Vai Juliano, ser Gauche na vida

Quando Juliano Gauche lançou, com o Duo Zebedeu (os violonistas Fábio do Carmo e Julio Santos), Hoje não (2009), inteiramente dedicado à obra do também capixaba Sérgio Sampaio, impressionou-me certa dubiedade: o disco exalava o homenageado sem, no entanto, relegar Gauche à condição de mero cover (apesar da semelhança física). Havia ali respeito e devoção pela obra de Sampaio, mas uma voz personalíssima do intérprete.

Antes, ele já tinha sido vocalista da Solana. Depois Juliano Gauche, já morando em São Paulo, lançou um disco solo (2013) que levava apenas seu nome. Quase completamente autoral, o disco voltava a homenagear o ídolo em Sérgio Sampaio volta, de Tatá Aeroplano, cabeça do Cérebro Eletrônico, seu produtor.

Uma cópia de Juliano Gauche rodou muito entre lá em casa e o trânsito, sem que eu nunca tenha me arriscado a dizer nada sobre o ótimo disco. Este textinho tampouco é tentativa de fazer isso tardiamente. O original eu só consegui comprar recentemente, numa ida ao Recife. Festejei o achado, como convém a um homem de vícios antigos.

Hoje, a revista Tpm lançou o videoclipe de Cuspa, maltrate, ofenda, porrada de amor que abre Juliano Gauche, dedicada à sua esposa e produtora executiva Sil Ramalhete (que aparece no clipe). Embora a publicação tenha anunciado exclusividade, roubo-o de lá e penduro-o aqui.

Alice ainda: um sonho realizado de Nathália Ferro

Após 10 meses de gestação, a cantora e compositora Nathália Ferro, 30, disponibilizou ontem (sábado, 25), para audição e download em seu canal no soundcloud, seu segundo disco, Alice ainda, sucessor do ep Instante (2013), que ela considera seu disco de estreia. A artista já conta 10 anos de carreira.

Produzido por Adnon Soares, da CasaLoca, o álbum traz 12 faixas, de 12 compositores, incluindo ela própria, e reflete seu amadurecimento artístico. A maioria das faixas é inédita. Pelo meio do disco, um bloco de regravações: O que não é de mim (Hermes de Castro/ Marcos Lamy), Maria de Jesus (Beto Ehongue), com incidental do poema O bicho, de Manuel Bandeira, e Ana e a Lua (Betto Pereira).

Também merecem destaque Porcelana (parceria de Nathália com Laila Razzo, autora do projeto gráfico de Alice ainda), Música do sereno (de Paulo César Linhares, seu namorado), Como qualquer chiclete (Phil Veras), Neguinha (Nathália Ferro) e Te deixando aos poucos (Adnon Soares e Léo Del Nery).

A banda base de Alice ainda é formada por Adnon Soares (guitarra, violão, teclado e sintetizador), Marlon (contrabaixo) e Sandoval Filho (bateria). O disco tem ainda participações especiais de João Simas (guitarra) e André Grolli (bateria). Memel Nogueira, que mixou o álbum, também gravou uma guitarra. Adnon divide com ela os vocais de Estranho seu, versão em português de Strange of mine, da Soulvenir, banda dele. Lucas Maciel canta com ela em Música do sereno. A eles, todos, ela derrete-se em elogios: “músicos excepcionais e amigos muito queridos”.

Alice ainda. Capa. Reprodução
Alice ainda. Capa. Reprodução

 

Através de uma rede social ela concedeu a entrevista a seguir ao blogue.

A Alice do título é uma personagem. Quem é Alice? E o que ela tem de Nathália Ferro? Há algo em tua Alice da Alice de Lewis Carroll; o que não pode faltar em teu país das maravilhas? A Alice do título é a parte sonhadora da Nathália. É preciso reservar em si uma parcela bem grande de devaneio pra trabalhar com arte sem deixar o sistema te sufocar. Eu vendi o meu carro pra pagar esse disco, dormi seis meses na CasaLoca, troquei o dia pela noite, fiquei longe da minha família e da vida “normal” pra fazer esse trabalho. Foi muita loucura. E foi incrível.

Ao longo desse período, algum arrependimento? Eu me arrependo de muita coisa, mas no entanto, não me adianta de nada, já que a gente só faz aquilo que tá apto e pronto pra fazer. Mesmo o errado tava certo. Eu tinha que aprender, tinha que caminhar pro que sou hoje. Eu gosto de aprender sempre, e me despojar daquilo que não serve. Então não sou muito de dar atenção pra nostalgias ou arrependimentos. Prefiro gastar minha energia com o presente.

São 12 faixas, 12 compositores, você se reafirmando como tal, o que já havia ocorrido em Instante. Como foi juntar tudo isso e dar unidade ao disco? Sinceramente, organizar esse repertório foi uma das partes mais gostosas do processo. Todas as músicas foram se insinuando pra mim de maneira muito natural, inclusive as que não compus. Tudo ali diz muito mais do que eu poderia dizer, e não diz nada do que eu não gostaria. Foi muito bom descobrir a efervescência de compositores muito jovens, e dar versões a músicas de outros consagrados. Difícil mesmo, e penoso, foi organizar a ordem do disco.

Praticamente morar na CasaLoca deve ter dado ainda mais organicidade ao disco. Conte um pouco mais da experiência de ter Adnon como compositor, produtor e participação especial. E instrumentista também [risos]. Ele é um irmão pra mim. Até quando a gente briga parece briga de irmão. Eu nunca vou poder expressar a gratidão que tenho por esse cara ter usado tanto do talento e do tempo dele pra me ajudar a realizar esse sonho. O Adnon tem um método bem heterodoxo de trabalho, o que às vezes torra a paciência da gente. Mas por outro lado ele é tão gênio, e tem um coração tão genuíno, que a gente releva. Pra mim foi um aprendizado pra vida inteira viver esses meses de imersão mesmo. Me ajudou a valorizar ainda mais esse trabalho e o trabalho criativo de quem se dedica à música.

Ele é, hoje, um produtor bastante requisitado, além de ter seus projetos próprios, CasaLoca, Soulvenir. Foi difícil conciliar a agenda? Foi [risos]. Muito. Eu sinceramente não sei como ele consegue. É um mistério pra todo ser vivente, e mais louco ainda é que ele vem fazendo trabalhos cada vez melhores. Eu gosto de ouvi-lo dizer: “o melhor trabalho da minha vida é sempre o que estou fazendo”.

Apesar do lançamento exclusivo em meio digital agora, há intenção de lançar o disco em formato físico? Ah, sim. Eu tô juntando a grana pra prensagem. Vai ter pré-lançamento dias 8 [na Calourada Geral da UFMA] e 31 de maio [no Teatro Arthur Azevedo, na abertura do show do 14 Bis, pelo projeto MPB Petrobras]. O show de lançamento oficial tá pra julho, tô com projeto aprovado pra patrocínio e devo fazer um catarse [site especializado em crowdfunding] nos próximos dias.

Papiros do Egito segue aberto

O Papiros do Egito e a memória de dona Moema seguem vivos. Foto: ZR (25/4/2015)
O Papiros do Egito e a memória de dona Moema seguem vivos. Foto: ZR (25/4/2015)

 

Entre a costureira e o supermercado, subindo a Sete de Setembro, dei com o portão do Papiros do Egito aberto. A placa de venda continua lá, com o número de um celular e do velho 32310910 com o qual, vez por outra, perguntava a Moema Alvim, se tinha isso ou aquilo. “Fala alto, que eu sou surda!”, retrucava gritando, depois de um alô, para eu então aumentar o tom de voz, ser reconhecido e ela me responder se tinha e quanto era o livro ou disco que eu procurava.

Desci do carro e fui até lá. Um segundo portão é mantido fechado, por questões de segurança, e por um espelho que serve de retrovisor, dei de cara com Josilene, que há alguns anos abrira um sebo especializado em livros escolares, na Rua do Egito, a partir de uma cota da generosidade de dona Moema – também conheci sua ex-funcionária há mais de 20 anos, quando ainda menino comecei a frequentar o Papiros do Egito, cujo nome herdou da rua do primeiro endereço, no Centro, à época já funcionando na Rua dos Afogados, depois mudando-se para a Sete de Setembro, onde permaneceu até o falecimento da proprietária, em outubro passado. A última vez que havíamos nos visto fora justamente no velório e sepultamento da amiga comum.

Entabulei rápida conversa com Josilene, afinal de conta os vícios antigos são importantes, mas o supermercado não poderia esperar muito. Lembramo-nos de dona Moema. “Ela parecia uma adolescente, era só nesse negócio de face, direto”, ela comentou, lembrando o ativismo da professora aposentada na rede social. Rimos, saudosos. Ela me disse estar abrindo o sebo já há algum tempo [de segunda a sexta das 10h às 17h; sábados de 9h ao meio dia], cuidando de catalogar o acervo – até para avaliá-lo, já que pretende comprá-lo, junto com o casarão – e devolvendo as consignações aos donos. Dei-lhe parabéns, era importante a manutenção do Papiros do Egito aberto e, consequentemente, viva a memória de dona Moema. Desejei-lhe sorte e fiquei de aparecer com mais tempo e dinheiro. Esperei-a terminar um telefonema e pedi: “Deixa eu tirar uma foto tua, pra botar na internet e divulgar que estás abrindo o sebo”. Vaidosa, ela recusou-se, alegou estar descabelada. “Tira só do sebo”, devolveu, entregando-me a sacola com os três discos que catei, para não perder a oportunidade e o hábito.

Celso Borges e Nosly celebram longeva parceria

Os parceiros no misto de ensaio e entrevista. Foto: Zema Ribeiro
Os parceiros no misto de ensaio e entrevista. Foto: Zema Ribeiro

 

Uma das parcerias mais recentes de Celso Borges e Nosly é A ceia do mundo, em que ambos musicaram poema de José Chagas, cantada pelo segundo, em disco produzido pelo primeiro com Zeca Baleiro em tributo ao poeta [A palavra acesa de José Chagas, de 2013], falecido meses depois do lançamento: “A esta mesa sozinho, eu me sento em vão./ Não bebo deste vinho nem como deste pão./ Falta-me convite para a paz da ceia,/ e humano apetite ante a comida alheia/ Eu busco outra mesa onde muitos estão,/ sob uma gula acesa de outro vinho e outro pão/ Mesa onde se permite uma fome tão forte,/ que nos dá apetite até para a morte”.

Uma das primeiras parcerias é Proposta de quase eternidade [1984], deles com Zeca Baleiro, gravada pela cantora Rosa Reis em seu disco de estreia. “Era a época do show Um mais um, que Nosly faria com Zeca, a primeira vez que Zeca subia num palco”, recorda-se Celso Borges. “Eu vi esse poema publicado no jornal [O Estado do Maranhão, Celso à época era funcionário do Sistema Mirante], a gente acompanhava sempre, fim de semana rolava um poema, um poeta”, lembra Nosly.

Parceiros há 31 anos, eles apresentam neste sábado (25), às 19h, na Livraria Graúna [Rua Riachuelo, 337, telefone: (99) 35211873], em Caxias/MA, Palavra tem som, espetáculo com cerca de hora e meia de duração, misto de show musical e recital poético, com entrada franca. Na ocasião, autografarão livros e cds a interessados.

O blogue foi à casa de Celso Borges em uma tarde chuvosa da semana passada. Presenciou um ensaio – ou quase isso – bastante despojado, em que os parceiros brincavam entre si, tentavam lembrar letras e melodias de suas parcerias e respondiam a algumas perguntas, por exemplo, sobre como surgiu a ideia do show. “Pintou de um puxão de orelha que eu dei em Nosly, “poxa, a gente nunca fez nada em Caxias, tu é de lá”. O lançamento é um misto de show, recital e bate papo sobre nossa parceria”, antecipou Celso. A ideia é realizar apresentações em outros locais.

Palavra tem som é dividido em quatro partes: na primeira, Celso Borges diz alguns poemas, com intervenções de Nosly ao violão; na segunda, comentam suas parcerias, interpretadas por Nosly; na terceira, contam com a participação de um artista local [o nome não havia sido confirmado até o fechamento desta matéria]; na última, Nosly canta parcerias suas com outros poetas e músicos, entre as quais Noves fora, com Zeca Baleiro, Nome, com Olga Savary, Para uma grande dama, com Fernando Abreu, Voo noturno, com Sérgio Natureza, Sancho Dom Quixote, com Ferreira Gullar e Parador, com Gerude e Luis Lobo.

A tarde corre e a chuva para; as lembranças continuam: “Blues para um anjo torto foi nossa primeira parceria pelo Correio”, recorda Celso, que em seguida conta a história de uma letra que fez para a primeira filha de Nosly: “Gabriela é depois de June [outra parceria de ambos]. A história dela é linda. As histórias de minhas parcerias com Nosly são as mais lindas possíveis: eu fui para Belo Horizonte lançar um livro e estava em uma mesa na Universidade [Federal de Minas Gerais]. Conversando com a menina que produz, soube que ela era ex-namorada de Nosly, mãe de Gabriela, a primeira filha dele. Aí ela disse: “olha a foto dela” e eu vi a foto de uma menina de óculos, com sete anos. Quando eu vi aquele retrato eu fiz uma letra e mandei pra Nosly: “fiz pra tua filha”. [Cantarola/recita a letra:] “Menina que foi e veio/ carinha que vejo pelo meio/ pela frente, pelo dente, pela foto/ pelo fio do vestido de fivela/ eu sei quem é ela/ é Gabriela/ menina eu vi, viu?/ frente a frente/ distante tua fonte/ Belo Horizonte/ tua pele de princesa bela/ eu sei quem é ela/ é Gabriela/ a alma dela está ali/ sonhando além daqui/ daqui perto de mim/ como tinta numa tela de aquarela/ como boca num beijo de novela/ é ela que vai e vem/ colorindo seu estilo/ na berlinda linda das estrelas”. Em seguida Nosly se junta a ele, acompanhando a melodia ao violão.

 

Indago sobre a quantidade de parcerias e Nosly arrisca “que sejam umas 40”. “Muitas [estão] perdidas”, confessa Celso Borges. A já citada June é outra feita por correspondência. Ele relembra: “Nosly estava em Belo Horizonte, eu em São Paulo. Depois ele me liga: “CB, fiz a música”. Quando eu mandei a letra, eu já sugeri a incidental de Alegria, alegria [de Caetano Veloso; cantarola:] “por que não?/ por que não?”. Nosly complementa: “eu estava em casa estudando Sons de carrilhões, de João Pernambuco. Essa música, eu acho que foi um transe tão grande que hoje eu não me sinto capaz. Eu não conseguiria fazer essa melodia hoje. Na carta, é capaz de eu ter essa carta em casa, ele já sugeriu um aboio”.

Nosly afirma ter “um calhamaço, com parcerias, algumas inacabadas, com Gerô [o artista popular Jeremias Pereira da Silva, morto pela Polícia Militar em 2007], Zeca, Joãozinho [Ribeiro], Lobo [de Siribeira], Celso Borges. Tem mais de 10 anos que não abro, um dia eu mostro pra vocês”.

Celso Borges revela ter um punhado de fitas com parcerias deles gravadas e puxa da gaveta um hd externo, onde repassa, na tela de um laptop, nada menos que 83 parcerias, todas prontas, com Nosly, Zeca Baleiro, Gerson da Conceição, Chico César, Fagner, Otávio Rodrigues, Alê Muniz, Lourival Tavares, Mano Borges, Papete, César Nascimento, Tutuca, Djalma Lúcio e Madian. Empolgado, cantarola trechos de algumas letras e recita outras – em algumas tem mais dificuldade; talvez estivessem no rol das que ele já considerava perdidas.

“Essa aqui [In, gravada por Nosly no livro/cd XXI, de Celso, lançado em 2000] eu tinha feito a letra, um poema de amor [declama:] “te ponho dentro do poema/ entre vírgulas, parênteses/ tua pele passa/ e brilhas folha a folha/ te vejo entre aliterações e rimas/ teu corpo vivo/ nu no verso/ teu corpo verso, viva o verso/ no universo de teu corpo vivo”. Eu estava em Niterói, a segunda parte eu sabia [arrisca-se ao violão, cantarolando:] “o futuro não é delicado com a gente/ mas delicado multiplica-se nas páginas/ tu és o livro do mundo e ponto final”, eu fiz isso, mas eu não sabia fazer o começo”, remonta a feitura, esta com os parceiros lado a lado.

 

Os dois rememoram ainda Motor [gravada por Vange Milliet em Música, livro/cd de Celso, lançado em 2006] e Aldeia [parceria registrada em Parador, de 2011]. A primeira, realizada por e-mail; a segunda, uma morna com boi de zabumba: “eu fiquei vários dias ruminando isso [cantarola:] “as flores do norte perfumam/ juro que sei de onde vem”. Quando ele foi fazer o disco, eu cheguei, “tá quase pronta!”, Zeca gravou com ele. Ficou linda!”, derrete-se Celso.

Pergunto sobre a importância da parceria e ambos não escondem a admiração um pelo outro. “Eu tenho a sorte de ter parceiros muito musicais e Nosly não foge à regra. Hoje ainda conseguimos sentar e compor, conversar”, vibrou Celso. “Celso é um dos caras que mais incentivou a gente, lá no começo. Eu e Zeca, ele foi o primeiro cara que realmente nos impulsionou para a composição. A gente ficava acompanhando no jornal os poemas que ele publicava, a gente se identificava, gostava de ler. Ele despertou na gente essa coisa da composição. Nosso contato com o instrumento não era só o afã de tocar um pouquinho mais, passou a ser também o de compor, o de criar melodias. Depois ele fez um programa, Contatos imediatos, a gente ia, gravava, e ele botava no ar. Sempre estivemos muito próximos, embora depois eu tenha ido para Belo Horizonte, ele ficou aqui, depois eu fui para o Rio, ele para São Paulo, mas a gente nunca perdeu esse contato”, devolveu Nosly.

Fábio Cabral de Mello e a Passa Disco: lendas vivíssimas do Recife

TEXTO E FOTOS: ZEMA RIBEIRO

Entre amigos, clientes e amigos clientes, o movimento na Passa Disco
Entre amigos, clientes e amigos clientes, o movimento na Passa Disco

 

Recife – De passagem por Recife, a trabalho, leio no Jornal do Commercio, um texto de José Teles sobre o lançamento do dvd Vizinho de grito, de Jessier Quirino. O texto me leva à Passa Disco, lendária loja especializada em música pernambucana – mas que vende boa música brasileira em geral – que completará 12 anos de bons serviços prestados no próximo novembro.

O lançamento estava marcado para às 19h. Terminada a atividade de que eu participava na capital pernambucana, dirigi-me para lá, a fim de conhecer a loja e seu proprietário, Fábio Cabral de Mello, 52 – primo do poeta João Cabral de Mello Neto: o pai deste era irmão do avô daquele –, e, com sorte, pegar o autógrafo de Jessier Quirino, o que consegui, embora não tenha sido possível ficar para o recital, já que não podia me arriscar a perder o voo de volta à Ilha.

Além de loja, localizada no Shopping Sítio Trindade (Estrada do Encanamento, 480, loja 7, Parnamirim), a Passa Disco é também um selo, já contando oito títulos no catálogo – sempre pernambucanos para o mundo. Seu proprietário atende os clientes pelo site, facebook e pelo telefone (81) 3268 0888, cujos endereços e número ele diz pausadamente ao fim da entrevista, com o celular ainda funcionando como gravador.

Até a hora de a loja e seus arredores ficarem tomados pelo público de Jessier Quirino, eu ainda daria uma carga no aparelho, compraria discos (óbvio, como bom homem de vícios antigos) e experimentaria uma dose da cachaça Sanhaçu, oferecimento dos novos amigos Paulo Carvalho (que me fotografou com o poeta-cantador) e Luiz Berto, vulgo Papa Berto, editor do Jornal da Besta Fubana – como bons habitantes do Recife, eles chegaram de “greia” o Fábio, perguntando-lhe se a loja tinha algum disco do Calcinha Preta ou coisa que o valha.

O proprietário emoldurado por autógrafos de artistas que já passaram por sua loja
O proprietário emoldurado por autógrafos de artistas que já passaram por sua loja

 

Você tinha um bar e restaurante com os irmãos, se desentendeu e abriu a loja? Me desentendi com os funcionários, não com meus irmãos. Os irmãos continuamos juntos. Eu sou agrônomo, trabalhava com jardinagem. Quando saí do bar fiquei só com a jardinagem, aí depois que eu montei a loja ainda passei um ano e meio, dois anos fazendo as duas coisas, depois só com a loja. Há praticamente 10 anos eu trabalho só com a loja.

O que te fez ter esse estalo?: vou viver de vender música! Já era um grande ouvinte, colecionador? Sempre, sempre! Desde garoto, com 10 anos de idade eu comecei a comprar lp, fita k7, essa coisa toda. O estalo pra isso foi quando Silvério Pessoa lançou um cd sobre Jackson do Pandeiro, o Micróbio do Frevo [2002], fez um encontro com a imprensa, José Teles, Michele Assunção, diversos jornalistas, e me convidou para participar, de gaiato na história. As declarações dele sobre a música, aí os jornalistas comentaram que Recife estava vivendo uma efervescência imensa de música, todo mundo lançando discos, e não tinha uma loja especializada em música. Eu saí dali meio… eu digo que o Micróbio do Frevo me contaminou também. Eu sai de lá com essa ideia, fui para casa dirigindo e pensando. Uns seis meses depois eu concretizei. Foi o tempo de ver abertura de firma, loja, depois eu montei a loja a partir dessa ideia. Esse foi o pontapé inicial.

Micróbio do Frevo foi lançado quase 10 anos depois do boom do manguebeat, ali com Da lama ao caos [1994], de Chico Science [& Nação Zumbi]. Você acompanhou de perto a explosão do manguebeat? É, mais ou menos isso, nessa faixa. Acompanhei. Cheguei a ir a diversos shows de Chico Science. Nessa época do bar, a turma frequentava, Chico não chegou a frequentar por que ele logo viajou.

Como era o nome de teu bar? Era O Rei do Cangaço. Otto, Lirinha [ex-Cordel do Fogo Encantado], Silvério [Pessoa], Lula Queiroga, Lenine, esse pessoal todo, minha permanência no bar nesse período foi importante para a música, para criar laços com essas pessoas. Comecei a vender discos no bar, discos independentes, Lula Queiroga, Josildo Sá, músicos locais, faziam algum evento no bar, levavam discos para vender, não vendiam todos, eu falava “deixa aqui” e comecei.

Às vezes nós temos uma dificuldade de nos distanciarmos quando estamos dentro do olho do furacão. Você já tinha noção da importância que teria o manguebeat? Eu percebi. A coisa foi tão assim, tão forte. Eu sempre acompanhei muito a música de Pernambuco e ficava sentindo a necessidade de um movimento que o Brasil todo tomasse conhecimento, que eu espero que tenha tomado, né? Achava, quando começou, no final dos anos 1970, início dos 80, o grande sucesso de Alceu [Valença], Geraldo Azevedo, Robertinho de Recife, eu achava, “opa, vai ter um movimento!”, por que nunca tinha tido um movimento como teve na Bahia a Tropicália, o Pessoal do Ceará, nunca teve um movimento forte aqui, muito embora, antes deles, Luiz Gonzaga foi o maior de todos, talvez do Brasil, o mais revolucionário, a estética de roupa, de criar estilo, sem internet, sem televisão, sem nada, e ele de ponta a ponta do Brasil conheceram o trabalho dele.

O nome Passa Disco vem de onde? Você também lida com sebo ou só discos novos? Eu tenho um sebo de vinil, mas surgiu depois, uns cinco, ou seis anos depois. O nome Passa Disco foi uma criação de Lula Queiroga. Lula é publicitário, aí eu conversando com ele, eu fazia inclusive jardinagem no escritório dele, e comentei que ia fazer uma loja. Aí ele: “vai fazer uma loja? Legal! Bota Passa Disco!”

Como você avalia esse cenário de derrocada da indústria fonográfica e do próprio formato cd? Eu já comecei com ele quebrado. Quando eu comecei a loja, as grandes lojas do Recife já estavam fechando. Tinha algumas pequenas, algumas ainda permanecem, outras fecharam. Eu já sabia que era difícil. Tanto é que quando eu comecei aqui eu continuei com a jardinagem por que tinha que ter a sobrevivência. Com o passar do tempo foi solidificando e eu fui levando. Ruim deve ter sido para quem, na época, vendia milhares, aí veio a internet, download, deve ter tido uma quebra. Como eu já comecei por baixo…

Que discos da música pernambucana entrariam em um top five particular? Olho de Peixe [1993], de Lenine e [Marcos] Suzano, com certeza. Da lama ao caos. Vivo [1976], de Alceu Valença, qualquer disco de Luiz Gonzaga, qualquer disco de Capiba, são top. Desses que eu acompanhei, vi nascer, estes dois [Olho de peixe e Da lama ao caos]

Você é amigo dessa turma, isso facilita um pouco, não é? É, já no bar comecei, e depois é natural, as pessoas vão se chegando.

Jessier Quirino autografa Vizinho de grito em lançamento na Passa Disco (16/4)
Jessier Quirino autografa Vizinho de grito em lançamento na Passa Disco

Hoje haverá o lançamento de Jessier Quirino, e a Passa Disco acabou virando também este ponto de encontro. É possível listar alguns outros lançamentos, mais ou menos recentes, realizados aqui? Acredito que a gente já fez nesse período, a uma média de dois por mês, mais de 100. Fizemos lançamentos de Elba Ramalho, Dominguinhos, Silvério, Geraldo Maia, Maciel Melo. São constantes os lançamentos.

A Passa Disco também é um selo, não é? Sim. A gente lança coletâneas. Desde 2006 a gente vem lançando coletâneas. Já lançamos volume 1, volume 2 e volume 3 de [Pernambuco] Cantando para o Mundo, aí tem dois volumes de Pernambuco Frevando para o Mundo, dois volumes de Pernambuco Forrozando para o Mundo e mais um outro projeto que a gente iniciou, artistas que já lançaram discos, estão esgotados, e a gente faz o relançamento. Começamos ano passado com Josildo Sá. Aí tira o nome, aí fica Josildo Sá Cantando para o Mundo. Vai ser sempre nessas frentes.

A geração Y (d)e Tom Zé

Vira lata na via láctea. Capa. Reprodução

 

 

Desde o disco manifesto do movimento tropicalista, em 1968, Tom Zé mostrou-se um dos mais férteis compositores daquela geração. Relegado ao ostracismo na década de 1980, foi redescoberto graças à garimpagem de David Byrne, que o devolveu a prateleiras de lojas de discos e a palcos, no Brasil e no exterior. Os episódios são bastante conhecidos.

Também o descobriram e redescobriram-no novas gerações de músicos brasileiros, seja através de regravações ou da influência confessa. De Com defeito de fabricação (1998) para cá, o iraraense tem mantido um intenso diálogo criativo com artistas mais jovens – Tom Zé conta 78 anos, com fôlego de adolescente.

Vira lata na via láctea [2014], seu disco mais recente, é recheado de exemplos, entre parcerias e participações especiais. A zombeteira Geração Y (GY), faixa de abertura, tira onda com o amor, as manifestações de rua e a tecnologia: “oh, oh, yes!/ wireless/ um ET/ dentro do HD/ mas, além disso/ o ambiente é compromisso/ porque já somos o pós-humano/ a nova turma antropomórfica do bando”, diz a letra da parceria com Henrique Marcusso.

Entre os destaques, Pour Elis, homenagem à Elis Regina, em que Tom Zé musica um texto de Fernando Faro – um dos homens de tevê mais importantes para a música brasileira –, cantada em dueto com Milton Nascimento. A pequena suburbana, que fecha o disco, é um marco: trata-se da primeira parceria do baiano com o conterrâneo Caetano Veloso, cantada em dueto com o próprio.

Parceria com Criolo, Banca de jornal, um “samba-editorialista”, como o classifica o próprio Tom Zé, em que divide os vocais com o rapper, é, de longe, a mais radiofônica, com a letra inspirada citando diversos jornais e revistas brasileiros: “Veja! Isto É – poca/ lenha/ no grande bate-boca/ e ainda escrevo/ uma Carta Capital/ para os Caros Amigos/ desta banca de jornal”.

Entre parcerias, composições e participações especiais, ainda comparecem ao disco Tiago Araripe (autor de A quantas anda você?), Elifas Andreato (parceiro em Salva humanidade), Marcelo Segreto (Filarmônica de Pasárgada, parceiro em Guga na lavagem; violão), Tim Bernardes (O Terno, parceiro em Papa perdoa Tom Zé; voz, guitarra, órgão, percussão), Kiko Dinucci (guitarra, violão, percussão), Rodrigo Campos (cavaco), Silva (programação), Tatá Aeroplano (Cérebro Eletrônico; apitos, brinquedos, coro) e Trupe Chá de Boldo (vocais e arranjos).

A depender dessas trocas, fusões e ousadias, no auge das juventudes – a própria e as alheias –, o garoto Tom Zé ainda vai (cada vez mais) longe.

Confiram Tom Zé e Criolo em Banca de jornal:

Gildomar Marinho lançará dois discos em 2015

Fotosca: Zema Ribeiro
Fotosca: Zema Ribeiro

 

Fortaleza – Numa conexão em Fortaleza/CE, a caminho do Recife/PE, marquei com o amigo e compositor Gildomar Marinho. Entre alguns chopes, no tempo curto entre um avião e outro, ele revelou estar gravando nada menos que dois discos, ambos com previsão de lançamento ainda este ano.

“São dois trabalhos bastante distintos, Porta sentidos e Mar do Gil. O primeiro deve ser lançado apenas em vinil, em tiragem limitada”, contou-me, ainda com dúvidas sobre o assunto. Mas ambos, a exemplos dos outros três discos de Gildomar lançados até aqui, devem ser disponibilizados para download.

Sem previsão de visitar a terra natal, o Maranhão acabou não sendo palco dos lançamentos de Tocantes e Pedra de Cantaria, apesar de shows bissextos, a exemplo do Salão do Livro de Imperatriz e no L’Apero, em São Luís. Olho de boi, o disco de estreia, foi lançado no Teatro João do Vale. Gildomar revela, no entanto, à vontade de se apresentar mais por estas bandas.

Gravados no estúdio Som do Mar, em Fortaleza, os discos novos têm direção musical do percussionista Hoto Jr. Nos repertórios, completamente autorais e inéditos, parcerias com o radialista Ricarte Almeida Santos, o poeta arariense Ely Cruz e com este que vos perturba.

“Já vendi um carro”, revelou-me, sem perder o senso de humor, a fonte de financiamento da gravação dos discos. Gildomar deve recorrer ao financiamento coletivo para as etapas de mixagem, masterização, prensagem e lançamento.

Chorografia do Maranhão: Nonatinho

[O Imparcial, 6 de julho de 2014]

Natural de Penalva, professor da Escola de Música e pandeirista do Instrumental Pixinguinha, o percussionista Nonatinho é o 35º. Entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Raimundo Nonato Soeiro Oliveira aparentava certa timidez quando a chororreportagem o encontrou na porta da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo [EMEM]. Carregando o case com o pandeiro, o músico convida o primeiro chororrepórter a entrar e sentar. A tevê da recepção transmite Bélgica e Estados Unidos, pelas oitavas de final da Copa do Mundo, e instrumentista e entrevistador dividem educadamente as atenções entre a partida e a conversa – não necessariamente nessa ordem.

No papo, Nonatinho, como é mais conhecido o percussionista do Instrumental Pixinguinha, professor da EMEM há 12 anos, revela ter lido algumas edições anteriores da série Chorografia do Maranhão, cuja 35ª. edição traria seu depoimento. O chororrepórter tranquiliza-o contando causos de entrevistas anteriores, informando-lhe que a conversa tem um caráter completamente informal.

Mas o penalvense nascido em 9 de julho de 1967 já parecia ter perdido totalmente a timidez. Com a chegada do restante do time, diga-se, o outro chororrepórter e o chorofotógrafo, o professor conduziu todos ao salão Leny Cotrim Nagy, o mesmo em que a série conversou com Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], seu colega de Escola e Pixinguinha.

Filho de José Oliveira, comerciante e músico, e da dona de casa Maria José Soeiro Oliveira, Nonatinho é o único homem entre os cinco filhos. Já apresentou monografia ao curso de graduação em Música da Universidade Federal do Maranhão. “Estou concluindo uns créditos que fiquei devendo”, disse ele, que pretende publicar o trabalho.

No dia seguinte à entrevista, pelo chat do facebook, ele complementou-a, destacando a importância da série e de Deus – é evangélico – em sua vida: “Hoje sou evangélico e tudo o que faço me sinto na obrigação de agradecer a Deus. Inclusive por um bom período atuei como ministro de louvor. Não fiz isso na entrevista. Como esse é um registro que vai permanecer na história do nosso estado não gostaria de perder a oportunidade de falar dEle”, registrou.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Teu pai sustentava a família com música? Eu não sei dizer. A partir de quando eu tinha uns cinco anos, ele sustentava com um comércio. Quando se desfez a história dos conjuntos, cada colega procurou seu rumo, uns foram ser alfaiates, sapateiros, comerciantes. Ele foi ser comerciante e também trabalhar numa terra herdada, ele foi tomar conta. Ele ainda chegou a trazer algum sustento, mas em épocas festivas, carnaval, ele parava o comércio para se dedicar um pouco à música. A vida dele era basicamente isso, ele gostava muito de pescar, chamava o pessoal, passava três dias, vinha, tudo ele comercializava.

Você lembra, na infância, de como era a atmosfera musical em tua casa? O que se ouvia? Geralmente essas festas que ele fazia eram de promessa. Ele gostava muito de fazer o Baile de São Gonçalo, tambor de crioula. Sempre que ele fazia, ele fazia o barraco ao lado e fazia o baile. Eu ouvia o que as bandas tocavam na época, forró, sempre instrumental, não tinha nada cantado, marchas. Depois eles começaram a tocar a própria discoteca [a disco music], imitando as radiolas.

Você acha que o fato de seu pai ser baterista e percussionista influenciou no teu fazer musical ou você só veio se interessar por isso depois? Essa influência foi total. A minha mãe tinha um problema muito sério, os primeiros filhos dela, ou ela abortava ou, quando nascia, geralmente com dois anos, no máximo, morriam. Eu sou de um grupo que entre três, um morria, dentre esses três eu escapei. Eu via que meu pai lutava muito comigo nesse sentido, de me mostrar as coisas, me mostrar a vida. Quando eu me entendi ele me levava pra festa, eu tava o tempo todo do lado dele. Quando ele ia tocar fora, ele levava, ele tinha a preocupação de tentar passar. Quando a festa ia ser lá, os colegas dele deixavam os instrumentos, então o meu brinquedo passou a ser esses instrumentos. Às vezes na própria quitanda ele montava a bateria e ficava tocando, o pessoal gostava de vê-lo tocando, e ele tocava muito bem, diziam isso. Hoje essa coisa de apreciar, de ver músico tocar, de ver performance, vai muito [da herança] dele. Depois, passado um tempo, ele viu que eu precisava estudar, eu tive que ir para a cidade, Penalva.

Você morava num povoado. Como era o nome? Bom Jesus, que era [onde ficava] a terra dele com os três irmãos.

Essa lembrança de você ir para festas acompanhando teu pai, você tem desde que idade? Acho que aos oito anos. É aquela coisa de garoto que vai sendo levado e de repente está ali envolvido.

Então sempre houve apoio por parte de teus pais para que você seguisse o ofício da música? Sim, da parte do meu pai. A minha mãe não gostava muito, pela própria questão, pra ela não era uma profissão, não trouxe muita coisa para ela, mesmo como esposa, tanto que quando ela viu que eu queria estudar música, ela disse “será que tu vai seguir o mesmo caminho do teu pai?”, aquela coisa. Ele mesmo, por essa questão de não ter aquele sucesso, dizia “vai depender de você, você tem outras opções”. Ele tinha um filho do primeiro casamento, esse filho fez concurso para a marinha, era enfermeiro, vivia bem. E ele vivia me apontando: “olha, segue o exemplo de teu irmão, teu irmão tá bem”. A vontade dele mesmo era que eu fosse militar.

Você chegou a tocar com ele nessas festas? Não cheguei a tocar. Cheguei a dar umas canjas, ele me botava, em determinado momento, ele dizia “olha meu filho aí”, e os músicos gostavam, ficavam elogiando.

Você tocava o quê? Pandeiro? Bateria. Tem uma coisa interessante que eu acho que marcou muito, era um senhor que tocava sempre do lado dele, muito bem. Ele ia muito lá pra casa, era muito amigo de meu pai. Quando era festa ele era o primeiro a chegar. Não consigo lembrar [o nome dele], eu era muito garoto. Eu lembro dessa pessoa, tocava muito bem, ele tinha uma forma, meu pai dizia [que ele] “jogava muito bem”. Ele não falava tocar, falava jogar.

Você chegou a estudar música em Penalva ou só depois de vir à São Luís? Quando eu saí de lá, eu perdi totalmente o contato com música. Fui mesmo [para a sede de Penalva] para estudar, morar com um padrinho, foi mesmo a questão de estudo, não tive mais oportunidade. Mas eu ficava assim, aquela coisa tava dentro do sangue. Quando eu saía do colégio, no meu caminho tinha uma casa que tinha um conjunto, eles ensaiavam. Às vezes eu saía da escola e ficava ali em frente ouvindo. Mas também não passava daquilo, não cheguei a me aproximar. Passei aquele tempo todo mais dedicado aos estudos, recuperar o tempo perdido. Eu só fui estudar mesmo a partir dos nove anos. Lá no interior as escolas não tinham muita base. Aí perdi totalmente o contato. Ele [seu pai] também deixou mais de fazer festa. Com 14 anos eu voltei pra lá [para o povoado Bom Jesus], e já fui ter outra vida, na roça mesmo. Passei aquela fase de adolescência, que eu não queria mais ficar, queria voltar para casa [dos pais]. Só vim retomar [o contato com música] quando eu vim pra cá [para São Luís].

Quando é que você veio para cá? Eu vim com 17 anos. A oportunidade que eu tive de vir para cá para São Luís foi o seguinte: na época tinha uma juíza, ela ia medir as terras e papai pegou amizade com essa juíza e um advogado. Uma dessas vezes, eu indo para lá, levar alguns documentos, ela disse: “rapaz, tu não quer ir para São Luís? Não quer trabalhar lá em casa? Você pode trabalhar de vigia, estou precisando de alguém”, ela vivia procurando. Eu disse “olha, vou falar com meu pai, se ele aceitar…” Aí fui falar com ele, ele disse “tu que sabe”. Quando ele disse “tu que sabe”, no outro dia eu já estava lá com a bolsa e foi uma nova fase. Eu via a possibilidade de retomar meus estudos. Mas não pensando na questão musical.

Você disse que passou um tempo afastado da música. Você chegou a ter outra formação, que não a musical? Não, só trabalhando lá mesmo. A princípio foi como vigia mesmo, depois eu comecei a trabalhar com documentos, levava documentos no tribunal eleitoral, ela era juíza eleitoral. Eu fiquei como uma pessoa de ir resolvendo as coisas, e morando na casa dela.

E a partir de quando você se interessou novamente pela música? Outra coisa interessante. Eu já estava querendo trabalhar, arrumar outro tipo de trabalho, procurar uma independência maior, até em termos de moradia, ajudar os pais. Aí um dia eu vi no jornal um anúncio que um escritório estava precisando de pessoas. Eu peguei o dinheiro, sempre fui de guardar, aí saí para comprar uma beca bacana, calça social, sapato social, para ir ao escritório. Na época era a Mesbla [extinta loja de departamentos], era ali na Rua Grande. Quando eu chego lá, eu não sei por que, no segundo andar, bem na prateleira, a primeira coisa que deu na vista foi um pandeiro, um pandeirinho vermelho. A princípio eu pensei que era decoração. Uma loja de roupa, vendia outras coisas, estava lá. Chamei o vendedor: “vem cá, esse instrumento aí está à venda?” Aí ele deu o valor. O que vocês acham? Eu comprei a roupa ou o pandeiro? [risos]. Comprei o pandeiro!

Aí você nem foi ao escritório? Nem fui. Aí depois bateu a depressão. O quê que eu vou fazer com isso? Aí era época de eleição, nessa época os candidatos pegavam os ônibus, levavam o povo em caravanas para votar. Eu fui numa, levei o pandeiro. Quando o ônibus parou bem em frente à casa de meu tio, sempre muito rígido, da Sucam [a extinta Superintendência de Campanhas de Saúde Pública, órgão do governo federal], mandava estudar, queria ver as coisas melhores. Quando ele me viu chegar com o instrumento, que eu fui cumprimentá-lo, ele disse: “ah, tu tá nessa bagunça?” Depois eu fui à casa de meu pai, pensei que ele também ia falar algo, ele disse: “agora você vai ser um músico, comprou seu instrumento”. Aquilo foi tão forte em mim que eu disse “rapaz, agora eu vou estudar”. Foi um incentivo. Voltei para São Luís, mas sem saber onde estudar, onde procurar. Um belo dia eu vi um jornal falando da Rita Ribeiro [cantora, hoje Rita Beneditto], foi quando eu soube que havia uma escola de música. Eu guardei esse jornal, já estava no Liceu Maranhense. E com esse pandeirinho já comecei a formar grupos, a gente fazia apresentações, mas já de olho na Escola [de Música]. Comecei primeiro no Liceu. Quando foi em 1992, eu passando por acaso na Rua de Santo Antonio, ouvi o som dos instrumentos, “ah, é aqui que é a Escola”. Foi uma entrada para nunca mais sair.

Quem te recebeu? Eu fiz o teste com Raimundo Luiz [bandolinista, hoje diretor da EMEM, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013] e tudo aconteceu muito rápido, por que eu já tinha essa experiência do interior, com o pai com banda. Eu comecei logo a participar de grupos. Meus primeiros parceiros foram a Java, que hoje está na Paraíba, é professora de sax, o Fernando, foi professor aqui, hoje está em Brasília. Começamos a nos apresentar no auditório.

Você entrou [na EMEM] para estudar percussão? Bateria. Havia uma bateria que ficava lá no mirante e ninguém usava. Havia um grupo de jazz, eu me entrosei com eles e comecei. Depois eu entrei nos grupos, tipo Big Band, depois Metal e Cia. Como eu já estava no Metal e Cia. com [Antonio] Padilha, foram contratados Rogério [Leitão, baterista] e Jeca [percussionista] e eu comecei a ter aulas com eles. O Jeca mais, o Rogério me influenciou muito na coisa da leitura, ele sempre estava pelos corredores lendo, com métodos.

Como é que o Instrumental Pixinguinha surge nessa história? Eu costumava ver o Instrumental ensaiando, as apresentações, mas eram só professores, na época. Eram [os instrumentos de] cordas, Garrincha [baterista] e Lazico [Lázaro Pereira, percussionista]. Me chamava a atenção, mas não me interessava na época, por que meu trabalho era a Big Band, o Metal e algumas coisas de MPB, eu comecei com Shirley, é uma cantora de coral, que resolveu cantar em algumas salas. Foram as primeiras apresentações que eu fiz fora, fizemos no DAC [o Departamento de Assuntos Culturais da Universidade Federal do Maranhão], éramos eu, Nonato Privado [violonista] e ela. Eu tinha vontade [de tocar no Instrumental Pixinguinha], mas tinha muito receio, pois tinha-os como mestres. Marcelo [Moreira, violonista], Lazico, eu considerava muito bom no pandeiro, “será que eu vou conseguir tocar?” Quando surgiu a oportunidade de ir para Brasília, fazer um curso de verão, eu me entrosei com a turma, Marcelo, Raimundo, e eles “vamos ali, tem uma turma de choro e tal”. Na época eu andava com um pandeiro 12 [polegadas], a turma se reunia lá, mas não tinha pandeirista. Eu cheguei com o pandeiro, comecei a tocar, eu sem saber com quem eu estava tocando [risos]. A gente passou 15 dias lá fazendo o curso de verão. Depois Raimundo chegou e disse assim: “rapaz, tu sabe quem tá tocando aí?” Eu: “quem?” E ele: “Henrique Cazes [cavaquinista]” Aí foi que caiu a ficha! Quando foi no outro dia, o pessoal se reunia, sempre muito brincalhões, um deles: “e aí, pandeiro? Vai hoje?” Aí aquela música começou a entrar. Eu sempre fui um cara muito inseguro, às vezes eu sabia que tinha aquela coisa dentro de mim, mas não sabia se eu queria ser músico. E entra outra figura, do interior, um senhor que sempre me deu muita força, falava de meu pai, dizia “olha, você vai ser um grande músico”, me incentivava. Uma vez eu organizei lá a questão do 7 de setembro [as comemorações alusivas ao Dia da Independência do Brasil] e ele se empolgou muito com isso, eu sempre gostei de participar das bandinhas, tocando tarol. Certo dia a gente tocando lá, eu vi esse senhor assistindo, montado no cavalo. Quando eu olhei para ele, o vi com aquele sorriso, como quem diz “eu não disse?” E por incrível que pareça, quando eu cheguei em Brasília me veio essa figura. Aí bateu o medo, mas eu lembrei dele dizendo “você consegue, você é capaz”. Quando eu voltei eu sabia que era o caminho que eu queria. Comecei a acompanhar o Pixinguinha onde eles iam, nos bares, na praia. Aí eu procurei ver uma oportunidade de estar dando canjas, pedia pra Lazico, nas primeiras oportunidades que não dava para Lazico eu já estava lá tocando.

Teu interesse por choro começa com esse curso de verão em Brasília ou já existia antes alguma relação tua com essa música? Eu acho que começa lá, quando eu vi os mestres, a forma como os vi tocando, eu me encantei. Foi muito forte. Raimundo ainda me levou, a gente saiu, e numa dessas, tinha acabado um concerto, “vamos ali que o cara vai estar lá”, o Henrique Cazes. Ficamos nós três, eu gravei a conversa toda, até hoje eu tenho pena dessa fita, que eu perdi. Só eu, ele e Raimundo. Ele começou a falar de Pixinguinha, do choro, de várias pessoas, contou várias histórias.

O Cazes, então, teve um papel importante nessa tua aproximação com o choro. Isso, com certeza!

Além do Pixinguinha, da Big Band e do Metal e Cia., você participou de outros grupos musicais? Não. Depois eu comecei a fazer uns trabalhos com [a cantora] Rosa Reis e MPB, bares, acompanhando cantores, comecei a ser conhecido. Até hoje toco com [a cantora] Laura Lobato, principalmente confraternizações, casamentos. Chegamos a tocar uma temporada num shopping, outra no Zanzibar [bar na Av. Litorânea, extinto] na época.

Você também fez o caminho de entrar na Escola como aluno e depois se tornou professor. Como é que se deu essa transição? Como foi que você se tornou professor da Escola? Exato! Professor eu só vim ser de fato quando eu entrei como concursado, em 2000. Eu sempre estive por ali, participando com os grupos. O Mestre Tomaz me levou para o Convento das Mercês, estavam iniciando um trabalho com os meninos, tinha uns meninos de percussão, ele era o maestro da banda, e eu fui, estava precisando. Foi o meu primeiro trabalho como professor, carteira assinada. Quando eu vinha do Convento das Mercês pra Escola de Música na Rua de Santo Antonio, eu passava aqui atrás [nos fundos da EMEM, na Rua do Giz], era a época em que estavam reformando este prédio. E eu dizia para mim mesmo que quando a escola viesse pra cá, eu tinha que ser professor aqui, meio que profetizava que ia ser professor. Era meu caminho todos os dias. Meus colegas também haviam se tornado professores, Fernando, Java, eles me incentivavam muito. Depois teve outra oportunidade, eu fui para Curitiba. Lá eu conheci o Bolão [Oscar Bolão, baterista e percussionista], já foi totalmente divisor de águas. Também tive a oportunidade de conhecer o Luiz Otávio Braga [violonista], um cara muito bacana mesmo! Dei sorte de chegar nos lugares e não ter pandeiro, “ah, você é pandeirista, chega aqui”. Aí teve o concurso, quando eu vim de lá eu já vim pensando, comecei a me preparar. Eu tava numa fase, ou seria professor ou ia desistir de música, foi uma fase complicada. Todo mundo estava buscando uma, digamos, estabilidade.

Você participou de um capítulo muito importante da música do Maranhão, que foi a gravação do disco do Instrumental Pixinguinha [Choros Maranhenses, 2005], o primeiro disco exclusivamente de choro gravado por aqui. O que isso significou para você? Pra mim, na época, foi oportunidade. De estar registrando um trabalho, era o primeiro cd maranhense de choro, de compositores maranhenses. Na época eu não sei se eu tinha noção do que eu estava fazendo, da importância. Hoje eu vejo isso. Foi um momento muito importante pra gente.

Quase 10 anos depois do lançamento do disco de vocês, os membros do Pixinguinha têm conversado, pensado sobre o lançamento do segundo cd? Tem-se pensado, Juca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014] tem falado. Teve uma fase que eu tava meio, “rapaz, tu está no Pixinguinha, não tá, como é?”. Cada um estava para um lado, independente, fazendo trabalhos. Sempre que tem um projeto é preciso reunir, o disco está ainda mais como um projeto, pelo menos para mim.

Você relatou que o choro veio depois do curso de verão em Brasília. Hoje você se considera um chorão? Pergunta difícil! [risos]. Primeiro eu teria que saber o que é um chorão, o que é ser chorão. Por que hoje na verdade eu faço de tudo, eu toco de tudo. Pra ser chorão, seria um cara que está participando de todos os movimentos, tudo o que é movimento estar lá, participando ativamente. Eu sou um músico que adquiri habilidades de tocar em qualquer estilo. Eu toco em big band, orquestra de jazz, MPB. Mas tenho um respeito muito grande pelo choro, foi onde encontrei maior oportunidade de trabalho. Como músico, foi o choro que me deu isso. Eu sempre tive medo do rótulo. Tipo: se o cara é roqueiro, ele pode tocar samba, mas ninguém vai chamá-lo para tocar, por que acha que ele só sabe tocar aquilo.

Qual a importância do choro? É uma música nossa, talvez onde a gente possa ter tudo o que a gente precisa para se desenvolver como músico. Em todas as áreas. Para desenvolver os ouvidos, você vai ouvir as mais lindas melodias, as mais lindas harmonias criadas, deixadas aí, permanecendo por mais de século, música com qualidade. O choro é uma escola. Todo músico, dentro do Brasil, que quer ser músico, tem que passar pelo choro. É uma fonte, uma fonte que hoje está vindo gente de todo lugar do mundo querendo beber dessa fonte.

Se ela é tudo isso, por que ter medo de se assumir como chorão? Exatamente por isso! [risos]

O choro praticado no Rio tem como base rítmica o samba. A ida dos nordestinos para o Rio de Janeiro levou outros ritmos que foram incorporados nas rodas de choro, como o baião, o calango, o frevo. Você acha que os ritmos do Maranhão, tão ricos e tão plurais, podem ser incorporados nas rodas de choro? Com certeza! Se você observar no disco do Instrumental Pixinguinha, tem uma levada naquela música [Candiru, faixa que abre o disco] do Zezé Alves [parceria com Omar Cutrim] que tem uma levada de lelê [imita com a boca a batida do pandeiro].

Mas isso ainda é muito tímido por aqui. É. O choro é uma música muito aberta, cabe tudo o que você colocar. Você pode botar o maracatu, o samba, o baião, ele pega de tudo. O choro na verdade é uma forma de tocar. Falta se assumir, “esse é meu ritmo” e colocar lá.

Ian Ramil mostra personalidade e talento em disco de estreia

Ian. Capa. Reprodução

 

A música está no DNA de Ian Ramil. Filho de Vitor Ramil, sobrinho de Kleiton e Kledir, ele consegue mostrar uma voz própria em seu disco de estreia, assinado simplesmente Ian [2014], completamente autoral – a dispensa do sobrenome no título do álbum talvez seja uma tentativa de minimizar a responsabilidade pela herança da família musical.

O álbum tem produção de Matias Cella, que pilota vários instrumentos – contrabaixo, ukelele, guitarra, escaleta, violão, bongô. Outro instrumentista que comparece é o percussionista Marcos Suzano – que dividiu um disco, Satolep sambatown (2007), com o pai do estreante. O próprio Ian Ramil toca violão, guitarra e cuatro – espécie de violão de quatro cordas, originário da Venezuela, popular em alguns países da América latina. A voz do tio Kleiton pode ser ouvida em duas faixas, nos coros de Rota e Over and over.

Ao contrário do pai, que em discos como délibáb (2010) e Foi no mês que vem (2013), aproxima-se de países e artistas vizinhos, Ian Ramil canta em português e inglês, aproximando-se, em determinados momentos, de nomes como os mato-grossenses do Vanguart. Ian foi gravado em Buenos Aires e vem embalado em belo projeto gráfico de Virgílio Neto.

Outras influências, ele confessa no encarte do disco: Beatles em Nescafé (“Eu cuspo nescafé/ e você chora leite de manhã/ amarro o meu sapato/ e tu veste o sutiã/ (…)/ cadê o nosso amor? me diz onde/ vou correndo pegar o bonde/ que linha liga o teu coração ao meu?”) e Jorge Ben (assim mesmo, sem o Jor posterior) em Entre o cume e o pé (“eu já não sou infantil/ só quando eu quero/ quando convém eu brinco e pulo/ se desconvém eu sério”).

Transe aborda o amor entre metáforas gastronômicas e geográficas (“que que eu faço?/ me afogo em ti!/ eu posso logo ser um peixe?/ ou quer primeiro um puta barco de sushi?/ me diz pra gente se entender/ te pego em casa e digo: linda eu vejo o sol no teu olhar/ só pra nadar a noite nesse rio”) em faixa pontuada pela tuba de Santiago Castellani.

Entre o serrote de Diego Galaz e a guitarra de Ian Ramil, o personagem de Ímã ralo equilibra-se entre dois extremos: “às vezes ele pensa que é um ímã/ é que todo o mundo parece que quer colar/ em outras ele acha que é o ralo/ onde aquele mundo todo quer escoar/ (…)/ a personalidade desse cara é uma piada/ atraindo e escoando o que ele é”, diz a letra. Nela, Ian explora algumas possibilidades vocais, ele mesmo equilibrando-se entre a aproximação ou o distanciamento do conforto oferecido pelo sobrenome da família. Personalidade e talento ele prova ter de sobra neste consistente disco de estreia.

Confiram Ian Ramil em Suvenir.

Agora é pra valer!

[release]

TEMPORADA CELEBRA 60 ANOS DE JOÃOZINHO RIBEIRO*

Compositor realizará shows bimestrais até o fim de 2015. Apresentações serão seguidas de sessões de autógrafos do disco Milhões de Uns – Vol. 1. Estreia acontece neste sábado (11), no Bar do Léo

Divulgação
Divulgação

 

Milhões de Uns – Vol. 1 apresenta uma significativa, embora pequena, parte da obra musical do poeta e compositor Joãozinho Ribeiro, que completa 60 anos de idade neste recém-iniciado abril. É o primeiro registro lançado com o autor interpretando sua obra, coalhado de participações especiais, gravado ao vivo em duas memoráveis noites no Teatro Arthur Azevedo, em novembro de 2012 – a exceção é a gravação em estúdio de Elba Ramalho para Asas da paixão (Joãozinho Ribeiro).

Milhões de Uns - Vol. 1. Capa. Reprodução
Milhões de Uns – Vol. 1. Capa. Reprodução

É que Milhões de Uns não é apenas o título de uma das mais conhecidas músicas do artista, vencedora do Prêmio Universidade FM há mais de 10 anos, na magistral interpretação de Célia Maria. A música que batiza o disco de estreia é a mais perfeita tradução do que são a vida e obra do bacharel em Direito, funcionário público e professor universitário nascido João Batista Ribeiro Filho.

A constelação presente ao disco reflete sua importância para a música produzida no Maranhão ao longo dos últimos mais de 30 anos. Ali estão nomes como o Coral São João (a faixa-título), Milla Camões (Coisa de Deus), Célia Maria (Saiba, rapaz), Zeca Baleiro (Palavra e Erva santa), Chico César (Anonimato e Erva santa), Alê Muniz (Planos urbanos), Lena Machado (Rua Grande), Chico Saldanha (Matraca matreira) e Elba Ramalho, a interpretar sambas, choros, blues, reggaes, forrós e marchinhas, o que demonstra a versatilidade de Joãozinho Ribeiro.

Variedade refletida também no leque de parceiros: Betto Pereira (Coisa de Deus), Alê Muniz (Planos urbanos), Chico César (Anonimato), Marco Cruz (Tá chegando a hora) e Zezé Alves (Rua Grande).

O autor e seus convidados são escudados pela banda Milhões de Uns, outra constelação de craques à parte: Arlindo Carvalho (percussão), Danilo Costa (saxofone tenor e flauta), Firmino Campos (vocal), George Gomes (bateria), Hugo Carafunim (trompete), Klayjane (vocal), Luiz Jr. (violão sete cordas, guitarra semiacústica e viola caipira), Paulo Trabulsi (cavaquinho), Rui Mário (sanfona e teclado), Serginho Carvalho (contrabaixo) e Wanderson Silva (percussão).

Se médicos chegaram a desenganar o moleque João aos nove anos de idade, apostando-lhe cinco anos de sobrevida, o menino cresceu, tornou-se Joãozinho Ribeiro e teima em viver e fazer arte, desde um Festival Universitário de Música na UFMA, em 1979. Com seu otimismo quase insuportável, como gracejou Zeca Baleiro durante a gravação do disco, um de seus bordões é “eu não morro nem que me matem”, frase de quem teima em lutar pelas coisas que acredita, como diz outra conhecida canção sua.

Para festejar os seis ponto zero, Joãozinho Ribeiro, sempre acompanhado de convidados especiais, inicia neste sábado (11), às 21h, no Bar do Léo, uma temporada que circulará alguns bares e outros logradouros ludovicenses. A ideia é realizar, a partir deste início de março, shows bimestrais até o fim do ano – a empreitada tem apoio da Fundação Municipal de Cultura (Func).

Para a estreia estão escalados Célia Maria e Chico Saldanha. Os shows terão um formato intimista. As apresentações têm entrada franca. Milhões de Uns – Vol. 1 pode ser adquirido na ocasião, no local, e ainda nos seguintes pontos de venda espalhados pela Ilha: Livraria Poeme-se (Praia Grande), Banca do Dácio (Praia Grande), Rodrigo Cds Maranhenses (Praia Grande), Banca do Valdir (Renascença I), Papos & Sapatos (Lagoa da Jansen), Quitanda Rede Mandioca (Rua do Alecrim), Banca do Mundo de Coisas (Renascença II) e Play Som (Tropical Shopping).

Serviço

O quê: show Milhões de Uns. Lançamento do cd homônimo.
Quem: Joãozinho Ribeiro e banda. Participações especiais: Célia Maria e Chico Saldanha.
Quando: dia 11 de abril (sábado), às 21h.
Onde: Bar do Léo (Hortomercado do Vinhais).
Quanto: entrada franca.
Apoio: Fundação Municipal de Cultura (Func).

*Este texto é uma versão atualizada de um release postado anteriormente.

Chorografia do Maranhão: Os Irmãos Gomes

[O Imparcial, 22 de junho de 2014]

A 34ª. edição da Chorografia do Maranhão é misto de entrevista e homenagem. Entrevistamos os Irmãos Gomes, naturais de Rosário, e homenageamos seu pai, o compositor Nuna Gomes, também oriundo da cidade banhada pelo Itapecuru.

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: MURILO SANTOS

Ladeados pelos chororrepórteres, Os Irmãos Gomes. Da esquerda para a direita: Bastico (violão), Zequinha do Sax e Biné do Cavaco (violão). Foto: Murilo Santos
Ladeados pelos chororrepórteres, Os Irmãos Gomes. Da esquerda para a direita: Bastico (violão), Zequinha do Sax e Biné do Cavaco (violão). Foto: Murilo Santos

 

Vem de Rosário o trio de entrevistados da 34ª. edição da série Chorografia do Maranhão. Os Irmãos Gomes, filhos da doméstica e costureira Isabel Pereira da Silva Gomes e de Nionílio Alódio Gomes (1904-1985), barbeiro e músico mais conhecido pela alcunha de Capitão Nuna Gomes, herdaram do pai o gosto e talento pela música.

Desfalcados do fotógrafo titular, Murilo Santos assumiu o posto e clicou no Bar do Léo o depoimento a Ricarte Almeida Santos e Zema Ribeiro de Benedito do Espírito Santo Silva Gomes, o Biné do Cavaco (nascido em 6 de agosto de 1953), José Raimundo Silva Gomes, o Zequinha do Sax (6 de fevereiro de 1940) e Sebastião de Jesus Silva Gomes, o Bastico (14 de setembro de 1948).

Autor de obra pequena – muito se perdeu na própria memória, pela falta de registro – Nuna Gomes é nome fundamental na galeria de compositores de choro do Maranhão. Sua Um sorriso foi registrada em Choros Maranhenses (2005), do Instrumental Pixinguinha, primeiro disco autoral de choro registrado no Maranhão – Biné do Cavaco integrou o grupo em sua formação inicial, no começo da década de 1990.

 

A conversa foi ilustrada musicalmente por, entre outras, Saxofone, por que choras? (Ratinho) e Siboney (Ernesto Lecuona).

Além de músicos, vocês têm outras profissões?
Biné – Eu tentei ser aeroviário, trabalhei uns 10 anos, trabalhei na Vasp, Transbrasil, mas com o tempo fiz uma empresa pra mim, tentei ser empresário. Resultou agora já há 14 anos abri minha escola de música, já formei dois filhos e acho que vou me aposentar nisso, como professor de música.
Zequinha – Eu fui funcionário público federal, trabalhei muitos anos nos Correios, carteiro, passei 17 anos, quase 18, nos Correios. Aí eu fui redistribuído para a Escola Técnica, na época era Escola Técnica Federal do Maranhão, cheguei lá em 1978 e lá eu me aposentei, trabalhando uma parte como músico, ensinando na banda de música, e outros anos eu trabalhei como supervisor, passei nove anos como supervisor e nove anos como professor na banda de música. Ensinei muita gente lá.
Bastico – Além de músico eu consegui fazer cursos profissionalizantes na Escola Técnica Federal do Maranhão. Consegui fazer as profissões de tornearia, marcenaria, eletricidade, bombeiro hidráulico, solda elétrica e oxigênio, tipografia, e fora outras profissões como xerografia. E algumas com atividades durante algum tempo. Outras já até abolidas, como o caso da tipografia. Algumas exercidas, outras não. Atualmente sou só músico. Continua, essa é padrão.
Biné – Não tem saída: lá em casa a gente encerra com música.

Como era o universo da infância de vocês? Era musical? Como era o clima na casa de vocês?
Zequinha – Lá em casa sempre foi. Ainda em Rosário, aqui. Lá em Rosário a gente era muito novo.
Biné – Eu vim de Rosário com seis anos, sete. Mas lá em casa sempre foi música.
Zequinha – Eu era o mais velho. Lá eu aprendi a tocar o clarinete, com o professor da época, João dos Santos, grande músico. Eu comecei a tocar cabaça coberta com botão de cueca, ia fazer festa pra ganhar dinheiro.
Biné – O músico do interior, na época, tinha três classes. Zequinha entrou na terceira, pra depois ir pra segunda e depois pra primeira. Na terceira entrava cabaça, pandeiro; o cantor já era da segunda, com banjo. Agora o cara do sax, do pistom, já era da primeira.
Zequinha – Eu entrei como cabacista, da terceira. Era como se aquele ganhasse cem reais, o outro 80 e eu ganhava 60. Eu não achava legal, por que eu trabalhava mais, ainda cantava. Moral da história: eu comecei a aprender, fui estudar música, passei uns meses. Depois comecei a tocar clarinete. Aí vim pro quartel, passei um ano, quando eu voltei pra Rosário, seis meses ou um pouco menos, eu ganhei uma nomeação no Correio de São Luís e tive que vir pra cá. Eu não tinha conhecimento nenhum, a não ser o quartel.
Biné – Eu me lembro que papai dizia que a gente só vinha pra São Luís quando Zequinha estivesse empregado.
Zequinha – Aí com poucos meses eu estava empregado, aluguei uma casa e disse para mamãe botar tudo dentro do caminhão que a casa já estava alugada. Aí eles vieram pra cá, ali no Monte Castelo, eu gosto muito do bairro. Tudo o que eu precisava ter eu tive lá. Passei 10 anos lá, durante o tempo de solteiro. Ali eu saía pra tocar.

Capitão Nuna Gomes. Sem data. Autoria desconhecida
Capitão Nuna Gomes. Sem data. Autoria desconhecida

 

Além da genética, o fato de o pai de vocês tocar, vocês acham que houve outro fator decisivo para vocês seguirem a carreira de músicos?
Biné – Sobrevivência!
Zequinha – Eu, me ajudou demais. Aqui eu fiz conjuntos, naquela época era conjunto musical, participei de vários. Isso tudo a gente faturava, e bem, na época. Eles já vieram depois. Eu tinha que arrumar um jeito para ajudar na despesa de casa. Nós éramos nove irmãos, mais os dois pais, e alguns amigos que moravam. Tinha que ter dinheiro pra poder segurar, e com a música eu ganhava muito mais do que o próprio salário no Correio. Até hoje.

O violonista Bastico. Foto: Murilo Santos
O violonista Bastico. Foto: Murilo Santos

 

Bastico, você, filho de Nuna, que tocava bandolim e violino, o que te fez escolher o violão? Eu já te vi tocando seis cordas, sete cordas, guitarra, baixo. O que te levou aos instrumentos de cordas?
Bastico – Esse fator de nosso pai ter sido músico e concentrar em sua volta muitos músicos, a apreciação da arte em si, me chamava a atenção, eu como criança. Apesar de me chamar a atenção não havia em nosso pai uma permissão ou uma preferência para que qualquer um de nós seguisse os dons que ele tinha, que era ser músico ou barbeiro. Ele aspirava, como geralmente todos os pais, alguma coisa melhor que a que ele continha. Mas como esse dom é uma origem que se alastra por toda a família. Chamava-me a atenção, aquela reunião, a forma de meu pai tocar, a forma de meu irmão mais velho, Denisal, tocar, e outros amigos e alunos dele. Mas eu não expunha meu interesse a meu pai nem a ninguém. Eu procurei captar às escondidas. Na ausência dele, na forma mais oculta possível, pegando instrumento dele, sem o conhecimento dele. Isto com pouca idade, meus oito, nove, 10 anos. Até chegar o momento do conhecimento: num determinado momento em que ele necessitava de uma pessoa que tocasse violão para que ele pudesse fazer uma apresentação. E ele, que não sabia que eu já havia captado alguma coisa dele e das outras pessoas que com ele tocavam, foi surpreendido pela minha irmã para poder tomar conhecimento de que eu já tocava as músicas que ele precisaria tocar. A partir desse momento eu fui levado junto com ele para um compromisso, em que ele faria o oferecimento de duas músicas, uma valsa e um chorinho, de autoria dele, eu passei a ser um músico assediado por ele, já. Então eu passei a fazer parte das apresentações, das amizades dele. A partir daí meu desenvolvimento foi baseado no que ele fazia, da forma que ele tocava, na qualidade que ele desenvolvia o instrumento e o meu irmão também. A música é um dom natural de família. A partir daquele instante, já vindo pra cá, houve outras evoluções.

Zequinha do Sax e Biné do Cavaco. Foto: Murilo Santos
Zequinha do Sax e Biné do Cavaco. Foto: Murilo Santos

 

Biné, você está com um violão, mas você tem o nome artístico de Biné do Cavaco.
Biné – Essa é uma história muito interessante. A gente tinha uma banda, Curtisom, inclusive eu fiquei muito satisfeito: todos nós estamos vivos. Encontrei Joaquim [baterista], fazia 10 anos que eu não via, vamos fazer um encontro. A história do cavaco é a seguinte: a gente tinha uma Rural [veículo utilitário]. Nós éramos sete. Imagina, ficávamos cinco lá atrás, dois na frente e o motorista. O motorista nunca ia dormir para vir depois da festa. Aí ele ficava com sono e dizia: “toquem alguma coisa!” E às vezes a gente levava um violão pra brincar, pra fazer um sambinha, numa época em que samba não se tocava em festa. Era inconveniente o violão. Um dia levamos um cavaquinho, peguei a afinação do violão, eu tocava para animar o cara, pra ele não dormir. E eu comecei a tocar cavaquinho naquela afinação. Um dia Zé Hemetério [multi-instrumentista e compositor] chegou pra mim e disse: “Biné, esse cavaquinho tá tocado em afinação errada”. Aí ele me deu a afinação como seria. O que aconteceu? Eu comecei a tocar o cavaquinho, aprender um chorinho aqui. Depois a gente fez um grupinho de brincadeira, a gente ia pra rádio Ribamar. Zequinha, você lembra o 20 Cordas no Choro? Mas a gente não era chorão, então a gente sabia 10, 15, 20 choros. Não dava pra segurar um repertório, a gente tocava em banda. A gente chegava, tocava cinco choros, diziam “está muito bom, voltem na próxima semana”. Na outra semana a gente tocava os outros cinco [risos]. Dava pra tocar umas quatro semanas. Aí chegou a época de roda de samba, o Curtisom saiu na frente, por que tinha um cara tocando cavaquinho: eu.

Quem integrava o Curtisom?
Biné – O Curtisom era formado, inicialmente, por Almir, cantor, Zequinha, eu, Bastico, Joaquim, esse amigo nosso que eu falei, Giovani, violonista, e Pinheiro, Chico Pinheiro, de teclado. Chico Pinheiro foi a coisa mais interessante, por que ele não sabia tocar teclado e nós convidamos ele pra tocar teclado, quando a gente comprasse. “Vai treinando na Escola Técnica no piano, que quando a gente comprar, tu vem ser o nosso tecladista”. E ele veio. Quando comprou, “te vira aí”.

Isso era década de 1970?
Zequinha – 72.
Biné – Dia 2 de julho o Curtisom faria 42 anos.

Vocês tocavam em casas noturnas? Como era isso?
Biné – São Luís era maravilhoso! Não é como agora. Eu fico prestando atenção. Eu passo ali, vejo o Lítero [o Grêmio Lítero Recreativo Português, no Anil] no chão. Em 1972 eu toquei o carnaval ali. Foi a época, quando eu falei com Agnaldo [Sete Cordas, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013], Zequinha foi um dos fundadores dos Fantoches. Nós tínhamos tantos lugares para tocar. Tinha os grupos classe A, uns quatro: Nonato, Fantoches, Som Livre e Curtisom. A gente tocava no mesmo valor. Quando a gente estava cheio de contratos, a gente passava. Tinha um negócio interessante: toda turma fazia duas a três festas para poder fazer as festas do final de ano, dos colégios. Tinha Casino Maranhense, Montese, tantos clubes aqui, as bandas não davam para quem queria.

No traço de Nuna Neto (chargista de O Imparcial), outro herdeiro do capitão Gomes, a família musical reunida
No traço de Nuna Neto (chargista de O Imparcial), outro herdeiro do capitão Gomes, a família musical reunida

 

Mesmo o pai de vocês sendo músico, não era tranquilo o apoio dele a vocês serem músicos também, até pelo preconceito que existia à época. Depois o pai de vocês apoiou essa escolha?
Zequinha – Meu pai sempre me apoiou eu tocando sax. Por que também é o instrumento que eu sei tocar, embora um pouco menos do que os outros, mas dá pra gente ouvir. Canhoto, seria difícil eu tocar um instrumento de cordas, por que eu não tocava numa afinação minha. Ficou difícil eu aprender cavaquinho ou bandolim. Violão eu toco pro gasto. Quando eu fui pro saxofone ele me dava todo apoio.
Biné – Acontece um negócio interessante: com o tempo papai passou a admirar muito a gente, eu não lembro por quê. Quando a gente reunia tinha uma banda tocando: Bastico no violão, eu de cavaquinho, Zequinha de saxofone, alguém fazendo ritmo, não sei quem cantando. Vamos, tá uma banda montada. Quando era banda, era eu guitarrista, Bastico baixista, Zequinha sax, aí já vinha Celso, irmão nosso que faleceu há uns quatro meses, cantava, tocava bateria.
Bastico – Na opinião dele ninguém seria músico, ninguém seria barbeiro. Mas a partir do momento em que cada um abraçou a música, o dom dele, que é o nosso também, e passou a desenvolver, ele passou a apoiar. Passou a apoiar e a usufruir o que se fazia. Estava sempre que possível junto com a gente, sempre perto, e sempre mostrando ou expondo às pessoas o que ele tinha, de família, como músicos iguais a ele ou no ramo dele. Ele fazia questão, ele tinha um prazer, não era a preferência dele. Talvez a preferência dele fosse outras coisas, mas ele apoiava todos nós, sim.

Ele chegou a dar aulas para vocês? A ensinar música?
Bastico – Para mim, no caso, não. Eu acho até que para nenhum dos irmãos. Cada um foi autodidata ou procurou alguma forma de desenvolver a sua cultura. Foi mais fácil uns com os outros e com ele também, embora indiretamente. Mas ele lecionar qualquer coisa pra gente, não. Depois desse desenvolvimento nosso ele poderia sugerir qualquer opinião.
Biné – Eu concordo contigo numa coisa: a primeira ação de papai para os filhos tocarem. Papai tinha muita ideia musical, mas sabia que aquela música que ele fazia não tinha grande futuro. O que ele fez? Pegou nós três irmãos primeiros, mais Denisal, Concita e Nazaré, essa já falecida, e botou com Pedro Gromwell pra poder estudar partitura. Ele ia uma ou duas vezes por semana em Rosário, dar aulas.

Ainda assim, ele não dando aula formalmente, vocês o consideram o seu principal mestre?
Zequinha – Eu o considero. Por que ele, quando a gente fazia coisa errada, brigava. Dava murro nas paredes, na mesa. “Tá errado!” Eu não, por que meu instrumento é solo e ele não sabia tocar [risos], mas ele gostava de ouvir.
Biné – Ele tinha um ouvido magnífico. Não era o que ouvia bem a música: ele ouvia, memorizava e passava para o instrumento.
Zequinha – Ele tinha uma facilidade monstra de aprender as coisas. Ele não lia música, mas tudo ele pegava no ar.
Biné – Papai teve essa visão de botar os filhos para aprender a ler música, na época. Os outros, que não quiseram aprender a ler, ele começou a relaxar um pouco. Papai conhecia perfeitamente os instrumentos que tocava, a ponto de eu pensar que eu já era o craque, artista, cabeludo, de guitarra e tudo mais, e chegar e dizer o seguinte: “papai, eu tou tocando cavaquinho, já sei solar uns choros, vou comprar meu cavaquinho”. E ele dizia: “vá comprar o cavaquinho que eu quero ver se você sabe comprar o instrumento”. Cheguei, procurei o mais bonito, quando eu cheguei ele só fez isso [belisca duas cordas, imitando o gesto do pai]: “vá devolver, que não presta”. Aí eu fui estudar para entender aquele gesto dele. É como eu lembro, comento, as músicas de papai, hoje, que a gente procurou estudar um pouco mais para entender a estrutura, a organização das músicas que ele fez, rapaz, as músicas de papai estão todas dentro do padrão. Eu conversando com meu grande amigo César Jansen [bandolinista], ele me disse que as músicas de choro, cada parte tem 16 compassos. “Foi um estudo feito através de Pixinguinha. Vamos ver os de Capitão”, é como chamam papai. Cumprem rigorosamente as determinações da parte teórica, as músicas dele, as movimentações harmônicas. Ficou mais fácil, estudando, entender a música de papai. É a mesma variação da música de Jacob [do Bandolim], a mesma dos grandes compositores.

Em "A arte musical de Nuna Gomes" estão registradas nove composições dele. Capa. Reprodução
Em “A arte musical de Nuna Gomes” estão registradas nove composições dele. Capa. Reprodução

Qual o tamanho da obra de Nuna Gomes?
Biné – Nuna não tem uma obra muito grande. Ele deve ter umas 14 músicas – umas quatro valsas, uns 10 choros. Tem umas coisas perdidas, por que não era escrito. O que foi escrito foi por Zé Hemetério, foi o que foi gravado. Tem até músicas com dúvidas quanto aos nomes. Mas aquelas que foram gravadas estão certinhas. Só podia memorizar naquela época através de um gravador. Tu queria ver papai não dar uma nota num instrumento era botar um gravador na frente. Ele se perdia todinho, “tira esse gravador daí!”

Como vocês definiriam o Capitão Nuna Gomes?
Bastico – Eu posso dizer, em particular, que fui priorizado com a preferência dele na forma de meu aprendizado sobre as coisas que ele fazia. Eu procurei aprender da forma que ele tocava, ele e meu irmão, assim satisfazendo a necessidade dele. Por essa razão ele procurou aproximar-se o máximo possível de mim, chegando ao ponto de não satisfazer-se em tocar sem minha presença em determinados momentos. Eu acho que definir meu pai tanto como pai, homem, músico ou como um cidadão, ele para mim foi um modelo, um modelo que a gente cria na mente, um exemplo a seguir.
Zequinha – É um tanto difícil de a gente chegar e dizer a verdade: “ah, por que é filho”. Não: eu sempre dei 10 pra ele. Ele pegava o cavaquinho, tudo o que ele queria ele fazia com aquele cavaquinho. Violão do mesmo jeito, bandolim, esse era o instrumento dele, e o violino. Violão ele pegava depois. [Lacrimejando:] Eu não gosto de falar.
Biné – Eu tentei ser solista. Da família, é como se fosse um time de futebol, eu era o nove. Eu era o solista, com Zequinha, lá na frente da banda. Solista de guitarra, solista de cavaquinho. Aí eu passei a perceber e valorizar Capitão Nuna: ele passava cinco anos sem pegar um instrumento. Quando a gente foi levar Nuna pra gravar o primeiro cd dele, lá onde Anísio, ele disse: “a coisa mais impressionante, eu não vejo seu Nuna errar uma nota”. Ele tinha uma segurança tão grande na escala, que se tornou, devido a tocar muito tempo, conviver muito tempo com o instrumento, o que ele imaginava, ele fazia perfeitamente. Eu tenho certa dificuldade. O músico completo tem que ter muitas coisas, inclusive memória. A escola dele, ele foi autodidata. Aí é que está minha admiração: magnífico nessa parte. Todo instrumento que ele tocava, ele tocava com muita segurança.

A obra de Nuna foi registrada em disco recentemente. Como foi esse processo? Se alguém quiser ter acesso, onde encontra?
Biné – Esse material não se encontra direto ao público. Ele foi registrado por um grande amigo nosso, Hilton Mendes, que mandou fazer uns 400 cds. Isso já se distribuiu para os amigos, deve ter bem poucos [exemplares]. Foi uma obra feita de caráter mais documental, não foi com caráter comercial.

Além desse disco que registrou a obra de Nuna, vocês participaram da gravação de outros discos?
Biné – A gente fez algumas coisas, tem registros de memórias, em fitas lá em casa. Tem Zé Hemetério tocando. Tem Ricarte [risos dos chororrepórteres], um grande violonista, amigo de Zé Hemetério.

 

Biné, você foi membro do Instrumental Pixinguinha. Quanto tempo você passou no grupo?
Biné – Eu passei 18 meses. Eu estava trabalhando na Transbrasil e na época não queria saber de música, mas Solano [o violonista sete cordas Francisco Solano, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013] me convidou e eu fui. Na época eu não lia música e eles disseram [risos]: “tu tá lascado”. “Mas eu aprendo”. Foi muito importante nessa parte teórica, eu comecei a estudar, gostava do trabalho que estava sendo feito. Fizemos um espetáculo no Teatro Arthur Azevedo em que tocamos a Suíte Retratos [de Radamés Gnattali]. Depois saímos eu, César Jansen, Solano, Paulinho [Oliveira, flautista] e Marcelo [Moreira, violonista]. Ficou só Domingos [Santos, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014]. De lá reuniu, o pessoal trouxe Juca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014], Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013]. Isso era 1990, esse pessoal [a atual formação] veio depois.

O pai de vocês tinha amizade com Zé Hemetério? Como era isso?
Zequinha – Nós éramos vizinhos. Era aquela amizade louca! Eu toquei demais com Zé Hemetério.
Biné – Zé Hemetério era o seguinte: já envelhecido, ele tinha alguns contratos, mas não tinha parceiros. Ele chegava e perguntava: “vocês vão tocar quinta-feira?” Íamos eu, Bastico e Maneco acompanhando ele, tocamos muito. Ele no violino, tocando festa de 15 anos. Muito depois ele começou a tocar bandolim, mas só pra brincar, não pra ganhar dinheiro.

Vocês já falaram no Curtisom e no Pixinguinha. De que outros grupos musicais vocês participaram?
Biné – Eu e Bastico participamos da Orquestra Maranhense. A Orquestra Maranhense tem uma história que ainda não foi dita por ninguém. O Ataíde, que fez a Orquestra Maranhense, na época era dono do Som Livre, depois extinto. Ele pensou assim: todos os músicos, das bandas da polícia e das bandas do exército, não têm onde tocar depois que se reformam, a não ser em [bumba meu] boi e carnaval. E ele idealizou uma orquestra para poder tocar todo o tempo. Pegou todos os músicos reformados da época e fez a Orquestra Maranhense, lá na casa dele no Ipase. Ele perguntou: “Biné, tu não vai dar uma força pra mim?” Eu fui pra guitarra, Bastico pro baixo, e ele ficava lá no teclado.
Zequinha – Nós criamos aqui o Conjunto Melodia, com Mascote [o violonista e percussionista Antonio Sales Sodré], Ataíde, [o cantor Léo] Spirro, a gente tocava muito. Sabe como é o conjunto: vai, vai e se acaba. Aí nós criamos o Big Nove, com aquela dupla Ponto e Vírgula, Jorge e Othon Santos. Foi chamado Spirro, Bárbara, cantora, naquela época cantava muito bem, eu. Nós éramos nove músicos, por isso Big Nove. Fizemos muita festa, [Clube] Jaguarema. Terminou o Big Nove nós fizemos Os Fantoches. Depois o Curtisom, em 1972 eu saí dos Fantoches. Aí nós fundamos o nosso, um nome criado por Bastico, Curtisom, muito bom. Quando surgiu, surgiu com tudo.
Bastico – Eu fiz parte de muitos, como Big Nove, Ferreira e Seu Conjunto. Depois fui participante do Som Livre, Os Fantoches e do Curtisom. Depois da Orquestra Maranhense. Toco violão há oito anos no bumba meu boi Mocidade de Rosário.

Vocês se consideram chorões?
Bastico – Eu sempre fui. Eu sou muito amante do gênero, e como amante eu gosto sempre de participar como músico. Portanto, tanto quanto como amante, como quanto participante instrumentista, eu sou chorão.
Zequinha – Eu me considero. Por que foi um dos ritmos que eu mais abracei. Na época em que eu tocava o sax alto ele pede que a gente toque choro devido à facilidade na execução. Eu morava no interior e lá eu tinha que aprender a tocar, pra fazer aquelas festas que começavam às nove horas e terminavam às seis da manhã. De madrugada a gente tocava choro e eu me acostumei com aquilo, aprendi, vim pra cá e trouxe o costume pra cá. Abraço todos os gêneros, toco todos os gêneros, mas naquela época eu tocava mais o choro.
Biné – Na visão de músico ou na de musicólogo? Na visão de musicólogo eu adoro o choro; na de músico, eu gosto, porém eu não pratico. Eu fui um dos primeiros a tocar choro aqui dentro de São Luís. Eu procuro ser o máximo eclético. Hoje eu toco mais violão, tenho minhas agendas. Na verdade eu tenho que parar para poder estudar, treinar. Não tem grupo, o choro é fundamental ter o grupo.

Os reencontros de Demétrio Bogéa

Doce pecado. Capa. Reprodução

O cantor e compositor Demétrio Bogéa estreia turnê nacional de lançamento de seu disco Doce pecado hoje, amanhã e domingo, em São Luís. Professor de música, só agora, aposentado, ele pode dedicar-se aos shows de lançamento do álbum lançado em 2011.

As apresentações, gratuitas, acontecem no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), às 20h (domingo, 29, às 19h). A retirada dos ingressos será feita na bilheteria do teatro, com uma hora de antecedência do espetáculo.

Doce pecado terá shows de lançamento também no Rio de Janeiro e Recife/PE. Demétrio Bogéa será acompanhado por Deniel Moraes (bateria), Leonardo Paes (baixo), Dennes Sousa (guitarras), Gregory (teclado) e Hugo Coelho (violão e vocais).

As apresentações serão marcadas por reencontros: o artista volta à terra natal e contará com as participações especiais de Sérgio Habibe, Gerude e Nosly. Os dois primeiros participaram do show inaugural de Demétrio Bogéa em São Luís, acontecido em 1983 no Teatro Arthur Azevedo.

Ouça Doce pecado na Rádio Uol.

Clipes (e discos) novos de Lucas Santtana e André Prando

Dois clipes novos chegaram às paradas deste blogue.

Lucas Santtana foi à Europa lançar o novo Sobre noites e dias (ouça aqui) e aproveitou a passagem por Paris e Amsterdam para gravar o clipe de Diary of a bike (ou Diário de uma bicicleta), com participação especial – cantando e pedalando – do rapper francês Féfé. O clipe – dirigido por David Pacheco e Gabriel Froment – tem também cenas gravadas em São Paulo.

 

O capixaba André Prando lança disco novo, Estranho sutil, mês que vem. Com auxílio de João Sampaio, filho único do conterrâneo Sérgio, ele gravou a inédita Última esperança, que versa sobre o incêndio que devorou – e matou centenas de pessoas – o Edifício Joelma, em São Paulo, em 1972. Ele já liberou o clipe da música do compositor, falecido em 1994, aos 47 do primeiro tempo.

 

Para ouvir e baixar Vão, disco anterior de André Prando, acesse o site do artista. A partir do dia 1º. de abril Estranho sutil também estará disponível para download. (Com informações da assessoria de Lucas Santtana e do site Kultme).

Chorografia do Maranhão: Juca do Cavaco

[O Imparcial, 13 de abril de 2014]

Juca do Cavaco virou bordão em programa de choro. Cavaquinista do Instrumental Pixinguinha, o músico é o 30º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Quando a realização de sua entrevista para a Chorografia do Maranhão foi previamente anunciada nas redes sociais, Juca do Cavaco foi saudado como um chorostar. Não é à toa: o músico virou um bordão no dominical Chorinhos e Chorões, apresentado há mais de 20 anos por Ricarte Almeida Santos na rádio Universidade FM (106,9MHz). “Eu sinto uma alegria muito grande, eu fico satisfeito em chegar o domingo, escutar o programa numa rádio de respeito, com um pesquisador fantástico, escutar o nosso nome. Já começo o domingo de uma forma 10. É uma honra!”, revela o torcedor do Fluminense, de longe o mais adjetivado de nossos instrumentistas, entre chorografados e chorografáveis.

Fora o instrumento que lhe deu o sobrenome artístico, Emilson Pires dos Santos não sabe a origem do apelido que ganhou na infância. “Eu perguntei várias vezes para mamãe, mas ela vacilava e nunca soube responder”, confessa. Titular do cavaquinho do Instrumental Pixinguinha, o músico nasceu em 26 de julho de 1958, em Bacuri, então Cururupu, “perto de Valha-me Deus, Lençóis. Da família sou o único que não conhece minha cidade”, conta o ex-bigodudo que veio ainda menino para a Ilha capital.

Formado em Medicina Veterinária, Juca do Cavaco é filho de Doralice Rodrigues Pires dos Santos, autonôma, dona de casa, e Cândido Machado dos Santos, com quem não teve convívio. É o mais novo de três irmãos, em time que se completa com os quase homônimos Edilson e Enilson. Casado com Maria da Conceição Souza, ele deu seu depoimento à chororreportagem, o 30º. da série, após a feijoada sabática do Hotel Pestana, onde toca com o Regional Feitiço da Ilha.

Regada a chopp, a conversa foi ilustrada musicalmente por Você, carinho e amor, Minhas mãos, meu cavaquinho, Chiquita e Pedacinhos do céu, todas de Waldir Azevedo, “o rei do cavaquinho”. Na última simulou o jargão de Ricarte ao apresentar o Chorinhos e Chorões: “Olá, são nove horas, está no ar Chorinhos e Chorões, o seu café instrumental de domingo”.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Além de músico, qual a tua outra profissão? Atualmente eu vivo só de música. Fiz um concurso nacional, aqui em São Luís, concorrendo a uma vaga para cavaquinho e tive a felicidade de passar nesse concurso, que fez com que eu abandonasse todas as minhas outras funções, de professor de inglês e matemática nos principais colégios daqui. Eu fiquei como tempo integral e dedicação exclusiva, tive que largar todas as outras coisas e estou até hoje, graças a Deus, na Escola de Música [do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo].

De onde vem o apelido Juca? Olha, nem mamãe soube me explicar. Eu andei perguntando pra ela. Ela vacilou e não soube me explicar, eu curioso… é uma pergunta que todos me fazem, principalmente os amigos íntimos, como vocês. Eu perguntava, ela não soube me responder direito. Eu não sei a origem desse apelido.

Quando você veio para São Luís, você veio morar onde? Eu lembro que morei num quarto com mamãe na Praia Grande, perto da Escola de Música. Às vezes eu passo lá, fico olhando, “eu morei aqui”, dá vontade de entrar, curiosidade mesmo. Depois desse quarto eu fui morar na [rua] Pereira Rego [também conhecida como Rua dos Craveiros], entre a Rua da Paz e a Rua do Sol, nunca asfaltaram até hoje, até hoje os paralelepípedos estão lá.

Qual era o seu universo de vivências musicais, o que fez você optar por essa carreira? Na verdade, quando eu morava nessa Rua Pereira Rego, meus irmãos, principalmente o mais velho, tinham amigos que tocavam violão, se encontravam, estudavam no mesmo colégio, aquela amizade. Eles se reuniam para tocar violão e eu ficava olhando. Nunca pensei na minha vida em ser músico. Eu os olhava tocando, achava bonito, o tempo foi passando. De repente quando me vi, estava morando na Rua do Norte, nº. 129, perto do Caneco Bar, até hoje existe, inclusive eu fui o bebedor da primeira cerveja do Caneco Bar, e o Martins [proprietário do bar] não deixou que eu pagasse a cerveja. Na Rua do Norte meus irmãos continuavam a tocar violão, por brincadeira, por hobby, nada profissional. Eu já fazia faculdade nessa época. Lá tinha uma roda de samba, e aí que eu comecei a entrar no âmbito da música sem eu saber.

Você fazia faculdade de quê? Primeiramente eu fiz a faculdade de Medicina Veterinária, formei. Depois eu fiz Matemática, incompleto. Larguei pela metade, não tinha mais tempo mesmo. Eu entrei na Escola de Música, tinha muita tarefa, estudava inglês, depois a Escola me contratou para ser professor e eu aceitei. Na Rua de São Pantaleão tinha uma roda de samba que eu gostava muito. Eu nem tocava cavaquinho nessa época. Dava final de semana, o pessoal se encontrava: Cotia [Jorge Henrique], que hoje mora em Natal, violonista, cavaquinista; Vadeco, que era a grande expressão daqui do Maranhão, me ensinou muita coisa, era solista e centrista, depois virou percussionista; era um exímio cavaquinho, tenho-o como um dos mestres, eu tenho muitos mestres, na verdade. Tinha essa roda de samba, que tinha o grande Armand como violonista, irmão de Gerude [cantor e compositor]. Aí eu comecei a tocar cavaquinho e aprender os acordes, pedia muita consulta pra Vadeco. Quando ele solava um choro eu ficava extasiado: que coisa bonita!

Falando em Bar do Caneco, é verdade aquela história de que você foi chamado de Juca dos Teclados? Essa história foi uma grande brincadeira do, se não me engano o nome dele é Alessandro. Uma vez na Rua de São Pantaleão, ele gostava de tocar saxofone, e eu virei para ele e disse: “grande baterista!” [risos]. E ele virou pra mim e disse “você é um grande tecladista!”. Depois eu estava no Clube do Choro [Recebe], quando ele contou essa história. Mas não tem nada a ver, eu nunca fui… não foi no Caneco, foi no CC, no Canto da Comunicação, ali onde tem uma funerária, em frente à antiga sede da [escola de samba] Flor do Samba, o grande reduto destes meus mestres. Essa história é brincadeira, uma brincadeira bem saudável, todo mundo gosta, eu gosto. Tudo isso é alegria, é saúde.

Você é uma das pessoas que mais enriquece esse anedotário, além do espírito didático-pedagógico, de cumprir uma função de interagir com o público, o que é, quem é, uma história sobre a música, sobre o compositor, você sempre cumpriu esse papel de maneira bem interessante. Eu fico feliz com estes adjetivos.

Por que você escolheu o cavaquinho? Por que é um instrumento que tem um timbre muito bonito, agradável. A beleza do próprio instrumento, a facilidade. Não por que ele é pequeno, eu poderia muito bem tocar piano, ou violoncelo, mas o cavaquinho está dentro da linha do samba, dentro da linha do choro, da música brasileira, apesar de sua origem portuguesa. Eu olhava meus amigos tocando e achava tão bonito que isso me influenciou, a beleza deles tocando. Quando eu fazia faculdade foi a época em que eu passei a tocar cavaquinho. Foi lá pelos anos de 1980, 81. Nessa época já rolava essa roda de samba e Vadeco era o único solista que eu conhecia aqui. Depois eu fui conhecendo outras pessoas, o Paulo Trabulsi [cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], exímio solista, principalmente de choro, domina bem, depois vieram outras pessoas, Adelino Valente [bandolinista], foi meu professor [de matemática] no Colégio Batista. Eu fui me juntando com essas pessoas, sempre aprendendo, fazendo perguntas, tirando dúvidas. Eu comprava muitos vinis, principalmente do Waldir e do Jacob [do Bandolim]. Mais ainda do Waldir por que era o instrumento que eu me engracei por tocar. Os vinis quando chegavam em São Luís, era perto da casa da minha mãe, onde eu morava, tinha uma loja lá que eu comprava muito, Arpasão, eu era federal [frequentador assíduo] no Arpasão.

Com o advento da tecnologia e a facilidade que a internet proporciona, você continua um grande comprador de discos, de cds? Eu procuro muito cd, muitos vinis. Não tenho uma grande coleção. Os vinis que eu consegui comprar ainda estão na casa da minha mãe. Uma grande parte está na casa de um grande amigo meu, a gente fez um trabalho de transformação de vinil para cd. Eu uni meus vinis com os dele. Na minha casa, atualmente, eu não tenho nenhum, na verdade. Eu tenho já passado tudo para o computador. Mas é muito interessante as pessoas terem esses vinis como relíquias. Nos vinis é que estão as verdadeiras histórias dos músicos. Por isso é que eu sei contar muitos casos, hoje nos cds tem algumas histórias, mas nos vinis vinham as histórias de cada músico, sambistas, chorões, e muitos casos, na capa do vinil. Eu lia muito isso, relia, e se eu olhar um vinil hoje eu continuo lendo. É muita cultura!

Você falou há pouco de Vadeco e Adelino e disse que tinha muitos mestres. Quem são os outros? O Cotia também, [César] Jansen, bandolinista, Natan, violonista que me ensinou muita coisa de cavaco, tocava cavaquinho esporadicamente. É principalmente essa turma. Sem falar nos percussionistas, que acompanham os sambas, os choros. Até hoje, toda vez que eu vou tocar com qualquer pessoa que seja, eu sempre estou observando, aprendendo. Se eu toco um choro e a pessoa toca outro, são praias completamente diferentes. Eu sou muito observador, às vezes eu vejo o jeito de a pessoa tocar, a dinâmica. Eu fui conhecendo as pessoas ao longo da minha vivência. Primeiro Vadeco, depois Paulo Trabulsi, Cotia. Nessa roda de samba eles invertiam os instrumentos: quem tocava cavaquinho depois pegava violão.

Quando é que o [Instrumental] Pixinguinha entra na tua vida? O grupo Instrumental Pixinguinha foi criado e formado na Escola de Música. Quando eu entrei lá eu já conhecia muitos dos integrantes do grupo. Quando eu entrei para estudar, pra me aprofundar, pra aprender a ler, a escrever a música, tinha esse grupo de choro, com uma deficiência muito grande no instrumento cavaquinho. Ora passava um, ora passava outro, passou muita gente. Uma vez, eu dentro de um ônibus, encontrei Marcelo Moreira [violonista], grande músico, grande amigo meu, a gente começou a conversar. O grupo estava num momento de crise, aquela coisa de grupo, até os Beatles acabaram, não é? Ele sentado, eu em pé, eu perguntei: “Marcelo, no Pixinguinha eu vejo muita deficiência em termos de cavaquinho. Por que vocês não botam uma pessoa fixa pra tocar cavaquinho? Eu me disponho a tocar com vocês!”. Certo tempo depois, me convidaram: “Juca, tu não quer tocar no grupo?”. Eu já tocava alguma coisinha, depois daí não parei mais. Eu já tinha tido passagens pelo [regional] Tira-Teima, meus amigos de longa data, os do Pixinguinha eu fui conhecer na Escola de Música.

Quem tocava cavaquinho? Era Raimundo [Luiz, bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013], era Biné [do Cavaco], o Athos [Lima], houve muitas passagens. Quirino…

Athos virou roqueiro depois. Muitos roqueiros vêm do rock pro choro. Athos fez o movimento contrário. O Ronaldo [Rodrigues, bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 1º. de setembro de 2013], sobrinho de Solano [o violonista sete cordas Francisco Solano, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], veio do rock pro choro, João Neto [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014]. Tinha um aluno na Escola de Música, chamado Ricardo [Foca], toca um bandolim de prima, era roqueiro. Continua roqueiro, mas toca muito choro.

Não está na hora de o Pixinguinha gravar um disco novo? Essa é uma história sobre a qual eu tenho observações.

Eu soube que você não gosta de gravar. Essa história está totalmente errada. Vamos tirar isso a limpo [gargalhadas do entrevistado e dos chororrepórteres]. Quando eu me propus, como integrante do grupo, a gravar o primeiro cd [Choros Maranhenses, de 2005], eu disse, “olha, eu vou gravar com várias condições”. Eles: “quais?”. Primeiro, temos que ter um produtor, quando forem fazer o cd, capa, encarte, letras grandes, toda pessoa que se interessa, vai ter que ler. Eu vejo tanto cd com letra miudinha, letra preta em fundo azul, gente! Isso é uma falta de respeito com o leitor, com o ouvinte, o consumidor. Tem que ter uma foto bem produzida, realmente a foto foi bem produzida. Outra: depois que gravarmos o cd, vamos contratar alguém para gravar entrevistas, contratos musicais, trabalhar em cima do cd, fazer shows de divulgação em São Luís, no interior do Maranhão, e depois rodar o Brasil. Isso não aconteceu. O único show que a gente fez foi quando tocávamos no Por Acaso [bar na Lagoa da Jansen]. A gente lançou o cd ali. Depois disso não houve nada. Por isso quando se pergunta: “vamos gravar o cd?”. Eu posso gravar o segundo, o terceiro, o quarto e ficar encofado.

Tuas condições são plausíveis. Choros Maranhenses cumpriu um papel muito importante: é o primeiro disco de choro gravado no Maranhão, com repertório autoral, de membros do grupo e mestres do passado. Neste aspecto há alguma discussão, de um eventual segundo disco manter essa linha? Já houve conversas, de se manter a mesma linha. Pesquisar e fazer uma seleção.

O Caderno de Partituras de Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013] seria um orientador da pesquisa de vocês? Eu falei pra ele também: “Zezé, esse teu caderno é muito bom, uma iniciativa muito boa, mas leva teu projeto pra frente, pega um apoio, um produtor, que te leve com esses cadernos para o interior, divulgar teu trabalho”. O trabalho está parado. Ele me convidou para gravar o caderno dele [um cd encartado, para que o estudante de música possa tocar acompanhando as partituras], eu, Carbrasa [percussionista] e Domingos Santos [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014], mas o caderno está parado! A única coisa que foi feita nesse livro, em termos produtivos, foi quando chega músico de fora, ele dá, entrega. Mas tem que ter um trabalho direcionado, estratégico, educacional, música nas escolas.

Pra você, o que é o choro? O choro é, como diz meu amigo João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], a espinha dorsal da música brasileira. É a música que abrange todos os gêneros. A pessoa que toca choro tem maior facilidade em tocar os outros ritmos, fica mais fácil. É a primeira música brasileira, tem que ser respeitado. É onde começa todo o desenvolvimento musical da história da música brasileira. O choro é a base.

Você se considera um chorão? Assim como eu me considero também um sambista, assim como eu gosto de vários estilos musicais. Ser chorão é como se eu estivesse dizendo que toco só choro. Eu toco outros estilos. Eu me identifico muito com a música de boa qualidade. Eu posso dizer que sou um chorão dentro das minhas limitações. Não conheço tudo, mas sinto muito prazer em tocar.

Além do Instrumental Pixinguinha, de que outros grupos musicais você participou? Eu toquei muitas vezes com o Tira-Teima, eu andava muito com eles. Fixo mesmo foi com o Pixinguinha. Em relação a grupos de samba toquei em muitos grupos: Amigos do Samba, que inclusive é um choro de Waldir Azevedo, toquei no Sambando na Praia, toquei com Serrinha [e Companhia]. Hoje em dia São Luís está cheia de grupos. O grupo Ébano até hoje me convida para tocar, de vez em quando eu toco com eles. De choro eu tenho vários grupos formados: o Duo Chora Cavaco, eu e Domingos Sete Cordas [Domingos Santos]; o Triângulo Escaleno, eu, Domingos e Lazico [o percussionista Lázaro Pereira]; grupo Éramos Seis, que era o Pixinguinha, Garrincha [baterista] saiu. Atualmente, fixo, eu estou tocando com o Feitiço da Ilha, que sou eu, Vandico [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de março de 2014] e Chico Nô [cantor, compositor e violonista], e com o Instrumental Pixinguinha.

Você esteve em duas iniciativas que ganharam prêmios Universidade, Choros Maranhenses e Rosa Secular [o show Noel, Rosa Secular, que celebrou o centenário do compositor de Vila Isabel, com vários artistas]. O que isso significou para você? Significou muito para mim. Houve muita produção, a gente estudou vários arranjos, a produção de cada música, tocar, ensaiar. Foi um ganho muito bom, me sinto recompensado, alegre e satisfeito de ter participado destes dois momentos. Quem não fica satisfeito em ser reconhecido? Em produzir um trabalho e ganhar determinado prêmio? Agora, o prêmio maior é a convivência com os envolvidos. Puxa, quando eu lembro que no primeiro Rosa Secular não tinha mais como entrar no Daquele Jeito [bar no Vinhais]. Foi apoteótico, essa é a palavra. A gente passou vários meses ensaiando, e nunca havíamos pensado em chegar a este patamar de sucesso.

Para você, o que é sucesso? Sucesso é o fruto de um trabalho bem feito, feito com muito esforço, com muito estudo e muita participação. Acima de tudo, estar tocando uma música bem tocada. No momento em que a gente começa a tocar errado, a gente já vira insucesso. Sucesso é a gente tocar bastante, se esforçar, ter gratidão às pessoas que ajudam a gente, de uma maneira geral. Isso gera o sucesso. Se fizer bem feito o sucesso chega. Tem que tocar por amor, mesmo. Dinheiro é consequência.

Ano passado você esteve envolvido em um episódio importante, quando o Tira-Teima e o Pixinguinha subiram juntos ao mesmo tempo em um palco da Aldeia Sesc Guajajara de Artes, promovida pelo Sesc. O que aquele momento significou para você? Foi um encontro onde reunimos os grandes chorões e onde houve um encontro de muita musicalidade e entrosamento. Dois grupos tocarem o mesmo repertório juntos é complicado, mas conseguimos. Um detalhe interessante, muito difícil: no Pixinguinha eu me responsabilizei por montar o repertório, e Paulo Trabulsi por montar o do Tira-Teima. Fizemos os repertórios, mandamos um pro outro, eram músicas diferentes. Foi tão difícil fazer esse repertório, em cima da hora mudamos [risos]. Quando eu desci de lá, duas pessoas vieram: “gente, vocês devem ter ensaiado muito, saiu tudo perfeito”. Foi um reconhecimento a essa cultura instrumental.

Uma questão fashion: por que você tirou o bigode? É o seguinte: cabelo branco eu acho lindo, agora bigode branco, eu não acho legal. E eu fiquei mais jovem [risos]. Agora, esse lance de bigode, toda semana eu recebo comentários interessantes: “Juca, depois que você tirou o bigode, é tipo o cabelo de Sansão, tu não faz mais aquele negócio”; “Juca, agora tu tá o cara!”. Eu fico em cima do muro [risos].

Como você avalia o choro que se pratica no Maranhão hoje? Temos duas faculdades de música, a Escola, grupos de choro, grupos de estudo. Como você enxerga isso, comparando o hoje com o que era anteriormente? É uma evolução muito grande, acima de tudo do interesse pela música. Nas escolas, nas faculdades, a gente vê pessoas interessadas em aprender, não só para entrar no mercado de trabalho, mas produzir uma música que é estudada, a pessoa se esforça para fazer uma coisa bem feita. É altamente positivo. Vivemos um bom momento no choro, assim como no samba, que está num momento incrível em São Luís.

O choro do Maranhão tem futuro? Só tem! Basta a gente querer e ter o apoio de pessoas sérias.

Enquanto grava disco novo, Lenine disponibiliza show no youtube

Turnê de Chão foi captada por câmeras instaladas no corpo de técnicos e roadies

Lenine considera Chão seu disco mais rock’n roll. E tudo começou com uma guinada: a captação acidental do canto de um passarinho quando o artista pernambucano gravava as bases do álbum lançado em 2011.

É um disco cheio de efeitos e bases pré-gravadas, algo mantido no show com bastante competência – o blogueiro assistiu-o no Teatro Arthur Azevedo. Chão era realmente diferente de tudo o que Lenine havia produzido até então e causou certo estranhamento em fãs adeptos do “em time em que está ganhando não se mexe”.

Ali estão os sons do coração do neto – que aparece na capa do disco, deitado sobre o peito de Lenine –, máquinas de lavar, pisadas na brita, passarinho, serra elétrica, chaleira e cigarras, reproduzidos nas 130 apresentações (em 80 cidades do Brasil e do mundo) ao longo da turnê, que durou dois anos e nove meses.

Câmeras GoPro foram instaladas ao lado dos músicos – JR Tostoi e Bruno Giorgi – e no peito de técnicos de som e roadies para captar imagens de Chão. O áudio foi captado em duas apresentações ao vivo. Lenine disponibilizará, a partir de hoje (13), uma por dia, as 22 faixas gravadas de Chão ao vivo.

O “orquidoido” – como se define, por ter mais de cinco mil espécies de orquídeas em sua coleção – está em estúdio, gravando Carbono, seu 11º. álbum – são 14 ao todo, mas o artista exclui trilhas e coletâneas da soma.

É a primeira vez que Lenine disponibiliza um show completo no youtube. Dia 4 de abril ele poderá ser visualizado completo, como playlist. Carbono será lançado no início de maio.

Confira o primeiro vídeo disponibilizado por Lenine: