Webster Santos, Luiz Cláudio, Josias Sobrinho e Ceumar, ontem (25), no Teatro Arthur Azevedo – foto: Zema Ribeiro
O primeiro dos dois shows que Ceumar traz à São Luís na circulação com que celebra seus 35 anos de música, realizado ontem (25), no Teatro Arthur Azevedo (o segundo é hoje, 26, às 18h) foi uma demonstração de que a música é uma profissão de fé, capaz de promover uma verdadeira comunhão entre os artistas no palco e a plateia.
Nesta havia de fãs de carteirinha a gente que ouvia Ceumar ou ia ao Arthur Azevedo pela primeira vez – caso da própria artista, que visita São Luís desde 2000, quando realizou por aqui show no saudoso Canto do Tonico, do álbum Dindinha, sua estreia, lançado no ano anterior. Já havia passado pelo Teatro João do Vale, pelo antigo Armazém, pela Ponta do Bonfim, entre outros.
Não à toa ela falou, no bate-papo com os interessados, após a apresentação, sobre os espíritos da arte, aludindo às muitas histórias que comporta um teatro secular como o Arthur Azevedo, merecidamente tido como um templo sagrado das artes. Ladeada por Webster Santos, que se revezou entre violões, bandolim e vocais, ao longo do show, ela lembrou também da importância de políticas públicas de cultura, como a bolsa Pixinguinha de Música, da Funarte, que permite momentos como este, com entrada franca.
Ceumar sobe ao palco descalça, “para se conectar melhor com a terra”, e começa pelas origens, com “Canção de Itanhandu” (Henrique Beltrão) e “Mãe” (Ceumar), para não esquecer e nos lembrar de onde vem. Vai ilustrando o show com memórias de acontecimentos marcantes de sua trajetória, alguns deles aprofundados durante a conversa posterior.
Os 35 anos ela conta não da estreia fonográfica, mas de quando se muda para Belo Horizonte e começa a ralar na noite. É nessa altura que conhece Zeca Baleiro, produtor de seu álbum de estreia, que lhe apresentou Webster Santos, o percussionista Luiz Cláudio (cujo pandeirão com vassourinhas é uma marca da sonoridade de Dindinha) e o cantor e compositor Josias Sobrinho, os convidados dos shows em São Luís.
Vai chamando um a um. Quando Webster entra, ouve-se ao longe o batuque de um bloco carnavalesco. Ele brinca: “eu sou baiano, combinei isso com eles”. O bom humor é uma das marcas da apresentação e da conversa.
Com os três no palco, um momento para celebrar Dindinha, desde à faixa-título, passando às composições de Josias gravadas por ela em sua estreia: o lelê “Rosa Maria”, com direito a dança dela e do autor, e a toada “As ‘perigosa’”, transformada numa balada em sua gravação.
Tal qual sua própria discografia, ao longo do show é difícil falar em ponto alto: Ceumar embevece a plateia sozinha, acompanhada e mesmo quando se projeta até a beira do palco e canta (e se faz acompanhar pelo público: “vocês lembram?”) à capela (e a gente canta junto o “Samba da utopia”, de Jonathan Silva).
Ceumar passeia pelo repertório de seus álbuns sempre ilustrando as canções com histórias. Por exemplo, “Achou!”, que deu título a seu álbum dividido com o violonista e compositor Dante Ozzetti. Ela ganhou a música dele e Luiz Tatit para participar de um festival da TV Cultura em que ficou com o segundo lugar.
Não faltaram “O seu olhar” (Arnaldo Antunes e Paulo Tatit), “Lá” (Péri), “Alguém total” (Dante Ozzetti e Luiz Tatit), “Cantiga” (Zeca Baleiro), “Boi de haxixe” (Zeca Baleiro), “Galope rasante” (Zé Ramalho), “Encantos de sereia” (Osvaldo Borgez) e “Silencia” (Ceumar), entre outras. E ela ainda leu alguns poemas de Ainda (Mórula, 2024), primeiro livro póstumo do poeta Celso Borges (1959-2023). Quando deixou o palco, após cerca de duas horas de show, e anunciou a conversa com o público, este pediu bis. Ela voltou acompanhada dos convidados e caíram no canto e dança em “Engenho de flores” (Josias Sobrinho).
Hoje tem mais. Não sei se é o mesmo show (nunca é!) na íntegra ou se há modificações no repertório e agora me pego em dúvida se o “mais um” gritado pela plateia era a saideira cantada ontem ou o bis de hoje, um show inteiro. “Olha pro céu”, como o Luiz Gonzaga (parceria com José Fernandes) que ela gravou na estreia (mas não cantou ontem), que até São Pedro colaborou ontem e não é por qualquer coisa que se perde show de Ceumar. Ainda mais de graça. Obrigado por mais uma chance! Depois não digam que eu não avisei.
Hamilton de Holanda e Mestrinho no palco do Festival Ilha Sinfônica, ontem (29) – foto: divulgação
Os telões que ladeavam o palco do Ilha Sinfônica mostraram: coreiras do Tambor de Crioula de Mestre Felipe dançando tango, enquanto Hamilton de Holanda (bandolim) e Mestrinho (sanfona) tocavam “Libertango” (Astor Piazzolla). A imagem sintetiza a proposta do festival, que juntou música clássica e música popular, com um elenco que uniu a Orquestra Ilha Sinfônica (formada por músicos ludovicenses para o evento) aos dois citados, expoentes em seus instrumentos, além de nomes já bastante conhecidos da cena local, incluindo o homenageado da noite, o cantor e compositor César Nascimento.
A apresentação de Hamilton de Holanda e Mestrinho, que pela primeira vez tocaram juntos em São Luís, começou com “Canto de Xangô” (Baden Powell e Vinícius de Moraes) e baseou-se no repertório de Canto da Praya (Deck, 2020), álbum que lançaram juntos. Em aproximadamente uma hora de apresentação, desfilaram temas como “Escadaria” (Pedro Raimundo), “Te Devoro” (Djavan) – juntos cantaram o refrão, para delírio da plateia –, “Drão” (Gilberto Gil) – cantada por Mestrinho –, “Afrochoro” (Hamilton de Holanda), “Evidências” (José Augusto e Paulo Sérgio Valle), que o público cantou a plenos pulmões, “Isn’t She Lovely” (Stevie Wonder) e “Palco” (Gilberto Gil). No bis, “Te Faço Um Cafuné” (José Abdon).
Antes da dupla, o Quarteto de Cordas da Orquestra Ouro Preto preparou o terreno. Hamilton de Holanda e Mestrinho ainda voltariam ao palco com a Orquestra Ilha Sinfônica, regida por Jairo Moraes e pelo regente convidado Rodrigo Toffolo (maestro da Orquestra Ouro Preto); o primeiro solou “Bela Mocidade” (Donato Alves) e o segundo, “Engenho de Flores” (Josias Sobrinho). A apresentação da orquestra marcou também o lançamento de “Valsa Ludovicense” (César Nascimento), disponível nas plataformas digitais desde 8 de setembro, aniversário de São Luís.
A Orquestra Ilha Sinfônica acompanhou artistas como Nosly (que cantou e tocou violão em “June”, parceria sua com Celso Borges), o idealizador e produtor do evento Emanuel Jesus (“Filhos da Precisão”, de Erasmo Dibell), Adriana Bosaipo (cantora (e compositora) talentosa que errou a letra de “Eulália”, de Sérgio Habibe) e César Nascimento, que se emocionou ao relembrar “Ilha Magnética”, já um clássico de sua autoria, e “Corêro” (Josias Sobrinho), que encerrou a noite da orquestra com todos os participantes cantando junto, no palco. O Bumba Meu Boi Unidos de Santa Fé, sob o comando de Zé Olhinho ainda se apresentaria.
O cerimonial anunciou que ano que vem tem mais, encerrando o mês de aniversário da capital brasileira do reggae, do bumba meu boi e do tambor de crioula. Tenho certeza que todos os presentes à praça lotada ontem (29) já aguardam ansiosos.
“A viagem no tempo é comprovada pela presença maciça de cabeças do século retrasado neste”. Em “As Aventuras de CavaloDada em + Realidades Q Canais de TV” (Pitomba!, 2013), o poeta Reuben cravou essa, certeira. Entre tantos temas aos quais ela pode ser aplicada, descriminalização do aborto e da maconha, entre eles, serve também para perguntar se alguém ainda mora no tempo em que era comum ouvirmos falar que em São Luís não acontece nada.
O fim de semana na ilha promete opções para todos os gostos. Confira o que vai rolar a partir de hoje.
DOIS COLETIVOS, UM SÓ FESTIVAL
Regiane Araújo e Núbia nas gravações de “Tirem as Cercas”, música da primeira. Reprodução
Hoje (29), a partir das 17h, no antigo Espaço Cultural (entre a Rua Coelho Neto – ou da Tapada – e a Praça Maria Aragão, Centro), acontece o festival Cadê o Circo na Piracema?, iniciativa em parceria dos coletivos Na Piracema das Mudanças Climáticas e Cadê o Circo?. O evento é grátis e terá a seguinte programação:
17h: Feirinha e Gilson César (mímico) 18h: Tambor da Lua 19h: DJ Pedro Sobrinho e O Circo Tá Na Rua 20h: Cordel com Rômulo 20h15: Marcos Magah 20h30: Walter 20h45: Luciana Simões 21h: Fauzi Beydoun 21h15: Josias Sobrinho 21h30: Luma Pietra 21h45: Nubia 22h: Regiane Araújo 22h15: Paulão 22h30: Beto Ehong e Siô Groove 22h45: Tarcísio Selektah 23h45: Adriane Bombom (performance) 0h: Lucía Santalices 0h15: Criola Beat
SARAU DE ESTICA DE ANIVERSÁRIO
O cantor e compositor Tutuca Viana. Reprodução
Hoje (29) acontece a primeira edição de Um Sarau Para São Luís. O evento, gratuito, é uma extensão das comemorações pelos 411 anos da capital maranhense, completados no último dia 8 de setembro. A festa acontece na Praça dos Catraieiros, na Praia Grande, e começa às 19h. As atrações são, em ordem alfabética, Gerude, Mano Borges, PP Júnior, Roberto Ricci, Ronald Pinheiro e Tutuca Viana.
SAMBA, CHORO E OUTRAS BOSSAS
Projeto mensal da Fundação da Memória Republicana Brasileira (FMRB), sediada no Convento das Mercês (Rua da Palma, Desterro), órgão vinculado à Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão, o Samba, Choro e Outras Bossas chega hoje à sua sexta edição. A premissa é simples: acompanhados de formações instrumentais diversas, os artistas aniversariantes do mês desfilam um repertório formado por músicas dos gêneros que batizam o evento. Começa às 19h e acontece no pátio interno do Convento das Mercês, com entrada gratuita. As atrações de hoje são, em ordem alfabética, Ana Tereza Cunha, Elder Ferreira, Emanuele Paz, Eraldo Ébano, Gisele Padilha, Inácio Pinheiro, Mariana Rosa, Ribão d’Oludô, Rose Maranhão, Ticiana Duailibe e Victor Hugo, acompanhados pelos grupos Roberto Chinês Quarteto e a Banda “Choro, Samba e outras bossas”.
FESTIVIDADE PARA XANGÔ
“Xangô”. Aquarela de Carybé, 1950. Acervo Museu de Arte da Bahia. Reprodução
Hoje (29) tem Candomblé e amanhã (30) Tambor de Mina para o orixá, às 21h. Na Casa Fanti-Ashanti (Rua Militar, 1158, Cruzeiro do Anil). Entrada franca.
RÁDIO DAS TULHAS
Evento semanal comandado pelos djs Ayawo Noleto e Victor Hugo, a programação gratuita acontece todos os sábados, de meio-dia às 18h, na Feira da Praia Grande. Neste sábado (30), homenagem a Nonato e Seu Conjunto, com a participação especial da DJ Vanessa Serra.
ILHA ROCK
O single “Angry” anuncia “Hackney Diamonds”, primeiro álbum de inéditas desde “A Bigger Bang” (2005), que os Rolling Stones lançam em outubro, com o beatle Paul McCartney tocando baixo em uma faixa
A quarta edição do Ilha Rock Festival acontece neste sábado (30), a partir das 15h, no Residencial Recepções. A produção é do compositor e multi-instrumentista Chiquinho França. Informações e ingressos pelo telefone (98) 99181-3960. Serão 11 bandas maranhenses em 16 tributos a nomes do pop rock nacional e internacional. A programação tem as seguintes bandas (covers de):
15h30: Connection (The Rolling Stones) 17h: Colt (Evanescence e Pitty) 18h: Jamilson Jackson (Michael Jackson) 19h: Paquetá (Los Hermanos) 20h: Duas Tribos (Legião Urbana) 21h: Vertigo (Queen) 22h: General Purpose (Pink Floyd e Pearl Jam) 23h: Ramirez Costa (System of a Down e Red Hot Chilli Peppers) 0h: Luciano Priss (Coldplay e U2) 1h: Powerslave (Iron Maiden) 2h: Móbile (AC/DC e Charlie Brown Jr.)
III REXISTÊNCIA FEST
O coletivo Ponto BR. Da esquerda para a direita, em pé: Ribinha de Maracanã, Thomas Rohrer, Mestre Walter França, Henrique Menezes e Éder O Rocha; sentadas: Renata Amaral e Dona Zezé de Iemanjá. Foto: divulgação
Iniciativa do Coletivo Resistência Cultural Upaon-Açu, o Re(o)cupa, o evento marca o encerramento do setembro amazônico em São Luís. É um festival de música que busca pensar questões como a preservação ambiental em geral e da Amazônia em particular. A programação é gratuita e começa ao meio-dia, neste sábado (30), no Parque do Rangedor. As atrações são as seguintes:
12h: DJ Adriano Sounds (Palco Amazônia é Agora; em itálico as atrações deste palco) 12h40: Grupo Pau Doido Forró In Jazz (Palco Rexistência) 13h30: Samba de Mina homenageia Patativa 14h20: Regiane Araújo e Raiz Tribal 15h20: Batalha na Praça Entrada 1 16h: Paulão 16h50: Batalha na Praça Entrada 2 17h30: Lombreta 18h20: Ballroom MA 19h: Ponto BR 20h: Selekta Rocha, Mr. Adnon e Biodz 20h30: Cofo de Parafernalha 21h20: Selekta Rocha, Mr. Adnon e Biodz 21h50: BNegão
TOTTI NA COZINHA
Totti Moreira durante sua apresentação no sarau RicoChoro ComVida (2021). Foto: Zeqroz Neto. Acervo RicoChoro ComVida
O cantor e compositor Totti Moreira apresenta repertório de música popular e swing brasileiros, forró e reggae. É neste sábado (30), a partir das 20h11, na Amabile Cozinha (Rua Projetada, 17, Solar dos Lusitanos, Turu). O couvert artístico individual custa R$ 10,00.
+ BONUS TRACKS
O IMORRÍVEL VOLTA À ILHA
O cantor e compositor Di Melo em sua apresentação em São Luís no Festival BR-135 (2016). Foto: Marco Aurélio/BR-135
Dia 7 de outubro tem show de Di Melo, O Imorrível, no Secreto Bosque (Rua G, Jardim Atlântico, Turu). A programação começa às 17h e o evento terá ainda como atrações o Trio Tropix, Adriano B2B Felix, Filtro de Barro, Paulão, Lucas Ló, Nicole Leal e Dicy. Ingressos à venda neste link.
MENINO EM FÚRIA NA ILHA
O cantor, compositor e escritor Clemente, lenda viva do punk brasileiro. Foto: divulgação
No sábado seguinte (14), “dia do eclipse eu vendi meu ray-ban” (Cesar Teixeira), é a vez de Clemente, lenda viva à frente dos Inocentes, há algum tempo também na Plebe Rude. O músico se apresenta no Ilê Pub Terrasse (Rua Boa Esperança, 153, Turu). A abertura é da Tenessí. “Mesas mediante reserva antecipada”, informa o perfil da casa no instagram. Ingressos e informações pelo telefone (98) 98138-8081.
O Quinteto Villa-Lobos. Foto: Daniel Ebendinger/ Divulgação
O Festival Música na Estrada, em sua nona edição, chega à São Luís entre os dias 17 e 19 de outubro. A programação inclui um workshop de dança, ministrado pelo professor Cesar Cirqueira, bailarino da Cisne Negro Companhia de Dança, na sala de dança do Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro). Nos três dias do festival acontecem oficinas de música com Rubem Schuenck (flauta), Cristiano Alves (clarineta), Philip Doyle (trompa) e Miguel Campos Neto (regente), na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Iema/Emem, Rua da Estrela, 363, Praia Grande). As inscrições para as oficinas são gratuitas e devem ser feitas no site do projeto. Haverá certificação ao final.
Dia 18 de outubro o programa da Cisne Negro inclui as apresentações de “Ziggy – Tributo a David Bowie” (2016) e “Trama” (2011). Dia 19 o Quinteto Villa-Lobos celebra seus 60 anos de trajetória, com um repertório de Ronaldo Miranda, Edino Krieger (1928-2022), Heitor Villa-Lobos (1887-1959), Hermeto Pascoal e Radamés Gnattali (1906-1988). As apresentações acontecem às 20h, no TAA, com retirada de ingressos gratuitos duas horas antes do início de cada sessão.
O sublime encontro de Chico César com o Bumba meu boi do Maracanã. Fotos: Laila Razzo. Festival Zabumbada/ Divulgação
A entrada triunfal de Chico César no palco do Festival Zabumbada, encerrando a primeira noite do evento, foi uma espécie de síntese da emoção. Ao término da apresentação do Bumba meu boi de Maracanã, ele adentrou ao palco entoando “Sereia linda de Cumã”, composição do saudoso mestre Humberto, que o batalhão registrou com a participação do paraibano em “Aldeia Tupinambá” (Zabumba Records, 2020), consistente tributo ao pai de Ribinha, cujo legado está sendo preservado e levado adiante com louvor pelo herdeiro.
A Praça das Mercês exalava afeto. “A vida é a arte do encontro”, como nos ensinou o poeta, mas a pandemia de covid-19 fez ter mais sentido do que nunca o “embora haja tanto desencontro nessa vida”.
Se o encontro do paraibano com o bumba meu boi do Maranhão não era inédito, seja pela citada participação em disco, seja por sua própria trajetória, como fez questão de demonstrar ao cantar “Folia de príncipe”, vê-lo no palco é uma experiência única, o que faz valer o dito “fez valer o ingresso”, mesmo em se tratando de evento gratuito, realizado com patrocínio do Instituto Cultural Vale, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura.
Chico César fez um show vibrante, passeando por diversas fases de seus quase 30 anos de carreira, isto se contados a partir da estreia fonográfica com “Aos vivos” (Velas, 1995), de cujo repertório pinçou “Beradéro”, com que abriu o espetáculo acompanhado por sua banda. Foi aplaudido em peso quando cantou o verso “e a cigana analfabeta lendo a mão de Paulo Freire”, que cita o pedagogo inimigo número um do regime bolsonarista.
À sua “Mama África” emendou “Brilho de beleza” (Nego Tenga) e “Pra não dizer que não falei das flores” (Geraldo Vandré), não o único medley da noite. Assisti ao show inteiro (e de resto à toda a primeira noite de festival) ao lado do compositor Chico Saldanha, amigo e parceiro que conheceu e conviveu com Chico César quando ele e Zeca Baleiro iniciavam o desbravar das veredas do sucesso na pauliceia desvairada. Saldanha chegou a gravar vocais na primeira versão de “Mama África”, que permaneceu inédita. “Mas era impossível não perceber que aquilo faria tamanho sucesso”, confidenciou-me.
Em “À primeira vista” trocou intencionalmente os nomes de Prince e Salif Keïta da letra original pelos de Zeca Baleiro e Rita Benneditto, numa reverência a seus pares maranhenses de geração. Outro medley de destaque foi “Da taça” com “Onde estará o meu amor” e “Diana”, versão de Fred Jorge para a música de Paul Anka, sucesso de Carlos Gonzaga. Chico César é, também, um liquidificador de referências.
Momentos de euforia da plateia também se deram quando ele cantou “Pedrada” (do refrão “fogo nos fascistas, fogo Jah!”), lembrando tê-la cantado pela primeira vez em público em cima de um trio elétrico no circuito carnavalesco da avenida Beira-Mar, no Centro de São Luís, em 2019, antes de lançar o disco “O amor é um ato revolucionário” naquele mesmo ano. E quando cantou “Bolsominions são demônios”, inédita que vem fazendo a cabeça de muita gente e causando polêmica, fez o público de ontem gritar “fora Bolsonaro!” e cantar “olê, olé, olé, olá, Lula, Lula!”.
Várias vezes Chico César (voz, guitarras e violões) reafirmou “lugar de mulher é onde ela quiser”, uma delas ao apresentar a baixista Lana Ferreira. Para viver em “Estado de poesia”, sua banda se completava com Helinho Medeiros (teclados), Gledson Madeira (bateria), Sintia Piccin (sopros) e Richard Fermino (sopros).
Como maranhense honorário, o paraibano de Catolé do Rocha Chico César sentia-se em casa e parecia não querer sair do palco. Sorte a nossa! Entre “Mand’ela” e “Pedra de responsa”, parcerias com Zeca Baleiro, entre muitas outras jóias de seu repertório, a exemplo de “Deus me proteja” (2008), gravada com a adesão de Dominguinhos, por ele lembrado ontem, e “Dúvida cruel”, parceria com Itamar Assumpção, nem precisou o público pedir bis para o show ter chegado bem perto de duas horas de duração (“Violivoz”, com Geraldo Azevedo, a que assisti em abril passado, durou 2h15).
Não vi inteira a primeira noite do festival – e ainda estou aqui escrevendo enquanto as atrações da segunda já começaram a se apresentar. Hoje encerra com Dona Onete e amanhã com Mariana Aydar, veja a programação completa no instagram @festivalzabumbada.
Mas outros pontos da noite de ontem merecem destaque.
A exuberância do Bumba meu boi da Floresta de Mestre Apolônio e as toadas de protesto do Bumba meu boi da Fé em Deus, traduzindo no ritmo das zabumbas que emprestam o nome ao festival a trágica realidade brasileira. Tudo isso (e mais um pouco) entremeado pela discotecagem sempre atenta e antenada da dj Vanessa Serra.
A participação especial de César Nascimento no show do Criolina, marcando o encontro, no palco, dos autores de “Maguinha do Sá Viana”, de César e Alê Muniz, reggae que se tornou um clássico da música popular brasileira produzida no Maranhão. O Criolina, Luciana Simões (voz), Alê Muniz (voz e guitarra), era acompanhado por Erivaldo Gomes (percussão), Sarah Byancchi (saxofones), João Simas (guitarra), Davi Oliveira (baixo), Sandoval Filho (teclado e programação) e Thierry Castelo (bateria), além da performance da atriz Áurea Maranhão.
O Criolina fez um show diverso, aliando covers e repertório autoral, com destaque para “A menina do salão” e “O santo”, juntando xote e reggae, a demonstrar a proximidade entre as células rítmicas dos dois gêneros, transformando João do Vale em regueiro e Bob Marley em uma espécie de Luiz Gonzaga, evoé, Gilberto Gil! Certas coisas só entende quem presencia. Novamente vamos passear na praça, evoé, Luiz Melodia!
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Perdeu ou quer ouvir de novo? O Balaio Cultural de hoje (9), na Rádio Timbira AM, dedicou a maior parte de sua programação musical às atrações do Festival Zabumbada:
Mavi Simão anuncia os vencedores do Maranhão na Tela 2018. Foto: Ascom/ Maranhão na Tela
Terminou ontem o 11º. Maranhão na Tela. Este ano o festival concentrou suas atividades de exibição em duas salas do complexo Kinoplex, no Golden Shopping, Calhau, em cuja praça de alimentação aconteceram debates, como “Lugar de mulher é no cinema”, de que participaram a atriz e diretora Aurea Maranhão, a diretora e produtora Mavi Simão, e a diretora Rose Panet, sob mediação da jornalista e escritora Andréa Oliveira, e o bate-papo com os diretores Lírio Ferreira e Paulo Caldas, mediado pelo poeta e jornalista Celso Borges, após a sessão que exibiu versão remasterizada de Baile perfumado (1996).
Esse deslocamento geográfico gerou críticas ao festival nas redes sociais. De minha parte, gosto de pensar em duas questões: a comprovada qualidade das exibições e a possibilidade, a um estudante de escola pública ou a um morador de periferia, sobretudo quem nunca esteve em um cinema, fazer sua estreia logo em uma sala luxuosa, sem pagar ingresso, o que se tornou realidade para muita gente.
Idealizadora e produtora do Maranhão na Tela, Mavi Simão canta uma vez por ano, justamente na festa de encerramento do festival, que ontem ocupou o Fanzine, na Av. Beira-Mar, Centro. Antes, ela mesmo anunciou e entregou os troféus aos vencedores das mais diversas categorias.
Fiz um esforço para tuitar em tempo real, mas por lerdeza, algum grau de mouquidão, lentidão na internet, por vezes, e às vezes tudo isso junto, vacilei na cata de alguns nomes.
A atriz e diretora Patrícia Niedermeir e o diretor e montador Christian Caselli formaram o júri para longa-metragem; videoclipes foram julgados pelo diretor Lírio Ferreira e a produtora cultural Luciana Adão; e curta-metragem pelo curador e produtor Breno Lira Gomes e o técnico Carlos Henrique Santos, da equipe de formação audiovisual do Centro Técnico Audiovisual (CTav), órgão vinculado à Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura (MinC).
Além dos troféus, baseados na obra do artista Walter Sá, em que se apoiou toda a identidade visual do festival este ano, os melhores filmes e videoclipes ganharam horas de aluguel de equipamentos e mixagem no CTav. Eis a relação completa dos vencedores:
MOSTRA NOSSO CINEMA
Longa-metragem
Melhor atriz: Keila Gentil, Para ter onde ir
Melhor ator: Aldo Leite (homenagem póstuma), No palco com Aldo Leite
Melhor atriz coadjuvante: Joelma Maestrini, Aurora – O encontro dos pólos
Melhor direção de fotografia: Beto Martins, Para ter onde ir
Melhor ator coadjuvante: Fabio Lima, Aurora – O encontro dos pólos
Idealizadora e realizadora do festival, Mavi Simão conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos
Um dos seis trabalhos em óleo sobre papel cartão do artista maranhense Walter Sá que compõem a identidade visual do festival. Reprodução
A 11ª. edição do festival Maranhão na Tela acontecerá entre os dias 15 a 24 de novembro, e acontecerá, entre sessões e rodadas de negócios, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), Centro Cultural Vale Maranhão (Praia Grande) e Kinoplex Golden (Golden Shopping, Calhau).
As inscrições para as mostras competitivas – gratuitas – e para as rodadas de negócios – entre R$ 70 e 100 – serão abertas amanhã (10), no site do festival.
A realização de mostras em uma sala de uma grande rede de cinemas é uma das novidades do Maranhão na Tela, cuja origem remonta a 2006, idealizado pela cineasta Mavi Simão e realizado pela Mil Ciclos Filmes.
Com a atriz Áurea Maranhão (E), a diretora Mavi Simão no set de Terminal Praia Grande, seu primeiro longa, em fase de finalização. Foto: divulgação
“Sobre a exibição nas salas Kinoplex, o que mais pesou para decidirmos foi a questão da qualidade de exibição, essa é uma enorme prioridade para qualquer festival. Infelizmente, o Cine Praia Grande, espaço pelo qual tenho imenso carinho, não possui a estrutura exigida para a projeção de muitos dos filmes que queremos exibir, mas ainda teremos boa parte da programação nesse espaço tão importante para o cinema maranhense e para o Maranhão na Tela. Também acho importante exibir os filmes locais, agora regionais, com o que se tem de melhor em termos de qualidade. Para os realizadores isso faz toda a diferença. A rede Kinoplex também foi muito aberta a essa parceria, que é inédita até pra eles, já que conseguiremos manter a entrada gratuita. Estou louca para ver a reação dos estudantes da rede de ensino público, assistindo filmes deitados em poltronas reclináveis da sala Platinum. Grande parte dessas crianças e jovens estão indo ao cinema pela primeira vez, imagina que experiência inesquecível”, comenta Mavi.
Sobre as rodadas de negócios, ela afirma: “esse é um sonho muito antigo e de grande importância para o fomento à produção maranhense. Trata-se de uma iniciativa com foco na geração de negócios, ou seja, uma ação que vai contribuir de fato para que projetos saiam do papel e, consequentemente, para que o nosso mercado se desenvolva. Serão dezenas de convidados entre executivos de canais de TV, grandes produtores, distribuidoras, entre outros profissionais, além de representantes da Ancine [Agência Nacional do Cinema], do Sicav [Sindicato da Indústria do Audiovisual] e da Bravi [Brasil Audiovisual Independente, associação que congrega mais de 600 produtoras no país]. Outra novidade importante é a ampliação do projeto para as regiões Norte e Meio Norte. A partir de 2018, o Maranhão na Tela estende suas ações para mais oito estados. Seremos uma janela de visibilidade e fomento desse mercado que hoje é o que menos produz no Brasil”.
Mavi não antecipou títulos ou cineastas que participarão desta edição do festival, nem homenageados. “Já estamos trabalhando para fechar os homenageados, mas ainda não temos os nomes confirmados. A curadoria dos filmes convidados está começando a ser feita agora. Nessa fase ainda não temos o detalhamento da programação”, declarou.
Ela é otimista quanto ao atual momento do cinema produzido no Maranhão. “O cinema maranhense vive seu melhor momento. Parte disso é fruto da seleção de realizadores maranhenses em chamadas do Fundo Setorial do Audiovisual [FSA], mas também da Escola de Cinema do Maranhão [vinculada ao Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão, IEMA] e do edital lançado pelo Governo do Estado em 2015, em parceria com o FSA. Esse edital injetou 3 milhões de reais na economia da cultura do audiovisual maranhense, por isso, é fundamental que essa seja uma política pública continuada. Naquela ocasião o FSA entrava com recursos na proporção de 2/1, hoje eles entram com 5/1. É um recurso muito significativo! Se esse edital for realizado anualmente, nosso cinema vai para o alto e além”, finaliza.
Músico falou ao blogue sobre influências, carreira e o show de hoje (18) no 10º. Lençóis Jazz e Blues Festival
Jacob Black. Capa. Reprodução
Reinventor do bandolim, o brasiliense Hamilton de Holanda traz hoje a São Luís o show Jacob Black, cuja base do repertório é um dos quatro discos que dedica a Jacob do Bandolim no ano de seu centenário – os outros são Jacob 10zz, Jacob Bossa e Jacob Baby.
No 10º. Lençóis Jazz e Blues Festival ele sobe ao palco da Concha Acústica Reinaldo Faray (Lagoa da Jansen), às 21h20, depois de Pedro Figueiredo e Samuca do Acordeon, e antes de Ed Motta – veja a programação completa.
Hamilton de Holanda (bandolim 10 cordas) estará acompanhado de Rafael dos Anjos (violão) e Bernardo Aguiar (percussão). Já apontado como o Hendrix do bandolim ele nega a referência em entrevista exclusiva a Homem de vícios antigos: está mais para Armandinho Macedo.
Foto: Felipe Diniz
Você está chegando de uma turnê com três discos. Como é administrar essa diversidade de parceiros e formações? Isso vem em função do artístico, as coisas, as ideias, os encontros, as composições. O show que eu vou fazer em São Luís está muito ligado ao disco que está sendo lançado hoje, que se chama Jacob Black. É um dos quatro discos que eu estou fazendo em homenagem a Jacob do Bandolim. Este é um disco que tem um lado mais ligado à percussão, a características afro da música, foi gravado com dois percussionistas, o Thiago da Serrinha, o Luiz Augusto e o Rafael dos Anjos no violão. Em São Luís eu vou fazer com o Rafael dos Anjos e o Bernardo Aguiar na percussão. A gente vai fazer um show mais ligado a este repertório, mas vou fazer músicas minhas também, Caprichos, muito ligado também à improvisação, a gente gosta muito de improvisar. É tudo em função do artístico, as coisas que vão acontecendo, os encontros, e no final das contas eu acabo que tenho uma porção de discos, mesmo. Eu tenho 40 anos de idade, mas já tenho mais de 30 discos gravados e não paro. E vou fazendo cada vez mais, não quero parar.
Jacob é até hoje considerado a grande referência do bandolim no Brasil, mas você reinventa o instrumento. Há um passo adiante aí quando você coloca duas cordas a mais. Como é que foi esse processo de invenção, esse estalo? E a aceitação, por que você acaba, a partir disso, influenciando outros bandolinistas. Na verdade, por incrível que pareça, a ideia veio do violão. Quando eu comecei a estudar violão, o universo da harmonia, dos acordes, isso me encantou de uma maneira definitiva. Eu fui aprendendo, tirava as músicas do João Gilberto, as harmonias do Tom Jobim, umas coisas assim de MPB e começava a tentar passar para o bandolim. E começava a tentar fazer aquilo que a gente chama de polifonia, misturando ritmo, harmonia e melodia. Eu via um violão, às vezes um pianista tocando, um acordeonista, tocando aquela coisa cheia, completa, e queria fazer no bandolim também. Daí tive a ideia, pedi para um amigo fazer um bandolim de 10, com um par de cordas mais graves, por que aí eu teria mais possibilidade de fazer essa polifonia. Foi daí a ideia. Isso foi desenvolvido com tempo. Em 2000 foi o ano que ele fez, o Virgílio Lima. No começo de 2002 eu me mudei pra França, fui morar sozinho, aproveitei, desenvolvi um monte de coisas, arranjos, compus músicas especialmente para o 10 cordas, foi um momento que eu desenvolvi bastante um tipo de linguagem para esse bandolim. Na verdade dentro dele também tem o de oito cordas, é um instrumento que você pode tocar as músicas do bandolim de oito cordas como um bandolim de oito cordas, só que ele tem esse recurso. Realmente, hoje em dia, 18 anos depois, eu vejo que muitos músicos estão tocando o bandolim de 10 cordas, alguns que tocavam o de oito passam para o de 10, alguns já aprendem direto o de 10, alguns guitarristas, já vi um monte de guitarristas que adora o bandolim de 10 cordas, não só no Brasil, como em outros países. Eu fico muito feliz de ter contribuído para o bandolim brasileiro.
Você vem obviamente da escola de Jacob do Bandolim, mas já foi considerado pela crítica como o Hendrix do bandolim. Mas a gente sabe que essa fórmula Jacob mais Hendrix é igual a Hamilton de Holanda não é suficiente para te explicar. Quem mais você colocaria no caldeirão de referências e influências? O Hendrix eu não colocaria, por que ele não me influenciou em nada. Eu o conheci depois, bem depois. Se tem alguém que me influenciou com esse tipo de pegada foi o Armandinho, a influência que eu tive do Hendrix foi pelo Armandinho. Acho que é mais um apelido por alguma coisa relacionada ao instrumento, não à música em si. Eu colocaria o próprio Armandinho, o Raphael Rabello talvez tenha sido o cara que mais me influenciou, o Hermeto Pascoal, o Baden Powell, as composições de Milton Nascimento, do Tom Jobim, do Chico Buarque, os chorões, as músicas mais antigas, o Ernesto Nazareth, adoro jazz, adoro a música flamenca, o Paco de Lucia, me ligo em músicas da Venezuela, fui muito influenciado pela música da Venezuela. A minha maneira de ver a música é realmente plural. Eu tenho a minha língua, assim como nascido no Brasil, eu falo português, é a minha língua mãe, eu aprendi a falar inglês, francês, espanhol, eu aprendi a tocar jazz, a tocar flamenco, são outras linguagens. Mas a minha linguagem materna é o choro, então eu tenho essa possibilidade de ter a minha raiz, a minha árvore, que é o choro, o samba, o frevo, meus pais são pernambucanos, mas meus braços e meus galhos vão crescendo pra lados que eu gosto de conhecer. Eu gosto de música, sou curioso, gosto de conhecer. Por isso minha música tem essa cara, como um Brasil que vai pro mundo.
Você está vindo a São Luís com o show de um disco em homenagem a Jacob do Bandolim, que é um grande nome do choro. São Luís acabou se configurando como uma importante praça de choro, ao lado de Recife, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília. O que você conhece de música do Maranhão em geral e de choro particularmente? De choro particularmente eu conheço o Robertinho Chinês, e outro dia eu vi um vídeo do Wendell Cosme, quebrando tudo, muito bom, muito bom, adorei. Eu sei que aí tem uma cena forte, meu amigo das antigas João Pedro Borges, violonista. Ontem mesmo eu estive com a Marrom [a cantora Alcione], no Prêmio da Música [Brasileira], minha amiga. Hoje eu quero conhecer mais gente aí.
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Ouça A ginga do Mané (Jacob do Bandolim), com Hamilton de Holanda:
Três releases de três eventos assessorados pela parceira Vanessa Serra com este que vos perturba. Para você que acha que nada acontece em São Luís ou que reclama que quando fica sabendo já aconteceu ou que acha que o blogueiro anda distante deste terreninho, onde já é possível ver o capim verdejar. Como dizemos este que vos perturba e a companheira de bancada Gisa Franco, na Agenda Cultural do Balaio Cultural, na Rádio Timbira (que completou 77 anos ontem, 15): “para você não ficar perdido”.
SABOR DE BIS
Após sucesso do Circuito Barreirinhas, é grande a expectativa para a continuação do 10º. Lençóis Jazz e Blues Festival em São Luís, este fim de semana
O sucesso de público do circuito Barreirinhas – mais de 6 mil pessoas ao longo dos três dias de programação (tenha uma ideia de como foi aqui, aqui e aqui) – celebrou à altura a marca de 10 edições do Lençóis Jazz e Blues Festival. Quem esteve na Avenida Beira-Rio, onde o palco foi armado, pode presenciar um desfile de talentos e shows emocionantes, além da exposição fotográfica comemorativa (vista por mais de 600 pessoas), que traça um rico painel dos artistas que já passaram pelo palco do festival – e que também poderá ser conferida em São Luís, este fim de semana (dias 17 e 18 de agosto).
É quando acontece o Circuito São Luís, que terá como palco a Concha Acústica Reinaldo Faray (Lagoa da Jansen), além do Palco Mundo, montado na área externa da concha. Uma vasta programação promete agitar a sexta (17) e o sábado (18) da capital maranhense. Não faltam motivos para comemorar.
Atrações – Além das 10 edições do festival idealizado e produzido por Tutuca Viana, por exemplo, o público poderá cantar o “parabéns a você” a João Donato, um dos papas da bossa-nova. O acriano radicado no Rio de Janeiro completa 84 anos de idade exatamente no dia em que toca no Lençóis Jazz e Blues Festival: o pianista é uma das atrações da primeira noite, na sexta-feira (17), ocasião em que se apresentam ainda o gaitista brasiliense Gabriel Grossi e a cantora carioca Taryn Szpilman.
As apresentações do palco principal começam às 20h15. O Palco Mundo antecede-o, com início às 18h. Na sexta-feira (17), quem abre a programação é o bandolinista e cavaquinhista maranhense Wendell Cosme, que apresentará seu projeto “Ritmos e Sons”. Na sequência, também no Palco Mundo, se apresenta o grupo Norjazztinos, formado por Henrique Duailibe (teclado), Nataniel Assunção (bateria), Edinho Bastos (guitarra) e Davi Oliveira (contrabaixo). A programação deste palco paralelo volta após o encerramento dos shows do palco principal, às 23h30, com o blues de Dário Ribeiro, seguido do projeto Movimento Cidade, com os djs Neiva e Félix.
Entorno – Além do Palco Mundo, o entorno da praça também movimentará a exposição fotográfica comemorativa dos 10 anos do Lençóis Jazz e Blues Festival, a Feira da Lagoa, com exposição e comercialização de artesanato produzido no Maranhão, e a Feira Gourmet, com a presença de várias lanchonetes da capital maranhense, colocando um cardápio variado à disposição do público.
O Quarteto Crivador. Foto: divulgação
Sábado – A segunda noite ludovicense do festival terá como atrações, no Palco Mundo, antes dos shows do palco principal, a partir das 18h, o Quarteto Crivador – formado por Marquinhos Carcará (percussão), Rui Mário (sanfona), Wendell de la Salles (bandolim) e Júnior Maranhão (ex-Luiz Jr., violão sete cordas) – e o violonista piauiense Josué Costa. E fechando a noite, o blues de Daniel Lobo, seguido, novamente, dos djs do projeto Movimento Cidade.
Em meio a tudo isso, o palco principal apresenta, a partir das 20h15, os gaúchos Pedro Figueiredo e Samuca do Acordeon, seguidos por Hamilton de Holanda e o “Baile do Flashback”, de Ed Motta.
Formação – Marca dos 10 anos de Lençóis Jazz e Blues Festival é a preocupação com o caráter formativo do evento. 140 pessoas passaram, nesta edição, pelas oficinas oferecidas em Barreirinhas. Em São Luís serão realizadas duas oficinas e uma palestra. Na sexta-feira (17), das 9h às 12h, na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem), o acordeonista Samuca do Acordeon ministra a oficina “GPS da Roda de Choro”; também na sexta-feira, das 15h às 18h, no mesmo local, é a vez do flautista e saxofonista Pedro Figueiredo ministrar a oficina “’Tecniquês’ para músicos – técnicas de sonorização e gravação de instrumentos e voz”. As inscrições podem ser realizadas pelo site do festival – endereço em que também pode ser acessada sua programação completa, inteiramente gratuita – recomenda-se a quem quiser, a doação de alimentos não perecíveis, cuja arrecadação será revertida em favor da Creche Caminhando com Cristo, do Parque Jair.
Extra – No dia 23 (quinta-feira), às 16h, acontecerá a palestra “Música e deficiência visual: dificuldades e superações”, ministrada pelo pianista, arranjador, compositor, cantor e publicitário Henrique Duailibe. A palestra será realizada no auditório da Uemanet, no Campus da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA).
Realização de Tutuca Viana Produções, o 10º. Lençóis Jazz e Blues Festival tem patrocínio da Companhia Energética do Maranhão (Cemar), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, e do Banco do Nordeste e Potiguar, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), e apoio de Sesc, Prefeituras de São Luís e Barreirinhas, Fiema/Sesi, Sebrae, FotoSombra, Tory Brindes e Clara Comunicação.
Serviço
O quê: 10º. Lençóis Jazz e Blues Festival – Circuito São Luís Quem: várias atrações, no Palco Principal e Palco Mundo Quando: dias 17 e 18 de agosto (sexta e sábado), às 18h Onde: Concha Acústica Reinaldo Faray (Lagoa da Jansen) e área do entorno Quanto: grátis Patrocínio: Companhia Energética do Maranhão (Cemar), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, e Banco do Nordeste e Potiguar, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet)
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JUVENTUDE E “ESTÉTICA DIFERENTE” MARCAM PRÓXIMA EDIÇÃO DE RICOCHORO COMVIDA NA PRAÇA
Segunda edição da temporada 2018 acontece dia 25 de agosto (sábado), às 19h, na Praça da Igreja do Desterro (Centro histórico), com o dj Joaquim Zion, Mano’s Trio e Ivan Sacerdote
Após o sucesso da edição inaugural, são grandes as expectativas para a segunda edição da temporada 2018 do projeto RicoChoro ComVida na Praça, que acontece dia 25 de agosto (sábado), na Praça da Igreja do Desterro (Centro histórico).
O que já é bonito vai ficar ainda mais. Estamos falando, é claro, do cartão postal da secular igreja, que ganhará por uma noite, além da moldura de paralelepípedos e azulejos, a moldura musical de um verdadeiro desfile de talentos, uma constelação de craques das notas musicais.
O dj Joaquim Zion. Foto: divulgação
A noite começa com o dj Joaquim Zion, nome quase sempre vinculado à cena reggae, mas também profundo conhecedor de música brasileira, sobretudo das raízes negras que ajudaram a fundar e consolidar a riqueza da tradição de nossa música popular. Esta vertente é parte do que ele pretende mostrar, a partir de sua coleção de vinis, durante sua apresentação.
O Mano’s Trio. Foto: StudioA (Taciano Brito e Carolina Jordão)
O grupo anfitrião da noite é o Mano’s Trio, formado pelos jovens Wesley Sousa (teclado), Mano Lopes (violão sete cordas e voz) e Fofo Black (bateria), cujos talentos são inversamente proporcionais à média de idade do trio.
O grupo promete um passeio pelo Choro e pelo cancioneiro popular brasileiro, com destaque, no repertório, para nomes como Chico Buarque, Edu Lobo, Ernesto Nazareth e Pixinguinha, com espaço também para composições autorais – temas instrumentais de autoria de Mano Lopes. Quem também comparecerá ao repertório é o jovem compositor amazonense Stênio Marcius, de quem Mano Lopes cantará o samba-choro Máscaras no chão.
Lopes antecipa que “o grupo vai fazer show de choro tradicional, mas com uma estética diferente, com teclado, bateria e violão sete cordas”, em perfeita sintonia com os propósitos do projeto RicoChoro ComVida na Praça, de estimular diálogos e atritos.
O Mano’s Trio terá como convidado o clarinetista baiano Ivan Sacerdote, um dos grandes nomes de seu instrumento no Brasil. Clarinetista, compositor e arranjador, Sacerdote é bacharel em clarinete pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Mestre em Música (Criação e Interpretação) pela mesma instituição, e já tocou com nomes como Armandinho Macedo, Gabriel Grossi, Hermeto Pascoal, Nailor Proveta, Paulinho da Viola, Rosa Passos e Seu Jorge, entre outros.
O clarinetista baiano promete um passeio pelo Choro em diálogo com outros estilos musicais, “uma outra roupagem para um repertório mais clássico”, além de “uma homenagem a João do Vale”.
Sacerdote foi premiado no II Concurso “Devon & Burgani” Jovens Clarinetistas Brasileiros, em 2015, desde quando a marca o patrocina. Seu disco solo de estreia, Aroeira, completamente autoral, sai este ano – durante sua apresentação o público ludovicense poderá conferir uma das músicas do cd.
Fórum – Em sua passagem por São Luís, Ivan Sacerdote participa ainda, na véspera de sua apresentação no projeto RicoChoro ComVida, do “1º. Fórum Interinstitucional de Música: Produção Cultural em Música no Maranhão”, realizado em parceria pelas Universidades Estadual (UEMA) e Federal do Maranhão (UFMA).
O projeto RicoChoro ComVida na Praça é parceiro do evento. Ivan Sacerdote ministrará oficina de clarinete, dia 24, às 18h. Entre os palestrantes do evento estão o professor mestre Ricarte Almeida Santos (IEMA), produtor de RicoChoro ComVida na Praça, o professor mestre Wanderson Silva (do Conselho Estadual de Cultura) e o produtor cultural Tutuca Viana, que participarão de uma mesa redonda mediada pelo professor mestre Daniel Lemos (UFMA/ UEMA/ Unirio/ Fapema), também no dia 24, às 15h. O Fórum acontece no Auditório da Uemanet, no Campus Universitário Paulo VI.
Acessibilidade — Todas as edições de RicoChoro ComVida na Praça garantem a presença confortável de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. O projeto itinerante conta com banheiros acessíveis, assentos preferenciais com sinalização, audiodescrição e tradução simultânea em libras.
RicoChoro ComVida na Praça é uma realização de Eurica Produções, Girassol Produções Artísticas e RicoChoro Produções Culturais, com patrocínio de TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.
Serviço
O quê: segunda edição da temporada 2018 do projeto RicoChoro ComVida na Praça Quem: dj Joaquim Zion, Mano’s Trio e Ivan Sacerdote Quando: dia 25 de agosto (sábado), às 19h Onde: Praça da Igreja do Desterro (Centro histórico) Quanto: grátis Patrocínio: TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão
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“TOCA RAUL!”
Contra o sistema e a crise, cantor Wilson Zara mantém tradição e realiza show anual em homenagem a Raul Seixas
Divulgação
Com uma carreira relativamente curta, precocemente encerrada pela morte aos 44 anos, em 1989, Raul Seixas mantém a fidelidade e preferência do público. “Toca Raul!”, dos gritos mais ouvidos pelos bares e bailes da vida, além da devoção que revela, já virou piada e meme e segue mostrando a força e a atualidade do roqueiro baiano.
“Raul, sempre vivo na luta contra o sistema” é o título escolhido pelo cantor Wilson Zara para o Tributo a Raul Seixas deste ano. O nome do show alude ao conturbado momento político por que passa o Brasil e à dificuldade em realizar o espetáculo diante da conjuntura de crise – há alguns anos o show era realizado em praça pública, de graça, e este ano teve que voltar aos moldes iniciais, com a cobrança de ingresso para cobrir os custos de sua realização.
Wilson Zara e Raul Seixas têm uma forte ligação desde que o primeiro ouviu o segundo pela primeira vez. A verdade contida nas letras de Raul e a força com que estas verdades eram ditas foram cruciais para que Zara tomasse a decisão de abandonar o estável emprego de bancário e ir viver de música.
“Eu é que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar”, bradava o baiano em Ouro de tolo, petardo de 1973 que, de tão forte e atual, parece ter sido escrita ontem.
Desde 1992 Wilson Zara realiza, anualmente, um show em homenagem ao ídolo baiano, que era fã de Elvis Presley e Luiz Gonzaga, e cuja música dialoga diretamente com os universos do rock’n roll – pelo que acabou se tornando mais conhecido – e do baião. O primeiro Tributo a Raul Seixas teve como título A hora do trem passar, de um dos clássicos do repertório do artista, e foi apresentado em Imperatriz, cidade em que Zara então morava.
Este ano o Tributo a Raul Seixas será apresentado no Fanzine (Praça Manoel Beckman, Av. Beira-Mar, Centro). Os ingressos custam R$ 20,00 e podem ser adquiridos no local. Wilson Zara (voz e violão) será acompanhado por Moisés Ferreira (guitarra e efeitos), Marjone (bateria), Mauro Izzy (contrabaixo) e Dicy (vocal).
No repertório, clássicos do repertório do Maluco Beleza, como Eu nasci há 10 mil anos atrás, Gitâ, Rockixe, As minas do Rei Salomão, Eu também vou reclamar, Sociedade Alternativa, How could I know?, Sessão das 10 e SOS, entre muitas outras. Quem gritar “Toca Raul!” certamente terá seu pedido atendido.
Serviço
O quê: Tributo a Raul Seixas – 2018 Quem: Wilson Zara e banda Quando: dia 25 de agosto (sábado), às 21h Onde: Fanzine (Praça Manoel Beckman, Av. Beira-Mar, Centro) Quanto: R$ 20,00 (à venda no local)
Leila Maria não é apenas uma cantora: é uma força da natureza.
Força é palavra que bem a define, justamente por nunca ter vestido a camisa de, que quase sempre predestina as cantoras brasileiras e negras ao samba. Se rebolar, então…
Por falar em rebolado, Leila Maria dança o jazz.
O jazz pelo qual se apaixonou quando, criança, ouviu Night and day, de Cole Porter, na interpretação de Frank Sinatra.
“Eu achava que era música de velho. Eu era criança. Meu pai viajava muito, trazia discos, botava para ouvir, minha mãe dançava. Eu já estudava inglês, sou professora de inglês. Um dia eu prestei atenção na letra e foi uma paixão que eu carrego até hoje”, revelou.
A música foi um dos números do repertório de altíssimo nível apresentado pela cantora, ontem (27), no Teatro Arthur Azevedo, durante a cerimônia de lançamento da 10ª. edição do Lençóis Jazz e Blues Festival.
Falar em altíssimo nível em se tratando de Leila Maria é fácil: é capaz de ela arrepiar o público cantando até um simples parabéns a você.
Não é para qualquer uma ser chamada de “a voz brasileira de Billie Holiday”, como a crítica especializada costuma se referir a ela, que dedicou um disco, vencedor do Prêmio da Música Brasileira, ao repertório da americana.
A noite foi a grande escola de Leila Maria, os pianos-bares cariocas: o luxuoso Hotel Novo Mundo, a Modern Sound, entre outros palcos privilegiados. Na verdade, privilegiado é o público que a prestigia. “Vocês precisam saber: vocês também são parte do show. Se a gente saísse de casa e vocês não estivessem aqui, não era show, era ensaio”, disse, simpática e sincera.
Quando cantou Cry me a river (Arthur Hamilton), tirou onda: “alguém aí lembra da Kelly Key? Ela dizia “baba, baby, baby, baba”. Essa música é a mesma coisa. Quando eu cantava na Modern Sound, cantei três anos lá, as pessoas puxavam as giletes para cortar os pulsos. Tem uma coisa de vingança muito forte nessa letra. Você pisa e depois quer de volta? Nããããão…”. De música em música e história em história, conquistou e encantou o público.
Acompanhada por Fernando Costa (piano e vocais), Ricardo Costa (bateria) e César Dias (contrabaixo acústico), Leila Maria desfilou um repertório predominantemente cantado em inglês. Senhora do palco, deixou margem para o trio exibir seus talentos individuais, sobretudo em A night in Tunisia (Dizzy Gilesppie), tema originalmente instrumental que ganharia letra a pedido de Ella Fitzgerald.
Em português, com divisão diferenciada, cantou Desafinado (Tom Jobim/ Newton Mendonça), que dá título – Off key, em inglês – ao disco que ela dedicou a temas da bossa nova que se transformaram em standards de jazz lá fora.
“Agora eu vou cantar um samba. Mas eu vou cantar em inglês, que é para a discrepância ser maior”, gracejou, antes de mandar So nice, versão para o Samba de verão, dos irmãos Vale, Marcos e Paulo Sérgio.
Por falar em irmãos, os irmãos Gershwin, George e Ira, também compareceram ao repertório: The man I love abriu a apresentação da cantora e Summertime encerrou a noite.
“Apesar de ter conhecido pouco, eu adorei a cidade de vocês. Espero voltar mais vezes”, derramou-se. Com certeza o público que a viu ontem também espera. A julgar pelo show de lançamento e pela programação anunciada vai ser bonita a grande festa de comemoração pelas 10 edições do Lençóis Jazz e Blues Festival.
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10 ANOS DE UM FESTIVAL NOTA 10!
[textinho que tive a honra de escrever para a programação do evento, distribuída desde ontem]
Uma década de existência ininterrupta consolida qualquer festival no calendário cultural de qualquer lugar. É o que celebramos nesta 10ª. edição do Lençóis Jazz e Blues Festival, que em 2018 segue firme em seus propósitos: a diversidade de linguagens, a formação de plateia, o intercâmbio, a qualificação de integrantes da cadeia produtiva da música, através das oficinas, e, é claro, muita diversão.
O êxito do festival, ao longo desse tempo em que é realizado, deve-se a uma conjugação de fatores: a qualidade dos artistas convidados e, consequentemente, de suas apresentações, as belezas dos cartões postais em que se insere – diversos pontos das cidades de Barrerinhas, “capital” dos Lençóis Maranhenses que batizam o evento, e São Luís, capital do Maranhão, tão diverso culturalmente.
Por falar neste aspecto, importante ressaltar a troca sempre promovida, não apenas entre músicos, ao juntar atrações nacionais a atrações locais, valorizando a estrada percorrida por artistas em sua missão de “ir aonde o povo está”, como cantou o poeta, mas também, antenas ligadas, como é dever de qualquer festival que se preze, apontando para o futuro, descobrindo novidades, antecipando tendências.
10 edições é um marco por si só histórico. Mas “um mais um é sempre mais que dois”, como cantou outro, e há coisas que a matemática pura e simples não explica, ao menos não completamente. Não são 10 edições quaisquer: em 2018 completam-se 10 edições do Lençóis Jazz e Blues Festival, a que se deseja vida longa, pois muito ainda há por fazer e mostrar ao público do Maranhão – e que vem de outros lugares para prestigiar. Você, aí: junte-se a eles! Junte-se a nós!
“Em minha gestão o Tutuca não ganhará nada, está fora. A briga com o Ronald [Pinheiro, compositor] mostrou o quanto ele estava engajado politicamente com o grupo que faz oposição ao nosso”, desferiu o então secretário de Estado da Cultura Luiz Bulcão, em entrevista, cerca de um mês após a consolidação do golpe que tirou Jackson Lago (1934-2011) do Palácio dos Leões e devolveu a cadeira de governadora a Roseana Sarney.
Ainda não sabíamos, mas em 2009 aconteceria a primeira edição do maior feito de Tutuca como produtor: o hoje longevo Lençóis Jazz e Blues Festival, que colocou o Maranhão definitivamente no mapa das grandes produções do gênero – aquela primeira edição contou com o patrocínio da Cemar, ainda sem a chancela da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, com que a empresa continuou a parceria, até hoje.
Hoje (27), logo mais às 20h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro), acontece o lançamento da comemorativa 10ª. edição do festival, que em 2018 terá, como de praxe, duas etapas: a primeira em Barreirinhas, entre os dias 10 a 12 de agosto, e a segunda em São Luís, no fim de semana seguinte (17 e 18).
No lançamento do festival quem canta é a carioca Leila Maria, que a crítica especializada costuma dizer tratar-se da voz brasileira de Billie Holiday. Os ingressos para o evento podem ser trocados na bilheteria do teatro por um quilo de alimento não perecível, cuja arrecadação será revertida em favor da Creche Caminhando com Cristo, do Parque Jair (São José de Ribamar/MA).
Entre as atrações confirmadas para a edição de 2018, o cantor e compositor mineiro Lô Borges, que presta homenagem aos 75 anos do parceiro Milton Nascimento; o gaitista Jefferson Gonçalves, bluesman talvez de presença mais constante nestes 10 anos de festival; o pianista pernambucano Amaro Freitas, grata revelação da música instrumental brasileira; Fauzi Beydoun, artista à frente do fenômeno reggae Tribo de Jah, desta feita mostrando sua porção bluesman; o pianista acriano João Donato, um dos inventores da bossa nova (se apresenta em São Luís dia 17 de agosto, data em que completa 84 anos de idade); o gaitista brasiliense Gabriel Grossi; a cantora carioca Taryn Szpilman; o reinventor do bandolim Hamilton de Holanda; e o violonista piauiense Josué Costa, outra jovem e grata revelação da música instrumental brasileira – programação completa no site do festival.
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Ouça Leila Maria em Swing, brother, swing (Clarence Williams/ Walter Bishop/ Lewis Raymond):
O percussionista maranhense Papete. Foto: Bruno Mendonça
“Era uma manhã de carnaval, época em que os tambores de crioula, naquela época iam muito às ruas tocar o carnaval. Nesse domingo eu desci na Deodoro e vi aquele tambor ecoando de longe, andei, fui chegando mais perto do som, era o Tambor de Mestre Leonardo. Aquilo foi um impacto, um raio, um clarão que abriu na minha cabeça. É isso aí que eu quero! Vou pesquisar, vou correr atrás”.
O depoimento do percussionista Luiz Cláudio, paraense radicado no Maranhão desde o início da década de 1980, a Ricarte Almeida Santos e este repórter, para a série Chorografia do Maranhão, relembra o impacto que foi, ver e ouvir pela primeira vez o genuinamente maranhense tambor de crioula.
Com base em São Luís, Luiz Cláudio fez escola, com saídas pontuais. Tocou com meio mundo de gente. Para citar apenas alguns artistas em cuja ficha técnica de discos seu nome aparece: Cesar Teixeira, Ceumar, Lena Machado, Rubens Salles e Zeca Baleiro.
Nesta sexta-feira (27), das 15h às 22h, com programação inteiramente gratuita, entre oficinas (todas as vagas preenchidas com bastante antecedência) e shows, acontece o Rufar dos Tambores – Festival de Percussão de São Luís, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande).
“De algum modo isso está atrasado”, comentou o músico em entrevista a Gisa Franco e este escriba, sábado passado (21), no Balaio Cultural, programa que dividimos na Rádio Timbira AM (1290KHz). Longe de se lamentar, o que Luiz Cláudio disse é que, diante de sua devoção e reverência a grandes mestres da percussão maranhense, um evento desse naipe já deveria contar com várias edições realizadas, sob sua idealização e produção.
Esta primeira, em um único dia, é um passo inaugural. O percussionista revelou a intenção de consolidar o Rufar dos Tambores no calendário cultural da cidade, sem negar a influência do baiano Panorama Percussivo Mundial, o famosíssimo Percpan, que já teve o gigante Naná Vasconcelos (1944-2016) na direção musical.
“Nenhum artista simboliza os batuques afro-indígenas da nossa cultura popular como este percussionista (…) que dedicou sua vida a divulgar os ritmos e as toadas de nossos cantadores. Papete foi o primeiro músico brasileiro a fazer um show exclusivamente voltado para a percussão nacional”, o caprichado material de divulgação justifica a escolha.
Entre as atrações – programação completa na página do evento no facebook – destaques para o Batuque de São Benedito, “realizado anualmente dia 6 de janeiro no município de Carutapera por ocasião do festejo da igreja de São Benedito”, o Boi Brilho da Sociedade, “um dos mais tradicionais grupos do bumba-meu-boi maranhense, (…) um dos seis grupos do sotaque Costa de Mão que ainda estão em atividade”, o Terecô de Igaraú, “brincadeira de cordão realizada sempre no dia 25 de janeiro, em homenagem a Nossa Senhora de Belém, (…) tradição de mais de 200 anos, em que três tambores são batidos por mulheres” e o grupo Divina Batucada, que, inspirado “nas antigas turmas de samba, como Fuzileiros da Fuzarca, Turma do Quinto e Vira-Latas, homenageia os grandes nomes da velha guarda do samba tradicional maranhense, cantando, principalmente, canções que marcaram a história dos antigos carnavais” – aspas pescadas do material de divulgação.
A programação do primeiro Rufar dos Tambores será encerrada com o show Encantarias, título do EP que Luiz Cláudio lançou no fim do ano passado, com participações especiais de Chico César e Zeca Baleiro.
Em entrevista ao blogue, Mavi Simão fez um breve balanço da trajetória do festival, comentou a homenagem a Joaquim Haickel e destacou a participação feminina
Tudo para ti, de Naldo Saori. Reprodução
“Uma produtora independente se propor a fomentar um segmento é uma grande pretensão. Mas sempre pensei que se fizesse o máximo que estivesse ao meu alcance, isso já seria alguma coisa. Quando o Maranhão na Tela surgiu com esse objetivo, em 2007, quase nada era feito para fomentar o cinema local”, relembra Mavi Simão, a idealizadora e produtora do festival, em entrevista exclusiva a Homem de vícios antigos.
“O grande plano por trás do Maranhão na Tela sempre foi “picar as pessoas com o bichinho do cinema” e, aos pouquinhos, vamos “picando” cada vez mais pessoas. Em 2007 praticamente não se produzia no Maranhão e hoje estamos no melhor momento do cinema maranhense. Acredito que uma parte disso se deva ao forte investimento do festival na realização de cursos e na produção de curtas”, continua.
A 10ª. edição do Maranhão na Tela acontecerá de 16 a 26 de agosto, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande) e promete ser histórica. Entre as mostras tradicionais, como a Panorama Brasil, que exibe longas-metragens nacionais inéditos, e a Animarte!, que exibe anualmente mais de 350 animações de diversos países, haverá mostras retrospectivas dedicadas aos melhores filmes já apresentados pelo festival e uma de clássicos do cinema nacional.
A Mostra Maranhão de Cinema, competitiva dedicada exclusivamente à produção local, já está com inscrições abertas – podem ser feitas até 31 de maio no site do Maranhão na Tela.
Cada edição do festival tem dois homenageados, um nacional e um local. O martelo quanto àquele ainda não foi batido, mas o maranhense a receber as homenagens em 2017 é o cineasta Joaquim Haickel. “Ele tem uma trajetória no cinema maranhense que por si só já o coloca no lugar de um dos maiores cineastas do estado. São quase 40 anos de carreira, dezenas de filmes e prêmios conquistados nacional e internacionalmente. E, para além da sua produção autoral, ele também é um grande produtor e, consequentemente um fomentador da produção local. Quantos profissionais trabalham nas obras que o Joaquim produz? Quantos diretores já tiveram a oportunidade de realizar através da sua produtora? Isso sem falar do Mavam [o Museu da Memória Audiovisual do Maranhão] e do apoio que ele sempre deu a outros diretores, inclusive os iniciantes. Estava mais do que na hora dele ser nosso homenageado”, reconhece Mavi.
O festival acontece em agosto, mas suas atividades têm início em junho, quando a jornalista e roteirista Angélica Coutinho ministrará um curso avançado de Roteiro de Ficção, de 40 horas, que será certificado pelo Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (Iema), vinculado à Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia (Secti), parceira do Maranhão na Tela. Junto com o curso serão anunciadas a lista dos selecionados na competitiva, bem como todo o restante da programação de filmes, cursos e debates, além do nome do homenageado nacional.
Além da idealizadora do Maranhão na Tela, o primeiro nome confirmado na programação é de uma mulher. Lembro a pesquisa da Ancine [a Agência Nacional do Cinema, vinculada ao Ministério da Cultura], que confirmou pequena presença feminina no audiovisual e pergunto à Mavi Simão: em um festival idealizado e produzido por uma mulher há uma preocupação quanto a esses índices? De que modo o festival tem buscado superá-los?
“Não existe propriamente uma preocupação. No festival a presença das mulheres sempre foi intensa. Nossa equipe é quase toda formada por mulheres, nosso público tem grande participação de mulheres, acredito até que em maior proporção do que de homens, e o intercâmbio com professoras e representantes de filmes também é grande”, enumera.
“É importante destacar que eu não escolho minha equipe ou convido profissionais baseada na questão de gênero e sim na qualidade do trabalho dessas profissionais. Ou seja, a participação de um grande número de mulheres acontece naturalmente, o que acredito ser bem significativo”, elogia.
“Com relação aos longas-metragens, ainda não é possível exibir uma maioria de obras dirigidas por mulheres, até por que, como exibimos um panorama da produção mais recente do cinema brasileiro, a programação de filmes do festival acaba sendo um espelho do cenário nacional da produção audiovisual”, finaliza.
O Maranhão na Tela é uma realização Mil Ciclos Filmes, patrocinado pela Oi e TVN, por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, e pelo Banco do Nordeste, por meio da Lei Rouanet, e conta ainda com o apoio cultural do Instituto Oi Futuro e das secretarias de Estado de Educação (Seduc) e Ciência e Tecnologia. A identidade visual desta edição comemorativa foi desenvolvida a partir do óleo sobre tela Tudo para ti, do artista visual maranhense Naldo Saori, que ilustra este texto.
O húngaro Bela Tarr, um dos entrevistados de Walter Carvalho em Um filme de cinema. Frame. Reprodução
O abandono de uma antiga sala de cinema na Paraíba natal de Walter de Carvalho é o cenário poético que emoldura Um filme de cinema [documentário, Brasil, 2015, 108 min.], uma verdadeira aula de cinema, aliás, um curso completo. Engana-se quem pensa em obviedade ao ler o título, já que em tese, todo filme é de cinema. Aula, na melhor acepção da palavra, que às vezes uma ótima não carece de sala para acontecer. Curso, que cada depoimento é uma aula. Ali estão o que torna uma aula única: paixão e exemplos.
São vários nomes envolvidos com a produção cinematográfica, principalmente diretores, mas não só, falando com simplicidade e propriedade de seu ofício, dando exemplos, ou do que falam ou do que lhes despertou a tal paixão. “Por que você faz cinema?” é uma das perguntas que orientam o documentário.
São emocionantes os informais depoimentos de Andrzej Wajda, Ariano Suassuna, Asghar Farhadi, Bela Tarr, Bence Fliegeuf, Gus Van Sant, Hector Babenco, José Padilha, Júlio Bressane, Karim Aïnouz, Ken Loach, Lucrecia Martel, Ruy Guerra, Salvatore Cascio e Zhang-ke Jia, belo panorama do cinema contemporâneo colecionado ao longo das últimas duas décadas por Walter Carvalho, ele próprio uma espécie de enciclopédia do cinema nacional, com o nome em fichas técnicas de filmes como Amarelo manga (fotografia), Carandiru (fotografia), Cazuza – O tempo não para (direção, com Sandra Werneck), Central do Brasil (fotografia), Febre do rato (fotografia), Lavoura arcaica (direção de fotografia), Madame Satã (fotografia) e Terra estrangeira (direção).
Ruy Guerra, diretor de Quase memória, comenta por exemplo, a vontade que teve de ser escritor um dia. José Padilha, de Tropa de Elite e Robocop, comenta os conflitos entre blockbusters e cinema autoral em Hollywood. A argentina Lucrecia Martel desenha para explicar melhor determinada ideia. Ariano Suassuna (O auto da compadecida) lembra o primeiro filme que assistiu, “nunca mais vi algo tão ruim, passei um tempo resistente a cinema por conta dele”, e o dia em que levou uma tia para ver um filme de terror no cinema, para gargalhada geral da plateia. Salvatore Cascio lembra, no local em que foi filmado, a sorte de ter sido escolhido, entre 250 candidatos, para atuar em Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore. Bela Tarr tece comentários sobre a liberdade, necessária ao ofício dos atores.
Os diretores comentam aspectos mais técnicos, como planos, sequências, enquadramentos e outras convenções cinematográficas. Fugindo delas – “mesmo o não convencional é uma convenção”, adverte Júlio Bressane – Walter Carvalho se vale da pluralidade de cenários, câmera na mão, garantindo certo nervosismo, talvez uma metáfora para nos lembrar de que estamos diante de alguns dos maiores nomes do cinema brasileiro e mundial.
Um filme de cinema pré-estreia no Maranhão na Tela, em sessão gratuita e aberta ao público no próximo dia 23 de março (quarta-feira), às 20h30, no Cine Praia Grande.
Homem de vícios antigos assistiu ao filme a convite da produção do festival.
Viúvo que cria sozinho o filho pequeno, Fernando (Fernando Alves Pinto) é um advogado que ganha a vida num emprego que detesta: fotógrafo da polícia, fazendo os clássicos retratos de frente e perfil de detidos portando seu número de identificação ou cadáveres frescos na cena do crime.
Ele tem uma estranha obsessão por objetos de sua esposa morta: vive a lustrar joias, engomar vestidos (com que dorme abraçado), limpar sapatos e pô-los para pegar sol. Ao ir até o antigo escritório dela, também advogada, traz consigo mais uma pilha de pertences da mulher, incluindo uma sacola de fitas VHS.
Em meio a elas o fumante inveterado descobre ter sido traído e resolve investigar o passado da esposa, trocando uma estranha obsessão por outra, perigosa. A partir daí instala-se um clima de tensão permanente.
O labirinto de incertezas em que o espectador é jogado em Para minha amada morta [drama, Brasil, 2015, 105 min.] é tão bem urdido que em várias cenas somos pegos tentando adivinhar – e errando – qual será o próximo passo dado pelo protagonista.
Fernando se vale de sua função na polícia para obter dados sobre o amante de sua falecida esposa, anda armado e a cada esquina do filme esperamos um crime motivado por vingança – o que não acontece. Não é vingança o que Fernando quer, mas tentar entender o passado.
É a busca por esta espécie de acerto de contas que o leva ao convívio de Salvador (Lourinelson Vladmir), o amante da esposa morta, um ex-presidiário que buscou remissão em uma igreja evangélica na periferia em que vive com a mulher, duas filhas e um cachorro, onde Fernando vai parar.
Estreia do diretor Aly Muritiba em longa-metragem, Para minha amada morta é um drama com altas doses de suspense que foge de clichês. O filme foi premiado com sete candangos no 48º. Festival de Brasília, ano passado, incluindo os de melhor ator coadjuvante (Lourinelson Vladmir) e melhor direção.
Para minha amada morta pré-estreia no Maranhão na Tela, dia 24 de março, às 20h30, no Cine Praia Grande, em sessão gratuita e aberta ao público.
Homem de vícios antigos assistiu ao filme a convite da produção do festival.
João Miguel na pele do jornalista Ernesto. Frame. Divulgação
Quase memória [drama, Brasil, 95 min.] é caminhar no pântano: nem sempre se pode confiar onde se está pisando. Será verdade tudo o que lembramos?
O filme de Ruy Guerra baseado no romance de Carlos Heitor Cony é esta tensão entre o claro e o escuro, lembranças vívidas e lapsos, lacunas, o que o título nos entrega de bandeja.
Quase memória, o livro, é, em termos de vendagem, título brasileiro raro, quase na casa do meio milhão de exemplares vendidos.
O filme é uma livre adaptação, em que Carlos Campos (espécie de alter-ego cinematográfico do escritor) conversa consigo mesmo neste exercício de reconstrução da memória. Ele é Tony Ramos – em estupenda interpretação – e Charles Fricks, num longa que conta ainda com atuações de João Miguel e Mariana Ximenes.
O Carlos velho ouve no rádio o decreto do ato institucional nº. 5, em 13 de dezembro de 1968, o que deixaria a ditadura ainda mais dura, perdoem o trocadilho infame; o Carlos jovem vê na tevê a notícia da morte do piloto brasileiro de fórmula 1 Ayrton Senna em 1º. de maio de 1994.
Sem compará-los são dois momentos trágicos da vida pública nacional, estopim para o diálogo que Carlos terá consigo mesmo ao longo de uma noite e uma madrugada. O relógio bate seis vezes marcando a hora da Ave Maria e o início do diálogo e, dia amanhecendo, garrafa de uísque vazia, seis vezes anunciando a chegada da manhã.
Jornalista, Cony é filho de jornalista, e livro e filme acabam sendo, também, uma declaração de amor ao ofício cada vez mais avacalhado nestes tempos sombrios – se o blogueiro parece pessimista, a adaptação não.
Há humor nas lembranças que Carlos tem do pai em diversos momentos marcantes de Quase memória, mesmo os trágicos, como o crítico de teatro Mário Flores (Júlio Adrião), que morre vítima de infarto ao saber de sua demissão por notícia do jornal em que havia dedicado três décadas a óperas e que tais. Noutra passagem, Ernesto (João Miguel), pai de Carlos, é promovido a autor da coluna de obituários, após imaginar (e publicar) o discurso de um padre – que acabou morrendo sem proferi-lo.
Parceiro de Chico Buarque em músicas como Tira as mãos de mim, Bárbara, Fado Tropical, Ana de Amsterdam, Tatuagem e Não existe pecado ao sul do Equador, Ruy Guerra já havia adaptado ao cinema um livro do escritor: Estorvo [2000].
Quase memória pré-estreia na abertura da oitava edição do festival Maranhão na Tela, com exibição gratuita e aberta ao público dia 21 de março, às 19h, no Teatro João do Vale (Rua da Estrela, Praia Grande).
Homem de vícios antigos assistiu o filme a convite da produção do festival.