Um artista em constante metamorfose

Foto: José de Holanda
Foto: José de Holanda

 

O pernambucano Siba é um artista em constante processo de reinvenção. Entre meados dos anos 1990 e 2000 liderou o Mestre Ambrósio, banda que ajudou a consolidar o movimento manguebit. Com o fim do grupo, formou, com músicos da zona da mata pernambucana a Fuloresta do Samba. Só depois estreou em carreira solo, com Avante [2012], um bem-humorado disco de tons autobiográficos.

Em 2015 lançou De baile solto (seus discos solo e com a Fuloresta estão disponíveis para download no site do artista), com letras em geral com conteúdo político de grande força. Em Marcha macia, que abre o disco, por exemplo, criticava a tentativa de ingerência do poder público de mexer nas tradições dos maracatus em Pernambuco, com que trocadilha o título do álbum.

De baile solto foi o disco com cujo show Siba baixou na ilha no final de 2015, no Festival BR 135. Ele volta à cidade amanhã (10): se apresenta às 22h no Fanzine Rock Bar (av. Beira Mar, Praça Manoel Beckman, próximo à Delegacia da Mulher, Centro). Os ingressos custam R$ 40,00 (20,00 para estudantes com carteira e demais casos previstos em lei).

A produção local do show é novamente do BR 135, que pretende, ao longo do ano, realizar algumas apresentações, como a preparar o clima para o grande festival no Centro histórico – a edição de ano passado teve, entre as atrações, os também pernambucanos da Nação Zumbi.

Na apresentação de amanhã Siba (guitarra e voz) será acompanhado por Atife (guitarra), Thomas Harres (bateria) e Mestre Nico (percussão e voz). O artista conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: José de Holanda
Foto: José de Holanda

Qual a base do repertório do show desta sexta em São Luís?
Esse show tem uma formação reduzida, é um quarteto que vai aí pra São Luís. São duas guitarras, bateria, percussão e vozes, e eu tenho usado este formato pra experimentar com repertório de vários momentos, desde a Fuloresta, do Avante, e também bastante coisa do De baile solto. Mas é uma formação que tá em metamorfose, sempre experimentando novas possibilidades, já tentando talvez apontar aí a direção para um novo projeto, esse ano ainda ou no ano que vem.

Em De baile solto você volta pela primeira vez em disco ao repertório do Mestre Ambrósio, com a regravação de Gavião. Qual a sensação da revisita?
A música Gavião foi regravada no De baile solto por que ela tinha uma relação muito profunda com o repertório, primeiramente musical. O De baile solto é um disco muito marcado pela retomada da rítmica que eu sempre tive como principal no meu trabalho, que é a da música de rua de Pernambuco, e Gavião era uma das músicas mais importantes, pra mim, no Mestre Ambrósio. Sendo que depois a letra dela tomou uma dimensão muito particular. Em contraponto com as letras mais diretamente políticas do disco, Gavião acaba se ressignificando, ao lado das outras músicas, eu acho.

Você se consagrou como rabequeiro, no Mestre Ambrósio e na Fuloresta, mas na carreira solo se acompanha com guitarra. Há uma razão para a mudança? E qual a chance de a rabeca reaparecer?
Com relação à rabeca eu considero o instrumento como uma ferramenta, somente. O instrumento não tem um valor em si, embora que o meio de onde ele vem ou a linguagem que ele representa pode sim agregar valor ou subtrair. No caso da guitarra, foi meu primeiro instrumento e eu precisei retomá-lo no momento onde eu carecia de mais recurso musical, que a rabeca é um instrumento, embora muito expressivo, também bastante limitado. Foi mais este motivo mesmo de retomar a guitarra, nenhum outro não, e até então tem sido meu instrumento principal.

Tua formação musical se dá entre ambientes urbanos e rurais e isto fica claro em tua música, sempre dançante. Há uma preferência? Há um lado com o qual você se identifique mais ou tudo se equilibra e se completa?
Esse contraste de urbano e rural ele é um pouco falso, eu acho, hoje no Brasil. Especialmente na música que eu faço, que eu pratico, não dá mais nem pra falar em mundo rural na Zona da Mata norte, que é o berço desses estilos que são a base do meu trabalho. De um modo geral são estilos que já são urbanos há décadas. A grande diferença está no fato de eles serem classificados como cultura popular e daí são formas de expressão que costumam sofrer bastante preconceito e ocupar sempre um lugar inferior na qualificação, no nosso panorama cultural de modo geral. Mas o rural em si, ele já é coisa do passado.

Outra característica muito marcante de tua obra é o conteúdo fortemente político, notadamente este disco mais recente. Como você tem acompanhado o noticiário acerca do conturbado momento político que atravessa o Brasil?
Eu acompanho o momento político do Brasil com muita preocupação, eu acho que é um momento muito pernóstico. As grandes forças mais reacionárias, o acúmulo de dinheiro e poder está se multiplicando e se reforçando de um modo assim assustador. Ao ver a versão da grande imprensa prevalecendo a gente fica com um sentimento de que a gente quase que perdia a oportunidade de ter construído um país melhor nos últimos anos aí. Continuo acreditando na possibilidade de o povo brasileiro de encontrar saídas, mas este realmente é um momento bem preocupante, que acho que vai reverberar negativamente por muito tempo ainda. A gente segue resistindo por que é a única maneira e cada um tem que encontrar o seu modo de escape, de saída, e tentativa de construir pelo menos pequenos modos de afirmação positiva dentro disso tudo.

Veja o clipe de O inimigo dorme:

“A minha maior musa é a experiência”: o “punk junk” de Jonnata Doll e Os Garotos Solventes

Jonnata Doll em foto de Nino Andrés
Jonnata Doll em foto de Nino Andrés

 

Jonnata Doll não tem papas na língua. Seu “rock Fortaleza”, como classifica o som de seu grupo, Jonnata Doll e Os Garotos Solventes, não se limita ao rótulo. Ele não teme expor, em seu trabalho autoral ou em entrevista, sua relação com o universo das drogas, por exemplo.

Crocodilo. Capa. Reprodução
Crocodilo. Capa. Reprodução

Os Garotos Solventes são Leo Breedlove (guitarra), Edson Van Gogh (guitarra), Saulo Raphael (contrabaixo) e Marcelo Denidead (bateria). Em Crocodilo [2016], segundo disco de estúdio da banda, Jonnata Doll (voz, guitarra e violão) contou ainda com as participações especiais do conterrâneo Fernando Catatau (Cidadão Instigado, guitarra em Cigano solvente) e Dado Villa-Lobos (ex-Legião Urbana, guitarra em Swing de fogo e guitarra e violão em Quem é que precisa?).

Com o último e Marcelo Bonfá, participa da turnê que comemora os 30 anos de Legião Urbana [1985], primeiro disco da banda liderada por Renato Russo (1960-1996), de Será, Geração Coca-cola e outros clássicos do brock – Doll canta duas músicas no show e esteve em São Luís, quando a turnê passou por aqui, em junho passado.

Crocodilo é um álbum punk introspectivo, autobiográfico, com direito a um “glossário de gírias” locais, caso por exemplo de Gary, título de uma faixa: “arroz de festa, segura vela, o apaixonado que vira amigo da gata e não consegue ficar com ela”, aponta o encarte. A questão social também é abordada por Doll e Os Solventes: o turismo sexual é tema de Táxi. Engana-se quem pensa num álbum hermético ou “regional”.

Entre a correria das festas de fim de ano e a participação na turnê com os remanescentes da Legião Urbana, Jonnata Doll conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: Nino Andrés
Foto: Nino Andrés

De onde vem o Doll de teu nome artístico?
Vem de um dia, há muito tempo atrás quando experimentei o medicamento haloperidol, é segura doido, fiquei travado, músculos retesados e escutando na cabeça dol, dol, dol, dol. Na época tava tentando achar um nome de guerra, aí coloquei mais um L para fazer referência a essa palavra que aparece muito dentro do punk, seja em nome de bandas ou músicas, mas também há motivos secretos…

A gente percebe muito fortemente o tema das drogas em tuas músicas, desde o nome da banda até mesmo ao título do disco, entre outras. Como você lida com a temática?
Eu vim de uma família evangélica pentecostal, aonde era 8 ou 80. Ou tu tava na igreja ou tava “desviado” afundado nas drogas e na cachaça. O resultado é que no início fazia questão de ouvir rock e não usar drogas. Uma vez a polícia me parou quando eu estava com minha primeira gang, os “jack legais”, e começaram a procurar drogas, bater, pressão psicológica, “tu é roqueiro e não usa droga, porra?”, me orgulhava de não usar. Até que minha amiga Érika, judia roqueira funkeira jornalista speedfreak, me convenceu a cheirar cola. Daí eu deslumbrei uma outra faceta da realidade, a noção de tempo se expandiu e daquele dia em diante percebi que só ouvir Pink Floyd e fechar os olhos não me levaria de volta àquele lugar. Virei um psiconauta autodidata, experimentei tudo que podia em diferentes contextos, sempre para ver como seria criar e apreciar arte sob efeito de algum alcaloide, até que encontrei a morfina e aí essa relação de experiência deu lugar a anos de vício, chegando até o fundo do poço, até conseguir sair, quando comecei a compor o Crocodilo isolado em um sítio e apaixonado por uma mulher estrangeira. Mas é isso, o homem tem que passar por experiências nessa vida que te tirem do lugar.

Como você classifica o som de Jonnata Doll e os Garotos Solventes?
Rock Fortaleza

A pegada punk se sobressai em Crocodilo, que conta com participações especiais de Dado Villa-Lobos e Fernando Catatau, músicos que têm uma história com este universo, além da produção de Kassin. De que modo eles influenciaram na sonoridade do disco?
Na verdade, tem a produção do [Yuri] Kalil também, que é nosso parceiro e já tinha produzido o primeiro disco. Táxi foi a única música que construímos em estúdio a partir de sugestões da dupla de produtores. No geral, a ideia era tentar chegar numa coisa mais crua, com sinths sujos e pedais fuzz, a ideia deles era trazer o espírito do show. Só que eu tava vindo do interior, de um sítio que pertence à minha família, aonde passei parte da infância e lá passei meses só com um violão e apaixonado, tentando entender a psicomagia, superar a relação de dependência com a morfina e eu cheguei com algumas propostas acústicas e letras mais voltadas para o interior. Daí o Crocodilo ter esse lado mais introspectivo, que não tem muito a ver com a ideia original dos produtores – pelo Kassin acho que seria mais esporrento. Mas eles curtiram esse punk de Cheira cola urbano ao lado da balada acústica Quem é que precisa?. Na época também trouxe elementos de música árabe, pois fazia dança do ventre com a esposa do Kalil, a incrível bailarina Lenna Beauty, que participa no disco [backing vocal na faixa-título] e eu tava apaixonado por uma espanhola, minha namorada que dançava flamenco. O Kalil foi importante para me ajudar a mergulhar nisso, pois ele tem um projeto musical com a Lenna, chamado Cearábia, do qual fui convidado, que é influenciado por músicas ibéricas e ciganas. Então é isso: Crocodilo é um disco de um punk junk mergulhando no amor por uma espanhola de sangue cigano andaluz

Crocodilo foi gravado em Fortaleza e seu encarte traz um dicionário de gírias usadas no Ceará. No entanto não se pode rotulá-los de som regional ou coisa que o valha. Como vocês lidam com as barreiras, sejam elas geográficas, culturais ou de qualquer ordem?
É um regional pós-moderno. A Fortaleza que eu vivi era uma cidade moderna, mas ao mesmo tempo provinciana, em que o senso comum era o forró eletrônico dominando tudo, ser cool era saber dançar forró e pegar meninas com uma dança de acasalamento. Mas para mim, que cresci lendo gibis, dançando Michael Jackson e ouvindo Elvis com minha tia doidona – aquela que aparece no clipe de Esqueleto e Rua de trás [ambas do álbum de estreia, de 2014]: Tia Zú –, juventude era outra coisa, tinha a ver com se rebelar e não aceitar aquele som medíocre e machista, que exultava o modo de vida consumista. Então o forró me influenciou na medida que eu o negava e me tornava mais rocker, mais maldito. Era um dos poucos caras que ouvia rock na escola e essa minoria, quase não havia garotas, se unia e o laço de amizade era muito forte, pois só a gente se entendia. Mais na frente eu percebi que radicalismos são por natureza burros, eles servem a revolução e a luta armada, por que naquele momento você tem que acreditar que preto é preto e branco é branco, mas isso não é a realidade, o mundo não é binário, é um fluxo e não importa aonde vamos chegar e sim seguir em frente.

Por falar em Ceará, no mesmo ano em que vocês lançam Crocodilo, Alucinação, de Belchior, considerado por muitos o melhor disco já lançado por um artista cearense, completa 40 anos. Que lugar ocupam nomes como Belchior, Fagner e Ednardo para vocês, seja na memória afetiva, seja enquanto influência ou referência?
Belchior… tenho mergulhado no trabalho dele desde que me mudei para São Paulo e até cantei ao vivo algumas músicas dele. Nos momentos de solidão e perrengue, ele é o cara que ensina, pois ele estava lá no Sudeste, sem dinheiro, na rua, nos anos 60. Belchior é um herói, a trajetória dele não se contradiz e acho o máximo ele ter ido embora. Escuto ele como escuto um irmão mais velho. Ele e o Catatau, este sim mais próximo, meu irmão de arte. A música deles me ensinou também a fugir do previsível, o que não é fácil com a pouca habilidade musical que eu tenho. O Ednardo tenho ouvido ultimamente e percebi que dos três ele é o mais enigmático e melancólico, embora a melancolia seja uma marca do cearense, nosso maracatu é lento e fúnebre. Eu e o Edson Van Gogh – moramos juntos em São Paulo – chegamos ao arranjo final de uma música nova ao ouvir o álbum O romance do Pavão Mysteriozo [1974]. Traduzir-se [1981], do Fagner, é o disco que tenho ouvido dele, que mistura as influências espanholas e ciganas, tem participação do Paco de Lucia e Camaron de la Isla, exatamente o som que eu ouvia na época em que compus o Crocodilo.

Você soa bastante autobiográfico em músicas como Ruth: “estou livre, mas realmente… eu não tou feliz!/ quebrei tudo na tua casa só pra não ter que quebrar minha cara no chão/ você me deu amor de verdade e eu retribuí com traição”. Em tempos de superexposição em redes sociais, o artista precisa, cada vez mais, ser sincero?
Eu faço assim por que os artistas que me tocam são assim. Talvez minha maior referência sejam os escritores beats William Burroughs e Jack Kerouac, assim como o carioca João do Rio. A minha maior musa é a experiência! O que seria de Lou Reed, Belchior se não fosse a experiência que te faz gozar e queimar? Agora tem vezes que dou lugar ao que observo na vida, as histórias urbanas, os lugares. O terceiro disco da gente vai ser sobre a nossa relação com São Paulo, os lugares… O Vale do Anhangabaú e as pessoas que moram embaixo do Viaduto do Chá que eu conheço quando vou comprar “chá” com eles, por exemplo.

Falando em sinceridade e exposição, como você lida com o universo das redes sociais e com a internet como um todo?
Eu uso para divulgar o trabalho dOs Solventes e cada vez menos por motivos pessoais. Também curto a pornografia caseira. Mas no geral tenho uma atitude conservadora com essa parada de selfies e coisas do tipo.

2016 foi um ano conturbado, do ponto de vista político. A palavra da vez foi crise. Qual o seu balanço pessoal do ano e quais as perspectivas para 2017?
Esse ano foi o ano que os conservadores levantaram a voz, por que até então, eles não precisavam, eles já estavam no poder. Agora que eles o tomaram outra vez, que o velho liberalismo econômico é apontado como solução, como se ele não estivesse sempre aí, tudo que é considerado descartável – arte e cultura – vai deixar de ter apoio da sociedade estabelecida. Meu plano em 2017 é tocar nas periferias, na rua, continuar realizando festivais independentes, como o festival Volume Morto, em São Paulo, e Fortaleza Cidade Marginal, em Fortaleza, para formar público, pois o artista só precisa de seu público e queremos agitar as cidades, divulgar o Crocodilo, viajar e brilhar na noite da América do Sul!

Frito Sampler volta à carga

Alter-ego de Tatá Aeroplano, personagem acaba de lançar Cosmic Damião, seu segundo disco. Criador/criatura conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos

Cosmic Damião. Capa. Reprodução
Cosmic Damião. Capa. Reprodução

Num ano de tantas tragédias, o Cérebro Eletrônico anunciou o fim da banda. Cada um de seus integrantes, agora, toca sua carreira solo. Exceto Tatá Aeroplano. O vocalista toca suas carreiras solo: ele lançou este ano seu terceiro disco, Step psicodélico, e acaba de sair o segundo disco de seu alter-ego Frito Sampler: Cosmic Damião [à venda em seu site, onde também pode ser baixado gratuitamente].

À primeira leitura ou audição, pode soar óbvio, mas o trocadilho é genial. Chega a ser irritante que ninguém tenha pensado antes em Cosmic Damião para título de qualquer coisa. “Foi um lance muito louco, surgiu do nada. A gente compôs a música e no fim do dia eu disse: “isso é cosmic alguma coisa”, e a Julia [Valiengo, da Trupe Chá de Boldo, que encarna a personagem Grace Ohio nos discos de Frito Sampler] arrebatou: “Cosmic Damião”. O nome Cosmic Damião veio de uma maneira cósmica e natural mesmo, revela Tatá Aeroplano/Frito Sampler em entrevista exclusiva a Homem de vícios antigos.

Cosmic Damião traz algumas semelhanças em relação a Aladins Bakunins, o disco de estreia de Frito Sampler: a presença de Julia, inclusive na capa, que traz só o nome do personagem (e não o título do disco), o canto em uma língua inventada, a psicodelia. “O que rolou foi que quando fechou o show de lançamento [do disco Aladins Bakunins] em agosto de 2015, eu me reuni com o Moita Mattos [guitarra], o Marcos Till [contrabaixo], o Pedro Gongom [bateria], Otávio Carvalho [sintetizadores] e a Julia [voz] pra fazer o show. No primeiro encontro pro show de lançamento, em vez de ensaiar o novo disco, em uma tarde surgiram quatro novas canções arranjadas de maneira coletiva, entre elas Cosmic Damião, Smashing Funkin, Amsterdam Hippie Hunters e Haribo Honey Moon”, conta.

“Esse disco foi mais coletivo que o anterior, mais amplificado também: mais banda, tanto que o Frito batizou a banda como Hippie Hunters”, continua, emendando um comentário sobre o estado de espírito que é encarnar Frito Sampler: “eu sempre gostei de escutar todo tipo de música, coisas do Brasil e coisas de fora, mas não aprendi a falar nem entender a língua inglesa. Desde pequeno eu compus letras em português com melodias. Em 1995 eu compus minha primeira canção com uma melodia em palavras de origem inglesa, mas sem nexo nenhum, e desde então em meio as canções com letras em português, surgem algumas em “embromation”. Então com o Frito Sampler, eu consigo dar margem a essa viagem de fazer uma música que cause sensações sem necessariamente dizer algo, ter uma letra ou contar uma história. Quando Aladins Bakunins ficou pronto eu fiquei um tempo no sítio onde passei parte da minha infância e me deixei levar pela natureza totalmente. Durante as bandas que eu tive, uma coisa que me incomodava um pouco, era uma certa vontade da galera de fazer música cantada em inglês, pensando em comunicar com o mundo, ou pedir pra eu colocar uma letra em inglês numa canção “embromation” para ter sentido. Eu sempre achei nada a ver querer falar com o mundo numa língua que não é nossa. Eu sou simples: não sei falar inglês e não vou aprender mais [risos]. Mesmo porque sempre amei e escutei canções cantadas em outras línguas que não conheço e isso me traz sensações indescritíveis de conexão e compreensão cósmica. Inconsciente Ativado. A maior parceria do Frito Sampler é com o Paulo Beto [Anvil FX] e a banda Zeroum, onde criamos desde 2006 dezenas e dezenas de canções, passamos por fases diversas, eu sempre cantando coisas sem sentido”.

Numa cena em que todo mundo toca com todo mundo, o segundo disco solo de Frito Sampler é uma realização coletiva, envolvendo um punhado de talentosos artistas. Tatá Aeroplano/Frito Sampler comenta a feitura do disco: “eu chamei o Gongom e o Moita Mattos depois de um show em que vi os dois tocando com a Juliana Perdigão [cantora e jornalista]. O Moita e o Gongom super sintonizados e improvisando ao vivo. Eu pensei que essa sintonia  ia dar muita liga, já que a Julia e o Gongom são da Trupe Chá de Boldo também. Do Marcos Till sou fã faz tempo. Adoro o Tigre Dente de Sabre e a sonoridade que ele consegue trazer da música eletrônica, tocada com muito sentimento, e o Otávio Carvalho [Vitrola Sintética], produziu comigo o primeiro [disco do] Frito e tocou nesse também, fez sintetizadores e mandou baixo em duas canções. Levantamos as canções em poucos ensaios, tem o DNA de todo mundo nelas: solos do Moita, riffs do Till, ideias do Gongom, linhas de baixo do Ota, melodias e vocais da Grace, ops, Julia! Levamos essa naturalidade toda pro estúdio e gravamos tudo ao vivo”.

Ele segue comentando o processo de gravação: “a gente fez uma pausa no primeiro dia de ensaio, já tinha pintado Smashing Funkin e Cosmic Damião. Daí eu fiquei brincando no Microkorg [um tipo de teclado] e o Till chegou com o Gongom. Eu disse pro Till, “manda uma levada no baixo, tipo “Caçadores de hippies em Amsterdam”, surrealismo biritisco fumacê”, e aí nesse dia rolou a canção Amstedam Hippie Hunters, que tem mais de 10 minutos. Foi um prazer criar coletivamente. No fim desse dia alguém disse “Frito Sampler & The Hippie Hunters”, é algo que remete aos anos 1960, 70 e 90, é bem ligado a essas décadas esse momento”.

Pergunto-lhe o que ativa o Frito e como os que o cercam, fora dos discos e shows, ou ele mesmo, sabem em determinados momentos estarem falando com Tatá Aeroplano ou Frito Sampler – dúvida que era também do repórter. “O que ativa o Frito é a liberdade de pensamento e expressão, uma ligação com a ingenuidade, a infância e também com a política. De não fazer questão de cantar e querer se conectar com o mundo cantando uma língua que não seja a nossa. Me sinto conectado espiritualmente quando as músicas chegam via Frito. Não sei explicar direito, às vezes nos shows incorporo mesmo, é uma coisa louca. O Frito é um personagem que não interfere nos discos autorais cantados em português [de Tatá Aeroplano]. Nós vamos envelhecer juntos, e para cada disco que eu fizer [idem], o Frito vai fazer um dele. É o pacto que eu fiz comigo mesmo acerca disso [risos]”.

Diante do verbo “incorporar”, pergunto se há algo de religioso no Frito. “É uma religação com o ancestral, o que vem antes da religião, mas conectado com a natureza, o sagrado. Sentir, sentir a lua. Fishing Neil Young foi composta numa pescaria: peguei uma traíra imensa nesse dia, limpei e preparei para toda a família comer. Isso é religioso pra mim”.

Os títulos de algumas faixas de Cosmic Damião trazem referências explícitas a Neil Young e Smashing Pumpkins. Ele cita outras: “Fishing Neil Young é porque no dia eu estava pescando, na época escutando-o diariamente. Smashing Funkin nasceu em cima de um riff do Marcos Till, que remete aos anos 90, aí lembramos do Smashing… Haribo Honey Moon tem algo de Mutantes ritalístico [a fase com Rita Lee] no ar, Cosmic Damião já é um axé, Lauren To Heaven é a resposta de Lou Reed para o Oh! My Lou [música gravada pelo Cérebro Eletrônico] que o Frito emplacou no Vamos Pro Quarto [quarto disco da banda]. Em Lauren To Heaven, o Lou pede para Lauren ir visitá-lo cosmicamente. São as viagens loucas do Frito!”.

Como ele havia citado a política no ativar o Frito, indago-lhe sobre o atual momento político por que passa o país. “Vivemos um momento político que é de tirar o sono. Dá tristeza e raiva ver o que fizeram com a Dilma e como as coisas têm caminhado desde então. O mundo virou a chavinha total pra direita. Consumir e destruir, destruir e consumir, é o que a nova ordem prega: mais carros, mais dívidas, força motriz para alimentar o capitalismo desenfreado com que não compactuo. Há tempos que escolhi um modo de vida mais simples. Não tenho carro, ando muito a pé, uso os transportes públicos e raramente pego um táxi. É possível viver com muito pouco, sim. Nos últimos anos eu fiz essa escolha. É uma mágica  e tem a ver com o zen budismo tudo isso. Evito gastar grana com as empresas estabelecidas, compro quase tudo de que preciso de pequenos produtores rurais e artesãos. O que eu ganho com minhas discotecagens, shows e vendas de discos, essa graninha que entra, dou de volta aos pequenos produtores. Como músico sou um pequeno produtor e me organizei pra ser assim, um ser orgânico e simples. Então, consigo diariamente passar por esse momento em que vivemos e encontrar cada vez mais pessoas que compartilham desse mesmo ideal em que vivo”, finaliza.

Ouça Cosmic Damião (Frito Sampler/ Moita Mattos/ Marcos Till/ Pedro Gongom/ Julia Valiengo):

Os tropicalistas de hoje em dia

O trio durante o lançamento de Melhor do que parece, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo. Foto: Thany Sanches
O trio durante o lançamento de Melhor do que parece, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo. Foto: Thany Sanches

 

Em texto sobre a banda em seu site, O Terno se apresenta como um “power-trio de canção-rocknroll-pop-experimental de São Paulo”, mas é claro que é bem mais que isso. Há ecos das décadas de 1960 e 70 em seu som, sobretudo da Tropicália, mas longe de cheirar a mofo ou a um de seus antídotos, a naftalina.

Não são pautados pelo saudosismo – a propósito, de um tempo em que nem viveram, mas que conhecem bastante pelos discos e pela história – e atualizam o movimento, reprocessando suas influências explícitas.

Melhor do que parece. Capa. Reprodução
Melhor do que parece. Capa. Reprodução

Tim Bernardes (guitarra e voz), Guilherme d’Almeida (contrabaixo) e Biel Basile (bateria) acabam de lançar seu terceiro disco, Melhor do que parece [2016]. Sábado passado (19) estiveram na Ilha, para um show no Cidade Velha Pub – elogiaram o público ludovicense.

As citações à Tropicália, veremos, não são despropositadas, nem mera mania de crítico de encontrar um antecessor a qualquer novidade que apareça. O trio agradou a Tom Zé, um dos nomes mais interessantes do movimento, ainda na ativa – acaba de lançar, aos 80 anos, Canções eróticas de ninar [2016]. O Terno participou do EP Tribunal do feicibuque [2013] e do álbum Vira lata na via láctea [2014] – em ambos há parcerias de Tim e Tom.

Por motivos de força maior, Homem de vícios antigos não esteve na plateia dO Terno, sábado passado. Mas o blogue entrevistou Guilherme d’Almeida por e-mail – a ideia era publicar o papo antes do show, mas as respostas só foram recebidas depois da passagem do grupo pela cidade.

O início da carreira de vocês, com covers de Beatles e Mutantes, colaborou para a aproximação com Tom Zé, de quem vocês já participaram de discos?
Participar de gravações com o Tom Zé foi uma grande honra para nós. O convite veio através do [jornalista e produtor musical] Marcus Preto, que reuniu artistas da nova geração para gravar no EP Tribunal do feicebuqui, onde participamos de duas músicas. O trabalho ainda rendeu mais algumas gravações que foram incluídas no disco Vira lata na via láctea. Sobre o início da banda não sei dizer se o fato de um dia termos tocado músicas de outros artistas colaborou para o encontro, mas foi uma boa escola para aprender mais sobre arranjos e sonoridades, apesar de O Terno nunca ter sido uma banda cover.

66, seu disco de estreia figurou em várias listas de melhores em 2012 e lhes deu vários prêmios. Ao fazê-lo vocês tinham noção da seriedade da coisa ou essa repercussão toda lhes causou surpresa?
A repercussão do nosso primeiro disco foi muito boa para nós, que ainda estávamos começando nossa trajetória. O clipe de 66 foi um grande diferencial nessa fase, pois chegamos em públicos que não imaginávamos através do compartilhamento na internet. Acho que não tínhamos muita ideia de onde o disco poderia chegar, mas fizemos todo o trabalho com muita seriedade e planejamento, pensando repertório, clipes, datas de lançamentos e show com o intuito de levar o som o mais longe possível.

O segundo disco de vocês, que leva apenas o nome da banda, é autoral e foi realizado graças a financiamento coletivo, mecanismo a que cada vez mais artistas têm recorrido. Em tempos de golpe e crise, como vocês preveem o futuro da música independente no Brasil?
Acho que essa cena indie no Brasil está cada vez mais autodidata e, de fato, independente. O caminho pela frente parece bem obscuro, mas acredito que os músicos e o público saberão criativamente driblar essas adversidades.

As influências da Tropicália seguem em Melhor do que parece. É intencional ou é algo do qual simplesmente vocês não conseguem se desligar, de tão introjetado em seu DNA musical?
Não acho que seja intencional ou ocasional, é apenas uma questão estética que nos agrada. O disco traz diversas referências para alem da Tropicália: as gravações da Motown e da Capitol, bandas e artistas atuais como [o cantor, compositor e multi-instrumentista canadense] Mac de Marco, [a banda americana] Fleet Foxes, entre outras. Não costumamos pensar em influências como fórmulas diretas para isso ou aquilo, mas nossa formação musical tem uma base grande em comum, o que resulta em arranjos, timbres, formas que remetem certos períodos ou artistas.

E sobre São Luís, quais as impressões sobre esta primeira vez dO Terno na Ilha?
Foi quente! Público muito atencioso, cantando as músicas junto e um dos maiores calores que já passamos em cima do palco!

Veja o clipe de Culpa (Tim Bernardes):

Um quarteto fantástico dobrando na praça da basílica

Dobrando a Carioca - Ao vivo. Capa. Reprodução
Dobrando a Carioca – Ao vivo. Capa. Reprodução

Em meio a suas carreiras solo e outros projetos, o espetáculo Dobrando a Carioca já é apresentado há 17 anos. Zé Renato, Jards Macalé, Guinga e Moacyr Luz se apresentam hoje (6), às 22h30, na programação especial que celebra os 70 anos do Sesc, encerrando o III São José de Ribamar Jazz e Blues Festival, na praça da Basílica do município. Produção de Tutuca Viana, o evento tem patrocínio da Vivo, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

A ideia de Moacyr Luz, que convidou os demais, vingou e acabou enveredando pelo samba, faceta comum presente às obras dos quatro. A apresentação de hoje ganha um sabor especial: acabam de sair o cd e dvd Dobrando a Carioca – Ao vivo [Biscoito Fino/ Canal Brasil, 2016], gravado em dezembro passado no Teatro Sesc Ginástico, no Rio de Janeiro. São José de Ribamar será o primeiro município em que os fãs poderão adquiri-lo e pegar autógrafos.

O repertório equilibra-se entre temas autorais e músicas de artistas reverenciados pelo quarteto. Não faltam clássicos como Catavento e girassol (Guinga/ Aldir Blanc), Vapor barato (Waly Salomão/ Jards Macalé) e Toada (Zé Renato/ Claudio Nucci/ Juca Filho), sucesso do grupo vocal Boca Livre.

Também comparecem Pixinguinha (Um a zero, que abre o show, parceria com Benedito Lacerda, que ganhou letra de Nelson Angelo), Padeirinho da Mangueira (Favela, parceria com Jorge Pessanha), Manezinho Araújo (Como tem Zé na Paraíba, parceria com Catulo de Paula, sucesso de Jackson do Pandeiro) e Geraldo Pereira (Acertei no milhar, parceria com Wilson Baptista), entre outros.

Com o tempo espremido entre um último ensaio, num salão do hotel em que estão hospedados, e a saída para o almoço e a passagem de som, Homem de vícios antigos conversou com o quarteto. Em tempo curto, os quatro desataram a falar, esbanjando bom humor, tirando sarro uns com os outros, tornando quase desnecessárias as perguntas do repórter. A entrevista começou com uma declaração de Macalé.

Da esquerda para a direita: Zé Renato, Guinga, Moacyr Luz e Jards Macalé, o Dobrando a Carioca. Foto: ZR (6/11/2016)
Da esquerda para a direita: Zé Renato, Guinga, Moacyr Luz e Jards Macalé, o Dobrando a Carioca. Foto: ZR (6/11/2016)

Jards Macalé – Eu declaro a independência do Brasil.

Como é conciliar a agenda do Dobrando a Carioca com suas carreiras solo e outros projetos?
Zé Renato – A gente vem tentando incluir o Dobrando a Carioca na nossa história profissional, na nossa trajetória. A gente tem um carinho muito grande pelo trabalho, o que dá uma motivação maior ainda.
Moacyr Luz – Uma coisa que eu nunca pensei: o Dobrando a Carioca é um exercício de despojamento que cada um de nós tem. Cada um tem sua carreira solo, faz seus shows individuais, o Zé com as coisas dele, eu com meus sambas, o Guinga, o Macalé. Quando chega aqui a gente troca mais.

É um show devotado ao samba? Foi um desembocar natural?
Zé Renato – A gente exercita a percussão. O foco maior é no samba. Não foi feito com essa intenção. É samba assim, vamos considerar o Um a zero um samba do Pixinguinha. Tem samba-canção, Como tem Zé na Paraíba, tem música que foge.
Moacyr – Guinga é o cara que gravou com Cartola, As rosas não falam, gravou com João [Nogueira], Beth Carvalho, Clara Nunes.
Guinga – Compositor brasileiro que não gosta de samba não é compositor.
Moacyr – [para Macalé] Você fez o 4 batutas e 1 coringa [disco de intérprete de Macalé de 1987, dedicado ao repertório de Geraldo Pereira, Lupicínio Rodrigues, Nelson Cavaquinho e Paulinho da Viola].
Macalé – Sim.
Guinga – [para Macalé] Tem um elemento forte, virou disco [Jards Macalé canta Moreira da Silva, de 2001], o Moreira da Silva na tua vida.
Zé Renato – O Um a zero surge dessa ideia, a gente abre o show com Um a zero por causa dessa ideia de bater uma bola [a produtora Memeca Memeca Moschkovich adentra o salão com cds e dvds na mão].
Macalé [gritando] – Deixa eu ver! A gente sente saudade uns dos outros. Eu sinto saudades deles, eles dizem que sentem saudades de mim.
Zé Renato [para Moacyr Luz] – Você sente saudade do Macalé?
Moacyr [em tom de galhofa] – Não.
Guinga – [gargalhadas]
Zé Renato – [gargalhadas]
Macalé – Ele é um sincericida.
Guinga [rindo] – Eu odeio o Macalé. Nós estamos aqui para ver se a gente se mata. Quando Moacyr convidou a gente, isso é uma coisa engraçada, ele falou assim pra gente, “vê lá, vocês têm que ter paciência um com o outro”. Pô, criador de problemas zero [referindo-se a Macalé]. Nunca tivemos um problema. Nenhum problema.
Macalé – Como não? E quando a gente se desfez lá em Fortaleza?
Guinga – Você disse que ia seguir carreira solo [gargalhadas]. Esse filho da puta, saiu uma porrada de matéria em tudo quanto é jornal, com a foto dele na capa, ele ficou nervoso. Eu me lembro que foi muito engraçado, a gente estava no café da manhã e ele não se uniu com a gente.
Macalé – Mentira!
Moacyr – A gente tava no lobby do hotel e ele chega [imita Macalé puxando uma mala com rodinhas e gargalha]
Guinga – [gargalhadas] Dois dias depois a gente chega no Rio de Janeiro, tinha saído uma foto dele nos jornais, com a perna cruzada, com uma meia preta, quadriculada. Dois dias depois, quem está sentado no calçadão, pernas cruzadas, com a mesma meia da fotografia? Esse maluco! Eu digo, não é possível! Mas você pode perguntar uma coisa a ele: essa galera aqui, tudo amigo, não cria problema, tudo humilde. Não é, Macalé?
Macalé – [enfático] Não! [gargalhadas gerais]

Você também é um sincericida?
Macalé – Eu amo esses caras.
Moacyr – Outra coisa engraçada, a gente foi fazer o primeiro ensaio, fizemos o primeiro show, começamos a viajar e a primeira coisa que eu via era hotel e horário, pra não chegar atrasado. E eu falei: “Macalé, olha você!” E o Macalé todo dia chegava 20 segundos antes do horário [risos], “eu sou o primeiro, hein? Cheguei primeiro”.
Macalé – Hoje eu cheguei primeiro.
Guinga – Você só é indisciplinado artisticamente. Mas como homem, como cidadão, é super sério. Por que artisticamente você não tem vontade de ensaiar, você esquece o tom da música. Hoje quando você perguntou [imitando Macalé]: “lá menor ou si menor?” Eu ri muito por dentro. Eu digo: há 17 anos esse filho da puta toca essa música sozinho. Você tem defeitos e tem qualidades. A gente pode falar bem da gente?
Macalé – Agora vamos à entrevista.

Claro! Além de todos já terem vindo aqui com outros projetos, qual a relação de vocês com o Maranhão?
Guinga – Eu conheci João do Vale muito jovem. Eu era aluno de Jodacil Damasceno e ele tinha um assistente, João Pedro Borges. Depois eu passei a ter aulas com João e esses caras mudaram a minha cabeça em 180 graus, impressionante. Me mostraram a música brasileira que eu não conhecia, me mostraram o violão que eu não conhecia. Eu não sabia quem era Leo Brouwer [violonista e compositor cubano], eu me formando em odontologia. Esses caras foram muito importantes. Isso influencia minha música até hoje. Eu passei a tocar violão por causa deles.
Zé Renato – Meu primeiro contato com a música do maranhão foi o Popó [o compositor Cláudio Valente] e o Sérgio Habibe [compositor, de quem o Boca Livre gravou Boi danado], quando eles se apresentavam com o Papa Légua [músico], no show Mostração.
Macalé – Eu trabalhei uma vida com João do Vale no Opinião [show que o maranhense dividiu com Zé Keti e Nara Leão]. Eu fui casado com uma irmã de Turíbio [Santos, violonista], você quer mais relação do que isso? Eu toco num violão que foi de Turíbio, com que ele ganhou prêmio internacional na França. Até hoje ele pergunta: quanto você quer no violão? João Gilberto tentou roubar, mas eu recuperei. Ele foi fazer um concerto no Rio de Janeiro e estavam procurando um bom violão. Eu emprestei, com a condição de que no dia seguinte à apresentação o violão estivesse de volta no meu apartamento. Depois eu fiquei lendo as manchetes sobre o espetáculo, passaram dois dias e nada, eu fui bater no hotel. Comprei umas goiabinhas e fiquei comendo ali embaixo, até que apareceu o Otávio Terceiro [empresário de João]. Ele disse: “João adora goiabinha”. Ele subiu, entrou no quarto e trouxe o violão. Eu troquei meu próprio violão nas [aumenta o tom de voz] minhas goiabinhas [Zé Renato gargalha]. Nesse violão só tocaram Turíbio, Paulinho da Viola, João Gilberto e eu.

Amor sempre! E música!

Caixa de música. Capa. Reprodução
Caixa de música. Capa. Reprodução

 

Xê Casanova assina simplesmente Xê em seu primeiro disco solo, Caixa de música [2016]. No álbum ele escancara a devoção a Marcelo Yuka (ex-O Rappa), que produziu o trabalho, a começar pela capa, em que credita o produtor.

É um disco sobre o amor, otimista, de vibrações positivas, com mensagens como “amor sempre” e “que todos os seres, em toda a parte, encontrem a felicidade”, no encarte, esta última tradução do mantra “loka samastha sukhino bhavantu”, misto de incidental e epígrafe em Todas as cores, cuja letra diz: “surgem no céu as cores/ de um novo tempo/ levam meu sonho adiante/ um mundo diferente, sim/ mas sem preconceitos”.

Alessandro Fontanari Casanova, seu nome de batismo, paulista de Mogi das Cruzes, onde mora, distante cerca de 80 km da capital São Paulo, vai com frequência ao Rio de Janeiro, onde gravou Caixa de música – no home studio de Yuka, na Tijuca, Zona Norte do Rio –, de que assina sozinho seis das oito faixas – as exceções são Ano bom, de Rui Ponciano, e Deixa rolar, que Xê assina em parceria com Sandra Vianna e Tatiana Fernandes.

Caixa de música foi gravado por uma banda enxuta, com os músicos se revezando entre instrumentos: Xê Casanova (voz, violão), Marcelo Yuka (bateria eletrônica, programação eletrônica, vocalize, colagem, egg shaker), Jomar Schrank (contrabaixo, guitarra, teclados, escaleta, backing vocal) e Fred Inglez (guitarra, guitarra cítara, revers), além de Katunga (violoncelo em O batuque, Todas as cores e Ano bom), Felipe Sobral Loureiro (guitarra em Deixa rolar, Ano bom e Não precisa falar) e Wagner Bagão Dubalize (sintetizadores e contrabaixo em Não abala).

Xê Casanova conversou com Homem de vícios antigos sobre o disco, o encontro com Marcelo Yuka, otimismo, amor e política.

O artista em foto de divulgação

Caixa de música é teu disco de estreia? Como foi sua gestação?
É meu primeiro disco solo. Já tive outras bandas [Tribo Brasil e Colomi], mas este é um disco em que me aventurei, eu que sou de Sampa, de Mogi das Cruzes, em ir pro Rio de Janeiro, a procura de algo “novo”, algo que me renovasse. E acabei tento um encontro com o Marcelo Yuka, que quis fazer esse trabalho. Demorou cinco anos essa gestação. Porque era só pra gravar no estúdio do Yuka, porém ele gostou das músicas e acabou sendo o produtor e tocando em todas as faixas, então só dava pra gravar quando ele tinha tempo, ele me chamava e eu ia pra casa dele gravar.

Parece-me até um som diferente de tudo o que eu conhecia do Yuka, sobretudo nO Rappa. Essa adoção dele por teu som acaba demonstrando a força de tuas composições, não acha?
Exatamente. Yuka curtiu a minha verdade, o simples. Você sabe o quanto ele é um grande poeta e tantas outras coisas. Isso que ele fez comigo, de gravar, se você pensar bem, é uma parceria. Poderia eu colocar que o disco é do Xê e do Yuka, mas eu não quero isso. Só a força, como você bem disse, da assinatura dele, é pra mim um divisor na minha carreira.

Caixa de música é um disco carregado de otimismo. Desde as composições até mensagens no encarte, como “amor sempre”, que lemos logo ao abrir, e o “loka samastha sukhino bhavantu”. Nestes tristes tempos que o Brasil vive, o quanto é necessário de otimismo e realismo para sobrevivermos?
Ufa, irmão! Eu acredito que o AMOR [maiúsculas dele], explicar essa palavra “amor” fica muito vaga, piegas, não sei como dizer. Quando comecei a praticar ioga, há sete anos, eu fui entendendo que o amor muda, transforma, e que se você pensar no amor de servir, deixar ser servido, olhar pro próximo, cachorro, inseto, água, sei lá, as coisas mudam. Pois bem, tô eu tentando, sempre, pinta a oportunidade de ir pro Rio encontrar o Yuka, eu sem banda, sem saber o que fazer. Pensei: é o amor me mandando a porra da parada. Fui. Se fosse antes não sei se acreditaria em mim, entende?

Perfeitamente. A ioga te permitiu ouvir uma voz interior?
Sim. A de confiar. Tem dias que é difícil, mas é uma ferramenta, e quando eu encontrei o Yuka, a primeira coisa que ele falou, juro: “agora que sou um praticante de ioga, blá blá blá”. Cara! Eu não acreditei

Lembrei da história do encontro de Baby Consuelo [hoje Baby do Brasil] com o [contrabaixista] Dadi. Ela nunca o tinha visto e mandou: “você toca contrabaixo, não toca?”. O resto é história. Caixa de música é um disco enxuto, poucos músicos tocando, coeso, você assina quase todas as faixas. E o amor permeia o conjunto. Quais as doses de acaso, inspiração e trabalho?
Eu gravei todas as canções só voz e violão. O Fred Inglez, técnico de som, fez os beats no metrônomo, em cima do meu jeito de tocar e ponto. Em dois dias já tava pronta a base do cd, sem nome sem nada de ideias. Yuka gosta da madrugada, do barulho que o silêncio faz. Então começamos o processo, desses anos todos, amizade, cumplicidade, amor, cozinhar com ele, ser uma extensão de seu corpo na hora de fazer um rango do jeito dele. Tudo isso foi refletindo no disco, nas longas madrugadas, o respeito com minha música. Quando entrávamos no estúdio, era pra ficar no mínimo 10 horas, sem choro.

A faixa Não abala é o momento do disco em que você mais se aproxima da temática social que norteia o trabalho do Rappa, do Furto [grupos que Yuka integrou] e do Yuka. Ela não destoa do resto do disco, já que é impossível amar sem medo, concorda?
Pois é! Medo de ser livre, de escolher. Daí a ignorância e a inteligência. Batem cabeças. Me lembrei da musica do Beto Guedes [cita trecho de O medo de amar é o medo de ser livre, parceria de Beto Guedes com Fernando Brant]: “O medo de amar é o medo de ter/ de a todo momento escolher/ com acerto e precisão/ a melhor direção”.

E o que você tem a dizer a quem ousar criticar Caixa de música por ser um disco sobre o amor e, portanto, talvez dirão, piegas?
Pô, tá no direito. Eu sei que pra mim foi uma honra ser produzido por uma pessoa que  influenciou toda uma geração, um cara visionário, olhos atentos no futuro. Então, se o conceito que ele deu ao Caixa de música for classificado por alguns como piegas, eu aceito. AMOR SEMPRE! [maiúsculas dele].

Você visita com frequência o Rio de Janeiro, onde gravou seu disco. O que achou do resultado da eleição para prefeito lá? E em São Paulo?
[Risos]. Gravei na casa/estúdio do Yuka, na Tijuca, Zona Norte do Rio, bairro de tantos artistas, terra de Tim Maia. Na eleição passada o Yuka foi [candidato a] vice[-prefeito] do [Marcelo] Freixo, então já tava torcendo pra ele. Fiquei chateado sim com o resultado, mas acho que é um trabalho de formiguinha. O bispo papão é foda. Em Sampa? [gargalhadas]. Jura mesmo?. Dória Jr.? Não rola.

Ouça Caixa de música, o disco:

A sinceridade de Kleber Albuquerque e Rubi

Cantores apresentam o show Contraveneno logo mais às 20h30 no Cine Praia Grande

Foto: ZR (28/10/2016)
Foto: ZR (28/10/2016)

É praticamente a estreia de Contraveneno, o show que Kleber Albuquerque e Rubi apresentam logo mais, às 20h30, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), com produção da Sete Sóis (selo que lança seus discos) e produção local de Gilberto Mineiro. Ou pelo menos é, com essa formação: eles serão acompanhados por Rovilson Pascoal (guitarra) e Mário Manga (violoncelo).

O show deve circular e há a vontade de transformá-lo em disco. A ideia para o espetáculo em parceria surgiu há pouco mais de um mês, mas as carreiras de Kleber e Rubi se cruzam há bastante tempo. Rubi se lembra de, ao ouvir o disco de estreia de Kleber [17.777.700, de 1997], ter procurado o produtor Mário Manga, através de quem se conheceram. Contraveneno acaba sendo também uma espécie de reencontro, quase 20 anos depois.

Estamos diante de dois dos mais autênticos e sinceros artistas surgidos para o mercado fonográfico a partir da segunda metade da década de 1990. Compõem e cantam simplesmente o que lhes emociona. Ou isso ou nem tentam, como provam suas trajetórias regulares de discos tão belos quanto verdadeiros, com temas que vão do amor a questões sociais.

Homem de vícios antigos encontrou-os na manhã desta sexta-feira (28), em frente ao hotel em que se hospedaram, na Avenida Litorânea. Conversamos com os cantores entre idas e vindas dos músicos para uns mergulhos na praia do Calhau. A conversa foi acompanhada também pelos produtores Flávvio Alves (Sete Sóis) e Gilberto Mineiro. A seguir, os melhores trechos da conversa à beira-mar.

Foto: ZR (28/10/2016)
Foto: ZR (28/10/2016)

Contraveneno já tinha sido apresentado ou é um show novo?
Rubi – Estamos estreando esse show. A primeira mostra foi em Londrina. Mas sem o Rovilson e sem o Mário Manga. A gente pretende fazê-lo girar, circular. Com essa formação, preferencialmente.
Kleber Albuquerque – É uma alegria muito grande ter o Manga novamente, ele produziu nossos primeiros discos. Eu nem tinha pensado nessa coisa de 20 anos há até umas duas semanas. O Flávvio comentou de a gente gravar o disco novo.

Por falar nisso: e o disco novo? Ou: há a chance de Contraveneno virar disco?
Kleber – É um projeto muito recente, um mês e meio. A gente se encontrou em casa, o repertório já surgiu.
Rubi – A gente conviveu muito durante muito tempo, tínhamos afinidade com algumas canções e o universo musical de alguns artistas muito próximos da gente. A referência é família, rádio. A gente tem algumas coisas que confluíam muito. Quando a gente se encontrou agora, acordou um monte de coisas dessa memória.
Kleber – Foi muito natural. A gente ia lembrando, o show tá quase na ordem disso.

É um best of?
Kleber – Tem muitas músicas inéditas. Em alguns momentos, canções muito próprias do trabalho dele, a alegria de cantar em duas vozes, músicas que eu ouvia quando era moleque.
Rubi – Uma coisa que ficou muito clara a partir do encontro é a delícia que é cantar junto. Eu gosto muito de cantar com ele. Eu sempre gostei muito de cantar com ele.

Quando eu ouço o título Contraveneno eu penso em antídoto. A música de vocês se pretende antídoto pra quê?
Kleber – Eu tenho a impressão de que essa questão do antídoto, no sentido de um remédio, um medicamento que melhore um pouco a vida, ele é especialmente pra gente, um contraveneno pessoal, pra suportar a vida. Esse nome vem de uma das canções do repertório, no sentido de não se render, uma certa resistência, embora as canções inéditas não sejam propriamente panfletárias, as letras têm um foco social, um olhar político por trás das letras.
Rubi – De uns tempos pra cá eu comecei a entender por onde a minha arte passeia. Eu me questionava com relação às minhas escolhas, a meu repertório. Uma coisa que ficou muito forte de uns tempos pra cá é o compromisso de eu viver a minha arte. Eu canto pelo viés da emoção. Quando eu canto tanto eu quero me sentir tocado pela canção, quanto criar a possibilidade de despertar essa sensação, essa emoção, não só pela coisa política do discurso em si. A gente tem vivido tempos muito ásperos, de muita intolerância, tudo é muito veloz, e isso tira o tempo de reflexão. Eu gosto de cantar coisas que mexem com minha emoção. Eu não vejo quem me escuta de maneira passiva. Pra mim é uma troca, é um vai e vem. Quem para para ouvir, é tão importante quanto a gente que toca. Ter um bom ouvido é tão importante quanto ter o que dizer.

As formas de o público lidar com a música têm mudado, mas vocês ainda fazem discos.
Kleber – Talvez mais por fetiche. Pro artista é muito bom ter algo pra te dar uma unidade. Antigamente você fazia o compacto com uma canção só e hoje está voltando, por conta da internet. Hoje você pensa em 13 canções e tem a oportunidade de pensar em uma unidade para o trabalho. Essa forma de embrulhar ainda é usada mais por uma questão de resquício do formato que por uma exigência de mercado. Há um valor simbólico, mas essas coisas estão se transformando mesmo.
Rubi – Isso de você fazer sua própria trilha, você não ouve um álbum. As pessoas não estão mais habituadas. Você se conecta, ouve a música, acha interessante, vai saber se você vai lembrar do autor? Vão ficando as células, não fica o corpo.

Vocês sempre trazem, em suas obras, a questão social.
Kleber – Às vezes é o amor que afeta, mas do meu ponto de vista, como uma pessoa que tá vivendo a vida, é uma forma de elaborar pessoalmente. Pra mim acaba sendo uma extensão natural lidar com alguns temas. Eu não me acho apto a dizer nada pra vida do outro, a falar o que é certo ou o que é errado. Por outro lado, essas coisas acabam envolvendo a gente de uma forma mais forte do que em outras épocas. A força da palavra poética pode vir a ter uma importância grande como já teve, não pra música, mas pra vida das pessoas. Eu, tirando pra mim, tenho algumas canções, alguns versos, que influenciaram minha vida a ponto de eu descobrir que eu queria fazer isso. A música, a poesia, a arte de modo geral, têm um poder transformador.
Rubi – Eu tenho uma coisa muito forte pra mim. Com o passar do tempo a gente vai maturando. As pessoas me imaginam cantando x, y, z. Meu critério não é o que o outro imagina. É duro falar assim, mas é exatamente isso. Eu preciso estar envolvido. A música pode demorar uma vida inteira para me escolher, mas a música tem que fazer um sentido pra mim. Eu não me considero um cantor, minha formação acadêmica [Rubi é bacharel em artes cênicas] não tem nada a ver com música. Toda minha ligação com a música é muito intuitiva. Muito nesse lugar de me respeitar dentro de cada canção, respeitar a canção e me colocar dentro dela. Eu dependo muito das minhas escolhas, eu preciso da minha relação com aquela obra pra ela se expressar através de mim. Todo meu processo de canto passa pela palavra, eu tenho um amor pela palavra muito grande. Minhas escolhas caem muito aí. A canção é minha dramaturgia, por que eu sou ator. Eu não me considero um cantor, de fato. Quem canta em mim é o ator.

Ouçam Brasa (Kleber Albuquerque), com Kleber Albuquerque:

Ouçam Ai (Kleber Albuquerque/ Tata Fernandes; poema incidental: Gero Camilo), com Rubi:

Livre que só ele

Edvaldo Santana conversou com Homem de vícios antigos sobre Só vou chegar mais tarde, disco que acaba de lançar, política e arte

O cantor e compositor Edvaldo Santana. Foto: Juvenal Pereira
O cantor e compositor Edvaldo Santana. Foto: Juvenal Pereira

São Luís e o tambor de crioula eram citados na letra de Jataí (2014), faixa-título do penúltimo álbum de Edvaldo Santana. Naquele ano ele chegou à capital maranhense, quando se apresentou em novembro, na semana da Feira do Livro de São Luís, no Teatro da Cidade (antigo Cine Roxy). O mote do show eram as comemorações de seus 40 anos de carreira.

Como arte e vida não são ciências exatas, esta matemática também não: as comemorações do artista se prorrogaram. Como ele diz em 40, faixa que abre Só vou chegar mais tarde (2016), “quando resolvi sair de casa pra cantar de vez/ já faz mais de muitos anos”.

Só vou chegar mais tarde. Capa. Reprodução
Só vou chegar mais tarde. Capa. Reprodução

O cantor e compositor conversou por e-mail com Homem de vícios antigos. Só vou chegar mais tarde aprofunda algumas características do trabalho de Edvaldo Santana, por exemplo o trânsito entre ritmos nordestinos e o blues americano.

A faixa de abertura é coalhada de referências. Entre outros, estão lá a Matéria Prima, sua banda inaugural ainda na década de 1970, passando por Tom Zé, com quem chegou a tocar, o poeta Ademir Assunção (o Pinduca), Arnaldo Antunes, Paulo Lepetit e Haroldo de Campos, cujo Galáxias, musicado por Caetano Veloso em Circuladô de fulô, é evocado na letra: “e não me peça nunca que eu te guie/ eu não nasci pra fazer teste”.

Edvaldo Santana (voz e violão) é acompanhado por banda base formada por Luiz Waack (banjo, violão, guitarra e cavaquinho), Reinaldo Chulapa (contrabaixo) e Leandro Paccagnella (bateria). A estes somam-se instrumentos ocasionais, como a sanfona e teclado de Adriano Magoo (em Retorno do cangaço; ele toca ainda piano elétrico em Dom), a gaita de Bené Chireia (em Sou da quebrada, Dom e Arte depura), a tuba de Eliezer Tristão (na faixa-título e em Retorno do cangaço), a sanfona de Antonio Bombarda (em Ando livre e Gelo no joelho), o piano de Daniel Szafran (em Predicado e Fazendo pra aprender; ele toca órgão em Domínio), além de naipe de sopros em 40 e Gelo no joelho.

Edvaldo Santana é autor solitário das 13 faixas. As exceções são Gelo no joelho (parceria com Luiz Waack) e Canção (poema provençal de Guillaume de Poitiers versionado por Augusto de Campos e musicado por Edvaldo Santana).

O disco passeia por temas como futebol (Gelo no joelho e Dom, homenagem ao ídolo Sócrates), viagem e liberdade (Ando livre, com participação especial de Rita Benneditto, em que São Luís volta a aparecer, na citação ao Bar do Léo), tecnologia e o vazio de relações virtuais (Predicado), a competição capitalista e um dar de ombros do autor na faixa-título, tema que volta a aparecer em Retorno do cangaço, em que tece críticas também ao mercado da fé televisionado e o jogo sujo da política em geral, com suas propinas e traições como regra.

Em Sou da quebrada outro tema caro a Edvaldo: a homenagem a pessoas simples, como seu Valdemar, protagonista de A poda da rosa, do disco anterior. Fazendo pra aprender é uma canção romântica, com ecos de filme de faroeste e do desaparecido Belchior. Em Arte depura cita Judite, sua mãe, e Divino maravilhoso (Gilberto Gil/ Caetano Veloso), anteriormente citada pelo cearense na antológica Apenas um rapaz latino-americano (Belchior). Domínio é uma homenagem a São Miguel Paulista e Cabeça na mesa tem a participação especial de Alzira E.

Edvaldo Santana conversou com Homem de vícios antigos. Foto: Milton Michida
Edvaldo Santana conversou com Homem de vícios antigos. Foto: Milton Michida

Homem de vícios antigos – Você esteve em São Luís em 2014, quando realizou um show de voz e violão em que comemorava os 40 anos de carreira. 40, faixa que abre Só vou chegar mais tarde, traz inúmeras referências a teu próprio trabalho e artistas de tua influência e convívio. Em que medida este disco é a continuação destas comemorações?
Edvaldo Santana – Sim, 40 é uma música que procura falar dessa trajetória das influências e referências nessa estrada de 40 anos, mas Só vou chegar mais tarde e as outras canções desse álbum estão em sintonia com o presente, refletem o que vivo e penso no momento, sem esconder o aprendizado que o caminho da arte possibilita. Celebrar a arte tem que ser uma constante na nossa vida. Minha estada em São Luís foi muito proveitosa.

Por falar em São Luís, Ando livre, que conta com a participação especial de Rita Benneditto, fala no Bar do Léo, que você visitou quando esteve aqui. Fale um pouco de suas impressões do lugar e de como se deu este encontro com a cantora maranhense.
Pois é, fiquei muito impressionado quando conheci o Bar do Léo, através de você,  uma mistura de diversas formas de artes: plástica, música, literatura, dança, diversão e um cara, o dono do bar, muito interessante, de papo bom e cordial. Ando livre é uma música que escrevi refletindo as observações da viagem que fiz pelo nordeste em 2014, passando pelo sertão do Piauí, pelo Rio São Francisco, na divisa da Bahia com Pernambuco, pelo Ceará e pelo Maranhão. Já conhecia a Rita, de quando ela morou em São Paulo, sempre gostei muito de sua voz e de seu jeito de cantar. Como queria convidar uma cantora pra dividir os vocais, que tivesse uma ligação com a letra, não titubeei em convidá-la pra cantar comigo esse bolero. Conversei com sua irmã Elza Ribeiro, enviei uma gravação e Rita depois de ouvir, aceitou meu convite. Como ela mora no Rio tivemos o auxílio luxuoso do amigo e grande artista Lenine, que acionou seu filho Bruno Giorgi, que colocou seu estúdio à disposição, para que pudéssemos registrar a voz dessa cantora genial. Momento muito feliz, onde a amizade e a tecnologia contribuíram generosamente para que esse encontro artístico fosse concretizado.

Você é paulistano, descendente de piauiense: a geografia e a genealogia fazem de você o artista brasileiro que melhor reprocessa certa sonoridade americana, isto é, você faz o que podemos chamar de brazilian blues, contrariando a tristeza típica do gênero. Ao longo de Só vou chegar mais tarde, há autorreferências que citam, entre outros, teu álbum Reserva de alegria. Apesar de tudo, o Brasil ainda é a terra da alegria?
Sou paulistano da periferia, do bairro chamado São Miguel Paulista, filho do piauiense Félix e da pernambucana Judite, que já partiram para outra esfera. Desde pivete que as sonoridades da gaita e da sanfona vivem dialogando no coração e na mente, trazendo melancolia. Talvez um dos motivos sejam as dores e as alegrias do povo nordestino e do povo negro americano, que apesar de todas as dificuldades conseguem doar para o planeta uma música primorosa. Sim, gosto demais do jazz, do blues, da salsa, do reggae, como adoro samba, xote, moda de viola, e essas virtudes sonoras transitam pelas minhas ideias, aguçando a sensibilidade. Nesse disco tem um ingrediente do dixieland, uma das últimas misturas entre a música africana e a europeia no começo do século passado. Pra você viver num mundo contrariado, só com muita reserva de alegria e com o auxilio luxuoso do suingue sofisticado que a música negra brasileira, americana, cubana, caribenha, nascida do povo nos dá de graça.

Por falar em teus pais, uma característica marcante de tua poética é a revelação das pessoas comuns como heróis, de uma professora ou um jardineiro serem teus ídolos, e aí podemos citar Judite e seu Waldemar, entre outras personagens. Ao risco de fazer música a partir de uma poesia hermética, posto que, em tese, só a entenderia quem conhecesse as personagens, você fala de sentimentos que todo mundo entende. A seu ver, por que mais gente não faz isso?
Apesar dos seres serem diferentes, acredito que quando você fala de sua aldeia, das pessoas comuns, você acaba falando pra todo universo, os sentimentos de respeito, bondade, amor, dignidade, são virtudes essenciais na vida do planeta. Outros artistas já fizeram isso muito bem: Jackson do Pandeiro, Bezerra da Silva, cantando os heróis e os vilões de suas comunidades.

Você é autor de músicas definitivas sobre o universo do futebol, embora, infelizmente, menos falado que nomes como Chico Buarque e Jorge Benjor. Em Só vou chegar mais tardeGelo no joelho e Dom se somam a O jogador e O goleiro, para citarmos algumas. Nas duas deste disco você fala de sua própria experiência como praticante do esporte e homenageia o ídolo Sócrates. O futebol é uma boa lente para observarmos o Brasil?
Futebol tá no sangue, faz parte da minha vida e acredito que de boa parte da população brasileira. Além de jogar, eu e meus irmãos fundamos um time de futebol na adolescência. Jogo minha bolinha até hoje. Vira e mexe gosto de cantar músicas que falam do jogador de futebol. O Sócrates é uma figura especial que, além de jogar muito bem, sempre se colocou ao lado da população mais desfavorecida, comprou briga com a imprensa marrom, defendendo suas ideias. Fui convidado para fazer a trilha sonora do seu doc, que acabou não rolando, e fiz esse samba em sua homenagem, que registrei nesse novo trabalho. O futebol às vezes é muito passional, como está enraizado no coração das pessoas, pode sim servir de lente para observar o Brasil.

Por falar na politização de Sócrates, algo raro entre jogadores de futebol em qualquer tempo: em meio a esta entrevista acaba de consumar-se a cassação do mandato da presidente da república Dilma Rousseff. Como você recebeu a notícia e qual a sua percepção do processo?
Estou muito triste e injuriado com esse momento funesto, apesar de saber que não teria volta. O Brasil interessa pra muita gente e depois da votação na Câmara os picaretas não iam largar o poder. Novamente tomamos um chapéu do xaveco, temos que aprender que a comunicação é um instrumento a serviço do capital, que não se interessa por igualdade, amizade. O momento é de reflexão e ação imediata. Ficou claro, mais uma vez, que acordo onde o inimigo dá as cartas, nunca deu certo. Vamos à luta, não temos tempo de temer a morte

“Não temos tempo de temer a morte”, verso de Divino maravilhoso, parceria de Caetano e Gil, além de traduzir bem o atual momento por que passa o país, é citado em Arte depura. “A arte existe por que a vida não basta”, já disse Ferreira Gullar. Só a arte salva?
A minha vida foi salva pela arte. Seguir o caminho da música foi fundamental. Quando percebi o definhamento da escola pública e que ficar batendo cartão para ganhar uma mixaria, que não custeava as despesas, poderia ter escolhido o caminho do crime,  mas o coração falou mais alto e no começo dos anos 1970,  resolvi cair na estrada e estou vivo traçando minha trajetória com alegria e respeito.

Outra convidada neste disco é Alzira E., que de algum modo demarca, digamos assim, tua ligação com a vanguarda paulistana. Pra você, o que significou a participação e aquele momento, liderado por nomes como Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção?
Alzira também é uma amiga de muitos anos. Quem me falou desse seu lado mais rock foi Luiz Waack, ele disse que seria legal convidá-la. Fiquei feliz com sua participação em Cabeça na mesa, ela tem um timbre diferente. Pois é, sou contemporâneo dessa safra do Arrigo, do Itamar. No começo dos anos 1980 em Pinheiros, Zona Oeste, havia o [Teatro] Lira Paulistana, que se tornou o espaço alternativo que abrigava diversas formas de manifestações artísticas. Nessa mesma época em São Miguel, Zona Leste, havíamos fundado o MPA, o Movimento Popular de Arte, que agregava também várias manifestações artísticas na periferia de São Paulo, ocupando praças, ruas, galpões, anfiteatros. Era um momento de ebulição, processo de abertura política em andamento. Essa estética paulistana é uma referência muito forte no meu trabalho.

A seu ver o atual momento político brasileiro contribuirá para uma maior espontaneidade artística, isto é, artistas voltando a se reunir em coletivos, a tocar em atos públicos, de protesto, a uma maior participação política, que de algum modo acaba por ter reflexos na estética de um período ou de um grupo?
Acredito que é a democracia que contribui para a construção de novas estéticas. O que pode acontecer daqui pra frente já é fruto de você poder experimentar, de você saber que pode fazer o que quiser, que ninguém vai te cercear. A liberdade é o grande alicerce da arte. Já estavam acontecendo encontros substanciais nesses últimos anos. Esse momento político adverso mexe com a sensibilidade e vai contribuir para a potencialização da produção artística.

Modéstia e sinceridade

O cantor e compositor Marcos Magah é uma das atrações da terceira edição de RicoChoro ComVida na Praça, que acontece amanhã (24), às 18h, na Praça da Fé (ou Praça da Praia Grande), em frente à Casa do Maranhão.

A noite será aberta com discotecagem do DJ Samir Ewerton, e apresentações do cantor Claudio Lima e do grupo Urubu Malandro – formado por Arlindo Carvalho (percussão), Domingos Santos (violão sete cordas), Fleming (bateria), Juca do Cavaco e Osmar do Trombone.

O evento é gratuito, com patrocínio da TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

Sobre sua participação nesta edição do projeto, Marcos Magah concedeu uma breve entrevista – modesta, sincera e hilariante – a Homem de vícios antigos.

Divulgação
Divulgação

Claudio Lima interpretou Salomé [no show Rosa dos Ventos, no Teatro da Cidade de São Luís, antigo Cine Roxy, em fevereiro de 2014], parceria tua com o poeta Fernando Abreu. O que você achou da interpretação?
Eu fiquei super feliz e honrado, e foi engraçado: eu tinha acabado de chegar em São Paulo para fazer uns shows e descolar uns trampos em restaurante de chinês e Wilka  [Sales, sua produtora à época] me mandou o link do youtube. Eu, na época desesperado, olhei aquilo, comprei uma cerveja, acendi um careta [gíria para cigarro] e saí gritando no meio daquela cidade linda, onde nada espanta.

O que você espera do show de sábado, no sarau de RicoChoro ComVida na Praça?
Velho, na boa, não é frase de efeito, não, mas eu sempre espero o pior.

Serão dois shows separados ou vocês se encontram em algum momento?
Eu e Claudio estamos sempre juntos, mas, sim, eu entro no show dele e ele no meu. Cantaremos Adoniran [Barbosa] juntos.

Você é um artista mais próximo do punk, rock e brega. Como foi se encaixar no choro do Urubu Malandro?
Eu pensei que seria enrolado, mas, cara, da minha parte foi tranquilo. Não sei da parte deles. Cheguei ao estúdio e toquei aquelas canções velhas e simples que tenho e eles me trataram com respeito. Só fiquei com pena do Juca e do Domingos se olhando e pensando: “como é que se chama um cara desses para um projeto tão bonito?” Meninos, coisas da vida.

Sabor de maturação

Conheça Hóspede da natureza, sétimo disco de Cátia de França, disponível para audição e download legal e gratuito no site da Natura Musical. Sobre o trabalho, a cantora e compositora paraibana conversou com Homem de vícios antigos

Hóspede da natureza. Capa. Reprodução
Hóspede da natureza. Capa. Reprodução

Hóspede da natureza [Natura Musical, 2016; ouça e baixe aqui], sétimo título da discografia de Cátia de França, já é um dos grandes discos do ano e poderia ser considerado como tal “apenas” pelo fato de tratar-se da volta da compositora paraibana à cena, mas é bem mais que isso: sua força poética e melódica mantém-se intacta, quase 40 anos após a estreia com 20 palavras ao redor do sol.

Com ecos líricos e melódicos de Bob Dylan e James Taylor, a faixa-título, que abre o disco, é baseada em trechos de Walden ou A vida nos bosques, de Henry D. Thoreau, livro de 1847, mantendo a sintonia literária da música de Cátia de França, cuja obra dialoga desde sempre com nomes como Guimarães Rosa, Manoel de Barros, João Cabral de Melo Neto e Marconi Notaro. A primeira faixa fala ao mesmo tempo de esperança – “toda criança reinaugura o mundo” – e de descrença – “os homens e seus ternos limpos/ seus casacos sem remendos/ sua consciência nunca está tranquila/ na verdade existem poucos homens/ e uma infinidade de calças e paletós”.

Minha vida é uma rede, a faixa seguinte, é inspirada em frases de para-choques de caminhão, revelando o olhar atento de cantadora das coisas do mundo da artista, menos conhecida que conterrâneos como Zé Ramalho, Elba Ramalho, Jackson do Pandeiro, Sivuca, Geraldo Vandré e Chico César, entre outros.

Lagarto ao sol, mesmo com o “erro” na pronúncia do nome do réptil, parece tecer uma crítica ao individualismo nosso de cada dia: “acorda, a plateia quer mesmo é que você caia/ e depois, tome vaia, a arena é a mesma, rugem os leões” – o disco foi lançado um pouco antes, mas a música de Cátia de França bem poderia traduzir também a sessão no Senado Federal que decidiu pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff, ao menos neste trecho.

Com um jeito todo particular para falar de sexo, vide a belíssima Coito das araras de seu disco de estreia, Geração volta ao tema: “o inseto pólen, a transa, é você na estrada/ fecundando nosso ninho”. Gaivota segue a trilha de amor e desejo: “me pegou de jeito, você raio de luz/ (…)/ desejo em mim, estou tão feliz”. É também a primeira de três faixas marcadas por toques, ora mais sutis, ora mais escancarados, consagrados a divindades de religiões de matriz africana. Aqui o Toque aguerê de Oxossi; em Luvana o Toque Ilu de Iansã, e em Trator/ As águas que brotaram dos meus óio o Toque Opanijé de Obaluaiê.

Pra doer, com letra de Júlio Sortica, é o apego desesperado, nem que seja pela dor da lembrança, de quem vê um relacionamento se esvaindo. “Deixe alguma coisa sua ao sair/ algo que não corte/ mas que doa ao lembrar”, agarra-se desesperadamente o/a protagonista.

A dor não cabe em apenas uma faixa e Evidências, com letra de Mônica Dantas, segue a trilha de fim de relacionamento: “e eu sem querer já sei que o nosso amor/ está rendido à luz das evidências/ e tanta essência o ar não segurou”, entrega-se.

Tramas da cidade traduz os problemas comuns aos grandes centros urbanos do país. O texto de Cátia de França distancia-se, no entanto, do noticiário cotidiano, e mesmo questões urbanas graves como violência e poluição são encaradas sob o prisma por demais poético da paraibana, que canta e toca violão na faixa, acompanhada apenas pela guitarra de Walter Villaça. Não deixa de ser, também, uma canção de amor: “e se um dia aparece a pessoa certa/ eu fotografo na retina no meu doido descontrole”, promete adiante, depois de revelar que “com prazer o hálito da chaminé/ polui o ar, polui você” e noticiar que “um assaltante roubou o riso/ de uma criança e sumiu na multidão”.

O par formado por Rua do Ouvidor, em que sua voz e violão são acompanhados apenas pelos sopros de Marcelo Bernardes, e Rio Capibaribe traz à cena paisagens caras à Cátia de França, respectivamente no Rio de Janeiro/RJ e no Recife/PE – ambas as cidades integram a turnê de lançamento de Hóspede da natureza, que passará ainda por João Pessoa/PB, Vitória/ES e São Paulo/SP.

Luvana, única faixa instrumental do disco, traz vocalises de Cátia de França e o crescendo percussivo lembra, de longe, em determinados momentos, Kukukaya (Jogo da Asa da Bruxa), talvez sua música mais conhecida, gravada por nomes como Elba Ramalho e Xangai.

Debaixo da tamarineira/ Ô, Mateu reverencia o bumba meu boi. Está aí um dos versos mais bonitos do disco, “meu amor quando me olha com brilho de faca nova”, e não deixo de pensar no diálogo com Rosa Maria, que “tinha faca de ponta nos olhos”, da lavra do maranhense Josias Sobrinho.

A cantora no show de lançamento de "Hóspede da natureza" no Teatro Santa Isabel, no Recife/PE. Foto: Ademar Filho
A cantora no show de lançamento de “Hóspede da natureza” no Teatro Santa Isabel, no Recife/PE. Foto: Ademar Filho

Cátia de França faz soar um sino e é acompanhada apenas do tambor alegre de Mariana Bernardes (filha de Marcelo) em Trator/ As águas que correram dos meus óio, em que reúne a alegria e o espanto diante do belo, o infelizmente hoje raro chorar de emoção, diante dum mundo cada vez mais embrutecido. Ela celebra, “chegando enfim, chegou o meu tesouro”, talvez fazendo uma autorreferência sobre este disco, tesouro que nos entrega, com certo atraso – Hóspede da natureza foi gravado entre 2005 e 2006, antes de seu antecessor, No bagaço da cana – Um Brasil adormecido, de 2012. Nunca é tarde para este transbordamento de beleza, e ela presta reverência: “as águas que correram dos meus óio/ dos tambores do Mestre Beleza”.

Aqui e ali se ouvem “sons de floresta, chuva e pio de inhambu”, como registra a ficha técnica. O fecho é sublime: em Grandezas pantaneiras Cátia de França volta ao universo particularíssimo de Manoel de Barros e seu olhar poético inusitado. Para contrariar a frase final, “de repente faz um silêncio pelo capinzal”, só resta apertar novamente o play e contemplar tudo de novo.

Cátia de França (voz, violão, percussão) divide os arranjos de base do disco com Rodrigo Garcia (violão, teclado, percussão, contrabaixo, viola) e acercou-se de nomes como Walter Villaça (guitarra) e Lan Lan (percussão), músicos que trabalharam com Cássia Eller, além do veterano Marcelo Bernardes (flauta, flautim, sax, clarinete), da banda de Chico Buarque. Também comparecem Durval Pereira (percussão), Matias Corrêa (contrabaixo acústico em Evidências), Luiz Otávio (piano em Evidências), Alex Merlino (bateria em Pra doer e na faixa-título), Arthus Fochi (violões em Lagarto ao sol) e Jander Ribeiro (viola caipira elétrica), entre outros.

Através de uma rede social, Cátia de França concedeu uma breve entrevista a Homem de vícios antigos.

Foto: Thercles Silva
Foto: Thercles Silva

Homem de vícios antigos – Hóspede da natureza é seu sétimo disco de carreira, mas poderia ser o sexto, já que foi gravado antes de No bagaço da cana, que acabou sendo lançado na frente. O que explica esse, digamos, desvio de percurso?
Cátia de FrançaNo bagaço da cana saiu na frente através do FIC, apoio cultural da Paraíba. Aquela safra [de composições] era de 1975. Só veio à tona em 2012. Parece que gosto da maturação. Tem que sair na hora certa. Com as pessoas indicadas. Dar possibilidade de pagar uma orquestra como a Camerata Arte Mulher. Uma orquestra feminina. Tinha que ter financiamento. O Hóspede saiu através da Natura, que criou o alicerce à altura.

Parte da banda que toca em Hóspede da natureza acompanhou a carreira de Cássia Eller. Como é sua relação com músicos mais novos? O que você acha/va do trabalho de Cássia Eller e o que achou do trabalho deles em sua obra? Como foi este contato?
O distrito onde estou aqui na serra, próxima ao Rio De Janeiro, já era rota dos músicos [Hóspede da natureza foi gravado entre dezembro de 2005 e fevereiro de 2006 no Estúdio Luperan, em São Pedro da Serra, Nova Friburgo/RJ]. A própria Cássia andou aqui na época que eu ainda não residia em definitivo em São Pedro da Serra. A cidade a homenageou dando a uma montanha o nome dela. Quem facilitou a adesão dos músicos para tocar no Hóspede foi o produtor do cd, Rodrigo Garcia. Ele tocou com ela na fase espanholada [nos discos Dez de dezembro (póstumo, 2002), Com você… meu mundo ficaria completo (1999) e Veneno vivo (1998)], na escola do [falecido cantor espanhol] Camarón de la Isla. Além dele, parte da banda, ou seja, Lan Lan, fantástica percussão e Walter Villaça, guitarra, e sua economia magistral nas notas, os solos precisos. O embrião do Hóspede se deu num clima mágico: estúdio caseiro, no meio de uma floresta, em pela serra. Havia até um rio próximo do local. Estávamos longe do conturbado centro urbano. Músicos novos, como reajo perante eles? Quando escolho a formação de uma banda não levo em conta se é novo ou velho. O que me interessa é se eles respondem o rojão de um maracatu, de um coco. De um rock à sutileza de um blue. Inclusive na formação atual da banda o mais velho é o rapaz dos sopros, Marcelo Bernardes, deve ter uns 50 e poucos. O restante está na faixa dos 30. Meu diretor musical e baixista também. O que é que eu achava da Cássia Eller? Achava não: eu acho. O legado dela é eterno. A lacuna na MPB jamais será preenchida. O trono feminino do rock está vazio. Quem hoje fará no palco o que ela fez?

Debaixo da tamarineira/ Ô, Mateu traz o bumba meu boi. Qual a sua relação com o Maranhão e o que conhece da música daqui?
Maranhão. Meu envolvimento com o Maranhão ocorreu quando fui aí pela primeira vez, com a peça A peleja de Lampião, do Teatro Cordel, em 1975 ou 76, com direção de Luiz Mendonça e o elenco trazendo Elba Ramalho, Tonico Pereira, José Dumont, Tânia Alves. A direção musical quem fazia era eu, além de tocar violão, sanfona e percussão. Agora o que me impressiona é a força mística. O espiritismo em certas regiões daí, orixás, caboclos, pretos velhos. Musicalmente não dá para ouvir sentada. O reggae. Agora as festas populares. O povo nas ruas. Vi uns documentários por aqui… para quê viajar, se a gente tem um mundo com seus mestres dentro desse Brasil? Me dê licença, mas eu vou ver de perto, de bem perto esse Maranhão.

Dicy Rocha: de Flor de Cactus a Rosa Semba

Em entrevista a Homem de vícios antigos a cantora relembra sua trajetória enquanto se prepara para participar do show Toca Raul, do amigo Wilson Zara. Ela está às voltas também com o lançamento de Rosa Semba, seu disco solo de estreia

A cantora Dicy Rocha. Foto: Afonso Barros
A cantora Dicy Rocha. Foto: Afonso Barros

Foi o acaso quem apresentou Dicy Rocha e Wilson Zara. Foi o cantor que transformou o trio formado por ela, sua irmã Jovinha Rocha e Helyne Julle em Flor de Cactus. Logo o grupo passou a acompanhá-lo em apresentações em festivais por municípios da região e no Caneleiros Bar – mítico bar que Zara manteve durante certo tempo em Imperatriz, onde se apresentaram nomes como Jorge Mautner, Tetê Espíndola, Ednardo e Tadeu Franco, entre outros.

Natural de Coroatá, Dicy chegou a Imperatriz aos quatro anos de idade. Hoje vive em São Luís, onde prepara o lançamento de seu primeiro disco solo, Rosa Semba. É assessora de comunicação e mobilização social da Agência de Notícias da Infância Matraca e do Centro de Cultura Negra do Maranhão.

Dicy e Zara se reencontram, desta vez não por acaso, nas duas edições de Toca Raul, tributo a Raul Seixas que ele apresentará em São Luís [hoje, às 21h, na Praça dos Catraieiros, Praia Grande, com abertura de Marcos Magah e Tiago Máci e participação especial de Louro Seixas] e Imperatriz [dia 27 de agosto, às 22h, no Rancho da Villa, com abertura de Nando Cruz e Tony Gambel], com patrocínio da Potiguar, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

Em entrevista a Homem de vícios antigos, a cantora Dicy Rocha fala sobre o início da carreira, o encontro com Zara, de sua generosidade, das mudanças para Imperatriz e São Luís e, é lógico, de música.

Dicy Rocha lembra as origens e fala do momento atual de sua carreira em entrevista. Foto: divulgação
Dicy Rocha lembra as origens e fala do momento atual de sua carreira em entrevista. Foto: divulgação

Qual a sensação de reencontrar Zara no palco?
É muitíssimo especial, uma saudade já experimentada. O Wilson é um artista admirável. Com ele, eu e minhas irmãs, do Trio Flor de Cactus, colecionamos boas  lembranças e aprendizados. Será ótimo estar com ele e seu público, que é um espetáculo à parte. É pra matar, ou melhor, deixar mais viva a saudade.

O início de sua carreira foi no Flor de Cactus. Como foi o encontro do trio com Zara?
O trio já existia. Nós – eu, minha irmã Jovinha Rocha e Helyne Jullee – estávamos envolvidas com a música desde os oito anos de idade. Nossa musicalidade era explorada mais especificamente em volta da nossa vivência na comunidade católica que fazíamos parte, a de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, na cidade de Imperatriz. Mas foi Wilson quem nos viu e ouviu como Flor de Cactus. Ele chegou um dia no portão da minha casa, procurando o endereço de umas mulheres, que alguém havia indicado pra fazer o vocal de apoio do seu show de tributo a Raul. Lembro que faltavam poucos dias para o show e a cantora Lena Garcia, que fazia parte da banda, não poderia mais acompanhá-lo, por problemas de saúde. Assim, ele bateu por lá procurando essas cantoras. Me pergunto até hoje, se não foi equívoco: o espanto era notável ao encontrar um trio de adolescentes. Então o convite feito foi aceito, agarramos com felicidade e muito empenho, pegamos o repertório em pouco tempo e fomos fazer o show. Após o show, o convite foi estendido para continuamos as apresentações no Caneleiros Bar, e fomos em festivais e outros municípios vizinhos, já como Flor de Cactus. Assim, nós o acompanhamos e depois dividimos muitas cantorias, ainda continuo.

Você é de Coroatá. O que te levou à Imperatriz e depois te trouxe à São Luís?
Cheguei em Imperatriz pequena, aos quatro anos de idade. Meus pais buscavam outras possibilidades de vida. Deixamos então a beira do Itapecuru pelas margens do Tocantins. Ficamos por lá acho que uns 20 anos. A música foi quem me carregou a primeira vez pra ilha. Eu, as meninas do Flor de Cactus e Lena Garcia passamos um tempo vivendo a delícia de cantar quase todos os dias pelos bares e casas da época. A noite aqui fervilhava de cantores e cantoras, até na minúscula lanchonete perto de onde morávamos rolava música ao vivo. Conhecemos e convivemos com grandes músicos e grandes pessoas nessa temporada na ilha, Celson Mendes, Josias Sobrinho, Carlinhos Veloz, Dona Teté, Banda Guetos, Luciana Pinheiro e tantos queridos e queridas. Com o tempo, outras atividades nos afastaram aos poucos do palco. Voltei para casa novamente, e depois de três anos a dor foi quem me trouxe pela segunda vez à ilha. Após perder meu pai em um trágico acidente de carro foi importante pra aquietar o coração e recomeçar. Não demorou muito e o ritmo da ilha começou a me levar novamente para o palco.

Você é jornalista de formação. A música sempre foi um ofício paralelo? Você tem vontade de ele ocupar mais espaço entre teus afazeres?
Minha formação é Comunicação Social com atuação em Marketing e Propaganda. Sou assessora de comunicação e mobilização social na Rede Amiga da Criança e no Centro de Cultura Negra do Maranhão. Sempre estive fazendo outras coisas além da música, é uma correria boa. Tenho pensado bastante sobre isso, afinal o meu primeiro disco está chegando e com ele outras demandas, assim me preparo para estar mais disponível para esse projeto. Quem me conhece bem sabe que eu não busco viver através da música, ela e uma vivência cotidiana muito forte para além do palco, experimento o movimento oposto e são as experiências, as pessoas e toda essa mística que vem se traduzindo para o meu ofício musical.

Da MPB do Flor de Cactus você acabou enveredando na carreira solo por uma linha mais ligada ao universo do reggae e da black music, com o disco Rosa Semba. O que te levou a esta guinada?
Eu e as meninas do Flor de Cactus nem pensávamos muito no futuro com a música, mas era bem certo e sabíamos que nosso destino era estar sempre cantando. Todas nós estamos até hoje envolvidas atividades musicais. A alma do nosso trabalho refletia muito das descobertas e tudo que estávamos tendo acesso em conteúdos musicais na época. Acabamos por ter um repertório bem especial e incomum para os bares na época. O trabalho solo veio da minha aproximação com uma turma muito massa, compositores e jovens músicos como Elizeu Cardoso, João Simas, Beto Ehongue e o meu marido, o produtor cultural e DJ Joaquim Zion, de onde veio o incentivo maior pra esse retorno.  É muito do movimento da vida, com tantas pessoas, com o movimento social e estando atenta aos sons daqui, seja da cultura popular, roots reggae, que o Rosa Semba chegou a mim.

Ouça Rosa Semba (Beto Ehongue):

Saraus de choro em praças públicas de São Luís vão virar programas na TV UFMA

Em entrevista a Homem de vícios antigos o professor Silvano Bezerra, diretor da emissora universitária, comenta a parceria firmada com a produção do projeto RicoChoro ComVida na Praça

Desde a inauguração da TV UFMA, em outubro passado, o canal vem sendo conduzido pelo professor doutor Silvano Bezerra. Um enorme desafio, sobretudo em virtude do atual momento político por que passa o Brasil.

Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (2005), Mestre em Ciência da Informação pela Universidade Federal da Paraíba (1998), professor do Curso de Comunicação Social e do Programa de Pós-graduação em Cultura e Sociedade (Mestrado – PGCULT) da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), o diretor da TV UFMA é otimista em relação ao futuro da emissora universitária.

Em entrevista a Homem de vícios antigos, Silvano Bezerra destaca a qualidade tecnológica da emissora recém inaugurada, que pode ser assistida no canal 54 (TV aberta) ou 16 (TVN). O professor comenta ainda a programação da emissora e a parceria firmada com o projeto RicoChoro ComVida na Praça, que transformará em programas de televisão os nove saraus produzidos por Ricarte Almeida Santos, que têm início no próximo sábado (20 de agosto).

O professor Silvano Bezerra, diretor da TV UFMA. Foto: Rosana Barros
O professor Silvano Bezerra, diretor da TV UFMA. Foto: Rosana Barros

A TV UFMA tem demonstrado preocupação em valorizar a cultura do Maranhão. Você acredita que é este o caminho a ser perseguido por uma emissora universitária?
As TVs universitárias federais têm, mais que qualquer outra emissora, a preocupação de fazer com que as manifestações culturais e os valores artísticos locais estejam em suas grades de programação. As TVs das instituições federais de ensino têm muito clara a responsabilidade de se traçar um caminho diferente daquele que a TV aberta no Brasil faz, que tem sido o de ressaltar e valorizar a vida e as práticas da região Sudeste, fechando os olhos para a riqueza cultural e artística presente não só no Maranhão, mas nas demais regiões deste imenso país. Desde que surgiu a ideia de criar a TV UFMA, uma convicção se impôs: a de firmar-se como emissora diferente das demais, porque, mais que qualquer outra, ela carrega o DNA da UFMA, e por isso está comprometida, na raiz, com o saber, com a consciência crítica e com a cidadania. Razão pela qual mantemo-nos vigilantes em relação à qualidade daquilo que somos capazes de gerar em nosso espaço de produção televisiva. E qualidade significa, também e acima de tudo, que é nossa obrigação, manter vivos os vínculos com as coisas de nossa terra e de nossa gente. Gosto sempre de dizer que a TV UFMA acabou de vir ao mundo, e dentro de um espaço muito complicado para a produção televisiva como é a realidade das instituições federais. Mas sabemos também que, mesmo com as dificuldades do atual momento político e econômico do país, podemos estabelecer programação de excelente nível educativo e cultural.

No que a TV UFMA está pensando em relação aos nove saraus do Projeto RicoChoro ComVida na Praça?
Cada um dos saraus da programação do Projeto RicoChoro ComVida na Praça será transformado em programa de TV, com a finalidade de ser exibido no primeiro semestre de 2017. No total, serão nove programas. Gostaríamos de exibi-los antes, mas ainda temos algumas limitações de profissionais dentro da TV, por motivos óbvios de contenção orçamentária decorrente da crise que o país enfrenta. Além disso, vamos enviar esses programas para outras emissoras universitárias, que integram a ABTU (Associação Brasileira de Televisões Universitárias) e as TVs vinculadas à Associação da ANDIFES [Associação Nacional dos Dirigentes de Instituições Federais de Ensino Superior], e também disponibilizá-los em rede, em formato HD cheio, para a Televisión America Latina (TAL), nossa parceira na troca de conteúdos para a América Latina. Vamos, também, fazer a cobertura dos saraus, que será exibida em nossas páginas nas redes sociais.

Como foi estabelecer essa parceria, que afinal de contas, acaba sendo interna, tendo em vista que Ricarte Almeida Santos, produtor de RicoChoro ComVida na Praça, apresenta um dos mais longevos programas da Rádio Universidade FM, o Chorinhos e chorões?
Porque habitamos o mesmo espaço institucional, é bem mais fácil reconhecer as competências, as qualidades e o tipo de compromisso que os colegas que militam na área têm com a vida mediática. Conheço o trabalho de Ricarte Almeida Santos há algum tempo, e sempre destaquei, onde fui chamado a fazê-lo, o excelente trabalho que realiza na FM Universidade. Ao bom trabalho de apresentador, Ricarte ajunta o de pesquisador qualificado, o que empresta maior qualidade ao que faz como homem de comunicação. Assim que fui procurado por ele e equipe para que nos integrássemos ao Projeto RicoChoro ComVida na Praça, vi a grandeza e a qualidade da iniciativa, e, de pronto, aderimos à ideia de levar excelentes músicos e grande repertório às praças públicas de nossa cidade. Esta é uma iniciativa pioneira que merece não só o nosso apoio, como nossos aplausos.

Qual a estrutura atual da TV UFMA?
A TV UFMA foi pensada para ser uma emissora de porte médio, e isso foge ao comum das TVs universitárias, que em geral são pequenas e bem modestas em termos de recursos técnicos. Montamos uma TV digital como poucas no universo tanto das universitárias quanto das particulares. A TV UFMA tem um parque tecnológico muito bem montado, e com recursos que lhe dão excelente autonomia. Somos a única TV universitária brasileira que conta com Media Asset Manegement, recurso que só se encontra em cabeças de rede. Contamos com dois grandes estúdios, um dos quais hospeda o jornalismo da emissora, que está em fase de organização e testes; temos duas salas de corte; 18 salas de trabalho, 10 ilhas de edição, recursos para gravação de áudio profissional, grua, travelling entre outros mais. Na parte de transmissão, contamos com dois transmissores, um gerador de energia, no-break de alta capacidade e uma torre de 110 metros. E estamos nos preparando pra enfrentar o desafio da TV UFMA em Imperatriz. Inclusive já temos o canal para a localidade. Falta-nos, porém, contratar mais profissionais para atender às necessidades de produção, o que ainda é um obstáculo, por razões já referidas.

Comente um pouco da programação da TV UFMA.
A TV UFMA, como disse, acabou de nascer, mas vem produzindo programas em ritmo crescente. Hoje, conseguimos exibir cerca de cinco a seis reportagens diárias, e acham-se em exibição alguns outros, e outros encontram-se em fase de produção, como: Perfil, programa de entrevistas; Tempo Rei (interprograma); o EntreLetras, que fala de livros e produção bibliográfica; Portugal sem fronteiras, que expõe reportagens produzidas em Portugal; Bem na foto, programa que dá dicas do fazer fotográfico; 100 anos do samba (programa documental); 50 anos da UFMA; Duplo sentido (programa sobre semelhanças da língua hispânica com o português); Orquestras do Nordeste  e mais outros que estão em curso. Iniciamos, também, as transmissões do sinal da TV Cultura, a nossa cabeça de rede.

O axé político de Wado

Ivete. Capa. Reprodução
Ivete. Capa. Reprodução

 

Artista catarinense/alagoano remonta às origens do axé em Ivete, seu nono disco, recém lançado. Ele conversou com o blogue

Alagoano nascido em Santa Catarina Wado acaba de lançar o nono disco de sua carreira, descontada uma coletânea. O título, fina e ousada ironia, Ivete [independente, 2016]. Sim, uma homenagem a Ivete Sangalo, musa do axé, gênero a que o álbum presta uma espécie de tributo – ligeiro, o disco todo não tem 25 minutos.

São 15 anos de carreira desde a estreia com O manifesto da arte periférica [2001]. Ouvintes mais atentos – os que lhe acompanham a trajetória desde sempre – encontrarão links entre Ivete e Atlântico negro [2009], no som, na estética e no forte componente político dos álbuns – aliás, todos os álbuns de Wado estão disponíveis para download gratuito e legal em seu site.

Alabama (Wado e Thiago Silva), com seu “sangue nas folhas, sangue na raiz”, primeira música de trabalho do disco novo, remete ao açoite e linchamentos denunciados pelos versos de Abel Meeropol (sob o pseudônimo de Lewis Allan) em Strange fruit [1939] – o “fruto estranho” de que se apropria a letra, entre outros versos – gravada por, entre outras, Billie Holyday.

Acompanhado por Vitor Peixoto (guitarra e voz), Rodrigo Peixe (bateria), Dinho Zampier (teclado e programações), Bruno Rodrigues (contrabaixo), China Cunha (percussão) e Luciano Brandão (percussão), o axé de Wado (guitarra e voz) não soa estranho, isto é, não soa alheio ao conjunto de sua obra. Quer dizer: é axé, mas continua sendo Wado. Não tem “tira o pé do chão” ou “mexe a bunda para lá ou para cá”.

O axé de Wado, mesmo homenageando Ivete Sangalo no título do disco, remonta às origens do gênero, e seu tom de denúncia social, sobretudo contra o racismo e de exaltação à negritude, logo desvirtuado pela indústria, que fabricou ídolos tão descartáveis quanto despolitizados.

Em meio às 10 faixas do disco, releituras do hit Jesus é palestino (Carlinhos Brown, Gerônimo Santana e Alain Tavares), citada em meio a Terra santa (Jesus é palestino) (Wado, Junior Almeida e Dinho Zampier), Filhos de Gandhi, homenagem de Gilberto Gil ao bloco baiano de carnaval homônimo, e Um passo à frente (Moreno Veloso e Quito Ribeiro). As guitarras em profusão, desde o segundo inicial de Alabama, remetem ao Armandinho dos primeiros álbuns solo do também baiano Moraes Moreira, outra influência confessa.

Também desfilam parcerias por Ivete: Thiago Silva (Alabama e Sexo), Zeca Baleiro (em Mistério e Nós), Momo e Marcelo Camelo (em Você não vem, autores também de Samba de amor, sem Wado) e Beto Bryto (em Amanheceu). Sobre o disco, Wado conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

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Foto: Alzir Lima/HollyShot

Wado, você foi um dos primeiros artistas, de qualquer geração, a disponibilizar seus discos para download gratuito, logo no lançamento. O que te levou a esta postura e a mantê-la?
Acho que a música tem de chegar nas pessoas. Acho que até agora há pouco, antes das plataformas de streaming, essa era a melhor forma de chegar nas pessoas. Dinheiro ganhamos nos shows.

Como surgiu a ideia de um disco sobre o universo do axé?
É uma coisa que faz parte da minha formação, ouvi muito isso em Maceió no meio dos anos oitenta. É meio que um axe utópico de dentro da minha cabeça, adoro a estética, os temas.

E o título, Ivete?
Ele é um lance bem humorado mas respeitoso. É como se fosse uma tentativa de ser ela, sabendo que não chegaremos nunca lá. Como é um disco de axé e ela é um ícone, achei divertido e corajoso o título.

Sua música não soa nem pretende fácil como o axé, digamos, comercial. Reside aí uma fina ironia. É de propósito?
Acho que é verdadeiro em tentar ser, mas, também, verdadeiro em ser consonante com as minhas coisas. Ele é axé respeitando o gênero e sou eu também.

O repertório tem um forte componente político, inclusive nas regravações de Jesus é palestino e Filhos de Gandhi, meio que como uma volta às origens do axé. O gênero foi desvirtuado pela indústria?
Acho que nos anos noventa ele foi pra uma coisa super pop, mas a cultura é assim volátil. É bom que seja, mas o nosso foi bastante inspirado no início do gênero.

Outra referência citada no texto que apresenta o disco em teu site são os primeiros discos solo de Moraes Moreira. Terá o axé nascido ali?
Eu também fico pensando isso. O Moraes é um mestre da música festiva do Brasil e nesse primeiro disco solo dele já tinha Armandinho na guitarra baiana.

É um disco de axé, mas é um disco de Wado, no sentido de isso poder ser percebido, de cara, na primeira audição do disco. Alabama, primeira música de trabalho, remete a Strange fruit, retomando o elo do gênero predominantemente baiano com questões raciais e sociais. De algum modo, se lembrarmos Atlântico negro, mas não só, o axé e a política sempre estiveram presentes em teu trabalho, não é?
Sim, você pegou bem. Esse é meio que um desdobramento do disco Atlântico negro.

Quanto dessa preocupação social deriva do fato de você ser jornalista?
Deve ter isso sim embutido, nós somos esponjas, né?

*

Ouça Alabama:

Cesar Teixeira: um artista político

[íntegra da entrevista publicada hoje (10) nO Imparcial]

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Para o artista, sua arte engajada é decorrência da consciência de que “o artista pode, também, ser uma ferramenta de mudança”

TEXTO, ENTREVISTA E FOTOS: ZEMA RIBEIRO

A reportagem de O Imparcial encontrou o compositor Cesar Teixeira ensaiando para uma apresentação no arraial do Largo de Santo Antonio. Era manhã de sábado, em São Luís, e o artista encerraria sua participação na temporada junina, após alguns shows solo e a presença em diversas apresentações no espetáculo que homenageou o LP Bandeira de aço, gravado pelo cantor e percussionista Papete, recém-falecido, grande homenageado do São João 2016.

Cesar é autor de três faixas – além da faixa-título, Boi da lua e Flor do mal – de Bandeira de aço, lançado em 1978 pela Discos Marcus Pereira. Mas o artista, que atua em várias frentes, já estava em cena bem antes: como artista plástico venceu um salão intercolegial de pintura ainda em 1969; em 1972 participou de festival de música com Salmo 70, parceria com o poeta Viriato Gaspar, mesmo ano em que ajudou a fundar o Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão (Laborarte), onde conviveu com nomes como Sérgio Habibe e Josias Sobrinho – outros compositores de Bandeira de aço; o grupo se completa com Ronaldo Mota – além de artistas de outras linguagens: fotografia, cinema, teatro, artes plásticas.

Formado em jornalismo pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) na década de 1980, Cesar passou pela redação de O Imparcial, onde foi editor de Cultura (1986-88). Em 1985, interpretada por Cláudio Pinheiro e Gabriel Melônio, sua Oração latina venceu o Festival Viva de Música Popular do Maranhão. Em 2010 foi homenageado pela escola de samba Favela do Samba.

Dono de vasto repertório, a obra de Cesar, a partir da experiência laborarteana, é impregnada de elementos da cultura popular do Maranhão, de que é um pesquisador, e de crítica e denúncia social, constituindo-se num conjunto único de uma arte bastante engajada, entre música, poesia, pintura, cordel e teatro.

Foi este componente político que pautou a entrevista que o artista concedeu a O Imparcial após o ensaio.

O Imparcial – O engajamento na arte sempre foi uma preocupação tua? Você nunca conseguiu fazer nada despreocupadamente, arte pela arte?
Cesar Teixeira – Sempre fiz. Mas eu sempre tive uma consciência de que o artista pode, também, ser uma ferramenta de mudança.

Você se sente obrigado a fazer uma arte mais politizada?
Não. A minha politização está na faixa da normalidade poética [risos]. Então eu não me obrigo, não me amarro, tanto que eu não pertenço a partido nenhum até hoje. Sou uma cara com uma consciência, com uma formação livresca socialista, sempre fui. Mas como não existe partido socialista, só na sigla, no Brasil, me preocupo mais em estudar e aprender com os exemplos. Isso de certa forma influencia minha arte, claro, não tem como. Você exterioriza aquilo que está em seu espírito, em seu conhecimento. Involuntariamente eu posso fazer um verso que pode ser considerado engajado, proposital, por que é música de protesto. Não! Eu fiz por que eu achei que era minha inspiração naquele momento. É como você ver uma pessoa pedindo esmola e fazer um verso, aquilo é uma atitude política. Não precisa dizer que [muda a entonação, como a imitar alguém que recita:] “é por que o país”… não! Você vai falar de outra forma, “um dia cairá uma estrela em suas mãos”, por que todo mundo joga moeda, eu tou inventando isso agora.

Um ótimo exemplo disso é Dolores, que Flávia [Bittencourt] gravou [em Sentido, seu disco de estreia, 2005]. Uma música de uma poesia exuberante, com uma denúncia social fortíssima. Você está denunciando uma série de coisas ali.
É, uma música engajada, mas não perde a ternura. Uma linguagem metafórica muito rica.

É interessante: você falou que socialismo no Brasil só na sigla. Eu costumo brincar dizendo que um dos problemas do Brasil é etimológico: as siglas estão falando em socialismo, comunismo, mas os socialdemocratas na verdade são neoliberais, quem é democrata é reacionário, quer dizer, não existem, na sigla, o partido homofóbico, o partido misógino, o partido machista, o partido militar, mas estas categorias estão representadas politicamente.
Na prática… existe uma história de pessoas que eu respeito, que eram competentes, como [Carlos] Marighella, como Gregório Bezerra, Maria Aragão, esses eram socialistas, de fato. Hoje em dia o partido são os caras que são figurões, medalhões, que de certa forma roubam esse caráter, de certa forma incorporam uma coisa que não é deles. Em nome do socialismo se comete tanta atrocidade que é caracterizada pelo capitalismo, por ser um capitalismo selvagem, e a pessoa corrupta, preconceituosa, nada que se assemelha a um ideal, eu não considero utopia, todo sonho pode ser realizado. Mas nem se aproxima, é como se estivesse andando pra trás, então por que não muda o nome do partido? Partido de direita. O partido, na minha opinião, nem sempre representa os interesses da população. Por exemplo, o PT. Eu poderia ter sido membro do PT naquela época, até cheguei a me inscrever, perderam minha ficha, eu digo, “pô, perderam minha ficha?” Eu dei graças a Deus, eu estava certo. Quando eu cheguei, uma das sedes provisórias, eu discuti a reforma agrária, pra mim até hoje é uma coisa séria. Mas eu não notei nenhum interesse. Eles queriam divulgar, nos jornais que eles faziam mimeografados as ideias de Lenin. Eu disse: “olha, o povo não vai compreender isso. Vocês estão tirando praticamente do livro, copiando, tem que ter um trabalho de educação política, antes”. Foi a primeira coisa que eu vi e condenei. Aí eu fui logo rejeitado. Tipo: “ah, é um artista, um bêbado”. Eles não sabiam que eu tinha uma cultura política, e faço questão de preservar. E sempre fui rejeitado, não só por esse partido, mas por outros que tentaram, várias vezes fui convidado a participar de partidos.

Jornalista de formação, com essa cultura política que faz questão de preservar, como você avalia, sente, como jornalista e artista, esse momento turbulento por que passa o país, com a cassação de Dilma, a ascensão de Temer ao poder?
Isso tem muito a ver com tudo o que falei agora. O PT se proclamou, embora não tivesse socialismo no nome, levantou a bandeira da democracia e democracia é uma palavra forte, tem muito a ver com a participação da população. A transformação de Lula em um mito foi um prejuízo muito grande para o movimento social. Por que se imaginava que sua liderança e competência, inclusive eu ajudei na campanha, ajudando a pintar paredes, comi mocotó frio de madrugada.

A campanha de 1989?
As campanhas, de modo geral, eu participei de todas, desde a anistia. Eu estava em todas, nem sei contabilizar isso aí, mas eu tava lá. Depois disso, o PT, que seria uma esperança, se pensava que seria uma coisa nova, não tem socialismo no nome, comunismo, mas pode ser uma alternativa forte de inserção de algumas ideias socialistas no Brasil, que se perdesse o vínculo com os rancores do passado, com os partidos comunistas, coisa que ainda existia. O PT era uma coisa nova. Mas não. Quando eu vi, eu disse: “isso vai dar em merda!” Se criou um mito. Depois dessas eleições conturbadas não se conseguiu resolver os problemas de base.

Em sua opinião, qual é o momento da criação do mito? As greves operárias do ABC, a primeira campanha em 89 ou a primeira eleição em 2002?
As greves!

Muito antes de Lula chegar ao poder.
É uma figura importante. Quando assume o poder os movimentos sociais tocam foguete, comemoram, tomam cerveja.

E grande parte dos quadros dos movimentos sociais vai para dentro do governo.
E o movimento, veja só, fica estagnado. Movimento, a palavra já está dizendo, é uma coisa dinâmica. Os movimentos ficaram paralíticos. Pensaram: agora vamos ter reforma agrária, vamos ter as terras indígenas preservadas, vamos ter a água preservada. O essencial. Talvez uma reforma política, que também era essencial, nunca foi feita. Nunca aconteceu nada disso. Sabe o que aconteceu? O bolsa-família, que eu acho que é uma negação de direitos humanos. Ajuda, por que tem pobreza. Mas tem pobreza por que não tem reforma agrária. O cara lá do interior recebe bolsa-família por que ele não pode plantar, por que ele não tem emprego. Então, isso vai ficar por quanto tempo? Se você não dá cidadania, se você não dá condições de o cara sobreviver, essa cesta básica me parece uma coisa de coronel. Minha crítica é muito dura com relação a isso. Evidente que as pessoas que me ouvem, ligadas aos partidos, vão me recriminar com muito furor. Mas minha posição sempre foi essa. Não se construiu, pelo menos não se aproximou, da ideia de um socialismo. Não precisa ser um socialismo convencional. Ainda mais num país que depende de outros, de um capitalismo que é interligado, um país querer se separar do resto, como uma ilha.

Mesmo uma ilha enorme como o Brasil.
Mesmo uma ilha enorme e com condições de sobrevivência, por que Cuba não tinha. Aqui você tem ouro, prata, aquilo que Portugal não levou e os americanos não levaram, sobrou alguma coisa. As terras, a cultura, a natureza exuberante, mas isso ficou paralisado. Hoje quem estuda a nossa flora são companhias estrangeiras, que de repente levam toda essa informação que os índios, por exemplo, têm, para investigar lá fora. No Amazonas não se tem uma escola, uma faculdade para formar pessoas pra trabalhar a questão da floresta, não para derrubar e depois plantar eucalipto, mas para transformar essa informação. Tem animais e tem plantas que ninguém nem sabe o nome, mas que podem representar a cura de um câncer. A gente sabe que a química e a farmacologia dependem da natureza para existir. O cara não inventa uma fórmula dentro de um laboratório, sem nada. Com o quê que ele vai trabalhar? Isso no Brasil não se faz. Então muita coisa, fora os direitos negados, da própria Constituição, que não se exerce. Daí a decadência desse governo petista. Não é por nada, ninguém forçou a barra, eles mesmos se destruíram, foi essa autofagia, o partido se devorou a si próprio. Não resta mais nada, só osso.

Com toda essa crítica ao governo do PT não dá para legitimar o governo Temer.
Uma coisa não tem a ver com outra. Talvez seja um outro ponto que tem que ser considerado: a contribuição do PT para o retrocesso. Se tivesse feito uma coisa bem feita não haveria retrocesso. Temer, PSDB, DEM, é retrocesso! Por que isso aconteceu? Por causa do fracasso das pessoas bem intencionadas, entre aspas. Hoje a gente poderia estar respirando melhor no país. E hoje a direita bate palmas. Você vê um deputado que elogiou um torturador em plena sessão aberta, com canais de televisão, e o cara não foi preso, está aí. E só foi processado por que o povo foi para a rua e começou a debater. Tem pessoas que não podiam nem se candidatar. Por isso eu acho que tem que ter uma reforma política: o sujeito que cometeu crimes, que tenha interesses econômicos, deputado nem devia ganhar tanto quanto ganha. Eles vão pensar: “o que eu vou fazer lá, se eu não vou ganhar tanto?” O idealista vai. Hoje em dia o cara vai lá por que ele vai ter imunidade, se ele é ladrão, lá ele vai conseguir se salvar, se elege para escapar da justiça, chega lá não faz porra nenhuma, nem assina o ponto. Outros estão ali para manter seu partido vivo, por que seu partido é um balcão de negócios. Então a política não serve pra nada, nesse sentido. Esse modelo político é que deveria ser trabalhado, mas veja só como as forças reacionárias é que mandam, os fazendeiros, os empresários. Não foram os empresários que elegeram a maioria desses deputados que estão aí? Esse interesse capitalista não tem muito a ver com a natureza humana. O nosso planeta vai ser reduzido a um cocô por conta desses caras. Eles querem desmatar. Pra que serve o dinheiro? Eu questiono. Porra nenhuma! Pra que serve o poder? Pra nada! Se as pessoas dissessem “vamos organizar esse poder pra gente sobreviver mais um milhão de anos”, pra não faltar água. O espírito humano é muito hedonista, niilista e narcisista. O político se ama, ele não ama a população. Ele quer ver dinheiro. Ele não quer saber se a pessoa está passando fome, se o índio é feliz ou não, se estão desmatando. Basta a escravidão que houve quando o Brasil era colônia de Portugal, aquilo era um crime hediondo.

E o governo Flávio Dino, um ano e meio depois?
Flávio Dino carrega nas costas um grande abacaxi. Ele vai ter que resolver, descascar. Ele tenta. É um cara que a gente conhece de perto, mas que lida com os mesmos vícios, antigos. Você não consegue trabalhar em um ambiente contaminado. É tipo você estar em Chernobyl, a cidade que foi abandonada, você vai ter uma contaminação, alta ou baixa. Olha, fazem 30 anos de Chernobyl, aqui fazem 50 anos de Sarney. A contaminação não acabou. Como administrar isso, eu gostaria até de conversar com Flávio, conversei uma vez rapidamente, no Bar do Léo, depois daquele show que eu fiz. Eu falei da reforma agrária. É claro que um governador depende de decisões federais para fazer alguma coisa. O Iterma [Instituto de Terras do Estado do Maranhão] era um instituto paralítico. Eu, na época que fui empregado da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos [foi assessor de comunicação da entidade entre 1989 e 2002], vi funcionários do Iterma negociando lotes, envolvendo especuladores, como se a terra fosse propriedade do Estado, e não é. O Estado está ali para administrar. Tem que ter competência e respeito pelo cidadão que já está lá. Minha opinião não mudou nada nesse sentido: tem que avançar em relação à questão da reforma agrária, principalmente. Muita gente quer que eu assuma alguma postura em relação ao novo governo. Não! Eu acho que a gente tem que apostar no futuro. O passado foi muito doloroso, a gente tem que se afastar do passado. Se não tiver essa transição… Eu procurei ajudar na música, no jornalismo, escrevi muito texto contra a família Sarney, muitas vezes fui uma voz solitária. Um grupo diferente chega, já é um alívio. Eu sou um dos caras que está na expectativa. Não conheço a estrutura desse governo, mas eu posso cobrar de perto, tem pessoas conhecidas minhas e eu vou cobrar o tempo todo. Eu não mudei, não mudo, o meu comportamento vai ser o mesmo.

O transe criativo de Tatá Aeroplano

Step psicodélico. Capa. Reprodução

Tatá Aeroplano não para. Ou, para não perder o trocadilho com seu nome artístico, Tatá Aeroplano não pousa: no máximo faz escalas. Entre um disco e outro. Entre uma ideia e outra. Artista outrora à frente de bandas como Jumbo Elektro e Cérebro Eletrônico, hoje ele se divide entre a sua própria carreira solo e a de seu alter ego Frito Sampler – ele anuncia para breve o sucessor de Aladins Bakunins.

Ontem (27), Tatá Aeroplano disponibilizou em diversas redes seu terceiro álbum solo: Step psicodélico [Voador Discos, 2016]. É seu disco mais plural, ao menos do ponto de vista do leque de parceiros: Peri Pane (Todos os homens da terra), Dustan Gallas (na faixa-título), Flávio Lima (Outono à toa), Gustavo Galo (Luz no fim da tela), Luiz Gayoto (Aventureiros), Juli Manzi (Eu Inezito) e Julia Valiengo (Copo de pedra e a faixa-título), voz onipresente no disco, ela que assina ainda as fotografias do encarte e o projeto gráfico do trabalho.

Metade do disco estava pronta em um dia – um dia inspirado, em que ele compôs ainda outras quatro faixas, que acabaram ficando de fora, mas que serão lançadas um dia. Além dos citados parceiros, Tatá Aeroplano cercou-se de nomes requisitados da nova cena: Junior Boca (guitarra), Bruno Buarque (bateria e percussão) e Dustan Gallas (baixo e teclado) fazem a base, num disco que tem ainda participações especiais do poeta arrudA, Bárbara Eugênia e Ciça Góes.

Sobre o lançamento, Homem de vícios antigos conversou com Tatá Aeroplano.

O múltiplo Tatá Aeroplano em clique de Julia Valiengo
O múltiplo Tatá Aeroplano em clique de Julia Valiengo

Seus trabalhos são marcados por canções que são, de algum modo, retratos do cotidiano. A música me parece uma coisa orgânica em você. A impressão que se tem é que Tatá Aeroplano está o tempo todo pensando em e fazendo música. É correto pensar assim?
Isso veio comigo desde pequeno. Compus a primeira canção, letra e melodia, com seis anos de idade. Nos últimos tempos, acho que com a idade, abrindo a mente e o corpo para coisas novas, eu tenho vivido epifanias musicais, entro numa espécie de transe criativo incorporativo, as letras e melodias chegam e eu escrevo. Metade desse novo álbum surgiu assim. Lembro que o Peri Pane me mostrou a letra de Todos os homens da terra numa madrugada em que estávamos participando do disco Frou Frou da Bárbara [Eugênia]. Ele me mostrou a letra e a melodia me veio na hora, eu tinha recém chegado da minha turnê em Portugal e estava com a música dos artistas Sergio Godinho e Fausto na cabeça. O Peri gravou eu cantando e no dia seguinte logo cedinho me enviou a música com ele tocando e cantando. Entrei nesse estado de transe criativo, o Gustavo Galo tinha me enviado uma letra por e-mail, abri o computador e fui nela e assim nasceu Luz no fim da tela. Nesse mesmo dia peguei o violão e compus, na sequência, Dois lamentos, Step psicodélico e Passando o chapéu na noite purpurina. Em menos de 24 horas metade do disco nasceu. Eu tenho que agradecer a generosidade do cosmos comigo, viu?

Quais as principais influências de Tatá Aeroplano no geral e, particularmente neste Step psicodélico?
Eu sou apaixonado por música de todos os tipos. Eu gosto de escutar e conhecer coisas novas. Então, no ano passado, quando fui pra Portugal, trouxe comigo os primeiros álbuns do compositor e cantor Sergio Godinho, intitulados Pré-histórias e Sobreviventes, e também dois discos clássicos do músico e compositor Fausto, Por esse rio acima e O despertar dos alquimistas. Me apaixonei por eles, é a mesma sensação que eu sempre tive desde criança e adolescente descobrindo músicas novas. Eu coloco esses discos pra rolar e meu corpo e minha mente são tomados por uma sensação indescritível de prazer. Então eles foram grandes influências no meu estado de espírito no ano passado, assim como The Kinks, nos últimos três anos. Eu vou escutando tudo que vem de novo e me faz um bem danado, pirei com o disco da Alice Caymmi, com o disco da Ava [Rocha], acompanhei as gravações do amigo Juliano Gauche e seu belíssimo disco Nas estâncias de Dzyan, Hélio Flanders [vocalista do Vanguart] com seu disco solo, Trupe Chá de Boldo veio com o álbum Presente, com canções alto astral, dançantes. Isso tudo vai virando dentro da minha cachola e acabou reverberando no Step psicodélico. Gravando esse disco, pensando nas referências gerais, de todos os tempos, eu acho que eu sou um ser humano em constante estado de psicodelia, eu realmente estou imerso dentro dessa sonoridade, me faz tão bem escutar discos assim. A canção Por esse rio acima, do Fausto, tem uma psicodelia fabulosa ali que não é a psicodelia sessentista, mas como os instrumentos estão lá, as vozes, o violão. Sei lá, eu amo isso mesmo.

Step psicodélico é coalhado de referências: Gal Costa, Lanny Gordin, Rogério Sganzerla, Ozualdo Candeias, Roberto Villar, Arnaldo Baptista. Como foi o processo de feitura do disco, desde a composição até a escolha do repertório?
Pois é, como eu disse, cinco canções nasceram em menos de 24 horas. Aliás, nesse dia eu ainda compus mais quatro que ficaram de fora, mas que, com certeza, lançarei num futuro breve. As referências de Outono à toa, minha parceria com o incrível amigo, compositor e pássaro da Boemia, Flavio Lima, ser afestanista e retrofuturista. Em 2007 ele colou em casa e me mostrou uma canção instrumental, eu cantei uma letra e melodia inteira nessa base instrumental… e ele foi embora. Alguns meses depois ele me liga e diz que a nossa música tinha ficado muito legal. Quando ele me enviou a gravação, estava tudo ali… a letra de Outono à toa foi composta automaticamente e conta uma história do menino que grava os discos da Gal Costa pra menina que ele gosta e eles vão ver um show do Lanny Gordin e depois vão ver um filme do François Truffaut… O último metrô e Atirem no pianista são filmes dele. Então, essa letra é um apanhado de coisas que eu tinha vivido de fato. E nesse exato momento escuto Velvet Underground, e Sunday morning e o primeiro álbum deles como um todo, me tocam profundamente até hoje. Em Luz no fim da tela, minha parceria com outro canário psicodélico, o mister Gustavo Galo, aí aparece o Ozualdo Candeias, a quem eu dediquei o Na loucura & na lucidez [2014, seu segundo disco solo] e o mestre Sganzerla, referência total eterna. Essa música que eu fiz com o Galo, a gente terminou mesmo, a letra e tudo, em dezembro do ano passado, nos encontramos em casa, tomando birita e proseando… e a letra fala que no fim nós somos curvas, não tem jeito, somos inquietos e quem anda torto não tem conserto… Aí eu chego finalmente em Roberto Villar, que aparece em Eu Inezito, parceria com meu amigo príncipe, o mister Juli Manzi. Eu amo os dois discos que o Roberto Villar gravou e tem dias que eu coloco esses discos e fico cantando e dançando sozinho aqui no apartamento e daí me lembro do meu pai, quando ele tomava umas a mais ele me ligava e ficava me mostrando pelo telefone as músicas que ele estava escutando em estado de epifania. Isso é muito bom!

Este terceiro disco de carreira traz um leque mais amplo de parceiros, um disco solo menos, digamos, solitário. Como se deu essa mudança?
É um disco de parcerias e de amizade, de confidentes da música. Conviver e gravar com Dustan Gallas, Junior Boca e Bruno Buarque me levou ao novo momento na minha vida e pude finalmente voar do jeito que eu sempre quis, porque eles são amigos que viajam juntos, a gente cria juntos os arranjos, é tudo coletivo e tudo parceria. E nesse disco a Julia Valiengo esteve presente total, cantamos juntos boa parte das canções e meus amigos de copo e de estrada estiveram juntos com a gente nessa festa: Peri Pane, Flávio Lima, Gustavo Galo, Juli Manzi, Bárbara Eugênia, Lenis Rino, arrudA e Ciça Goes.

Tatá Aeroplano solo, Frito Sampler, Jumbo Elektro, Cérebro Eletrônico, um requisitado dj na noite e um instrumentista bastante frequente em discos de amigos. Como é encarar e se dividir entre todas estas personas?
Confesso que isso tudo me deixa às vezes totalmente fora da casinha. Fico meio louco, mas com o passar do tempo fui acostumando a lidar com todas essas personas. Me inspiro no Fernando Pessoa e seus heterônimos. O ciclo do Jumbo Elektro foi muito intenso e bacana e acabou no Frito Sampler, assim como o ciclo com o Cérebro Eletrônico acabou também, não vamos mais lançar discos nem fazer shows. Com a chegada do Frito e meus trabalhos autorais, ficou humanamente inviável levar tantas bandas ao mesmo tempo, porque, apesar de ser maluco das ideias, eu vivo profissionalmente da música que eu faço, então foquei total no Frito Sampler, que é uma viagem incrível e me dá um prazer maravilhoso, e também nos meus discos autorais… Ah, o [segundo] disco do Frito está quase pronto e lanço ele em alguns meses… É muita coisa, e eu amo mesmo essa diversidade.

A banda que te acompanha neste Step psicodélico também é bastante concorrida, todo mundo toca com vários outros artistas, entre discos e shows. Como foi conciliar as agendas e o processo de gravação?
A gente sempre combina um período do ano onde nossas agendas estão mais tranquilas, que é no fim do ano… ou como foi o Step psicodélico, gravado em janeiro e início de fevereiro. A gente pega uma semana e vive o disco dia e noite. Isso é uma coisa muito boa, cada vez mais os discos demoram menos pra ficar prontos!

A faixa-título ecos de marcha e clima carnavalescos, com direito a “batom vermelho na boca dos meninos”, uma celebração à psicodelia, como entrega o título. A realidade brasileira, com seu momento político, ao contrário, parece não haver o que comemorar. Como você tem acompanhado os diversos retrocessos perpetrados neste campo?
Acompanho esse retrocesso com muito pesar e receio, mas tenho muita esperança na arte libertária. A música que eu crio, sinto que uma parte dela é libertária e exalta o estado de espírito conectado a isso. Agora vivemos um momento crucial em entender melhor isso tudo. Eu estive algumas vezes na Ocupação da Funarte em São Paulo, fiz uma apresentação com o Galo, o Gauche e o Peri, e tem muita gente mobilizada para combater esse tipo de político e política arcaica, opressora. As ocupações são incríveis nesse sentido. Sim, eu passo batom vermelho às vezes e às vezes saio na rua de peruca rosa pela cidade. É minha maneira de fazer política, não tenho o dom de escrever sobre política. Em Step psicodélico eu falo das casas noturnas de São Paulo, algumas foram lacradas como o Puxadinho, a própria “Nossa Casa” sofreu com isso, por conta de uma especulação imobiliária sem escrúpulo nenhum. Os caras não querem saber, eles querem fazer mais dinheiro, custe o que custar. E por isso eu canto: batom vermelho na boca dos meninos… Serralheria, Francisca, ciclovias… Eu quero mais! Ciclovias é o futuro total! Eu sou um andarilho do meu tempo, não tenho carro e nunca terei um, me conectei com a natureza, com existências que estão por aqui antes da gente, tudo isso me faz refletir e apontar para coisas novas. Estou terminando de ler A queda do céu do Davi Kopenawa [e Bruce Albert, Companhia das Letras, 2015; leia um trecho], eu recomendo que todos leiam esse livro o mais rápido possível: é um evangelho atual sobre como a gente não tem noção nenhuma do que anda fazendo por aqui. Eu sei que o momento é terrível, o que eu sei fazer desde pequeno é música, nunca pensei em fazer música para um mercado, e acho que a música nesse sentido, quando é feita dessa maneira livre, ela é um lance que entra dentro da gente e nos dá muita força pra lutar contra esses caras que chegaram no poder da maneira que chegaram.

Julia Valengo aparece em nove das 10 faixas, dividindo os vocais com você, repetindo experiências de Bruno Batista, em , com Dandara, e Marcelo Jeneci, em De graça, com Laura Lavieri, para citar nomes de sua geração. É uma tendência?
Pois é, eu a Julia nos amarramos na Banda do Mar, o disco do [Marcelo] Camelo com a Malu [Magalhães], escutamos bastante. Eu sempre pirei com o disco do John [Lennon] com a Yoko [Ono], o Double fantasy e eu a Julia já tínhamos feito um disco nesses moldes, o Aladins Bakunins do Frito Sampler. A gente já dividia uns vocais bem loucos e cantamos junto praticamente no disco inteiro. Foi natural, a gente tem um show que são dois erês, voz e violão. Lá cantamos Aventureiros, Cadente e tal… então levamos isso pro disco, buscamos umas vozes bem diferentes e nossas vozes combinam, timbram, às vezes não dá pra saber que é quem, vozes psicodélicas, que eu gosto tanto! A Julia foi uma presença incrível em Step, gravou comigo pacas, criou e assinou todo o projeto gráfico do disco. Fez as fotos, pensou locação e tudo mais.

O lançamento virtual de Step psicodélico aconteceu sexta-feira (27), em diversas plataformas virtuais, e o disco físico estará disponível a partir de semana que vem. Já há shows de lançamento agendados? E qual a perspectiva de apresentações no Nordeste, particularmente em São Luís do Maranhão?
Tenho muita vontade de tocar por aí, vamos tentar articular algo para São Luís em breve! O show de lançamento em breve vai pintar, estamos fechando os primeiros shows! O disco já está disponível para download no meu site e também está à venda no meu site.

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Ouça Step psicodélico no youtube: