaco. Foto: Murilo Santos
Zequinha do Sax e Biné do Cavaco. Foto: Murilo Santos

 

Biné, você está com um violão, mas você tem o nome artístico de Biné do Cavaco.
Biné – Essa é uma história muito interessante. A gente tinha uma banda, Curtisom, inclusive eu fiquei muito satisfeito: todos nós estamos vivos. Encontrei Joaquim [baterista], fazia 10 anos que eu não via, vamos fazer um encontro. A história do cavaco é a seguinte: a gente tinha uma Rural [veículo utilitário]. Nós éramos sete. Imagina, ficávamos cinco lá atrás, dois na frente e o motorista. O motorista nunca ia dormir para vir depois da festa. Aí ele ficava com sono e dizia: “toquem alguma coisa!” E às vezes a gente levava um violão pra brincar, pra fazer um sambinha, numa época em que samba não se tocava em festa. Era inconveniente o violão. Um dia levamos um cavaquinho, peguei a afinação do violão, eu tocava para animar o cara, pra ele não dormir. E eu comecei a tocar cavaquinho naquela afinação. Um dia Zé Hemetério [multi-instrumentista e compositor] chegou pra mim e disse: “Biné, esse cavaquinho tá tocado em afinação errada”. Aí ele me deu a afinação como seria. O que aconteceu? Eu comecei a tocar o cavaquinho, aprender um chorinho aqui. Depois a gente fez um grupinho de brincadeira, a gente ia pra rádio Ribamar. Zequinha, você lembra o 20 Cordas no Choro? Mas a gente não era chorão, então a gente sabia 10, 15, 20 choros. Não dava pra segurar um repertório, a gente tocava em banda. A gente chegava, tocava cinco choros, diziam “está muito bom, voltem na próxima semana”. Na outra semana a gente tocava os outros cinco [risos]. Dava pra tocar umas quatro semanas. Aí chegou a época de roda de samba, o Curtisom saiu na frente, por que tinha um cara tocando cavaquinho: eu.

Quem integrava o Curtisom?
Biné – O Curtisom era formado, inicialmente, por Almir, cantor, Zequinha, eu, Bastico, Joaquim, esse amigo nosso que eu falei, Giovani, violonista, e Pinheiro, Chico Pinheiro, de teclado. Chico Pinheiro foi a coisa mais interessante, por que ele não sabia tocar teclado e nós convidamos ele pra tocar teclado, quando a gente comprasse. “Vai treinando na Escola Técnica no piano, que quando a gente comprar, tu vem ser o nosso tecladista”. E ele veio. Quando comprou, “te vira aí”.

Isso era década de 1970?
Zequinha – 72.
Biné – Dia 2 de julho o Curtisom faria 42 anos.

Vocês tocavam em casas noturnas? Como era isso?
Biné – São Luís era maravilhoso! Não é como agora. Eu fico prestando atenção. Eu passo ali, vejo o Lítero [o Grêmio Lítero Recreativo Português, no Anil] no chão. Em 1972 eu toquei o carnaval ali. Foi a época, quando eu falei com Agnaldo [Sete Cordas, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013], Zequinha foi um dos fundadores dos Fantoches. Nós tínhamos tantos lugares para tocar. Tinha os grupos classe A, uns quatro: Nonato, Fantoches, Som Livre e Curtisom. A gente tocava no mesmo valor. Quando a gente estava cheio de contratos, a gente passava. Tinha um negócio interessante: toda turma fazia duas a três festas para poder fazer as festas do final de ano, dos colégios. Tinha Casino Maranhense, Montese, tantos clubes aqui, as bandas não davam para quem queria.

No traço de Nuna Neto (chargista de O Imparcial), outro herdeiro do capitão Gomes, a família musical reunida
No traço de Nuna Neto (chargista de O Imparcial), outro herdeiro do capitão Gomes, a família musical reunida

 

Mesmo o pai de vocês sendo músico, não era tranquilo o apoio dele a vocês serem músicos também, até pelo preconceito que existia à época. Depois o pai de vocês apoiou essa escolha?
Zequinha – Meu pai sempre me apoiou eu tocando sax. Por que também é o instrumento que eu sei tocar, embora um pouco menos do que os outros, mas dá pra gente ouvir. Canhoto, seria difícil eu tocar um instrumento de cordas, por que eu não tocava numa afinação minha. Ficou difícil eu aprender cavaquinho ou bandolim. Violão eu toco pro gasto. Quando eu fui pro saxofone ele me dava todo apoio.
Biné – Acontece um negócio interessante: com o tempo papai passou a admirar muito a gente, eu não lembro por quê. Quando a gente reunia tinha uma banda tocando: Bastico no violão, eu de cavaquinho, Zequinha de saxofone, alguém fazendo ritmo, não sei quem cantando. Vamos, tá uma banda montada. Quando era banda, era eu guitarrista, Bastico baixista, Zequinha sax, aí já vinha Celso, irmão nosso que faleceu há uns quatro meses, cantava, tocava bateria.
Bastico – Na opinião dele ninguém seria músico, ninguém seria barbeiro. Mas a partir do momento em que cada um abraçou a música, o dom dele, que é o nosso também, e passou a desenvolver, ele passou a apoiar. Passou a apoiar e a usufruir o que se fazia. Estava sempre que possível junto com a gente, sempre perto, e sempre mostrando ou expondo às pessoas o que ele tinha, de família, como músicos iguais a ele ou no ramo dele. Ele fazia questão, ele tinha um prazer, não era a preferência dele. Talvez a preferência dele fosse outras coisas, mas ele apoiava todos nós, sim.

Ele chegou a dar aulas para vocês? A ensinar música?
Bastico – Para mim, no caso, não. Eu acho até que para nenhum dos irmãos. Cada um foi autodidata ou procurou alguma forma de desenvolver a sua cultura. Foi mais fácil uns com os outros e com ele também, embora indiretamente. Mas ele lecionar qualquer coisa pra gente, não. Depois desse desenvolvimento nosso ele poderia sugerir qualquer opinião.
Biné – Eu concordo contigo numa coisa: a primeira ação de papai para os filhos tocarem. Papai tinha muita ideia musical, mas sabia que aquela música que ele fazia não tinha grande futuro. O que ele fez? Pegou nós três irmãos primeiros, mais Denisal, Concita e Nazaré, essa já falecida, e botou com Pedro Gromwell pra poder estudar partitura. Ele ia uma ou duas vezes por semana em Rosário, dar aulas.

Ainda assim, ele não dando aula formalmente, vocês o consideram o seu principal mestre?
Zequinha – Eu o considero. Por que ele, quando a gente fazia coisa errada, brigava. Dava murro nas paredes, na mesa. “Tá errado!” Eu não, por que meu instrumento é solo e ele não sabia tocar [risos], mas ele gostava de ouvir.
Biné – Ele tinha um ouvido magnífico. Não era o que ouvia bem a música: ele ouvia, memorizava e passava para o instrumento.
Zequinha – Ele tinha uma facilidade monstra de aprender as coisas. Ele não lia música, mas tudo ele pegava no ar.
Biné – Papai teve essa visão de botar os filhos para aprender a ler música, na época. Os outros, que não quiseram aprender a ler, ele começou a relaxar um pouco. Papai conhecia perfeitamente os instrumentos que tocava, a ponto de eu pensar que eu já era o craque, artista, cabeludo, de guitarra e tudo mais, e chegar e dizer o seguinte: “papai, eu tou tocando cavaquinho, já sei solar uns choros, vou comprar meu cavaquinho”. E ele dizia: “vá comprar o cavaquinho que eu quero ver se você sabe comprar o instrumento”. Cheguei, procurei o mais bonito, quando eu cheguei ele só fez isso [belisca duas cordas, imitando o gesto do pai]: “vá devolver, que não presta”. Aí eu fui estudar para entender aquele gesto dele. É como eu lembro, comento, as músicas de papai, hoje, que a gente procurou estudar um pouco mais para entender a estrutura, a organização das músicas que ele fez, rapaz, as músicas de papai estão todas dentro do padrão. Eu conversando com meu grande amigo César Jansen [bandolinista], ele me disse que as músicas de choro, cada parte tem 16 compassos. “Foi um estudo feito através de Pixinguinha. Vamos ver os de Capitão”, é como chamam papai. Cumprem rigorosamente as determinações da parte teórica, as músicas dele, as movimentações harmônicas. Ficou mais fácil, estudando, entender a música de papai. É a mesma variação da música de Jacob [do Bandolim], a mesma dos grandes compositores.

Em "A arte musical de Nuna Gomes" estão registradas nove composições dele. Capa. Reprodução
Em “A arte musical de Nuna Gomes” estão registradas nove composições dele. Capa. Reprodução

Qual o tamanho da obra de Nuna Gomes?
Biné – Nuna não tem uma obra muito grande. Ele deve ter umas 14 músicas – umas quatro valsas, uns 10 choros. Tem umas coisas perdidas, por que não era escrito. O que foi escrito foi por Zé Hemetério, foi o que foi gravado. Tem até músicas com dúvidas quanto aos nomes. Mas aquelas que foram gravadas estão certinhas. Só podia memorizar naquela época através de um gravador. Tu queria ver papai não dar uma nota num instrumento era botar um gravador na frente. Ele se perdia todinho, “tira esse gravador daí!”

Como vocês definiriam o Capitão Nuna Gomes?
Bastico – Eu posso dizer, em particular, que fui priorizado com a preferência dele na forma de meu aprendizado sobre as coisas que ele fazia. Eu procurei aprender da forma que ele tocava, ele e meu irmão, assim satisfazendo a necessidade dele. Por essa razão ele procurou aproximar-se o máximo possível de mim, chegando ao ponto de não satisfazer-se em tocar sem minha presença em determinados momentos. Eu acho que definir meu pai tanto como pai, homem, músico ou como um cidadão, ele para mim foi um modelo, um modelo que a gente cria na mente, um exemplo a seguir.
Zequinha – É um tanto difícil de a gente chegar e dizer a verdade: “ah, por que é filho”. Não: eu sempre dei 10 pra ele. Ele pegava o cavaquinho, tudo o que ele queria ele fazia com aquele cavaquinho. Violão do mesmo jeito, bandolim, esse era o instrumento dele, e o violino. Violão ele pegava depois. [Lacrimejando:] Eu não gosto de falar.
Biné – Eu tentei ser solista. Da família, é como se fosse um time de futebol, eu era o nove. Eu era o solista, com Zequinha, lá na frente da banda. Solista de guitarra, solista de cavaquinho. Aí eu passei a perceber e valorizar Capitão Nuna: ele passava cinco anos sem pegar um instrumento. Quando a gente foi levar Nuna pra gravar o primeiro cd dele, lá onde Anísio, ele disse: “a coisa mais impressionante, eu não vejo seu Nuna errar uma nota”. Ele tinha uma segurança tão grande na escala, que se tornou, devido a tocar muito tempo, conviver muito tempo com o instrumento, o que ele imaginava, ele fazia perfeitamente. Eu tenho certa dificuldade. O músico completo tem que ter muitas coisas, inclusive memória. A escola dele, ele foi autodidata. Aí é que está minha admiração: magnífico nessa parte. Todo instrumento que ele tocava, ele tocava com muita segurança.

A obra de Nuna foi registrada em disco recentemente. Como foi esse processo? Se alguém quiser ter acesso, onde encontra?
Biné – Esse material não se encontra direto ao público. Ele foi registrado por um grande amigo nosso, Hilton Mendes, que mandou fazer uns 400 cds. Isso já se distribuiu para os amigos, deve ter bem poucos [exemplares]. Foi uma obra feita de caráter mais documental, não foi com caráter comercial.

Além desse disco que registrou a obra de Nuna, vocês participaram da gravação de outros discos?
Biné – A gente fez algumas coisas, tem registros de memórias, em fitas lá em casa. Tem Zé Hemetério tocando. Tem Ricarte [risos dos chororrepórteres], um grande violonista, amigo de Zé Hemetério.

 

Biné, você foi membro do Instrumental Pixinguinha. Quanto tempo você passou no grupo?
Biné – Eu passei 18 meses. Eu estava trabalhando na Transbrasil e na época não queria saber de música, mas Solano [o violonista sete cordas Francisco Solano, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013] me convidou e eu fui. Na época eu não lia música e eles disseram [risos]: “tu tá lascado”. “Mas eu aprendo”. Foi muito importante nessa parte teórica, eu comecei a estudar, gostava do trabalho que estava sendo feito. Fizemos um espetáculo no Teatro Arthur Azevedo em que tocamos a Suíte Retratos [de Radamés Gnattali]. Depois saímos eu, César Jansen, Solano, Paulinho [Oliveira, flautista] e Marcelo [Moreira, violonista]. Ficou só Domingos [Santos, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014]. De lá reuniu, o pessoal trouxe Juca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014], Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013]. Isso era 1990, esse pessoal [a atual formação] veio depois.

O pai de vocês tinha amizade com Zé Hemetério? Como era isso?
Zequinha – Nós éramos vizinhos. Era aquela amizade louca! Eu toquei demais com Zé Hemetério.
Biné – Zé Hemetério era o seguinte: já envelhecido, ele tinha alguns contratos, mas não tinha parceiros. Ele chegava e perguntava: “vocês vão tocar quinta-feira?” Íamos eu, Bastico e Maneco acompanhando ele, tocamos muito. Ele no violino, tocando festa de 15 anos. Muito depois ele começou a tocar bandolim, mas só pra brincar, não pra ganhar dinheiro.

Vocês já falaram no Curtisom e no Pixinguinha. De que outros grupos musicais vocês participaram?
Biné – Eu e Bastico participamos da Orquestra Maranhense. A Orquestra Maranhense tem uma história que ainda não foi dita por ninguém. O Ataíde, que fez a Orquestra Maranhense, na época era dono do Som Livre, depois extinto. Ele pensou assim: todos os músicos, das bandas da polícia e das bandas do exército, não têm onde tocar depois que se reformam, a não ser em [bumba meu] boi e carnaval. E ele idealizou uma orquestra para poder tocar todo o tempo. Pegou todos os músicos reformados da época e fez a Orquestra Maranhense, lá na casa dele no Ipase. Ele perguntou: “Biné, tu não vai dar uma força pra mim?” Eu fui pra guitarra, Bastico pro baixo, e ele ficava lá no teclado.
Zequinha – Nós criamos aqui o Conjunto Melodia, com Mascote [o violonista e percussionista Antonio Sales Sodré], Ataíde, [o cantor Léo] Spirro, a gente tocava muito. Sabe como é o conjunto: vai, vai e se acaba. Aí nós criamos o Big Nove, com aquela dupla Ponto e Vírgula, Jorge e Othon Santos. Foi chamado Spirro, Bárbara, cantora, naquela época cantava muito bem, eu. Nós éramos nove músicos, por isso Big Nove. Fizemos muita festa, [Clube] Jaguarema. Terminou o Big Nove nós fizemos Os Fantoches. Depois o Curtisom, em 1972 eu saí dos Fantoches. Aí nós fundamos o nosso, um nome criado por Bastico, Curtisom, muito bom. Quando surgiu, surgiu com tudo.
Bastico – Eu fiz parte de muitos, como Big Nove, Ferreira e Seu Conjunto. Depois fui participante do Som Livre, Os Fantoches e do Curtisom. Depois da Orquestra Maranhense. Toco violão há oito anos no bumba meu boi Mocidade de Rosário.

Vocês se consideram chorões?
Bastico – Eu sempre fui. Eu sou muito amante do gênero, e como amante eu gosto sempre de participar como músico. Portanto, tanto quanto como amante, como quanto participante instrumentista, eu sou chorão.
Zequinha – Eu me considero. Por que foi um dos ritmos que eu mais abracei. Na época em que eu tocava o sax alto ele pede que a gente toque choro devido à facilidade na execução. Eu morava no interior e lá eu tinha que aprender a tocar, pra fazer aquelas festas que começavam às nove horas e terminavam às seis da manhã. De madrugada a gente tocava choro e eu me acostumei com aquilo, aprendi, vim pra cá e trouxe o costume pra cá. Abraço todos os gêneros, toco todos os gêneros, mas naquela época eu tocava mais o choro.
Biné – Na visão de músico ou na de musicólogo? Na visão de musicólogo eu adoro o choro; na de músico, eu gosto, porém eu não pratico. Eu fui um dos primeiros a tocar choro aqui dentro de São Luís. Eu procuro ser o máximo eclético. Hoje eu toco mais violão, tenho minhas agendas. Na verdade eu tenho que parar para poder estudar, treinar. Não tem grupo, o choro é fundamental ter o grupo.

Os reencontros de Demétrio Bogéa

Doce pecado. Capa. Reprodução

O cantor e compositor Demétrio Bogéa estreia turnê nacional de lançamento de seu disco Doce pecado hoje, amanhã e domingo, em São Luís. Professor de música, só agora, aposentado, ele pode dedicar-se aos shows de lançamento do álbum lançado em 2011.

As apresentações, gratuitas, acontecem no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), às 20h (domingo, 29, às 19h). A retirada dos ingressos será feita na bilheteria do teatro, com uma hora de antecedência do espetáculo.

Doce pecado terá shows de lançamento também no Rio de Janeiro e Recife/PE. Demétrio Bogéa será acompanhado por Deniel Moraes (bateria), Leonardo Paes (baixo), Dennes Sousa (guitarras), Gregory (teclado) e Hugo Coelho (violão e vocais).

As apresentações serão marcadas por reencontros: o artista volta à terra natal e contará com as participações especiais de Sérgio Habibe, Gerude e Nosly. Os dois primeiros participaram do show inaugural de Demétrio Bogéa em São Luís, acontecido em 1983 no Teatro Arthur Azevedo.

Ouça Doce pecado na Rádio Uol.

Chorografia do Maranhão: Luiz Cláudio

[O Imparcial, 8 de junho de 2014]

Nascido no Pará e radicado no Maranhão desde 1981, o percussionista Luiz Cláudio é o 33º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

O paraense Luiz Cláudio Monteiro Farias participou de alguns processos revolucionários da música produzida no Maranhão. Nascido em 17 de março de 1964, o músico aportou na Ilha no início da década de 1980 para trabalhar como intérprete em um hotel e nunca mais voltou à terra natal – a não ser a passeio e, recentemente, para gravar o disco do trio Loopcínico, que mistura os tambores do Maranhão a bases eletrônicas.

Filho de Cláudio da Silva Farias e Maria de Nazaré Monteiro Farias, é casado com Susana Almeida Fernandes, que o acompanhou à entrevista que concedeu à série Chorografia do Maranhão na Quitanda Rede Mandioca. Eles têm três filhos: Luiz Cláudio Filho, Leonardo e Luana.

Em paralelo ao ofício musical, Luiz Cláudio hoje continua trabalhando como tradutor e intérprete – a camisa que usava quando conversamos trazia a expressão “drums”, que pode ser traduzida como “tambores”. Ele carregava um derbak, instrumento egípcio e lembrou do arrebatamento que foi ver e ouvir o Tambor de Crioula de Mestre Leonardo pela primeira vez, numa longínqua manhã de domingo de carnaval.

Um dos mais requisitados percussionistas destas plagas, Luiz Cláudio já tocou e gravou com inúmeros artistas e não esconde serem os ritmos da cultura popular do Maranhão sua principal escola – mesmo quando o assunto é tocar choro, o que foi fundamental para o meteórico Choro Pungado, outra formação importante que integrou.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Quais as primeiras memórias musicais de tua infância? O que te tocou pela primeira vez? Foram as big bands americanas. Meu pai havia herdado do meu avô vários LPs. Meu avô trabalhava na Icome, uma empresa em Macapá, durante a segunda guerra mundial, ele trabalhava com código morse, numa base lá. Nessa interação com os aliados, era um ponto de abastecimento dos aviões americanos. Esses americanos começaram a trazer pra ele muitos LPs, aquela época de Glenn Miller [trombonista americano], Tommy Dorsey [trombonista e trompetista americano], isso foi herdado por meu pai, ele tocava isso na radiola em casa, a gente criança, e ele ficava dançando com a minha mãe o tempo todo, ouvindo aquilo. E a gente ouvindo aquela música boa. Claro, além daquilo a gente ouvia muita música brasileira, ele gosta muito de música brasileira. Dolores Duran, Maysa, Lupicínio Rodrigues, aí vai, Pixinguinha…

Com que idade você veio ao Maranhão? E o que te trouxe? Com 17 anos de idade. Eu vim trabalhar aqui como intérprete.

Já nessa idade? Já, já era formado em inglês, eu comecei muito cedo. Eu fui convidado pra ser o intérprete aqui, acho que o primeiro intérprete, na época era o [hotel] Quatro Rodas, hoje é o Pestana, passou por várias gestões. Um tio meu passou em casa, foi uma coisa do acaso. É o destino. Esse tio passou em casa numa noite, “olha, teu filho fala inglês, eu tou com um gerente amigo meu lá, indo morar em São Luís para ser gerente de um hotel, e precisa de um intérprete, que ele não fala português, tem que ter uma pessoa para treinar e cuidar da recepção. Teu filho não quer ir?”. Eu estava sentado na porta de casa, sem pretensão nenhuma, sem saber o que tinha no Maranhão, o que estava me esperando musicalmente, isso é uma coisa interessante, em um dia eu dei a resposta, em três dias eu estava morando aqui e nunca mais voltei.

Quando você chegou ao Maranhão, já tinha algum envolvimento com música ou isso apareceu aqui? Semiprofissionalmente, vamos dizer, aqui. Em Belém eu saía nas escolas de samba tocando tamborim, ainda naquela época de couro de gato, existiam fábricas famosas. Aqui é que eu tive o primeiro contato de tocar numa banda.

Você disse que não sabia o que te esperava em São Luís. O que era que te esperava em São Luís? A cultura popular, os tambores, que é minha principal escola.

Numa de tuas primeiras vindas ao Maranhão, na [praça] Deodoro, houve uma cena impactante. Exatamente. Havia um ônibus que eu tomava, o Calhau, que passava, passa até hoje, na frente do hotel, e deixa você no Centro da cidade. Me falaram, “olha, você quer conhecer o Centro? Você pega esse ônibus, você vai descer bem na Deodoro”. Eu tava de folga do hotel, fui embora. Era uma manhã de carnaval, época em que os tambores de crioula, naquela época iam muito às ruas tocar o carnaval. Nesse domingo eu desci na Deodoro e vi aquele tambor ecoando de longe, andei, fui chegando mais perto do som, era o Tambor de Mestre Leonardo. Aquilo foi um impacto, um raio, um clarão que abriu na minha cabeça. É isso aí que eu quero! Vou pesquisar, vou correr atrás. Em Belém o carimbó, as manifestações, os ritmos do Pará não aparecem, não estão tão presentes no contexto urbano, misturados com a cidade quanto aqui no Maranhão. Eu acho que aqui é mais que qualquer lugar do Brasil. [O impacto] foi uma coisa inexplicável, eu me aproximei, perguntei onde era a sede. Uma semana depois eu já estava lá frequentando para começar [a aprender a tocar].

Hoje você é um percussionista reconhecido não só aqui, mas nacionalmente. Quem você considera seus mestres? Quem te ensinou esse ofício da percussão? A minha formação musical não foi erudita, formal. Foi muito empírica, muito de ver, ouvir e depois levar para casa e fazer o dever de casa. Naquela época celular nem existia, a gente usava um gravador k7. Os mestres para mim foram Mestre Leonardo, do tambor de crioula, Mestre Felipe, também do tambor de crioula, e o Bibi, tocador chefe lá da Casa de Nagô, na Rua Cândido Ribeiro [Centro]. Eu os considero mestres por que eu não estudei música formalmente, então o que eu aprendi com esses ritmos me serve até hoje. Quando eu comecei a descobrir novos estilos musicais, como o choro, o jazz, que eu comecei a estudar música mesmo, esses ritmos daqui servem até hoje como a principal base, o principal alicerce. Neles você encontra todas as matrizes rítmicas africanas. Não só africanas, mas ibéricas, indígenas, você consegue absorver uma quantidade de informações rítmicas, tocando esses ritmos do Maranhão. O boi e o tambor, principalmente, eles têm uma polirritmia, é muito difícil. Quando você consegue entender a complexidade daquilo, tudo o que vem pela frente é fichinha, entendeu? Quando eu comecei a aprender outros estilos, eu pensava “eu já vi isso”. Tudo isso veio desses ritmos daqui, que são ancestrais, vieram da África, do Oriente Médio.

Quando é que você foi para São Paulo? Já tocava profissionalmente? Já. O primeiro grupo que eu participei foi o grupo Asa do Maranhão: Sérgio Brenha, Mano Borges, Chico Poeta, Celso Reis. Era uma movimentação muito forte, Rabo de Vaca, Terra e Chão, era um grupo da Universidade [Federal do Maranhão], Arlindo [Carvalho, percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de agosto de 2013] fez parte. O Rabo de Vaca, que era uma escola, era Jeca [percussionista], Josias [Sobrinho, compositor], Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013]. O Asa do Maranhão foi um dos últimos e eu comecei no Asa, no Colégio Marista, ali no Centro. Depois vieram César Nascimento, o primeiro artista com quem eu toquei aqui, Mano Borges. Eu fui para São Paulo no final da década de 1980.

Foi a música que te levou para lá? Foi.

Você tem uma carreira paralela de tradutor e intérprete com a de músico. Houve alguma fase em que você tenha vivido exclusivamente de música? Muito. Em São Paulo eu vivi quase inteiramente de música. Nas horas vagas é que eu trabalhava como tradutor e intérprete, mas eu priorizava a música.

Lá você participou de vários trabalhos, gravação de discos. Muitos. Eu tive a sorte de cair num berço musical da boa música de São Paulo. Nada contra, mas quase não toquei em bares, quase não toquei em bandas cover. Só trabalhei com os grandes compositores, tanto na música instrumental quanto na cantada.

Cite alguns nomes. Vamos lá! Eu comecei com a Ceumar [cantora e compositora mineira hoje radicada na Holanda], vocês conhecem Dindinha [primeiro disco de Ceumar, lançado em 1999, produzido por Zeca Baleiro], a Rita Ribeiro [cantora maranhense radicada em São Paulo, hoje Rita Beneditto], gravei nos dois primeiros cds dela, Juliana Amaral [cantora paulista], Chico Saraiva [violonista carioca], Grupo A Barca, Nelson Aires, pianista, é muita gente! Gerson Conrad [compositor, ex-Secos e Molhados], que acabou voltando para a arquitetura, e Zeca Baleiro! Além de tocar e gravar com toda essa galera boa, eu participei de muitas oficinas e workshops com músicos e manifestações do Oriente Médio. Foi aí que eu conheci e fiz oficinas de música árabe, africana, cubana. Aí eu comecei a ver o Maranhão lá dentro. A bagagem, o que eles tocavam, eu dizia, “olha, isso tem lá no Maranhão”, mas não de forma arrogante. Eu levava o pandeirão, fazia um Boi de Pindaré, as células são muito parecidas com música marroquina. Uma coisa que eu sempre gostei foi fazer essa, vamos chamar de fusão, palavra batida, esse diálogo entre estilos e instrumentos musicais, misturando outras linguagens com as daqui. Pra mim a música é universal, então você pode fazer no pandeirão outros ritmos que não os tradicionais daqui, pode tocar no pandeiro outras coisas além de samba. Daí que vieram vários arranjos para o Choro Pungado.

Por falar em Choro Pungado, além dele e do Asa, que outros grupos você integrou? O Quinteto Calibrado, o Choro Pungado, o grupo Asa do Maranhão, o Duo Sound, com Luiz Jr. [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013], Som na Lata, Loopcínico, mais recente. Acho que foram estes.

E artistas com os quais você tocou? Ah, aqui em São Luís teve a Flávia Bittencourt [cantora], teve [os cantores e compositores] César Nascimento, Tutuca, Carlinhos Veloz, a gente fez uma excursão interessante pelo Projeto Pixinguinha [da Funarte]. Taí: eu toquei muito samba pelo Projeto Pixinguinha, na época eu encontrei [os sambistas] Luiz Carlos da Vila, Luizinho Sete Cordas e Moacyr Luz. Fizemos oito capitais do Nordeste, três dias em cada cidade. Toquei nos discos de Celso Borges [XXI, de 2000, e Música, de 2006]. Toquei no disco de Lena Machado [Samba de Minha Aldeia, de 2010], de Cesar Teixeira [Shopping Brazil, de 2004]. Cesar Teixeira e Josias Sobrinho pareciam, para mim, antes de conhecê-los pessoalmente, eram como deuses. Eu não sou daqui. Quando eu cheguei, eu morei na esquina de São João com Afogados, ao lado do Chico Discos, no mesmo prédio. Eu descia e parava na casa de Arlindo, que eu posso dizer que foi o meu primeiro grande influenciador na coisa da percussão moderna, me inspirou muito, a coisa do set, eu já falei isso pra ele, ele não acreditou [risos]. Ele me abriu a cabeça. Voltando a Cesar, de repente ele me chama para gravar, acho que é o único registro dele até agora, foi o maior presente da música maranhense, ter gravado nesse cd.

Quais os discos mais importantes nos quais você já tocou? Cesar Teixeira, Ceumar, Dindinha, Som na Lata, que é um projeto social, um cd muito bom, Loopcínico, pra mim é um marco, um divisor de águas, embora não compreendido, mas um dia a gente vai ser [gargalhadas]. Vô imbolá [de Zeca Baleiro] e Rubens Salles, foram dois cds que eu gravei, Liquid Gravity e Munderno, um gravado em São Paulo e o outro em Nova Iorque.

Vamos falar de choro. O que significou para você integrar o Choro Pungado e o Quinteto Calibrado? Aprendizado. O Quinteto Calibrado, os caras, a veia deles é muito forte, tradicionalistas, é importante beber na tradição. O moderno você pode vir com milhões de ideias novas, mas você não pode trabalhá-las sem entender como é feito originalmente. Essa é a base, em cima dessa base, que não pode ser mudada, alterada, você pode inserir outros elementos. Por isso é importante conhecer e tocar com os caras que entendem isso. Foi muito bom. Daí, amizade com Luiz Jr., Rui Mário [sanfoneiro, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 7 de julho de 2013], pensamos em criar um grupo diferente, de choro, respeitando as tradições, o original, mas dialogando com essa rítmica maranhense. Daí surgiu o Choro Pungado, que era um laboratório vivo de criação. Nós íamos lá para casa ensaiar, comer os quitutes que a Suzana fazia, acho que é por isso que os ensaios rendiam muito [risos]. Lá em casa eles fizeram duas músicas, uma foi Fim de tarde, do Robertinho Chinês [bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], parece que o Nicolas Krassik [violinista francês radicado no Rio de Janeiro] gravou [Krassik tocou violino na faixa, no disco Made in Brazil, de Robertinho Chinês]. O Choro Pungado pra mim foi também um divisor de águas na minha cabeça, eu achava que choro tinha que ser tocado só daquela maneira, que é lindo, maravilhoso. Eu cheguei a assistir em São Paulo o [Conjunto] Época de Ouro, ainda com o pai do Paulinho da Viola [o violonista César Faria, falecido], e ele tocando junto. Quando eu vi isso foi uma coisa de louco! O Choro Pungado serviu também, pra mim acho que foi o maior legado dele, ele desencadeou interesse em alguns dos músicos por essa coisa de buscar o novo sem ter medo. Posso dizer, acho que ele vai concordar quando ler, o Rui Mário, ele já era um grande músico, mas abriu mais ainda a cabeça dele. quando nós trouxemos o Rui pro Choro Pungado, ele ainda tem a veia do baião, do forró da família, tradição. Eu lembro de ter apresentado pra ele dois caras: o Piazzolla [o falecido compositor e bandoneonista argentino Astor Piazzolla], colocamos Libertango no repertório, depois o Toninho Ferragutti [sanfoneiro], com quem eu já havia gravado e tocado em São Paulo, com Nelson Aires. Eu acho que isso foi uma alavanca para ele enveredar por essa coisa que ele faz hoje, que é misturar o jazz, um pouco de erudito, sem deixar de lado as raízes dele. O maior legado do Choro Pungado acho que é esse. Robertinho fez um cd logo depois aproveitando essas influências. João Neto [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014] já era um grande músico, hoje está melhor ainda.

Para você, o que é o choro? Eu acho que o choro é o retrato da nossa cultura popular brasileira, da música de massa, da música da rua, com esse tratamento mais sofisticado da música erudita, não vou dizer do jazz. Eu acho que os choros originais, os primeiros, não têm essa influência jazzística, tem mais essa influência erudita, clássica. É isso, essa união dessa influência barroca, da música clássica no Brasil, com nossas raízes africanas, principalmente, a síncope do samba, souberam fazer esse casamento muito bem.

Quem hoje no Brasil te chama a atenção? Que você ouve e para para escutar? [O grupo] Nó em Pingo d’Água, gosto do Hamilton de Holanda [bandolinista]. Dos atuais, que estão aí. Paulinho da Viola [cantor, compositor e instrumentista] tem um lado chorístico muito forte.

Voltando a antes do Choro Pungado e do Quinteto Calibrado: como foi que você caiu no choro? Você lembra de um marco? Lembro. Antes desses grupos, a gente fazia música de um modo mais espontâneo. Centro da cidade, acho que já existia a ponte, mas não existia o outro lado, não havia música, movimento. Eu lembro de sair da porta do Laborarte [o Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão], grupo que eu fiz parte, outra escola muito importante da minha vida, gestão Nelson Brito [dramaturgo, falecido], quando ele assumiu. Lá nós saíamos sete horas da noite, eu, Jorge do Rosário, na percussão. Era uma percussão de choro, pandeiro, atabaque de couro e madeira, um cavaco, era um sambista da antiga, usava uma boina, Bonifácio, e um sete cordas, irmão de Sávio Araújo, seu Nato [Araújo]. A gente saía tocando choro e samba, pelo prazer de tocar e ganhar algum trocado para tomar cachaça. Olha o nosso percurso: a gente saía do Laborarte, encostava no Rui [o Bar do Rui, vizinho ao Laborarte, na Rua Jansen Müller, no Centro de São Luís], tocava, passava o chapéu, era assim, uma maravilha! De lá a gente ia pro Hotel Central [na Praça Benedito Leite, Centro, hoje desativado], o chapéu rodava, a grana ia toda pra comida e bebida. Nessa peregrinação, a gente fazia uns três, quatro bares num fim de semana, numa sexta-feira. Minha escola começa aí. O Nato era nosso guarda costas, ele era fortão. De vez em quando tinha uma treta nesses bares e a gente botava “Nato, vai lá e resolve!”. Ele não levava desaforo pra casa.

Você se considera um chorão? Sim, me considero. Acho que todo músico brasileiro tem que se considerar chorão, por que é o estilo musical que conseguiu sintetizar em um só bom gosto e elegância, nos arranjos executados, além de uma percussão muito forte, que é a marca nossa. Com todo respeito ao baião, mas dos estilos brasileiros é o mais bem lapidado e acabado. É uma música muito detalhista. Eu gosto de ser chorão, mas ainda não sou chorão: se você absorver e conseguir, eu não consegui ainda, tocar aquilo com domínio total, você consegue tocar qualquer outra música. Muita gente não gosta, mas todo músico brasileiro deveria passar pelo choro. É uma escola maravilhosa.

Como você avalia o choro praticado hoje em São Luís? Muito bom, muito fértil. Acompanho pelos jornais, eu não saio muito à noite. A velha guarda, os tradicionais continuam aí, Tira-Teima, Pixinguinha, e tem vários grupos novos que eu ainda não tive oportunidade de assistir. Só o fato de ainda estarem criando grupos novos significa que a linguagem continua firme e forte. Duas faculdades de música, os músicos dentro dessas faculdades, alguns integrantes de grupos estudam nestas faculdades. Para a cena está faltando voltar o nosso Clube do Choro [Recebe].

Qual a importância daquele projeto? Foi decisivo. Não só pro choro, mas pra música instrumental como um todo. Lá você permitia que nós tocássemos o choro, o samba e trabalhos autorais. Acompanhamos o Criolina [os cantores e compositores Alê Muniz e Luciana Simões], Bruno Batista [cantor e compositor] e outros cantores que foram lá, com ou sem influência do choro. E grupos instrumentais que além do choro tocavam outros gêneros. Tinha aquele aspecto muito informal, o público frequentava, prestava atenção, e foi gravado, muita memória ali, muitos grupos tocaram, acabaram, outros se formaram a partir dali. Foi um marco que precisa voltar.

Eu queria que você comentasse rapidamente o Som na Lata e o Loopcínico, os discos, os processos. O Som na Lata foi, ainda é até hoje, a gente vive numa cidade muito injusta socialmente, uma inquietação a partir de meu dissabor em ver muitas crianças desocupadas, mas com ritmo, talentosíssimas. Daí eu comecei a fazer oficinas no GDAM [o Grupo de Dança Afro Malungos, sediado no Parque do Bom Menino], a convite do Adão [liderança do GDAM]. Esse trabalho começa com oficinas de educação ambiental, ética, disciplina, a gente passa esses conceitos para as crianças, depois entra na parte musical, muito forte, culminando com a formação de uma banda e o cd. Eu concluí todas essas fases e saiu aquele cd, nós fomos premiados pela Universidade FM, melhor hip hop, tinha essa categoria. Uma das músicas [Shopping Brazil] de Cesar Teixeira fala no som da lata, [cantarola:] “o quê que tem? Se eu como na lata?”. A música tinha tudo a ver e ele, com aquela cabeça maravilhosa, cedeu esse espaço [parte dos músicos do Som na Lata participou da gravação da faixa-título do disco Shopping Brazil]. O Som na Lata tem que voltar e nós vamos voltar em breve. O Loopcínico vem de outra inquietação: quando eu estava em São Paulo eu conheci a música eletrônica, entre os anos 1980, 90, tocava lá nos clubes, nas casas noturnas, fazia produção com alguns djs, como o Érico Teobaldo, que produziu um dos cds [PetShopMundoCão] do Zeca [Baleiro], mas não tinha conseguido ainda uma forma de trabalhar a música eletrônica que fosse completamente dominado pela música maranhense. Eu consegui com o Loopcínico, ali eu consegui dar voz aos tambores. O disco foi gravado em Belém, no estúdio Ná Music, mas com a linguagem maranhense. O disco foi indicado agora ao Prêmio da Música Brasileira 2014. Entre quase cinco mil cds nós ficamos na pré-seleção entre cento e poucos. Pra mim já foi um prêmio. Eu chamei Beto Ehongue [cantor, compositor e dj] e Lobo de Siribeira [cantor e compositor], foi a formação inicial. O Loopcínico era um sonho antigo como percussionista, instrumentista. A concepção dele é muito nova, não a base, a eletrônica já existe há muito tempo, mas a concepção desse cd, inserido no nosso contexto, ainda está sendo muito nova. Muita gente não percebeu que os tambores foram gravados ao vivo, eles não foram sampleados, há uma diferença. Muita gente ainda não conseguiu entender por que aqueles tambores estão ali misturados com as bases eletrônicas.

Clipes (e discos) novos de Lucas Santtana e André Prando

Dois clipes novos chegaram às paradas deste blogue.

Lucas Santtana foi à Europa lançar o novo Sobre noites e dias (ouça aqui) e aproveitou a passagem por Paris e Amsterdam para gravar o clipe de Diary of a bike (ou Diário de uma bicicleta), com participação especial – cantando e pedalando – do rapper francês Féfé. O clipe – dirigido por David Pacheco e Gabriel Froment – tem também cenas gravadas em São Paulo.

 

O capixaba André Prando lança disco novo, Estranho sutil, mês que vem. Com auxílio de João Sampaio, filho único do conterrâneo Sérgio, ele gravou a inédita Última esperança, que versa sobre o incêndio que devorou – e matou centenas de pessoas – o Edifício Joelma, em São Paulo, em 1972. Ele já liberou o clipe da música do compositor, falecido em 1994, aos 47 do primeiro tempo.

 

Para ouvir e baixar Vão, disco anterior de André Prando, acesse o site do artista. A partir do dia 1º. de abril Estranho sutil também estará disponível para download. (Com informações da assessoria de Lucas Santtana e do site Kultme).

Chorografia do Maranhão: Rafael Guterres

[O Imparcial, 18 de maio de 2014; a 31ª. entrevista da série Chorografia do Maranhão, com o percussionista e cantor Léo Capiba (19/1/1947-1º/11/2014), publicada nO Imparcial em 4 de maio de 2014, pode ser lida aqui]

O cavaquinhista Rafael Guterres é o 32º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Rafael Guterres deu “a cara à tapa” pela primeira vez no saudoso Clube do Choro Recebe, projeto realizado semanalmente no Bar e Restaurante Chico Canhoto, como integrante do grupo Os Cinco Companheiros, formado nos corredores da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (EMEM).

Filho de Josarnaldo Ramos Paulo, funcionário público – ex-Ibama, hoje Icmbio –, e da dona de casa e autônoma Lilian Guterres Pinto, Rafael Guterres Pinto Paulo nasceu em São Luís do Maranhão em 17 de março de 1987.

Crescido em meio a rodas de samba e batucadas organizadas pelo pai e por tios, em reuniões de família ou para comemorar o aniversário de algum parente, logo o menino pegou gosto pela música, influenciado sobretudo por nomes como Toquinho, João Nogueira, Tom Jobim, Vinicius de Morais, Martinho da Vila e Baden Powell.

Ainda criança, nas rodas, já se arriscava na percussão. Depois estudou cavaquinho na EMEM e aprofundou os estudos no curso de Música da UFMA. Hoje é professor de música, dando aulas particulares e em projetos sociais do Serviço Social do Comércio (Sesc).

Rafael Guterres convidou a chororreportagem a prestigiar o Samba de Classe, grupo com o qual está envolvido atualmente, que se apresenta aos sábados no Quiçá [restaurante e pub no Renascença]. Acompanhado da namorada, a enfermeira Liana Taveira, ele conversou com os chororrepórteres na Quitanda Rede Mandioca.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

O que te fez, dentro de casa, no ambiente familiar, optar pela música? A família de meu pai veio daquela região de São Benedito do Rio Preto, Belágua, Urbano Santos. Eles sempre estiveram em meio à música, sempre tiveram essa coisa bem forte, da música, essa parte da música. Meu avô eu não cheguei a conhecer, o pai do meu pai, mas dizem que ele tocava cavaquinho. Meu pai, meus tios, sempre tocaram violão, percussão, a maioria, então eu sempre tive isso.

Em casa ouvia-se música? Desde que eu nasci eu ouvia muita música.

E o que se ouvia? Sempre rolou muito samba, muito samba do João Nogueira, Martinho da Vila, desde os sambas tipo João Bosco e Tom Jobim, Vinicius de Morais, até o samba mais popularzão, do morro, do Zeca [Pagodinho, cantor e compositor], sempre houve essa mistura assim. Choro, também ouvi.

Isso rolava em disco ou com o pessoal tocando? Os dois, rolava os dois. Até hoje eu tenho o vinil do, eu tenho por que eu herdei, né?, vinil de choro, de samba, eu tenho lá em casa, coisas do Altamiro Carrilho, coisas do Waldir Azevedo.

Entre estes que você cita, você lembra algum que ao ouvir, foi possível dizer “é isso!”? Por incrível que pareça eu sempre gostei de muitos. Mas sempre me chamou muita atenção o Toquinho, eu sempre gostei dos sambas dele, do João Bosco também, desde moleque eu sempre gostei muito. Foi uma mescla mesmo. Junto com isso eu sempre tive muito contato com a MPB também, além do samba.

A partir de quando e o que te fez se interessar pela música, para aprender a tocar um instrumento? Você entrou direto para a Escola, ou antes já praticava? Para aprender foi assim: quando criança, eu sempre tive esse contato e aconteciam aniversários, reuniões da família e meu pai, meus tios, sempre tocavam, percussão, violão, e sempre tinha, por menor que fosse o aniversário ou a reunião, sempre tinha ali uma batucada, uma coisa. Eles nunca foram chorões, instrumentistas profissionais. Mas eles sempre tocaram, sempre tiveram essa coisa da música muito viva dentro da família. Desde moleque, estando no meio da roda deles, batucando um pandeiro, um tambor, um tantã, um tamborim. Aí eu acho que eu tinha mais ou menos uns 12 a 13 anos, estudava no Colégio O Bom Pastor, que é lá no Cohatrac, Cohatrac II. Aí eu vi um anúncio, tinha um anúncio espalhado por todo o colégio, de um professor que dava aula particular de cavaquinho e violão. Aí eu li e disse “rapaz, eu vou aprender a tocar cavaquinho”.

Você lembra o nome desse professor? O nome dele é Nato Araújo, o Nato Araújo que todo mundo conhece, ele é músico e cantor, nessa época ele dava aula de cavaquinho e violão. Eu entrei em contato com ele, ele residia no Cohatrac também, falei com meu pai, “ah, pai, eu quero aprender cavaquinho, compra um cavaquinho e tal”. “Ah, vamos falar com esse professor”. Ligamos, fomos na casa dele, combinamos, marcamos uma data para começar as aulas, meu pai pegou e comprou um cavaquinho. O primeiro cavaquinho que eu tive foi um Gianinni, série estudo, esse com que muitos cavaquinistas iniciam. Aí eu tive três meses de aula com ele e nos três meses eu desenvolvi muito rápido, eu assimilava muito rápido. E me veio a vontade de ir para a Escola de Música do Estado. Fiz o seletivo e comecei a estudar lá.

Isso foi em que ano? Tem uma parte que eu esqueci de falar. Voltando. Antes do Nato, como eu já participava dessas reuniões, batucando e tudo, meu pai falou “rapaz, tu tem aptidão pra música”. Ele já tocava, então percebeu, né? “Vou te matricular na Escola de Música do Estado”. Aí ele me matriculou, eu tinha uns 12 anos. Só que na época, o primeiro ano na escola era só teoria e flauta doce. Eu, bem moleque, não gostava. Eu queria bateria na época. Aí eu fiz seis meses, era um ano, só teoria e flauta doce, para no ano seguinte você escolher o instrumento. A Escola de Música ainda era ali na Rua de Santo Antônio. Eu fiz os seis meses, depois de seis meses eu não quis mais. Sabe como é criança, né? Aí que eu vi o anúncio. “Rapaz, eu quero é cavaquinho!”. Aí eu fui pro Nato, ele me passou alguns acordes iniciais, uma palhetada, coisa bem básica, e eu fiz três meses. Depois desses três meses eu não quis mais ter aula com ele, queria voltar para a Escola de Música, aí eu me rematriculei e consegui voltar. Aí continuei lá.

Você lembra das rodas em casa, com violão e percussão, e você começou nelas. É, batucando, uma coisa muito informal.

Você foi direto para o cavaco ou chegou a passar por violão? Não. O primeiro instrumento harmônico que eu toquei foi cavaquinho.

E hoje é o único que você toca ou você toca outros instrumentos? Não. Hoje eu toco violão, toco guitarra, bandolim eu estou estudando.

Hoje você vive de música? Não tem outra profissão? Só de música. Sou professor de música e músico profissional.

A tua família nunca teve resistência? Geralmente há muito preconceito em relação às carreiras artísticas. Nunca houve um pé atrás? Não. Eles sempre me deram forças, mas cobravam. “Olha, tu quer isso? Tem que ir pelo caminho certo, tem que estudar. Tu quer música, vai estudar música, vai pelo caminho correto”. Eles não queriam que eu fosse um músico da noite, sem formação, sem perspectiva de algo melhor, né? Como chegar a dar aula em alguma instituição, ou a nível técnico ou a nível superior, que é o que eu estou correndo atrás.

Você chegou a estudar alguma outra coisa, na perspectiva de a música não dar certo ou foi para a música direto? Não. Eu fiz três vestibulares para a UFMA. O primeiro eu fiz para Ciências Biológicas, que eu gostava na época. Eu tinha 18 anos. Aí não passei. O segundo eu fiz para Administração, não passei. Aí todo mundo: “rapaz, tu é louco! Por que tu não faz para Música?”. Eu já tocava. Tem um momento da vida que a gente tem essa indecisão. Aí eu acordei e fui estudar para fazer para Música.

O Nato foi teu principal mestre no cavaquinho? Não. O Nato ele iniciou comigo, coisa bem básica. Até por que eu nem tive tempo, foram três meses de aula. Ele me apresentou o instrumento, “ó, esse aqui é o cavaquinho”, um tipo de palhetada, uma palhetada de samba tradicional, que é aquela mesma do tamborim [imita o som do tamborim com a boca], tem no cavaco também, e me ensinou alguns acordes. Agora, com relação ao estudo realmente do instrumento, foi na Escola de Música.

Com quem você começou a estudar na Escola de Música? Eu iniciei o cavaquinho com João Soeiro [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 30 de março de 2014], na época ele dava essa matéria, dava o curso de cavaquinho. Aí eu tive aula com Juca [do Cavaco, cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014] e também tive uma influência muito grande com Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013], que hoje em dia é diretor de lá, mas era professor de bandolim, mas também toca cavaquinho e outros instrumentos.

Estes você destaca como os mais importantes? Sim, os mais importantes para mim. Essa parte do estudo da Escola foram eles três. Para o instrumento.

Hoje você toca vários instrumentos e tanto cavaquinho centro como cavaquinho solo. No cenário local você já falou, mas no cenário nacional, que cavaquinistas você tem como referência? O grande Waldir Azevedo, gosto do Canhoto [o cavaquinista Waldiro Frederico Tramontano], gosto do Arnaldinho [o cavaquinista Arnaldo Galdino da Silva], eu gosto do Henrique Cazes, do Dirceu [da Mangueira]. Tem uma série de outros, o filho do Monarco, o Mauro Diniz, e outros tantos. Às vezes a gente dá um branco, mas tem muita gente boa. Alceu Maia também é muito bom.

Durante muito tempo, e não está tão distante assim, a gente ouvia muito falar que não era possível viver de música, que o músico tinha que ter outra profissão. Hoje a gente fica feliz de ver tanto jovem vivendo de música. Quais as dificuldades para um músico jovem, feito você, poder bater no peito e dizer que vive de música, que vive bem, que vive com dignidade? Quais os caminhos, o que tem que fazer? Quais as estratégias? Como fazer isso? Não era possível. Eu acho que continua sendo muito difícil. A música continua sendo um exercício de perseverança aqui no Maranhão. É complicado. Tem que ter garra e amar trabalhar com música. Tem uma diferença entre o músico de show e o professor de música. Atualmente eu trabalho assim: de manhã eu dou aula de música e à noite eu toco.

Muitos de nossos entrevistados aliam as funções de músico e professor de música. O que é um espaço que está aumentando muito: a obrigatoriedade do ensino de música nas escolas abre possibilidades de trabalho. É. O músico da noite, o cara que chega e “ah, eu vou ser músico, eu vou tocar, eu vou fazer show”. Tem aquele período em que ele faz bastante shows. Se ele for um cara organizado ele faz a reserva dele. E tem um período em que ele não tem tantos shows. Mas se ele tiver a reserva num período que ele fez, tipo um São João, ou um final de ano, que tem bastante coisa, muito evento, ele consegue ir levando. O cara que é professor de música já não precisa disso. Ele vai trabalhar o ano todo nas instituições em que ele dá aula e vai fazer os shows dele nos finais de semana, quando ele não tiver show ele não vai ficar aperreado por que ele tem os outros empregos dele com aula de música. Está acontecendo isso, isso é muito bom. Os músicos estão começando a ver que ao se fazer uma faculdade, um ensino superior, eles vão conseguir ter este tipo de vida mais tranquila, uma coisa mais segura, sem estar dependendo tanto só de show.

Hoje você canta também, se apresenta só, mas é multi-instrumentista. A história do instrumentista, que é como a gente te conheceu, como integrante de grupos de choro: como foi que se deu sua inserção nas rodas de choro? Nos grupos de choro eu comecei a ter contato mesmo lá pela Escola de Música quando eu comecei a estudar lá, acho que mais ou menos em 2002. 2000, 2002, por aí. Eu conheci o Juca, conheci o Raimundo Luiz, o Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], e toda a galera. E comecei a frequentar os locais em que eles tocavam. Eles fizeram muitos anos no Por Acaso [bar na Lagoa da Jansen], na terça, muitos anos no Antigamente [extinto bar na Praia Grande]. O Clube do Choro na Caixa Econômica [Associação do Pessoal da Caixa, APCEF], na [Serenata] Caixa Alta, fui lá algumas vezes, este período em que eu estava estudando, aprendendo. Eu também assistia muitos vídeos, documentários sobre choro. A vontade de montar um trabalho de choro e tocar partiu disso: de eu estar assistindo documentários e shows.

Você desenvolveu um gosto pelo choro. Eu desenvolvi um gosto pelo choro. Eu acho que isso foi uma continuidade do gosto que eu já tinha, pelo costume de ouvir música em casa, de ouvir o Tom Jobim, ouvir o Toquinho, ouvir o Baden Powell, essa galera, que meus tios e meu pai, a gente tinha esse costume, então foi fácil assimilar o gosto pelo chorinho. Eu ouvia o chorinho, mas eu não entendia. A pessoa, quando ela não conhece, eu lembro que quando moleque, eu ouvia o chorinho e não tinha noção daquilo ali.

Você se considera um chorão? [Pensativo] Em partes. Eu não sou um chorão profissional, daquela coisa. Por que tem pessoas que são assim: ou toca choro ou não toca nada. É o chorão! Pra mim o choro é uma escola, eu considero o choro uma escola. É a escola da música popular brasileira. Se você quiser estudar a linguagem musical brasileira você tem que passar pelo choro. Se tu não estudar choro tu não vai ter a essência, tu não vai saber tocar na essência a música popular brasileira. Eu não me considero um chorão [enfático], até por que eu não me considero um exímio instrumentista. Eu tento tocar, eu tento solar. Eu tenho amor pelo choro, é minha escola, entendeu?

Qual foi o primeiro grupo de choro que você fez parte? Foi Os Cinco Companheiros. Se não me engano Os Cinco Companheiros é de 2007.

Vocês surgiram para tocar no Clube do Choro Recebe, não é? O período do Clube do Choro. Foi até interessante você tocar nesse assunto, por que o interesse partiu de mim, aí eu falei com Osmarzinho [saxofonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 5 de janeiro de 2014], a gente falou com João Soeiro, depois com Wanderson [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de outubro de 2013]. Aí a gente começou a se reunir lá pela Escola, nas salas lá, a ensaiar alguma coisa, e daí surgiu a ideia de fazer um choro dançante, tipo gafieira. Daí surgiu a ideia do Osmar do Trombone [trombonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013]. A gente eu acho que se reuniu duas vezes. Na terceira o Osmar já estava. Aí a gente passou a ensaiar na casa do Osmar e ele já começou a falar “olha, vamos fazer um bom trabalho, que tem show em Cajari, tem show não sei aonde”. E lá naquele clima dele ele já foi falando, tentando fechar algumas coisas, e apareceu a oportunidade de tocar no Clube do Choro [Recebe], foram vários shows lá.

O que significou aquele projeto para vocês? Para você, especialmente? Eu acho que foi a melhor época do choro aqui em São Luís. Eu não sei se chegou a ser melhor do que no tempo da Caixa, naquela época eu acho que eu nem tocava ainda. Mas do que eu vivi, do que eu participei, o melhor foi ali no Chico Canhoto.

Lá foi o teu primeiro palco? De choro, com certeza. A primeira vez que eu mostrei a cara.

Depois dOs Cinco Companheiros, de que outros grupos você fez parte, de choro e de samba? Do samba foram muitas participações, bem mais até do que do choro. Deixa eu lembrar do choro aqui, primeiro: eu participei dOs Cinco Companheiros, fiz participações com o Urubu Malandro, com o Instrumental Pixinguinha, com o grupo, tem um atual aí que é o Camisa de Bolso, é grupo de choro, com João Soeiro. No Chorando Calado eu fiz uma participação, no Clube do Choro e em outros locais também. Quê mais? Do samba eu participei do grupo Som Brasil, já fiz bastante coisa com Vandico [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de março de 2014], de samba. Tinha um grupo legal que a gente fazia no Panela de Barro, no Danado de Bom [extinto bar, na Cohama]. A gente fez samba no [bar] Cumidinha de Buteco com esse grupo. Grupos assim que eu cantei, que eu toquei cavaquinho, que a gente fez show, coisas fixas. Mas participação eu fiz com vários outros.

E atualmente, você integra algum grupo? Atualmente eu estou com o projeto Samba de Classe. É uma mistura, a gente está fazendo choro, samba, samba-rock, músicas da MPB, botando uma roupagem de samba, nessa linha. Lá no Quiçá [restaurante e pub no Renascença], aos sábados. Vão lá sábado agora, vou botar o nome de vocês na lista vip.

Além de instrumentista e cantor, que outras habilidades você desenvolve na música? Eu componho, tenho algumas músicas, nessa linha de MPB, samba, afoxé. Não sei dizer quantas.

Quando você compõe faz só instrumental ou faz com letra também? Faço com letra.

Você tem participação em gravação de discos? Tenho. Já participei. Já toquei em discos do [Bumba meu boi] Pirilampo, em discos de grupos de samba. Participei do Festival Viva 400 [2012], defendi uma música minha, chegou até a semifinal, não foi para a final.

Pra você o que é o choro? Qual a importância dessa música para você e, na tua percepção, para a música brasileira? É uma escola. É importantíssimo que a população tenha contato com essa música. Só assim ela vai conhecer a essência da música popular brasileira. A maioria dos ritmos, dos estilos, teve influência, partiu do choro. O choro tem uma influência muito grande, dentro da cultura brasileira. O choro foi uma mistura da polca mais batuques africanos e influência indígena. Foi se formando a partir disso.

Tem gente que pensa que o choro é só um gênero, uma música fechada. Você acha que o choro é uma música fechada ou aberta, que pode se misturar com outras coisas? Aberta total! Tanto é que tem no baião, tem polca, tem maxixe, tem choro-canção, tem samba-choro, tem uma série de coisas, tem Beatles tocado em ritmo de choro.

Você acha que o choro pode beber na fonte da cultura popular do Maranhão? Com certeza! Existem muitos compositores de música popular daqui que se utilizam de elementos do choro. Sempre fizeram. Tem o Biné do Banjo [banjoísta, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 31 de março de 2013], antes do Biné teve o [multi-instrumentista] Zé Hemetério e muitos outros que sempre beberam nessa fonte. Dentro do choro há uma similaridade com a riqueza melódica e rítmica da música, da cultura popular maranhense. Um pode beber na fonte do outro tranquilamente.

Música com Z. Com dois ZZ

Foto: Joelma Santos
Foto: Joelma Santos

 

Para alguns a fórmula voz e violão pode estar desgastada. Para outros pode ser um momento de maior intimidade entre artista e público, sobretudo por que permite mostrar as canções mais próximas de sua feitura, além do risco maior ao erro – não há “cozinha” para encobrir qualquer vacilo. O formato enxuto permite ainda maior atenção às letras – o que deve sempre ser valorizado em se tratando do encontro de dois grandes compositores brasileiros.

É quase certo que todas as almas que lotaram completamente o Teatro Arthur Azevedo ontem (18) concordam que o formato “apartamento” do show intimista de Zélia Duncan e Zeca Baleiro enquadra-se na segunda categoria. O espetáculo será reapresentado hoje (19), às 21h, mas parece que os ingressos também já estão esgotados.

Duncan e Baleiro relembraram grandes sucessos seus e músicas importantes para sua formação, contaram causos – principalmente ele –, entre muitos gracejos mútuos, com um quê de teatral, mas bastante espontâneos.

O show que tem circulado por várias cidades brasileiras nasceu de um projeto abortado. Seria no mítico Teatro Castro Alves, em Salvador/BA, e reuniria várias duplas mais ou menos inusitadas. O projeto não aconteceu, mas a turnê do par de Zês, sim.

Como tudo começou na Bahia – como alguns advogam ao falar de samba e de Brasil – logo eles tinham na mão uma letra do lendário Galvão, letrista dos Novos Baianos. Parceria a três, Zélia e Zeca assinaram a melodia de Fox baiano, um dos pontos altos do show, em que Baleiro toca ukulele – a música já é hit em rádios e no youtube.

Por falar em Bahia, ela ataca de Eu queria ela (Amor proibido), de outra lenda viva do samba baiano, Clementino Rodrigues, vulgo Riachão, que ela apresentou dizendo tratar-se de um daqueles compositores populares na verdadeira acepção da palavra, daqueles que fazem músicas que dá vontade de sair cantando junto à primeira audição. Muitos dos presentes certamente não conheciam a música, mas quando Zélia repetiu a primeira estrofe, já cantaram junto com ela: “eu queria ela/ eu queria ela/ mas ela não me quis/ ela não me quer/ é problema dela”. Uma delícia!

“Vou cantar uma de um grande poeta aqui do Maranhão, Fernando Abreu”, Zeca anunciou Alma nova, parceria deles. “Deixa eu ser, por uns instantes, parceira de vocês. Posso, Fernando?”, pediu Zélia humildemente antes de dividirem os vocais.

“Quando começamos a montar o show, cada um trouxe coisas de seu baú afetivo. E eu adorei quando a Zélia trouxe essa aqui, do Roberto e do Erasmo, acho que mais do Erasmo, um lado b, o que em se tratando de Erasmo é quase um lado c”, contou Zeca antes de começarem a cantar Grilos.

Outra história contada por Zeca para gargalhada geral do público foi a seguinte, resumidamente: “uma vez uma colunista social foi entrevistar a Maria Creuza [cantora] e mandou: “como é ser casada com Antonio Carlos e Jocafi”?”. Ele ilustrava a mania quase geral – na qual ele mesmo se incluiu ao anunciar que iria cantar uma música “do Antonio Carlos e Jocafi” – de tratar a dupla como se fossem uma pessoa só. E mandou Você abusou.

Ela também contou um causo: “quando Catedral [versão dela e Christiaan Oyens para Cathedral song, de Tanita Tikaran] estourou eu comecei a rodar o Brasil. E eu sempre tive uma mania de visitar um lugar que muita gente aqui não conheceu, chamado loja de discos. E eu estava em uma loja de discos em Curitiba, sozinha, lá no fundo, quando um rapaz entrou e pediu: “eu quero uma música que tá tocando na novela”. E o vendedor perguntou: “é lenta ou é rápida?”. E ele: “é lenta”. “Quem canta é homem ou mulher?”. E o rapaz: “não sei”. Eu levantei o dedo e falei: “sou eu””.

Um vídeo exibido antes do espetáculo e uma fala idem, apresentando sua ficha técnica, traziam advertências sobre o uso de celulares para fotografá-lo e filmá-lo, devidamente desrespeitadas pela plateia. Com a elegância e o bom humor peculiares, tiraram onda e cantaram o samba inédito Ah, Eugênio (parceria deles com outro novo-baiano, Paulinho Boca de Cantor), sobre facebooks, iphones, selfies e a dependência nossa de cada dia de tecnologias e remédios controlados.

Não faltaram a parceria inaugural da dupla, Se um dia me quiseres, gravada por ela em Pelo sabor do gesto. Daquele disco, pescaram ainda Tudo sobre você (parceria dela com John Ulhoa). Nos momentos em que ficaram sozinhos no palco, primeiro ela, depois ele, ela cantou Tevê, parceria dele com Kléber Albuquerque, e Quase nada, parceria dele com Alice Ruiz, e ele cantou Nos lençóis desse reggae, parceria dela com Christiaan Oyens.

Aplaudidos de pé, voltaram para o bis em que cantaram assim, ampliando a comunhão com a plateia. Ajudados um pelo outro, e em uníssono pelo público, novamente de pé, cantaram Catedral, sucesso dela, e Telegrama, dele, em meio ao qual couberam, incidentais, Engenho de flores (Josias Sobrinho) e Vassourinha meaçaba (Chico Maranhão), fora a incidental natural Estrada do sol (Dolores Duran e Tom Jobim), cujos versos “me dê a mão/ vamos sair pra ver o sol” pareciam iluminar a noite ludovicense com o sol de Leminski: aqueles dois ZZ juntos não significam nem dão sono.