Cadernos de passado e futuro

Michel Laub mistura autobiografia, ficção e memórias em sua novela Diário da queda

POR ZEMA RIBEIRO

A palavra Auschwitz aparece muito em Diário da queda [Companhia das Letras, 2011, 151 p.], quinto livro de Michel Laub. O autor esbanja talento para tratar de tema tão repisado na literatura e no cinema e ainda assim soar original.

Diário da queda, como entrega o título, é construído em forma de diário, não que saibamos o que o autor/protagonista estava fazendo tal dia e tal hora, mas pela estrutura, em notas breves, conduzindo uma deliciosa leitura.

Trata da descoberta de cadernos do avô e do pai e poderia ser a terceira geração de escritores de diário, tomadores de notas ou coisa que o valha, Laub construindo seu próprio diário a partir das experiências com as leituras dos anteriores, numa ficção confessional.

“As primeiras anotações nos cadernos do meu avô são sobre o dia em que ele desembarcou no Brasil. Já li dezenas desses relatos de imigrantes, e a estranheza de quem chega costuma ser o calor, a umidade, o uniforme dos agentes do governo, o exército de pequenos golpistas que se reúne no porto, a cor da pele de alguém dormindo sobre uma pilha de serragem, mas no caso do meu avô a frase inicial é sobre um copo de leite.” (p. 24).

O avô começou a tomar notas como uma enciclopédia sobre aquilo com que ia se deparando, um copo de leite, o porto, a pousada Sesefredo onde inicialmente se hospedou ao chegar ao país. O pai o faz como um exercício quando é acometido do mal de Alzheimer, como os habitantes da Macondo de Gabriel García Marquez, que anotavam nomes e funções de coisas para não esquecê-las.

Não há limites entre a autobiografia e a invenção na prosa de Laub: não sabemos onde começa e termina uma e outra. No fim das contas ele escreve uma bela carta/declaração de amor a uma quarta geração que vai chegar. Livro e autor merecem cada prêmio recebido até aqui.

[Essa nanoresenha (copyright by Joca Reiners Terron) saiu no Vias de Fato de junho. Leia o primeiro capítulo do livro aqui]

Sexto Piso publica O livro uruguaio dos mortos, de Mario Bellatin

RANA GUSTAVO
TRADUÇÃO: ZEMA RIBEIRO

O livro uruguaio dos mortos [Sexto Piso, 280 p., 2012] talvez seja a obra mais importante já escrita por Mario Bellatin. Sua sobrecarregada imaginação perturba a fronteira entre realidade e ficção, tendo como resultado uma originalidade sem limites, girando em torno de certas perguntas sem resposta, como a que em algum momento inesperado faz o narrador do relato: “Tua imagem no espelho te reflete?”

Mario Bellatin escreve para um alguém misterioso que só viu uma vez, com quem desde então dialoga sobre os mistérios da ressurreição da carne. Conta em detalhes eventos que habitam seu mundo particular, onde o tempo nem avança nem retrocede, como o espaço também não está em um lugar específico. O livro uruguaio dos mortos é uma espécie de espiral que ao mesmo tempo dá voltas sobre certos eixos recorrentes dispara em todas as direções alcançadas pela prodigiosa capacidade de observação do autor.

Sobre o autor | Mario Bellatin nasceu no México, estudou Teologia e Cinema e pratica sufismo. Tem mais de 40 livros publicados [a Cosacnaify lançou, no Brasil, Flores e Cães heróis] e já foi traduzido para 15 idiomas. Venceu os prêmios Xavier Villaurrutia, Mazatlán, Barbara Gittings Literature Award e o Premio de Narrativa Antonin Artaud por Disecado [Sexto Piso]. Atualmente é curador honorário do Documenta 12. Entre seus projetos mais importantes, fora a literatura, está a Escola Dinâmica de Escritores e Os Cem Mil Livros de Bellatin.

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Arrisquei-me a traduzir o pequeno texto acima para compartilhar mais um lançamento deste escritor que tanto me fascinou desde que o descobri em Flores e Cães heróis, cuja leitura recomendo. Bom saber que já publicou mais de 40 livros, ficando, de já, na torcida para que mais obras suas cheguem ao português, ao Brasil. Colombo, parceiro de devoção bellatinesca, este post é pra ti, com o perdão de qualquer deslize en la traducción. Ao Joca Reiners Terron, que escreveu o posfácio de Flores, agradecimentos pelo link e paciência no tuiter.

Entrevista autêntica

Experiências de uma vida inteira me ensinaram uma regra jornalística verdadeiramente perturbadora: a qualidade de uma entrevista não depende do espírito e do saber do entrevistado e sim do grau de inteligência do entrevistador que leva a coisa para a impressão.

A entrevista real

Shalom, sr. Tola’at Shani. Meu nome é Ben. Fui mandado aqui pela redação. Procurá-lo. Quer dizer: para uma entrevista.”

“Sente-se, jovem. Estou às suas ordens.”

“Nada mau, sua barraca. Tem classe. Palavra. Tem porão?”

“Ao que eu saiba, tem.”

“E ainda tem jardim na frente. Cabanas deste tipo custam caro, não é?”

“É verdade.”

“Pois é. Como já disse, estou aqui para entrevistá-lo sobre o romance histórico que escreveu. Foi o senhor mesmo que escreveu, não é?”

“Acabo de terminar a obra.”

“Ótimo. Então, o senhor já acabou o romance. Como se chama?”

Tu és pó.”

“Por que me trata por “tu”, de repente?”

“É o título do meu novo livro.”

“Ah, sim. Certamente fará um enorme sucesso. Como todos os seus livros. O senhor só tem escrito sucessos.”

“Faço o possível. Mas se o consigo, isto se deve aos leitores.”

“Palavras de ouro. E por que, sr. Tola’at Shani, escreveu aquele pó, ou melhor, aquele romance ou o que quer que seja, quero dizer, por que escreveu o livro? Justamente agora?”

“Por favor, seja um pouco mais claro.”

“Certo. Para mim, não faz diferença. Quero dizer, o que queria saber é: de que trata a coisa?”

“Se entendi bem, o senhor quer conhecer o enredo da minha mais nova criação.”

“O enredo, correto. Eu já disse isso.”

“Não vai fazer anotações?”

“Não preciso. Guardo na cabeça. Tudo. Inclusive o enredo. O que é o enredo?”

“Meu romance descreve um panorama das fraquezas e paixões humanas. Passa-se durante a Segunda Guerra Mundial. Seu herói é um soldado da Brigada Judaica. A jovem e bonita filha do prefeito de uma cidadezinha no sul da Itália apaixona-se por ele.”

“O senhor disse “soldado”. Na história ocorrem certamente umas pancadarias de primeira, não?”

“Como é?”

“Pancadarias, quero dizer, lutas.”

“Certamente, descrevo algumas ações militares, porém só de passagem. Trata-se, principalmente, do conflito interno, provocado pela guerra cruel, na alma do nosso soldado.”

“O que quer dizer “nosso soldado”? Soldado de quem?”

“O soldado do romance.”

“Ah, isso. O senhor devia ter sido mais claro. Então, o que é que há com ele?”

“No peito desse soldado trava-se uma luta entre seu fervente patriotismo e seus sentimentos de ódio contra a guerra desumana.”

“Quem ganha? E que quadro é esse?”

“Que quadro?”

“Aquele, na parede, ali.”

“Não é quadro, meu jovem, é meu diploma.”

“Diploma. Muito bem. Um diploma de quê? Não importa. Então, seu livro sobre a Itália é uma história verdadeira?”

“Até certo ponto. O cenário é autêntico, mas a história propriamente é uma variação sobre o tema da Antígona, de Sófocles.”

“Do quê?”

“Sófocles. Um autor de tragédias grego.”

“Já ouvi falar. O senhor tem toda a razão. Mas o senhor já disse algo contra a guerra.”

“Antígona era filha do rei Édipo.”

“Claro. Édipo. Aquele da psicanálise. Nada mau. É esta, então, sua story, não é?”

“A story tem, forçosamente, caráter local. Mas sua mensagem é universal. Uma espécie de levantamento da situação da nossa época. O amigo não quer mesmo fazer umas poucas anotações?”

“Para quê? Eu me lembro de tudo. Não se preocupe. Mais alguma coisa?… Ah, sim: creio que o senhor está transbordando de alegria, não é?”

“Por quê?”

“Quando alguém termina de escrever algo, não deve transbordar de alegria?”

“Hum. É possível. Creio que sim.”

A entrevista publicada

TRANSBORDANDO DE ALEGRIA!

É o que diz o autor do romance O aspirador de pó, numa entrevista exclusiva para nosso colaborador.

O conhecido escritor Tola’at Shani me recebeu no seu lar, para uma entrevista exclusiva. Ocasião: a publicação de seu novo romance, para o qual o autor vaticina um estrondoso sucesso.

Estou sentado diante do poeta, em seu estúdio mobiliado com extremo bom gosto. Observo seu perfil de linhas pronunciadas, a figura esbelta, os dedos finos, nervosos. Pela janela, pode-se apreciar a vista do bairro. É tardinha.

Tola’at Shani: Gosta da minha casa?

Eu: Nada mau.

T. Sh. (orgulhoso): Tem jardim na frente, três cômodos e meio e água encanada. Casas assim são muito, muito caras.

Eu: Dá licença de perguntar sobre o enredo de seu novo romance?

T. Sh.: Com prazer. Há um major na Brigada Judaica, pois a história se passa no estrangeiro, num domingo. E há muito tiroteio e outros choques. Em suma, uma tremenda confusão. Há ainda uma jovem filha na cidade italiana, uma figura quase clássica, como se fosse estrela de cinema. Ela tem um caso com um rapaz, um escritor, um que anda sonhando, um sonhador, por assim dizer, um bailarino-no-sonho…

Eu: É um de nossos soldados, não é?

T. Sh.: Correto. Em casa ele ainda é universitário, o soldado, e estuda uma porção de coisas. Mas agora, como soldado, caiu num conflito, quer dizer, numa rivalidade pela moça. Ela se chama Shula…

Eu (interrompo): Um instante, prezado amigo. Shula. Isso soa como tragédia grega.

T. Sh.: Correto. Acertou em cheio. E essa moça, como é seu nome?, é contra a guerra e louca por… por…

Eu: Édipo?

T. Sh.: Exato. Construí a coisa assim, para formular o complexo diretamente da tragédia de Sypholux. Eu devia ter dito ao senhor que nosso soldado tende um pouco para a “coluna-do-meio”, o senhor me entende. Mas não o demonstra. Além do mais, a história é verdadeira.

Eu: Pode-se dizer que se trata de um balanço da época atômica?

T. Sh. (surpreso): O senhor acha?

Eu: Sem dúvida.

T. Sh.: Está bem. Eu não costumo dar muitas voltas para chegar ao assunto. Lá, na parede, o senhor vê meu diploma.

Eu: Magnífico, Tola’at Shani.

T. Sh.: Diplomas não se ganham sem mais nem menos, o senhor sabe. Mais alguma coisa?

Eu: Uma última pergunta: o senhor está feliz por ter terminado O aspirador de pó?

T. Sh.: Estou transbordando de alegria.

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Efraim Kishon, Como aborrecer um guarda (p. 15-18). 3ª. ed. São Paulo: Círculo do Livro, 1988.

De novo: qualquer semelhança com o jornalismo cometido pela maioria absoluta de nossos jorna(l)is(tas) não é mera coincidência.

No ringue do pensamento

Ao escrever sobre Guerrilhas (2012), de Flávio Reis, quando o classificou acertadamente como “figura de exceção entre nossos pensadores e professores”, Reuben da Cunha Rocha abriu um leque que pode e deve ser ampliado quando somamos ao “homem magro de fala digressiva”, dois outros professores do naipe: Flávio Soares e Wagner Cabral.

Pugilistas do pensamento, o trio se encontra numa mesa-ringue tendo por mote o lançamento (detalhes na imagem que abre o post), na UFMA, do citado livro, “coletânea de artigos publicados por Flávio Reis na imprensa maranhense ao longo da última década”, o sucessor de Grupos políticos e estrutura oligárquica (2007) e Cenas marginais (2005).

Bancado pelo bolso do autor, como os anteriores, Guerrilhas foi publicado no início deste ano, com os selos da editora Pitomba! e do jornal Vias de Fato, sem trazer qualquer referência à universidade onde seu autor dá aula – a contribuição radical aos debates em torno dos assuntos que aborda e sua visão aguçada, por si só já justificariam a publicação pela própria UFMA, mas Flávio é um dissidente ácido e prefere a liberdade de outros caminhos.

REIS, SOARES e CABRAL, como são chamados em citações acadêmicas, vão certamente distribuir socos no status quo, seus modos de ver/rever o Maranhão porradas certeiras, diretas, no estômago, sobretudo dos acostumados a velhas famas, por vezes injustificadas e ufanistas.

O mito francês e a dança dos historiadores, O Maranhão bárbaro e sua miséria historiográfica, Oligarquia e medo, O nó-cego da política maranhense, A política do engodo e o engodo da política, para citar títulos de alguns artigos de Guerrilhas, violência urbana, jornalismo, poesia, cinema, música, literatura e psicanálise serão munição para este debate “peso”, expressão quase sempre usada por Flávio Reis para definir algo muito bom, extraordinário, seja um disco, um livro, um filme ou um aluno acima da média.

A pauta certamente se ampliará e os três professores darão conta do recado, imperdível, eu diria. Roubando mais um par de aspas de Reuben – tirando o “peso” aí de cima, são dele as outras ao longo do texto –, que qual este blogueiro, tem no autor de Guerrilhas um de seus heróis, cabe repetir: “É chegado o tempo do arsenal contra o repertório”.

A poesia cortante de Celso Borges

Fazia tempos eu não experimentava a sempre deliciosa porção de paçoca e creme de macaxeira preparada por dona Antonia, ela uma das vendedoras de comida daquelas barracas ali por perto do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, na Praia Grande. A terceira opção, para quem prefere, é o arroz de maria isabel. Meu pratinho foi acompanhado por um copo “considerado” de suco de abricó. Uma delícia!

Apesar do coquetel servido – e disputado – ao final, foi a fome quem me fez deixar o recinto apressado, na noite da última terça-feira (10), ocasião em que, no citado centro, o poeta Celso Borges apresentou seu Sarau Cerol, acompanhado por Beto Ehongue (trilhas e efeitos eletrônicos no laptop), Alê Muniz (guitarra) e Luiz Cláudio (percussão) – anunciados como participações especiais, os dois últimos tocaram o show inteiro. Se na barraca de dona Antonia eu saciava minha fome de comida, antes eu já havia me embriagado de poesia da melhor qualidade.

Da esquerda para a direita, Alê Muniz, Celso Borges, Luiz Cláudio e Beto Ehongue

A apresentação aconteceu numa Galeria Valdelino Cécio absolutamente lotada. Celso Borges leva ao palco sua experiência de misturar poesia e música, sobretudo a comprovada em seus livros-discos XXI (2000), Música (2006) e Belle Époque (2010), onde a palavra de papel vira a palavra de ruído e este/esta é música. Qual Cacaso, Chacal e Leminski, para citar apenas três poetas que admira, ele, também letrista de música popular, parceiro de gente que sai pelo ladrão, incluindo os integrantes de seu power-trio aquela noite.

Uma São Luís surreal, de propósito ou por acaso, sabe-se lá, lhe servia de fundo de palco, perfeito contraste para um poeta que tira sarro do cânone, da oficialidade em torno dos controversos 400 anos de sua cidade natal e até mesmo dos “turistas de pacote” com seus “boizinhos de butique”.

“O futuro tem o coração antigo”: Celso Borges, quase 53, talvez por isso não tenha saudades do passado. Copia a frase do escritor italiano Carlo Levi – que já usara de epígrafe em XXI – para colar no título de seu próximo livro, a ser publicado ainda em 2012. “Antigamente era antigamente e era muito pior”, reza noutro poema, A saudade tem seus dias contados, de Belle Époque.

De uma forma ou outra, ninguém sai intacto, imune, impune de uma apresentação de Celso Borges – e aí caberiam palavras como show, espetáculo e quetais: quem já gosta(va) de poesia sai gostando ainda mais, quem não gosta(va), passa a gostar, nem que seja um tiquinho, todos contentes com as possibilidades que a poesia pode oferecer, para além de saraus modorrentos, monótonos, mofados, enfadonhos.

Sarau, a palavra em si, geralmente assustadora, lembrando professoras de literatura velhas, chatas e de óculos fundo de garrafa, recitando de cor e por força nos querendo obrigar a decorar sonetos do século retrasado.

“Serol foi feito pra cortar”, já havia escrito, com s, em Pedra de cantarei, poema de Persona non grata (1990) que virou música, um tambor de mina em parceria com Zeca Baleiro (em XXI). Para cortar de vez clichês e sustos, o poeta unta com cerol a linha do sarau.

Por que poesia pode e deve pulsar e fazer pulsar. Como ele diria em A serpente (Outra lenda), outra parceria com Zeca Baleiro, além do saudoso Ramiro Musotto: “eu quero ver a serpente acordar/ pra nunca mais a cidade dormir”.

Sim, eu compro livros pela capa

PREFÁCIO

Desconhecido, como se fosse um dos seus próprios personagens, Lucas Baldez voltou ao Beco das Minas para reviver as histórias de Fofi, Sabiá, e Mário Jumenta. Chegou a jogar no Graça Aranha Esporte Clube, mas somente depois de pendurar as chuteiras descobriu a sua nova vocação: a literatura. E depois de ganhar o Prêmio Graça Aranha, no Concuro Literário Cidade de São Luís, em 1980 com o conto “O Torcedor”, resolveu juntar seus contos, novos e velhos, e publicar este volume. O seu maior mérito, entretanto, foi ter penetrado no perigoso caminho da literatura com a disposição de quem já sabia pisar os espinhos da Fonte do Bispo, da Quinta do Barão, e do Apicum (onde já pernoitava o velho Erasmo Dias), mas, na verdade apenas começou a vislumbrar a sua trajetória.

Dostoiévski nos diz que “as pessoas vulgares são, em todos os momentos, a chave e o ponto essencial na corrente de assuntos humanos”, e assim são os personagens de Lucas Baldez. Note-se que aqui a palavra “vulgar” não é um termo pejorativo, pois serve para designar o homem comum, o homem simples e anônimo. E é utilizando a linguagem popular que Lucas Baldez consegue driblar as regras da Gramática em favor de uma melhor comunicação com o leitor. Por este motivo, “A Outra Face da Ilha” torna-se um livro agradável, e mais facilmente coloca em questão a problemática social do nosso povo, valorizando cada personagem em seu próprio tempo e espaço. Personagens que lutam para sobreviver nesta ilha universal onde os ditadores bebem o sangue de suas vítimas.

Cesar Teixeira

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Cesar Teixeira escreveu o prefácio de A outra face da ilha (1981) e fez sua capa e ilustrações, bem como a capa de O estranho caso do inditoso Francisco Sotero (1989), do mesmo autor, imagens que abrem-ilustram este post. Os livros, que ainda não li, encontrei-os ontem, à cata de outros, no sebo Papiros do Egito (Rua Sete de Setembro, 150, Centro, (98) 3231-0910).

22 de setembro

DIA SEM CARRO

Os ecologistas e outros irresponsáveis propõem que por um dia, o dia de hoje, os automóveis desapareçam do mundo.

Um dia sem carros? E se esse exemplo se contagia e passa a ser todos os dias?

Deus não queira e o Diabo tampouco.

Os hospitais e cemitérios perderiam sua mais numerosa clientela.

As ruas se encheriam de ridículos ciclistas e patéticos pedestres.

Os pulmões já não poderiam respirar o mais saboroso dos venenos.

As pernas, que se esqueceram de caminhar, tropeçariam em qualquer pedrinha.

O silêncio aturdiria os ouvidos.

As rodovias seriam deprimentes desertos.

As rádios, as televisões, as revistas e os jornais perderiam os seus mais generosos anunciantes.

Os países petroleiros ficariam condenados à miséria.

O milho, a cana de açúcar, agora convertidos em comida de carros, regressariam ao humilde prato humano.

Tradução de Rogério Tomaz Jr. para um dos 366 textos de Os filhos dos dias (Los hijos de los dias), novo livro de Eduardo Galeano, que chega ao Brasil em breve, traduzido por Eric Nepomuceno (nestes links, outros textos traduzidos pelo queridamigo Rojão e pelo apresentador de Sangue Latino). Grande notícia!

Cinema grátis e de qualidade

O cineasta Beto Matuck conversou rapidamente com este blogue sobre o Encontro com Cinema, que ele promove aos sábados, no Chico Discos

Há cerca de um mês outra atividade semanal começou a tomar conta do espaço do Chico Discos. Às quintas-feiras, desde novembro de 2010, sob coordenação do poeta e jornalista Paulo Melo Sousa, o Papoético tem realizado debates sobre os mais variados temas ligados à arte e cultura; desde o início deste março que finda amanhã, o cineasta Beto Matuck tem promovido o Encontro com Cinema, sempre aos sábados, às 19h.

Ambos os eventos têm entrada franca e mostram, por um lado, a carência ludovicense por estes acontecimentos, e por outro o fazer na raça de pessoas que, por quererem ver as coisas acontecendo, não esperam bons ventos: promovem, com chuva, sol ou lua, sem grana (por vezes tirando do próprio bolso – sem contar “no da cachaça”, que já sai quase naturalmente), sem esperar pelo apoio do poder público e/ou iniciativa privada.

“A gente faz as coisas do jeito que pode. É da doação de um aqui, de outro acolá. O Beto [Matuck], por exemplo, doou este telão”, Paulo Melo Sousa aponta o espaço de projeção do bar, usado aos sábados e, vez por outra, às quintas. Paulão, como é conhecido, e Chiquinho, proprietário do bar, lançaram, também na raça, o I Festival de Poesia do Papoético – Prêmio Maranhão Sobrinho, que distribuirá prêmios em dinheiro e literatura a novos poetas, daqui e/ou de fora.

Neste sábado (31), o Encontro com Cinema exibirá O espelho [Zerkalo, Rússia, 1975. Drama, 101min.], de Andrei Tarkovski, cuja sinopse resume: “Um homem em seus últimos dias de vida relembra o passado. Entre as memórias pessoais da infância e adolescência, da mãe, da Segunda Guerra Mundial e de um doloroso divórcio, estão também momentos que contam a história da Rússia numa mistura de flashbacks, tomadas históricas e poesia original”. O diretor usa poemas de seu pai, Arseni Tarkovski, no fechamento das cenas.

Autor do documentário Mané Rabo, que retrata a vida de um cantador do boi de costa de mão de Cururupu, Beto Matuck respondeu as perguntas abaixo, que lhe foram enviadas por e-mail.

O cineasta Beto Matuck em ação
ZEMA RIBEIRO – De onde surgiu a ideia do Encontro com Cinema? Podemos dizer que se trata de um cineclube?
BETO MATUCK
– Não se trata de um cineclube. A ideia surgiu da necessidade de podermos assistir e discutir cinema e outras artes de maneira descontraída. Além de realizar filmes, eu sempre tive muito interesse pela exibição. Chico, o proprietário do espaço, como todos os amigos sabem, é um apaixonado por cinema e abriu o seu espaço para as nossas ideias.

A seleção dos filmes é tua? Está aberta a sugestões? A programação dos filmes é de minha responsabilidade, foi feita uma lista para o ano todo, mas nada impede de exibirmos contribuições de amigos, considerando a importância estética dos filmes.

Quem assume as pick-ups e faz rolar a música do mundo após as sessões? O som é responsabilidade do [poeta e jornalista] Eduardo Júlio, que faz uma pesquisa e apresenta música fora do circuito comercial – música do mundo. Não queremos personificar o encontro, queremos juntar forças para que muito mais aconteça em São Luís, tão carente de cultura mundial.

A coisa acontece nos moldes do Papoético, isto é, há debates sobre os filmes exibidos, ou a proposta é outra? Não há debates após as exibições, é filme e muita conversa enriquecedora.

Adão

“Intelequituais” ufanóides continuam “vendendo” São Luís como Athenas Brasileira enquanto a cidade fecha, uma a uma, suas livrarias e a gente encontra inúmeros exemplares deste personagem de Adão a qualquer hora, em qualquer shopping center, que abrem (mesmo inacabados), um a um, violando legislações ambientais e sem trazer novas livrarias entre suas lojas.

Chico Discos: um bar

Ao contrário do que muita gente é induzida a pensar o Chico Discos é um bar. Explico: quem diz isso é o próprio Francisco de Assis Leitão Barbosa, o Chiquinho, seu proprietário, em entrevista ao jornal Vias de Fato, em sua edição de março, que saiu da gráfica quinta-feira passada (22).

Uma entrevista hilária concedida ao colega de redação, copo & alma Emílio Azevedo, nosso redator-chefe, editor, gerente e quantas outras funções “a dor e a delícia” de parir este jornal às ruas mês após mês exigirem.

Chico, desde antes de eu conhecê-lo, e já se vão mais de 12 anos, ele uma dessas amizades qual uísque, que melhoram com o passar dos tempos, sempre foi, como este blogueiro, “um homem de vícios antigos”, sempre comprando muitos discos, livros e dvds. Não raro nos encontrávamos no saudoso Bar de Seu Adalberto, um dos “bares pequenos” que ele cita na entrevista e onde costumávamos beber (e onde A vida é uma festa começou), cada qual com uma sacola debaixo do braço num doce e saudável exercício de fazer inveja um ao outro, exibindo mutuamente nossas mais recentes aquisições literárias, musicais, cinematográficas, afetivas, enfim.

Chico diz que seu bar, localizado no segundo andar de um casarão na esquina das ruas Treze de Maio e Afogados, no centro de São Luís, não passa disso: um bar. Nega as charmosas denominações de “centro cultural”, “casa de eventos” e outras pomposas honrarias. O fato é que ele começou vendendo livros e discos usados e locando dvds, atividade que abandonou em sequência. Hoje em dia vende cervejas, cachaças e outros alcoóis, petiscos, tira-gostos e o que mais nós, chegados a um grogue, tanto gostamos.

Quinta-feira passada (22) estive lá. Participando do Papoético, que acontece semanalmente, sob organização de Paulo Melo Sousa, o primeiro à esquerda, na foto acima, feita a meu pedido por Andréa Oliveira, esposa de Celso Borges, o terceiro. O segundo sou este que vos tecla e o quarto o músico André Lucap, que na semana anterior iniciou uma temporada de shows no bar.

Preciso deixar a cretinice e a preguiça de lado e aparecer mais no Chico Discos, bar em que, ao lado do Bar do Léo, sinto-me bastante à vontade, em casa mesmo. No Papoético em que a foto que ilustra este post foi feita acontecia o lançamento da Campanha Estadual de Combate à Tortura, da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) e outras entidades do Comitê Estadual de Combate à Tortura.

Além do Papoético (às quintas, 19h30min, grátis) e da temporada de Lucap (uma sexta-feira por mês, R$ 10,00 o ingresso; este blogue avisará da próxima edição e seu autor estará na plateia), também o cineasta Beto Matuck tem organizado aos sábados (19h, grátis) a sessão Encontro com Cinema, seguida de música, com pesquisa de Eduardo Júlio (eles não estão na foto, mas também encontrei ambos, quinta passada).

Finalizo recomendando a leitura da entrevista, hilária, repito, de Chiquinho, no Vias de Fato, já nas bancas, que traz ainda dois textos meus, já publicados aqui e aqui.

O Monstro Souza no Programa do Jô

Coautor de O Monstro Souza com Bruno Azevêdo, Gabriel Girnos desenhou o personagem principal no sofá do gordo, especialmente para a ocasião.

Há muito eu não esperava pelo Jô. Ontem valeu a pena. Que o maior escritor do Brasil, opinião de ninguém menos que Xico Sá, seja conhecido pelo Brasil.

Para quem perdeu, a entrevista tá aí embaixo, cortesia da querida sempre leitoratenta Thayane.

53

Sonhei que voltava às estradas, mas desta vez não tinha 15 anos e sim mais de 40. Só tinha um livro, que levava em minha pequena mochila. De repente, enquanto ia caminhando, o livro começa a arder. Amanhecia e quase não passavam carros. Enquanto jogava a mochila chamuscada em um canal, senti que minhas costas coçavam como se tivesse asas.

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Um sonho-poema-em-prosa de Roberto Bolaño (foto) traduzido por Ronaldo Bressane no Pernambuco deste mês. O suplemento traz ainda uma entrevista com Lourenço Mutarelli, entre outras coisas bacanas.

Cine Chico

Há quase ano e meio o poeta Paulo Melo Sousa, mais conhecido como Paulão, resolveu reunir pessoas e temas interessantes e bater papo. Em novembro de 2010 surgia o Papoético, num endereço anterior do Chico Discos, o charmoso misto de sebo e bar do Chiquinho, cabra de bom gosto, figura que também aprecia uma boa conversa e boa bebida, sobretudo se for para falar de cinema, música e literatura, suas, nossas paixões.

O Papoético, hoje consolidado, sucesso absoluto de público, vem a cada quinta-feira instigando cabeças a passear pelos mais diversos assuntos. Tenho aparecido pouco, mas confesso que é sempre um espaço superagradável.

O debate-papo semanal recentemente lançou seu 1º. Festival de Poesia, tendo por patrono o poeta Maranhão Sobrinho, cujo edital e regulamento podem ser acessados na aba [PAPOÉTICO] deste blogue, aí por cima.

Mas não é do Papoético que quero falar. Desde sábado passado outra tertúlia está também agitando o Chico Discos. Trata-se do Encontro com Cinema, cujo e-mail de divulgação recebi do cineasta Beto Matuck, diretor de Mané Rabo. A ideia é a seguinte: às 19h exibe-se um filme (sábado agora, dia 10, é Medeia, de Lars Von Trier) e na sequência a “música do mundo” toma conta do lugar.

Desserviço – Não tenho mais informações nem fui atrás. Não sei por exemplo se o dj é o próprio Chiquinho e se a curadoria cinematográfica (suponho que a cargo do próprio Matuck) está aberta a sugestões do público. O grande lance é chegar lá e se inteirar.

Musa Rara

Há tempos o poeta Edson Cruz me falou dum projeto que estava desenvolvendo e convidou-me a colaborar, do Maranhão. Topei. Há  tempos o Musa Rara foi ao ar e eu ali, sem saber o que escrever no meio de tanta gente e tanta coisa boa. Pra não mais esperar, joguei, na estreia, o mesmo texto que havia escrito pro Vias de Fato de fevereiro, que, motivos de força maior, só foi às bancas agora no comecinho de março.

Estreio pois no Musa Rara com um texto que escrevi sobre Ho-ba-la-lá, livro em que me viciei após a recomendação certeira do professoramigo Flávio Reis. Impossível escapar ileso, imune, impune à leitura. Eu, que sempre tive “problemas” com a Bossa Nova, passei ao menos a ouvir seu papa, João Gilberto, com outros ouvidos. Continue Lendo “Musa Rara”

Guia de ruas sem saída

Há determinados autores cuja notícia de lançamento me deixa ansioso. Joca Reiners Terron é um deles. Mais uma vez o negócio já começa bom pelo título.