Os vários planos de Tatá Aeroplano

Cantor e compositor conversou com o blogue sobre seu novo disco, Aladins Bakunins, protagonizado por seu personagem Frito Sampler

Aladins Bakunins. Capa. Reprodução
Aladins Bakunins. Capa. Reprodução

 

Tatá Aeroplano é um inquieto. Seu ritmo de produção, difícil de medir; rotulá-lo, simplesmente impossível. Ele inventou e integra/ou bandas como Cérebro Eletrônico e Jumbo Elektro, e agora ataca de Frito Sampler. Além disso, é dj e produtor (vide o ótimo homônimo de estreia do capixaba Juliano Gauche) e, entre outros, participou de Vira lata na via láctea, mais recente disco de Tom Zé.

Frito Sampler, alter ego de Tatá Aeroplano, era o vocalista da Jumbo Elektro, e acaba de lançar Aladins Bakunins, seu disco de “estreia”, já à venda em seu site, onde também pode ser baixado de forma gratuita. O show de lançamento do álbum está marcado para 26 de agosto, no Sesc Pinheiros/SP. O disco tem produção de Tatá Aeroplano, Otávio Carvalho e coprodução de Júnior Boca (parceiro de Tatá na produção do citado Juliano Gauche) em algumas faixas.

Em Aladins Bakunins Frito Sampler dá vazão à experiência iniciada pelo artista na saudosa Jumbo Elektro: canta numa língua inexistente baseada no anglo-saxão. Assim, é possível ler coisas como Cats and gatz ou Ladies, soldies and fantasys, além de Love, melodies and more nothing, entre outras, entre os títulos das 10 faixas do álbum.

Frito Sampler surgiu em um sonho. Aladins Bakunins, o título do álbum, em uma pesquisa na internet: buscando outra coisa, as palavras apareceram juntas e ele não teve dúvidas em usá-las para batizar o novo trabalho.

Nele estão traços característicos da obra de Tatá Aeroplano, com altas doses de psicodelia evocadas desde a capa, num disco de conteúdo freak, às vezes folk, alucinante, mais alegre aqui, ou melancólico acolá, como se pudéssemos prever o que, de repente, a formação original dos Mutantes estaria fazendo em pleno século XXI.

Tatá Aeroplano – ou Frito Sampler – conversou com o blogue. Esbanjando simpatia, ao fim do e-mail em que respondeu a entrevista, mandou um “viva a música e obrigado pelas perguntas”. Aos produtores da Ilha, um toque: é grande sua vontade de tocar aqui.

O plural Tatá Aeroplano: cantor, compositor, instrumentista, DJ, produtor... Foto: Divulgação
O plural Tatá Aeroplano: cantor, compositor, instrumentista, DJ, produtor… Foto: Divulgação

 

ENTREVISTA: TATÁ AEROPLANO

Já foi dito que a música é a única linguagem universal. O que o levou a cantar numa língua inexistente?
Quando aprendi tocar violão na adolescência, a segunda canção que compus junto com o violão foi uma que não tinha uma letra em português, e sim umas palavras “desconexadas”, puxadas pro anglo-saxão… Foi um lance natural, que sempre teve momentos na minha onda criando. O que aconteceu com o Frito foi isso. Tive um surto cantando essa linguagem louca em 2013 [durante a gravação da trilha sonora do longa-metragem De menor, de Caru Alves de Souza]… Fiz um monte de músicas assim e me deixei levar por isso, como tinha feito com o Jumbo Elektro, minha banda de 10 anos atrás.

Homem à frente de Cérebro Eletrônico e Jumbo Elektro, carreira solo de Tatá Aeroplano, e agora Frito Sampler. Qual a sensação de ser vários?
Depois que eu vi o filme Holy Motors do Leo Caraix, entendi que sempre fui vários… Dei corda pra isso… Adoro me jogar na noite… Adoro acordar cedo… Gosto de correr… De andar pela city… De tomar umas… De tomar várias… As composições sempre vieram de todos os lados e influenciadas por tudo o que eu vivo… Entendi que sempre fui vários… Tem o que acorda cedo.. O que não dorme… O que toma litros de café… O que bebe todas… Eu convivo com todos eles… E se dou mais corda pra um… O outro reclama… Minha cabeça é uma loucura das boas.

 

Frito Sampler é mais que a reunião de sobras que não couberam em discos de tuas bandas ou tua carreira solo. É possível explicá-lo?
São as músicas que baixaram sem muita explicação lógica, como as cantadas em português, que também chegam do nada, a maioria é assim… O lance de sobras, são aquelas bandas que fazem 50 músicas pra tirar 10 pro disco… O meu problema, na real, é que componho centenas de coisas a cada ano… Daria pra fazer uns discos bem loucos… Então tô vendo até que ponto posso dar asa às loucuras… Porque pretendo no futuro… Fazer um disco de inéditas a cada seis meses… Falando em baixar… Tenho uma banda com o Paulo Beto… Chamada Zeroum, lá eu sempre cantei nesse idioma também… [o artista enviou os links com os vídeos usados nesta entrevista]

 

Aladins Bakunins é divertido e tem a marca de Tatá Aeroplano. Fora a língua inventada, o que difere basicamente Frito Sampler de Tatá Aeroplano?
O Frito é esse cara que aparece no clipe Frank Black Meeting Calling Days [faixa que abre Aladins Bakunins]: ele tem uma namorada andrógina de peruca rosa também e tem amigos como o pássaro psicodélico da floresta… A Ohana… A Sofi Anaho… Ele frequenta a noite e se joga geral… Esse é o Frito, canta numa língua que não existe… É o cara que veio do campo pra cidade. Já meu trabalho de compositor traz as canções em português, tem a psicodelia e a ironia que carrego comigo e em tudo que eu faço coloco um pouco dessas referências todas.

Com tantas identidades é difícil conciliar tantas agendas? Tem ainda a de produtor, dj…
O mais difícil mesmo é conciliar todos esses personagens malucos aqui dentro da cachola… Quanto a agenda… A prioridade total pro trabalho autoral, os álbuns do Tatá [Tatá Aeroplano, de 2012, e Na loucura e na lucidez, de 2014]… E nos respiros… Pirações… Como eu disse… Minha meta é um disco a casa seis meses.

Conheces São Luís? Gostaria de tocar aqui? O que falta?
Nossa, tenho muita vontade de ir pra São Luís. Eu preciso saber quem pode me ajudar a ir praí fazer shows! Quero muito ir!

Chorografia do Maranhão: Hermelino Souza

[O Imparcial, 30 de novembro de 2014]

Técnico em contabilidade de profissão, o violonista Hermelino Souza é o 44º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Técnico em contabilidade de formação, Hermelino de Jesus Souza nasceu em São Luís, dia 19 de abril de 1938, filho do comerciante Julio Souza, e Domingas dos Santos Costa, doméstica. Seu pai faleceu quando ele tinha apenas 16 anos, mas foi um dos responsáveis pelo gosto que tomou pelo violão.

Aos 76 anos, Hermelino revelou à Chorografia do Maranhão estar diminuindo o ritmo de trabalho na contabilidade – atende em um escritório no Edifício Catu, no Centro da capital maranhense e é conselheiro do Conselho Federal de Contabilidade – para dedicar-se mais à música.

Presenteou a chororreportagem com o cd O violão através dos tempos, fruto do resgate de fitas k7 em que toca repertório clássico e uns poucos choros. A entrevista aconteceu no Bar do Léo, que tocou repetidamente Ninguém é melhor do que eu, disco de estreia da compositora Patativa, que havia sido recém-integrado a seu acervo.

Os chororrepórteres com Léo, Hermelino e sua esposa. Foto: Rivanio Almeida Santos
Os chororrepórteres com Léo, Hermelino e sua esposa Maria Iracema. Foto: Rivanio Almeida Santos

O proprietário do bar posou para uma foto, junto ao entrevistado e aos chororrepórteres, usada para divulgação da série nas redes sociais, e recebeu um elogio do violonista: “esse é o homem da cultura musical”.

Hermelino estava acompanhado de Maria Iracema Aquino, sua esposa, que revelou já o ter visto tocando Sons de carrilhões [João Pernambuco] dormindo. Ela contou também que a reação do marido, um dia, ao chegar e ver a casa arrombada, foi botar as mãos na cabeça e exclamar: “meu violão!”. O instrumento estava intacto.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Além de músico, o senhor hoje tem alguma outra profissão? Várias. Além de músico, eu posso contar umas histórias? A história disso é a seguinte: desde a mais tenra juventude, como se diz, todo mundo tem uma noção de instrumento, a coisa com a família, papai cantava alguma coisa, aquela influência toda, me levou a admirar o violão. Mais tarde, meu pai morreu, eu fiquei pequeno. Eu fui desenvolvendo o violão, tocando, aprendendo com um, com outro, por ali. Eu tinha um irmão, Odimar, tocava cavaquinho muito bem. Por influência dele, fizemos um regional, eu já devia ter uns 18 anos, Regional Caçula, acompanhava programa de calouros. Era eu, meu irmão e mais três outros irmãos.

Quanto tempo durou o Caçula? Uns três anos. Depois eu comecei a trabalhar, lá por 1963, num escritório, eu era auxiliar. Tirei o curso técnico de contabilidade, foi meu primeiro emprego.

Depois de contabilidade o senhor estudou outra coisa? Nada.

E hoje? Está aposentado? Não. Trabalhando normal. Estou reduzindo um pouco.

O ambiente em sua casa era muito musical? Era. Nunca me disseram se fazia bem ou mal, mas me acompanhavam. Eu fazia o que eu queria, tinha livre arbítrio.

Seu pai gostava de música? Tocava? Tocava violão.

Comprava discos? Ouvia muito rádio? Não. Nunca vi discos por lá. Nem rádio, naquela época. Nem ele tocando, ele cantava com a turma dele na rua e nem isso eu via.

O senhor lembra com que idade começou a pegar em instrumento? Eu devia ter uns 16 anos, talvez um pouco menos. Era nessa faixa.

A sua principal influência para escolher o violão foi teu pai? Foi.

O que o senhor ouvia em termos de violonistas brasileiros? Quem mais te chamava a atenção? Naquela época eu não sabia, não conhecia ninguém. Na época desse regional, era zero à esquerda. Só tocava.

Vocês tocavam choro e samba? E acompanhávamos. Choro e samba solados por cavaquinho. E acompanhávamos os programas de calouros, em rádios. Naquela época tinha comédias, pastores, uma coisa tradicional, pastor ainda tem até hoje. No desenrolar desse tempo, papai morreu, mamãe morreu, eu fui criado por uma mãe de criação. Ela me orientou de uma forma, mas eu tive que fazer as coisas de acordo com meu pensamento, ela não se metia. Em termos de trabalhar, profissão, aprender alguma coisa, nada. Me botaram para estudar num colégio público, tirei o primário, depois o ginásio, depois fui para a antiga Escola Técnica [hoje Ifma], cursos profissionalizantes na época. Cheguei num ponto tal: “rapaz, o que eu vou fazer na vida?” [risos]. Eu mesmo. Fui fazer um curso médio. Antes disso aconteceu outra coisa interessante. Eu tinha aprendido um bocado de coisa interessante no violão, e andei ensinando um pouco, precariamente. Fui estudando e entrei para um colégio, chamado Academia de Comércio [na Rua Afonso Pena, Centro]. Eu nem sabia o que era contabilidade, mas só tinha vaga lá. Eu ensinava, com o dinheiro do violão pagava o curso. Na escola consegui uma bolsa, pagava uma parte. Consegui tirar o diploma. Concomitantemente, nessa época, eu já estava tocando na rádio Ribamar. Conheci uma pessoa muito importante, um barbeiro, ele queria ser chamado de cabelereiro [risos], seu Wilson, famosão aqui.

Eu queria que o senhor falasse do papel que algumas barbearias cumpriram para a prática do choro e do violão. Fundamental! Eu vivi uma vida com ele lá. Naquela época, toda barbearia, violão tava lá. Wilson era um barbeiro, sabia tocar um pouco, gostava demais de violão. Tinha um professor conhecidíssimo na época, Luiz Almeida. Ele ensinava Wilson. Eu havia estudado música com o maestro Godofredo Rosa, na Vila Bessa, teoria, divisão, aquela coisa toda. Estudei um pouco de flauta com ele, depois clarinete. Aquilo me deu uma base de música. Quando eu cheguei na casa de Wilson, ele me apresentou um método da escola de Tárrega [Francisco Tárrega, compositor, pianista e violonista espanhol]. Ele ia para a barbearia, sentava na cadeira com o violão, isso durou anos e anos. Luiz Almeida eu conheci na barbearia. Eu não podia pagar professor de violão, mas ele me deu umas dicas, eu fiquei amigo dele, comecei a pedir partituras, eu já tinha uma base. Luiz me dava, eu tinha que copiar tudinho. Depois disso foi que veio o programa de rádio. Eu tive que aprender rápido, fui fazer um programa próprio. Nesse programa, Acordes de um violão, naquela época não se desenvolvia muito choro aqui; se desenvolvia música clássica, violão erudito, em termos populares se tocavam algumas marchas e valsas, o repertório de Canhoto, Américo Jacomino. Wilson se transformou, para mim, não vou dizer pai, por que a diferença de idade não era tão grande, mas era como um irmão mais velho. Eu já era da família, não saía de lá.

O programa de rádio era em que ano? 1963, por aí. Na rádio Ribamar, no Apicum.

Como o senhor começava o programa? Esse programa teve vários apresentadores. Um deles foi Jairo Rodrigues, outro, eu gostava muito, era um poeta de mão cheia, Marcos Vinicius, um cara de alta cultura literária, ele ficava tão empolgado.

Quem o senhor elegeria como seus mestres? Indiretamente seu Wilson, Luiz Almeida.

Indiretamente. Então o senhor se considera um autodidata? É, um autodidata com uma porcentagem de 80 a 90%.

Essas duas situações, primeiro o regional, depois o músico de rádio: foram suas primeiras experiências profissionais com música? Não. Não, por que eu nunca me tornei profissional. Foram oportunidades que eu tive.

Isso é modéstia. Não, eu nunca fui mesmo.

Mas na rádio tinha um cachê. Por esse lado era profissional, não? Tinha, mas era tão pequeno. Mas eu estava lá e fiz. Digamos que, de certa forma, seja profissional. Mas eu não considero.

O que te despertou para a música clássica? Wilson. Papai tocava violão, mas eu não via. Eu tocava violão. O que me despertou de música, eu ouvi um rádio de uma vizinha, essa música me marcou até hoje, passei muito tempo para arranjar essa partitura, arranjei, e ainda não criei coragem para estudar. Um dia hei de tocar: Os patinadores [ele solfeja a valsa do compositor francês Émile Waldteufel], todo dia de manhã tocava numa rádio.

O senhor foi acompanhante, depois desperta para o violão erudito, mas depois passa a compreender o choro, as grandes referências do violão popular brasileiro. Quem são essas referências? O choro é uma música de alta elaboração, de alto nível. Eu, naquela época, de música brasileira, tocava algumas valsas e algumas marchas. Eu tocava a Marcha dos marinheiros, de Américo Jacomino. O choro veio mais tarde. Eu aprendi um ou outro, toquei também a Marcha triunfal, de Canhoto. Depois apareceu Dilermando. O choro, pra mim, começou com Dilermando Reis [violonista], mas eu fiquei com os dois lados, nunca consegui me separar, eu continuava com o erudito. Depois eu cheguei a uma conclusão: a música é uma só, muda o ritmo e a preferência de cada localidade, cada pessoa. A música clássica é uma música essencial, ali está toda técnica de ensino, exercícios, dentro da própria música tem. Um dos grandes problemas do choro, que ainda se enfrenta até hoje, são pessoas que devido à época, não tiveram a oportunidade de estudar música, tocam de ouvido, a maioria. Hoje é diferente. O próprio Waldir Azevedo [cavaquinista], o próprio Jacob [do Bandolim]; Jacob veio se esmerar em música depois que conheceu Radamés [Gnattali, pianista, compositor e arranjador], que deu para ele a Suíte retratos [que em quatro movimentos homenageia Anacleto de Medeiros, Pixinguinha, Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth].

O senhor já viveu de música? Não. Só na época da rádio Ribamar, eu ganhei alguns trocados. Só isso.

Além do Caçula o senhor participou de algum outro grupo musical? Eu não lembro.

O senhor já integrou algum grupo acompanhando artistas? Não. Sempre era violão solo. Acompanhando assim, às vezes em duo, eu e Biné [do Cavaco, Os Irmãos Gomes, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de junho de 2014], eu e Fernando Cafeteira [violonista, falecido, integrou a primeira formação do Regional Tira-Teima]. Eu gravei um disco [Hermelino presenteia os chororrepórteres com exemplares de O violão através dos tempos]. Esse disco tem uma história, foi feito com o irmão de Biné, Denizal, o mais velho. Ele foi outro irmão meu, tocava bem violão. Nesse cd eu botei umas músicas que eu gravei com Denizal. Eu tinha em fita k7, descobri isso, ouvi, tava bom. Falei com Gordo [Elinaldo, multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 27 de outubro de 2013] e ele passou isso aqui pra cd.

Como foi a gravação dessas músicas? Quando foi? Eu tinha umas fitas que eu guardei. Eu estava em Belém e gravei, nós gravamos em casa, no hotel.

E por que o senhor não gravou de novo? Eu não estava mais tocando essas músicas. E queria ter a memória. Isso aqui foi uma transição. Eu estou largando o serviço [de contabilidade], diminuindo. Eu pego o violão todo dia em casa.

Como eram as reuniões nas barbearias? Quem frequentava? Como se dava a dinâmica da música? Tem umas histórias de violão e barbearia. Wilson tinha outro cliente, seu Morais. Eu comecei a tocar músicas de Dilermando Reis, Xodó da baiana, Sons de carrilhões [de João Pernambuco], Interrogando. Seu Morais era doido por isso. Ele ouvia clássico, ouvia por que é bonito mesmo, mas a paixão dele era o popular, Dilermando Reis. Um dia ele me chamou para tocar com eles, a gente ficou tocando, tomando um vinho, na casa do poeta Carlos Cunha, lá no Monte Castelo. As barbearias eram uma salinha pequena, o violão ficava lá, alguém pegava. Quando chegava cliente, tinha uns que gostavam, quando não estavam cortando cabelo, estavam tocando. Depois de muito tempo, chegaram João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], Ubiratan [Sousa, multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], Wilson primava pela coisa, só iam os bons. Ele era muito rigoroso.

Alguma outra barbearia nas lembranças? Quando eu estive em Belém conheci outras duas. Eu conheci um camarada lá que era barbeiro, era louco por violão. Eu fui pra barbearia dele, ele tocava pra clientela, o pessoal gostava muito, era muito bom [posando para fotos, Hermelino toca um trecho da Marcha dos marinheiros, de Canhoto].

Além de instrumentista o senhor tem outras habilidades na música? A minha maior vontade é escrever, fazer arranjos para violão. Eu comecei a fazer [mostra uma partitura para os chororrepórteres]. Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013] fez um álbum [Choros maranhenses – caderno de partituras] só com choros maranhenses. Tem um choro de seu Nuna [Gomes], pai de Biné [do Cavaco], Um sorriso. Eu tinha vontade de tocar esse choro, mas não conseguia pegar de ouvido. Aí eu fiz [o arranjo], mandei para Zezé criticar. Eu fiz primeiro de um jeito, depois mudei um pouquinho, para facilitar mais [executa Um sorriso].

O que é o choro para o senhor? O choro é uma das músicas mais importantes do nosso país. É a única música, ou uma das únicas, verdadeiramente brasileiras, nasceu no Brasil, no Rio de Janeiro. É o som que nós queremos ter e viver.

Na sua opinião, quem é o grande violonista brasileiro em todos os tempos? Nós temos muitos. Para escolher um é difícil. Um camarada que eu admiro muito é Henrique Annes [violonista]. Outro violonista erudito, também aqui do Maranhão, é João Pedro Borges. Turíbio Santos [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 29 de setembro de 2013]. Tinha Raphael Rabello [violonista], que faleceu.

E no Maranhão? O senhor tem acompanhado a cena choro? Aqui tem um cara que eu admiro, acompanho a obra dele, que eu considero de vanguarda, chama-se Luiz Jr. [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013]. Nesse meu disco eu quero chamar Luiz Jr. e Domingos Santos [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014]. De Luiz Jr. eu tenho uma música linda, chamada Choro pro Guinga.

O senhor se considera um chorão? Também. No Brasil quem não é chorão? Ainda mais quem lida com o instrumental, violão, bandolim, cavaquinho, flauta, é um chorão, queira ou não queira.

“Lelé da cuca num dia de sol” (meu repertório de ontem)

Entre organizadores do evento e djs de ocasião: da esquerda para a direita Catarina Malcher, Cláudio Mendonça, Welbson Madeira, este que vos perturba e Otávio Costa
Entre organizadores do evento e djs de ocasião: da esquerda para a direita Catarina Malcher, Cláudio Mendonça, Welbson Madeira, este que vos perturba e Otávio Costa

 

Quando comecei a colecionar música mais a sério o vinil estava caindo em desuso e o cd significava o futuro – agora as coisas se invertem. Vi muita gente substituir coleções inteiras. Eu tinha uns poucos vinis e comecei a comprar tudo no formato que então começava a se tornar mais popular.

Não sou um grande colecionador de vinis, embora tenha mantido alguns, sobretudo títulos nunca relançados em formato digital, a exemplo dos de Chico Maranhão lançados pela gravadora Marcus Pereira.

Apesar disso, não hesitei em aceitar o convite do amigo Welbson Madeira para o ato “Vinil: tempos de resistência”, do Comando Local de Greve da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), ontem (9), na Área de Vivência. Por diversas razões: re-encontrar pessoas queridas com quem comungo sentimentos e ideologias, trocar ideias sobre música, o que é sempre um bom tema para muitos papos, além de erguer a voz contra o autoritarismo dominante na universidade, que cada vez mais tem tentado esterilizar o pensamento e a crítica – o que é muito arriscado num ambiente como o acadêmico, não bastasse o que têm feito o sucateamento e o produtivismo ao longo dos últimos anos.

Catei os vinis, convidei o amigo-irmão Otávio Costa, leitor fiel e atento deste blogue, e nos mandamos. Os que levamos vinis éramos djs por uma tarde: eu, Otávio, Cláudio Mendonça, Welbson, seu filho Ernesto Vandré, inclusive atendendo a pedidos.

Agulha e microfone livres, saudei o ato, sua organização, agradeci o convite e abri os trabalhos com Bandeira de aço (Cesar Teixeira), faixa-título do disco homônimo de Papete, lançado por Marcus Pereira em 1978. Na sequência ataquei de A vida de seu Raimundo (Chico Maranhão), do Fonte nova de Chico Maranhão, lançado pela mesma gravadora. Pra quê me deram liberdade? Antes de cada música eu ia contando histórias. Desta, lembrei de uma entrevista em que o autor me disse ter sido inspirada no assassinato do jornalista Vladimir Herzog nos porões da ditadura militar brasileira.

Papeei, namorei vinis alheios – sobretudo o duplo Na quadrada das águas perdidas, de Elomar, da Bia – e o ato vespertino seguia animado pelo revezamento de djs e locutores de ocasião. Como tudo o que é bom dura pouco, logo eu teria que partir. Anunciei duas saideiras: A bola do jogo (Fred Zeroquatro), de Samba esquema noise (1994), estreia dos pernambucanos do mundo livre s/a, e Passarinho, de João do Vale, na interpretação de Irene Portela, lançada pela codoense num disco da Marcus Pereira, Rumo Norte (1979).

Já estava nos abraços de despedida quando me chamaram para uma foto (a que abreilustra este post) e vi, sobre a mesa, uma coletânea de Paulo Diniz – que estava entre os discos repetidos que eu havia levado. Não me contive. Contei a história da música, cujo título foi retirado de uma frase (que ficou de fora da versão final) do Catatau de Leminski e mandei ver Ponha um arco-íris na sua moringa (Paulo Diniz e Odibar), espécie de faixa bônus de minha participação no ato.

Saí, na sequência, ao som de Um chope pra distrair, também de Paulo Diniz, que me foi oferecida por Marizélia Ribeiro. Parece que a coisa vai pegar. Se nem o calor nos esmoreceu, a depender da disposição deste bando, o evento deve ganhar periodicidade. A conferir.

*

Ouçam Paulo Diniz em Ponha um arco-íris na sua moringa:

Vinis e resistência

Divulgação
Divulgação

 

Logo mais às 16h eu participo deste ato, rolando uns vinis e dizendo umas coisas, sem ensaio nem “traje condigno”.

Quem quiser colaborar é bem vindo/a! Apareçam!

Em tempo: A Controladoria Geral da União (CGU) disponibilizou um relatório de auditoria que aponta uma série de irregularidades na gestão de Natalino Salgado.

Alvíssaras! Ricarte Almeida Santos inaugura novo projeto musical

Rico Choro Com Vida terá primeira edição dia 1º. de agosto, no Barulhinho Bom

Arte: Nuna Neto
Arte: Nuna Neto

 

Talvez o Clube do Choro Recebe tenha sido o mais longevo projeto musical já realizado em São Luís/MA, em seus moldes. Os encontros musicais semanais realizados no Bar e Restaurante Chico Canhoto, na Cohama, com rápidas passagens pela Pousada Portas da Amazônia/ La Pizzeria (Praia Grande) e Associação do Pessoal da Caixa (APCEF, Calhau), eram feitos com baixo orçamento, e muito do que aconteceu em aproximadamente três anos, entre 2007 e 2010, tempo de duração do citado projeto, foi fruto das doações de alguns.

E não se fala aqui só em dinheiro. Fatores como tempo, energia, amor e carinho também se somaram para seu êxito – coisas que não têm preço, nem figuram em comerciais de cartões de crédito. Equipamento de som, cachês de músicos, produção e assessoria, embora pequenos, eram garantidos por pequenos patrocínios, além do apurado com a bilheteria da casa, sempre praticando preços populares.

Tive a honra, o prazer e o privilégio de, à época, ser assessor de comunicação do exitoso projeto – até hoje, vez por outra, ouço a indagação: “quando é que o Clube do Choro vai voltar?”. A abreviatura do nome do projeto na pergunta se justifica pela estreita relação, à época, do produtor Ricarte Almeida Santos com o Clube do Choro do Maranhão, apesar de o Clube do Choro Recebe ser bastante identificado como algo do apresentador do Chorinhos e Chorões na Rádio Universidade FM (106,9MHz) – e não agiam errados os que cometiam esta personificação.

Idealizador do projeto a partir de uma visita do músico mineiro Paulinho Pedra Azul à Ilha, em 2007, era Ricarte Almeida Santos o responsável por articular grupos e artistas convidados para os saraus semanais que viraram sinônimo de música de qualidade em São Luís, já que o formato pensado, proposto e realizado, embora privilegiasse o choro, não se fechou ao gênero, abrindo diálogos bastante interessantes e importantes, sobretudo com os ritmos da – e com os artistas que a fazem – cultura popular do Maranhão. Também era ele que corria em busca de patrocínios, que “perturbava” os músicos para garantir os ensaios que se traduziam em intimidade musical entre grupos e convidados no palco, além de ser o mestre de cerimônias que, sábado após sábado, apresentava grupos e artistas e outras informações pertinentes, já que – e isso também merece destaque – o Clube do Choro Recebe cumpriu uma função pedagógica. E se houvesse outras tarefas, certamente seriam desempenhadas com o mesmo capricho e zelo.

Não é raro também encontrar entre os que tenham passado pelo projeto, em seu palco ou plateia, os que elogiem a atenção do público presente à música, principal atração das noites daqueles sábados. “As pessoas iam ali para ouvir música”, costumam afirmar, em oposição a lugares em que a música é apenas um detalhe, quando o que importa para as pessoas é tocar sua própria percussão, batendo talheres em pratos ou estalando selfies (praga menos avassaladora naqueles idos).

O fato é que, passados três anos, com a inexistência de apoio dos poderes públicos e os escassos patrocínios da iniciativa privada, o projeto teve que ter um fim decretado, deixando muitos órfãos, incluindo o produtor e este que vos perturba.

Três anos depois, em março de 2013, iniciamos, os irmãos Almeida Santos, Ricarte e Rivanio, este responsável pelas fotografias, e este que lhes toma o tempo com estas mal traçadas, a série Chorografia do Maranhão, publicada quinzenalmente aos domingos (com raras falhas na periodicidade) no jornal O Imparcial, que gratuitamente nos cedeu duas páginas de seu caderno Impar e recebeu, também gratuitamente, por mais de dois anos, até aqui, 52 entrevistas com instrumentistas de choro nascidos ou radicados no Maranhão.

A Chorografia do Maranhão contempla um panorama único e inédito, constituindo-se na maior série de entrevistas já publicada por um jornal no Maranhão – apesar da pausa, seu trio de realizadores não deu ainda o trabalho por encerrado, por entender que algumas figuras fundamentais para a história e o desenvolvimento do choro no estado ainda estão de fora.

Por outro lado, somado o entusiasmo do escritor e editor Bruno Azevêdo e de sua Pitomba! Livros e Discos, já está sendo trabalhado o lançamento do material em livro – oxalá que na próxima Feira do Livro de São Luís (Felis) – para o que estamos correndo atrás de patrocínio.

Mas as coisas não param por aí. Ainda bem!

Durante um show do compositor Cesar Teixeira – com participações especiais de Flávia Bittencourt e Célia Maria – no Bar do Léo, no último sábado (4), e em seu programa, ontem (5), Ricarte Almeida Santos anunciou: dia 1º. de agosto, ele inaugura o projeto Rico Choro Com Vida, que acontecerá aos sábados, uma vez por mês, no Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande), sempre das 18h às 21h.

O projeto manterá o formato do Clube do Choro Recebe: um grupo apresenta repertório instrumental por uma hora, recebendo depois um convidado. Na sequência, palco livre para as tão charmosas canjas. Para a primeira edição, o embaixador do choro no Maranhão anunciou o nome do cantor Cláudio Lima, que será acompanhado por Luiz Cláudio (percussão), Luiz Jr. (violões de seis e sete cordas, guitarra e viola), Robertinho Chinês (cavaquinho e bandolim) e Rui Mário (sanfona), o mesmo quarteto que acompanhou Cesar Teixeira no show de sábado. A formação é quase o Quartetaço (que tinha o flautista João Neto em vez de Robertinho Chinês), que batizado por Aço, de Bruno Batista, foi formado justamente para acompanhá-lo quando de uma apresentação no Clube do Choro Recebe, e engendrava o Choro Pungado, quinteto que acabou reunindo todos eles ao redor da fogueira do fazer choro, mesclando o gênero a tudo o que se possa imaginar em termos de ritmos da cultura popular do Maranhão, certamente uma das maiores invenções daquele projeto – infelizmente, de existência ainda mais meteórica que o próprio.

Os ingressos custarão R$ 20,00 e poderão ser adquiridos no local. Ao novo ciclo que se inicia, desejamos vida longa: Rico Choro Com Vida, Rico Choro Com Vida longa!

Chorografia do Maranhão: Giovani Cavalcanti

Membro de diversos conjuntos no auge da era dos bailes, o violonista é o 43º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Giovani Alves de Cavalcanti chegou antes da hora marcada para prestar seu depoimento à Chorografia do Maranhão, o 43º. da série. Ele foi entrevistado por Ricarte Almeida Santos e Zema Ribeiro e fotografado por Rivanio Almeida Santos na quitanda de Seu João, na esquina das ruas da Viração e do Machado, próximo à avenida Beira-Mar, no Centro de São Luís.

Filho do psiquiatra Odilon Rezende Cavalcanti e de Eli de Assis Cavalcanti, doméstica com dotes artísticos, o violonista nasceu na rua São José, no bairro do João Paulo, em 4 de setembro de 1950. “Minha mãe esculpia, fazia pintura, chegou a escrever para jornal, alguns artigos, crítica contra a administração pública, tipo Caema, Cemar. O título era Canivetadas e ela assinava lá embaixo O Canivete. Fazia artigos em linguagem sertaneja e em rimas com o mesmo objetivo, sempre de malhar o sistema, as deficiências administrativas do Estado. E também compôs algumas músicas”, conta.

Ele estudou na escola técnica desde o ginásio industrial e cursou Química. Aposentou-se como técnico sênior em eletrônica na Telecomunicações do Maranhão S.A (Telma). Suas primeiras memórias musicais remontam a discos de gêneros os mais diversos, ouvidos pela mãe, e a um cavaquinho de plástico onde começou a dar as primeiras dedilhadas.

Na conversa com a chororreportagem Giovani lembra o convívio com figuras fundamentais para o choro no Maranhão, como Zé Hemetério e Nuna Gomes, além de várias histórias do auge das bandas de baile, ele que integrou algumas, além de grupos de samba.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Além de músico qual a sua outra profissão? Eu fui um técnico em telecomunicações. Entrei na Telma no setor administrativo em 1975, trabalhei cinco anos lá, depois descobriram que eu tinha aptidões técnicas. Passei num concurso para a Embratel e a empresa para não me perder para a Embratel decidiu me reaproveitar no setor técnico. Mas eu tinha que cumprir algumas exigências da empresa, fazer cursos de eletricidade, eletrônica, embora eu já soubesse, mas eu tinha que me sujeitar às condições da empresa. Passei para auxilitar técnico e terminei minha carreira, já com a privatização da empresa, como técnico sênior em eletrônica, que é nível superior.

Hoje você está aposentado? Aposentado.

Observa-se uma paixão muito grande em tua vida que é o radioamador. Fale um pouco dessa paixão. O radioamador é interessante. Eu não sabia nada sobre radioamadorismo. Ainda trabalhando no setor administrativo, fiz amizade com o gerente da área técnica, o Pontes. Um dia peguei uma carona com ele e ele tinha um radiozinho lá, um aparato de comunicação. E no teto uma antenazinha, aquela coisa toda. A gente chegou perto da cabeceira da ponte do São Francisco e ele perguntou: “tu tá ouvindo esse cara aqui? Esse cara tá falando de Copacabana”. Aí ele começou a se comunicar com esse cara em Copacabana. Eu fiquei impressionado, como é que um rádio, um pouco maior que uma carteira de cigarros, conseguia se comunicar diretamente com a pessoa lá no Rio. E ele disse que não era só o Rio, mas qualquer cidade distante de São Luís aproximadamente 2.000 quilômetros. Foi aí que eu passei a me interessar, comprei equipamento, tirei minha licença na Anatel e entrei na chamada Faixa do Cidadão. Anos depois, já agora na era 2000, foi que eu realmente ingressei na Labre, a Liga Brasileira de Rádio emissão, e aí tive que me submeter a prova, inclusive de telegrafia. A telegrafia é mais ou menos igual a música, eu estudei sozinho. A música, como a telegrafia, antigamente era uma caixa preta, quem sabia não ensinava. Mas eu já falei com diversos países do mundo todo, muitas cidades do Brasil. O que está acima de 2.000 quilômetros.

Você também gosta muito de rádio AM. Eu gosto, eu sou coruja. Eu tenho vários rádios de ondas curtas. Foi um vício que eu adquiri de infância. Na minha casa tinha aqueles rádios a válvula da Philips, de noite eu não tinha para onde sair, a criação era bem diferente de hoje, você custava a sair, acima de 15, 18 anos é que você ia para festas. Hoje não, moleque de 12 anos já está por aí. Eu tinha que ficar em casa, inclusive aquelas expedições lunares, aquela corrida espacial dos Estados Unidos, tudo aquilo a gente ouvia pelo rádio. Então eu adquiri essa mania.

Como era o universo familiar, musical? O que te influenciou? Tua mãe tinha dotes artísticos. É o seguinte: minha mãe, o primeiro brinquedo que ela comprou, ela sempre gostava de comprar brinquedos musicais, flautinha doce, uma gaita. Teve uma época que ela comprou um cavaquinho da Troll, o slogan da Troll era “brinquedos de verdade”, e esse cavaquinho, mesmo sendo de brinquedo, de plástico, ele afinava. Você não afinava na altura, não tinha diapasão. Ela sabia afinar o cavaquinho e começou a me dar umas noções. Minha influência musical mesmo é que naquela época era muito eclética. Ela botava um disco de Luiz Gonzaga agora, daqui a pouco tirava e botava um Lenny Everson, Valdir Calmon, pra mim foi um dos maiores arranjadores de música popular no Brasil. Até hoje eu tenho na cabeça aqueles arranjos de Valdir Calmon, onde ele mistura samba e choro, fazendo aqueles pot-pourris, modulando, mudando de uma música para outra, muito bom o cara. A minha formação mais ou menos é essa, meu gosto.

Teus pais, então, eram colecionadores de discos, compradores de discos, ouviam muita música em casa. É, minha mãe ouvia muita música. Mamãe tinha Luiz Gonzaga e, por exemplo, disco da Banda Real Inglesa, Banda da Marinha dos Estados Unidos. Na época da semana da pátria só se ouviam hinos, aqueles dobrados militares. Música de natal, toda época ela tinha música. Mas mamãe gostava de música sertaneja, música clássica, Marinês e sua gente, Luiz Gonzaga, esse pessoal.

Quando ela presenteava vocês com esses brinquedos musicais, ela tinha pretensão de que vocês seguissem a carreira artística? Não, não. Era uma coisa informal, sem pretensão.

Mas ela te estimulou a participar de programas de calouros. Ah, sim. Nem todo mundo sabe, mas antigamente todas as rádios de São Luís tinham auditórios. Era obrigatório. E essas rádios tinham programas de auditório, ao vivo, pessoas na época muito faladas, tipo Lima Jr., da Rádio Difusora, que inventou O domingo é nosso. Todas as rádios, Ribamar, Timbira, Difusora, todas tinham auditórios. Nesses auditórios se apresentavam também os cantores que vinham de fora, Nelson Gonçalves, Orlando Silva, e também os cantores da terra, tipo Orlandira Matos, Alcione, Escurinho do Samba. E até eu. [risos] por que não eu? Me inscreveram na Rádio Timbira, num programa mirim, só a garotada, era à tarde. Me botaram em cima de uma cadeira pra eu poder alcançar o microfone. A música que foi escolhida para mim foi O jarro de barro [O jarro da saudade, de Daniel Barbosa, Geraldo Blota e Mirabeau]: começa [cantarola] “Iaiá, cadê o jarro?/ o jarro que eu plantei…” Então, eu cresci, o nosso lazer antigamente em São Luís era cinema, dia de semana à noite, a tarde, os vesperais, e praia. Até praia era difícil. Pra ir pra Ponta d’Areia tinha que ir de canoa, Olho d’Água não tinha nem asfalto.

Como você entrou profissionalmente na música? Nós, todos os músicos da minha época, éramos amadores. Não tínhamos as oportunidades que a galera de hoje tem, como várias escolas de música, internet. Nós éramos músicos práticos, só tínhamos dom, talento. Eu comecei assim: depois que minha mãe me deu a noção de como obter determinadas notas na escala do cavaco, se mudou lá para a minha rua uma família de Rosário: seu Nuna Gomes [multi-instrumentista]. Um cidadão que sabia tudo de instrumento de cordas, também prático, um cara lá do campo, do interior. Ele era barbeiro. Geralmente todo barbeiro antigo tinha alguma coisa, ou para música ou para dama. A casa dele era daquelas casas que a janela fica na parede da rua, eu sempre via aquelas reuniões de músicos, sempre pintava lá Sinhozinho [João Pedro Borges, o Sinhô, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], Ubiratan [Sousa, multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], se juntavam lá com os filhos dele, Denizal, que faleceu há pouco tempo, era um exímio violonista, se diferenciava, como Sinhô, que também estudou música. Eu ficava invocado, como era que o cara corria o dedo naquela escala, sabia onde parar. Um dia, seu Nuna, ele chamava todo mundo de capitão, podia ser uma criança de 10 anos. Ele me perguntou: “capitão, o senhor não gostaria de aprender a tocar violão?”. “Eu quero”. “Então o senhor vem pra cá, tem um método aí”. Eu estudava de manhã, de tarde eu ia pra lá.

Você tinha quantos anos? 15 anos, 14 e uns quebrados. Era a época da Jovem Guarda, aqueles conjuntos, Golden Boys, Os Vips. A gente reunia uma turma na escola, um ensinava uma nota pro outro, a gente pegava a mesma música e começava. Era assim, ninguém tinha escolaridade. Depois que eu peguei todas essas tonalidades de uma forma bem simplificada nesse método, que era um tal de Bandeirantes, o nome do método, eu passei a me arriscar a tentar ouvir uma música e tirar o acompanhamento. Eram coisas de Roberto Carlos. Um dia eu peguei uma revista e tinha uma nota que eu nunca tinha visto. Era um D com um ozinho pequenininho lá no expoente. Eu sabia que era um ré. Mas quando eu botava o ré não dava com a melodia ali naquele trecho. Eu comecei a levar para os colegas e era estranho para todo mundo. Alguém me disse, acho que até o Bastico [Gomes]: “só tem um cara que pode tirar essa tua dúvida: é Zé Hemetério [multi-instrumentista]”. Eu conhecia Zé Hemetério de passagem, passava sempre com o violino dele na mão, pendurado, para tocar nos bares, na noite. Eu fui lá, bati, nunca tinha tocado uma palavra com ele, a sede de aprender. Mostrei para ele, tem essa música de Roberto Carlos, é aquela música Esqueça [Forget him, de Mark Anthony, versão de Roberto Corte Real, cantarola:] “esqueça se ele não te ama”. Ele disse: “isso é ré com sétima diminuta”. E eu: “o que é isso?”. Ele foi lá dentro e voltou com um método dessa grossura [indica o tamanho com os dedos da mão], parecia uma bíblia. Era um Bandeirantes. Foi um método que foi elaborado por alguns músicos profissionais do Rio de Janeiro, que veio a facilitar o estudo da harmonia através da cifra. Era um método para piano, acordeom e violão no mesmo fascículo. Eu perguntei: “como é que eu consigo isso?”. E ele: “rapaz, isso não tem em São Luís, eu mandei buscar no Rio de Janeiro”. Passaram-se alguns meses, Bastico foi convidado para tocar no AC7 [conjunto musical], de Ataíde. Bastico foi tocar contrabaixo, como estava faltando guitarrista, Bastico me convidou. Eu nunca tinha pegado uma guitarra, só meu violãozinho ali de bossa nova. Mas eu fui, comecei a ensaiar com essa banda e comecei a tocar profissionalmente, de 1969.

Foi teu primeiro grupo? Meu primeiro grupo.

Se a gente fosse definir teus principais mestres, seriam Nuna e Zé Hemetério? O Zé Hemetério foi o cara que me deu essa dica, eu não sabia que existia acorde dissonante. Me despertou. O Nuna foi a pessoa que, depois, mais na frente, depois que eu toquei no AC7, depois a gente desfez o grupo, mudou pra Som Livre, eu fui tocar nOs Fantoches, como guitarrista, junto com Agnaldo [Sete Cordas, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013]. Nós formamos um grupo justamente com os filhos de seu Nuna, são todos meus amigos, considero irmãos, Bastico, Biné e Zequinha [violonista, cavaquinista e saxofonista, Os Irmãos Gomes, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de junho de 2014], mais alguns colegas de fora, Almir que era o cantor, Joaquim na bateria e por último entrou Pinheirinho, o Chico Pinheiro, arranjador, maestro. Eu não saía de lá da casa, os ensaios eram na casa de seu Nuna. Lá, enquanto a gente não estava ensaiando, ele pegava o bandolim dele, e começou a ensaiar comigo os choros dele, valsas, às vezes Bastico pegava o outro violão. Ele me ensinou a criar amizade, intimidade com o choro dele. Eu não tocava choros de outros compositores até então. Eu conhecia Waldir Azevedo, Jacob do Bandolim, mas não tocava. Eu me lembro que quando esse grupo ia tocar em Rosário, a gente se hospedava na casa deles em Rosário, ele costumava me acordar de manhã cedinho e dizia: “Capitão, vamos treinar o negócio do choro”. Nessa época, por incentivo de outro colega, Zé Nilson, foi professor de matemática, hoje é engenheiro, nós fizemos um grupo de choro. Chamava 20 Cordas no Choro, eu não sei de onde saiu essa história de 20 cordas, por que somando não dava. Era um grupo pra gente brincar, aí a gente começou, nesse grupo eu tocava cavaquinho, Biné era bandolinista e Bastico fazia o violão. E Marciano era o pandeirista e Celso, já falecido, fazia marcação. Chegamos a nos apresentar algumas vezes no programa de Moreira Serra na Rádio Ribamar, fizemos algumas brincadeiras em casas de pessoas, Zé Maria do Amaral, que tinha um cursinho, às vezes aniversários, coisas de família. Meses depois eu saí da banda, do Curtisom, o nome da banda lá da família era Curtisom. Saí e voltei para tocar com Ataíde já no Som Livre.

A gente pode dizer que sua paixão pelo choro começa com essa amizade com seu Nuna? É. Ele e a família dele. Depois, na Cohab, no bar do Eustáquio, era uma verdadeira tribuna artística, eu conheci uma figura extraordinária, músico de muito talento chamado Careca. Tocava bandolim muito bem. Nos encontrávamos quase que todos os finais de semana nesse bar, e sempre estávamos juntos com Agnaldo. Eu no seis cordas, Agnaldo no sete e Careca na bandola [bandolim]. O Six [Francisco de Assis Carvalho da Silva, advogado e cavaquinista], quando chegava aqui, mandava logo buscar o Careca. Então como o seu Nuna, o Careca me exercitou muito no choro. Isso tudo em meados dos anos 1970 até meados dos anos 80. Foi a época que mais toquei chorinhos com essa galera.

Tua família sempre te estimulou? Ou quando você decidiu seguir pela música houve uma resistência? Não. Minha mãe não me proibiu, a gente sempre soube que o ambiente musical profissional sempre rolou álcool e às vezes outras coisas, mas minha mãe sempre confiou em mim. O único entorpecente que eu já digeri foi álcool.

Você vive ou já viveu de música algum tempo? Pra viver nunca deu. Sempre foi um paralelo. Eu nunca comprei nada com dinheiro de música, de valor relevante. Eu tinha meu emprego, paralelo a isso, na noite, uns cachezinhos, pra comprar uma bobagem ali, um negócio. Às vezes você levava um mês para fazer uma festa. O conjunto de ponta que eu toquei aqui foi o Som Livre, depois o Curtisom, tinham agendas mais cheias. Interessante que nessa minha caminhada de músico profissional de banda, eu tive a satisfação de ser obrigado, contratualmente falando, a acompanhar grandes figuras da música popular brasileira.

Quem, por exemplo? Waldick Soriano, no Cine Monte Castelo, ainda na época do AC7, isso tudo sem ensaio, era aquela coisa “empurra o cara, se ele morrer afogado é problema dele” [risos], Luiz Gonzaga, o Gonzagão, fiz um show com ele aqui no Hotel São Francisco, Elizeth Cardoso no Casino Maranhense. E outros cantores, tipo Emílio Santiago, Alcione, recentemente eu fiz vários shows com Marquinhos Satã, Mário Sérgio, ali no Porto da Gabi, com Bola Sete, do Rio de Janeiro.

De que outros grupos você já participou? Aí é dividido em duas partes. Tem as bandas, começou com o AC7, depois Curtisom, Os Fantoches e Som Livre. Depois que eu saí do Som Livre vem a parte do samba. Meu violão, eu passei praticamente uns 12 anos sem nem pegar. Um dia minha cunhada foi morar comigo, olhou o violão dentro do guarda roupa, abandonado, e pediu para eu ensiná-la a tocar. Isso foi em 1992, 12 anos que eu nem pegava no violão, nem para tirar poeira. Como músico de banda nunca ganhei dinheiro, às vezes levava um mês para fazer uma festa, às vezes toda semana.

E os grupos de samba? Eu fiquei esse tempo todo sem tocar, nem dentro de casa. Depois eu fui fazer um curso, tinha um violão no clube, eu entrei lá, tinha uma turma tocando, comecei a tocar umas coisas de música aqui do Maranhão. Depois eu passei umas lições para minha cunhada, aí criou bolhas nos dedos e ela largou. Final de semana eu me sentava numa cadeira e começava a recordar aqueles antigos sucessos, Os Pholhas, um sambinha e tudo. Um dia Valter Nunes passou lá, eu tava tocando uma bossa nova, e “cara, tu não quer tocar domingo com a gente ali?”. Isso era uma terça-feira, eu estava por fora de samba, eu não conhecia um samba de Zeca Pagodinho, nada. Eu arranjei um captador, botei no violão. Tinha lá vários pagodeiros. E eu passeando, escorregando na manteiga o tempo todo, eu não conhecia as músicas, um esforço mental doido para não fazer feio. Quando terminou alguém disse que eu nunca mais podia sair do conjunto [risos]. A primeira coisa que eu acabei foi com esse negócio de tocar sentado, tem que tocar em pé, jogar o corpo, animar quem está lá. Aí nós começamos a dominar a praça com o Sambando na Praia. Depois eu fui para o Sem Dimensão. Quando eu estava no Sambando na Praia, o Vinicius foi embora. Foi uma dificuldade, ele cantava e tocava. Aqui era difícil gente cantar e tocar, a gente começou a andar atrás de músicos que fizessem as duas coisas, aí a gente contratou Ivan para cantar e Neto Peperi para fazer o cavaco. Tínhamos contrato fixo com o bar O Luar, ali na [avenida] Litorânea, o cachê lá era muito bom.

Você integra algum grupo atualmente? O Sob Medida, nós estamos ensaiando. Fizemos um pré-lançamento no programa do Ricardo Baty.

Na sua opinião o que significa o choro? Qual a importância dessa música? O choro, para mim, é uma música que não foi feita para qualquer um. O choro, o músico tem que ter muito conhecimento, nem eu tenho. Já vi muito músico tocar só com o talento, mas o choro exige do músico muito preparo técnico, conhecimento teórico e prático da coisa, do instrumento, da música. É uma música realmente emocionante. Eu me arrepio, me emociono escutando choro. Já tive oportunidade de tocar, de brincar, com pessoas de muito conhecimento, tipo Marco César [bandolinista], lá de Recife, com Jorge Cardoso [bandolinista], ainda em início de carreira.

Você se considera um chorão? Eu me considero um chorão mais como ouvinte, admirador. Se bem que no violão eu toco uns chorinhos. Muita coisa eu já esqueci, até de autores famosos, justamente por causa do samba. É aquela coisa, por que o chorinho, você pega um choro, você tem que estar tocando ele. Com o tempo você vai saindo. É como se fosse um satélite, manda um sinal para corrigir a órbita. Se você aprende uma música hoje, daqui a um ano você está tocando diferente. Agora, se não tocar, você esquece. Aquilo você cria uma espécie de memória mecânica, a posição, a sequência, como vai levando os dedos, a mão.

César Nascimento “na base da chinela”

Jeremias Alves. Quadrante/ Divulgação
Jeremias Alves. Quadrante/ Divulgação

 

Nem só do São João “oficial” vive o período em São Luís. Com diversos arraiais tomando conta das praças da cidade, o que leva produtores a realizar shows com porta paga entrando em bola dividida pelo público?

Descontada a paixão envolvida e os eventuais prejuízos, o saldo é positivo para a cidade (e, torcemos, para os artistas e produtores que se arriscam), que se permite oferecer um cardápio alternativo. Notícias recentes dão conta de acontecimentos tão diversos como o pré-lançamento de Alice ainda, segundo disco de Nathália Ferro, em show realizado ontem (25) no Amsterdam Music Pub, ou ainda do recital Gente é pra brilhar, com leituras em russo e português de poemas de Vladimir Maiakóvski, também ontem, no Museu Russo.

Outro que entra no racha junino é o cantor e compositor César Nascimento, maranhense nascido no Piauí e radicado no Rio de Janeiro. Ele reencontra o público da terra que lhe inspirou Reggae sanfonado e Ilha magnética, para citarmos dois clássicos de sua lavra, em show hoje (26), às 21h, no Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande). os ingressos custam R$ 20,00 e podem ser adquiridos no local.

Em show batizado simplesmente Arrasta-pé, nome do EP homônimo que lança na ocasião, ele promete evocar Jackson do Pandeiro em noite Na base da chinela, verso-título de parceria do paraibano com Rosil Cavalcanti. Além de repertório autoral, a exemplo das dançantes Serenin e Ciúme, entre outras, César Nascimento lembrará outros mestres, referência para sua carreira: João do Vale e Luiz Gonzaga, fechando com Jackson a tríade sacrossanta da música nordestina, além de nomes como João Chiador e os recém-falecidos Humberto de Maracanã e Donato Alves.

Respondendo à pergunta que abre o post, a produtora Letycia Oliveira contou ao blogue que o show partiu de uma ideia de César Nascimento e Pedro Sobrinho fazerem algo juntos. “Eles pensaram num evento que aliasse estrutura e qualidade de atendimento. O Barulhinho Bom tem isso, é um local agradável e bonito, um casarão no Centro Histórico, sem falar na segurança e tranquilidade, além de ser uma apresentação única. Há espaço para tudo e todos no São João”, disse.

César Nascimento (voz e violão) será acompanhado por Moisés Mota (bateria), Mauro Sérgio (contrabaixo) e Marcelo Rebelo (teclado). “Patrocínio: fitas 3M”, brincou ao telefone depois de o repórter observar as iniciais dos músicos da banda. Ele revelou ainda seu próximo projeto: “vou gravar um disco de reggae”. Ele entende do riscado: que o digam suas Reggae sanfonado, Bolha de sabão e Maguinha do Sá Viana, todas hits do rádio maranhense até bem pouco tempo.

A abertura da festa promete aquecer as solas das sandálias, com discotecagem de Pedro Sobrinho, que promete uma mescla de coco, ciranda, dub, xote e xaxado, temperados pelas pitadas eletrônicas que fazem dele um dos mais requisitados “dê-jotas” da Ilha. E antes de César Nascimento subir ao palco, prepara-lhe o terreno o trio General Virgulino, formado por Daniel Pereira (voz e violão), Chico Carvalho (percussão) e Pieter-Jan Coninx (violino), o último, sócio-proprietário da casa que abriga o Arrasta-pé.

Cesar Teixeira louvou São João em repertório autoral, com direito a inéditas e bis

Fotosca: ZR (24/6/2015)
Fotosca: ZR (24/6/2015)

 

Estacionando o carro, brinquei com minha esposa: “Cesar está começando o show antes da hora”. Descemos ao som dos primeiros acordes de Bandeira de aço, clássico que caminha para os 40 anos desde que Marcus Pereira lançou o disco homônimo (1978) de Papete, em que pela primeira vez Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe eram gravados em disco. O Brasil ainda vivia sob a égide da ditadura militar e a música de Cesar, ainda que festiva, é carregada de metáforas sobre aquele momento.

Com outros, Cesar Teixeira havia fundado, em 1972, o Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão (Laborarte), em que realizou um trabalho de pesquisa sobre as manifestações da cultura popular do estado. Era o início de um diálogo entre o que se ouvia em terreiros, sedes de grupos de bumba meu boi e tambor de crioula, entre outros, com a música ensinada na recém-fundada Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (1974), até então mais puxada à formação erudita.

Bandeira de aço, que abriu o show que ele apresentou em plena noite de São João, no arraial da praça da Casa do Maranhão (Praia Grande), é um primeiro exemplo da grandiosidade da obra de Cesar Teixeira. Determinadas músicas de sua autoria são cantadas a plenos pulmões em plateias diversas, não apenas no Maranhão, tendo muitas vezes a autoria erroneamente atribuída ao intérprete e/ou mesmo consideradas de domínio público. Um caso típico é o da toada Boi da lua, também gravada em Bandeira de aço, que ele também cantou ontem (24), com o sax de Lee Fan emulando toda uma orquestra.

Acompanhado por Bruno Agrella (bateria), Kleuton (contrabaixo), Lee Fan (flauta e sax), Luiz Cláudio (percussão), Luiz Jr. (guitarra e viola) e Renato Serra (teclado), Cesar Teixeira louvou São João desfilando um rol de clássicos em repertório completamente autoral, grande parte registrada em seu único disco lançado até hoje, Shopping Brazil (2004): Xaveco, Parangolé, Mutuca e Namorada do cangaço.

Aparições de Cesar Teixeira em palcos têm sido um tanto raras, e engana-se quem pensa que o compositor, jornalista de profissão, viva dos louros (não) colhidos no passado. Embora parte do repertório tenha sido composta entre o fim da década de 1960 e início da de 70 – casos de Boi da lua e Bandeira de aço; Namorada do cangaço foi gravada por Dércio Marques em Fulejo (1983) –, o artista segue compondo e ontem brindou o fiel público presente com três inéditas: Boi de medonho (toada de sotaque de zabumba), Praia dos Lençóis (adaptação dele para Três navios, tambor de mina de domínio público) e Adeus, garota!, toada com que se despediu do público.

Com atrasos em programações dos arraiais localizados na Praia Grande – praças da Casa do Maranhão, Nauro Machado e Faustina – seu público pode dar-se ao luxo de gritar “mais um” e ser atendido com dois números no bis. O artista tornou ao coco Parangolé e atacou de Rayban, um choro em pleno arraial: inconformados, Cesar Teixeira e sua obra nunca estiveram a serviço da manutenção do status quo.

Um roteiro inteligente e divertido

Fotosca: ZR (23/6/2015)
Fotosca: ZR (23/6/2015)

 

Durante muito tempo certa repetitividade era ingrediente inevitável na programação dos arraiais juninos em São Luís do Maranhão. Desde que, há mais de 20 anos, Roseana Sarney monetizou a coisa em definitivo e fez disso moeda de troca eleitoral, num tempo em que showmícios e que tais ainda eram permitidos por lei.

Explico: até bem pouco tempo – e talvez isto ainda aconteça, em maior ou menor escala – inchava-se a programação junina mesmo com artistas sem nenhuma relação ou intimidade com o período, longe de algo parecido, guardadas as devidas proporções, com o carnaval multicultural do Recife, por exemplo.

O que acontecia: o turista ou nativo que optasse por passar a noite inteira em um mesmo arraial, invariavelmente ouviria a mesma música repetidas vezes, no show deste ou daquele artista, por repertórios montados a toque de caixa ou quaisquer outros motivos, sem qualquer preocupação ou (maior) ambição estética.

O show apresentado ontem (23), às 21h, na praça da Casa do Maranhão (Praia Grande), por Alexandra Nicolas, artista das mais simpáticas e talentosas surgidas em nossa terra nos últimos 20 anos, dá pistas de como superar um modelo falido de São João. Sua apresentação dá várias pistas disso.

Primeiro, Alexandra Nicolas tem público cativo, independentemente de palcos sazonais oferecidos pelo poder público. Segundo, não é forçar a barra a artista integrar a programação junina da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão: sua obra, mesmo que fiquemos apenas em Festejos (2013), seu único disco gravado até aqui, mostra sua intimidade com o forró, o xote, o coco, o bumba meu boi e o tambor de crioula, para ficarmos em algumas nordestinidades em um disco em geral rotulado como de samba – pelo repertório, todo de autoria de Paulo César Pinheiro – ou de choro – pelos músicos acompanhantes.

Alexandra tem os pés (descalços) no terreiro e os olhos e ouvidos nas janelas do Brasil. Seu repertório demonstra um trabalho de pesquisa, não se dissociando, mesmo para o que poderia ser um mero show de São João, de sua carreira fonográfica, não se limita ao óbvio nem ao local, erro comum em artistas em busca de, digamos, legitimidade junina.

Como o turista que anda por São Luís, e havia vários na praça ontem, empunhando suas máquinas fotográficas, “entra em beco, sai em beco”, Alexandra chega chegando com Madalena (Isidoro), hit de Gilberto Gil, para depois passear pela Feira de mangaio (Sivuca e Glorinha Gadelha). Depois decreta: É proibido cochilar (Antonio Barros). Mas disso todo mundo já sabe, atento que está o público para a ginga, o rodar da saia, a empatia da artista com a plateia, de gente que dança agarrada ou só, entre um selfie e outro.

Depois das escamas da Serpente da lua cheia (Ronald Pinheiro), ela pega carona nas asas da Pipira (João do Vale e José Batista) e, continuando o passeio pelo Maranhão, desvenda O segredo do coco (João Madson). “Esta eu aprendi a cantar com Didã”, revela, referenda. “Vai estar no próximo disco”, anuncia. Depois do Maranhão, volta a Festejos, disco que (quase) dá nome ao show, Festejo no Arraial. Emenda o coco do maranhense radicado em São Paulo ao Coco de Paulo César Pinheiro, levando a plateia a arriscar-se no trava-língua, que ela canta acelerando, ao final, sem correr risco nenhum, a esta altura, acompanhada apenas pelo pandeiro frenético de Marquinhos: “peguei no taco/ com o taco bati no coco/ que o coco deu um pipoco/ por pouco o coco não cai/ galo, no oco/ do toco, que ronda o choco/ o galo tá no sufoco/ dá soco que o galo sai”.

A banda, aliás, merece destaque à parte: além do citado percussionista, Fleming (bateria), Carlos Raqueth (contrabaixo), Rui Mário (sanfona) e Robertinho Chinês (cavaquinho), todos senhores de si em seus instrumentos – dispensariam ensaios, mas disto a artista não abre mão, para a coisa fluir da maneira mais descontraída e com a melhor qualidade possível.

Feito o destaque, voltemos ao repertório. “Os meninos da banda brincam comigo que tem muita Madalena no meu disco, que dava pra fazer um disco só com Madalena. Tem alguma Madalena aí?”, indaga à plateia. E canta Bisavó Madalena (Paulo César Pinheiro e Wilson das Neves). Depois pede licença para bulir com a plateia: “quero ver se vocês conhecem. Essa eu pesquei do fundo do baú do baú do baú”, avisa, dando a devida ideia da profundidade do guardado que ela re-revela. “As pessoas tendem a achar que fuleiragem é coisa ruim. Eu gosto muito de uma fuleiragem. Fuleiragem, catrevagem, sacanagem, tudo é coisa boa”, provoca, entre risos seus, dos músicos e da plateia contagiada. E canta Bulir com tu (Cecéu), lançada por Hermelinda em 1988: “Se você pensa que chega de madrugada/ assim como quem não quer nada/ meu bem se enganou/ não adianta se deitar na rede/ por que a minha sede/ você não matou/ mas se você dormir/ eu vou bulir, eu vou bulir, bulir com tu”.

Do repertório de Jackson do Pandeiro pesca Sebastiana (Rosil Cavalcanti), para depois voltar a João do Vale com o Forró do beliscão (João do Vale, Ary Monteiro e Leôncio Tavares), antes de despedir-se com o bumba meu boi São Luís do Maranhão (Paulo César Pinheiro), que passeia pelo tambor de crioula, fecha seu disco e fechou seu show.

A dinâmica dos arraiais não permite bis, já que após o show de Alexandra Nicolas os brincantes do bumba meu boi de costa de mão de Cururupu já se preparavam para sua hora de apresentação. “Se pudesse seria bom demais”, resignou-se o mestre de cerimônias oficial, rendendo-se aos encantos da artista.

Agenda

Alexandra Nicolas volta a apresentar Festejo no Arraial nesta sexta-feira (26), às 21h, no Arraial Terreiro de Maria (Praça Maria Aragão, Centro).

Hoje (24), às 21h, na praça da Casa do Maranhão (Praia Grande), quem se apresenta é o compositor Cesar Teixeira.

Pé-de-serra no alto da Montanha Russa

Divulgação
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Já louvei várias vezes, sempre que pude, e louvo sempre que posso, o que torno a fazer agora, a ocupação e resistência, por parte do Centro Cultural Mestre Amaral, de uma edificação em que funcionou um restaurante chique no Centro Histórico ludovicense, mais exatamente na Rua da Montanha Russa, nas imediações da Praça Pedro II, onde ficam localizadas as sedes dos poderes executivos estadual (Palácio dos Leões) e municipal (Palácio La Ravardiere), judiciário (Palácio Clóvis Bevilácqua) e eclesiástico (Igreja da Sé).

Sediar ali este importante centro cultural é uma das mais bem sucedidas e populares experiências de ocupação e reuso do espaço urbano em nossa Ilha capital. Oxalá outras iniciativas culturais tomem o mesmo rumo! A história nos ensina e prova que, mais que com prédios, a revitalização dos espaços públicos em geral, e dos centros históricos em particular, é feita com a circulação de pessoas. Quando a gente do lugar e de fora pode circular respirando arte temos uma experiência exitosa para mostrar aos poderes constituídos como é que se faz – para mim, o Mestre Amaral, como é simplesmente chamado o lugar, hoje, é isso. Só não vê quem não quer.

A agenda cotidiana do lugar inclui rodas e oficinas do Tambor de Crioula de Mestre Amaral, discotecagens, brechós, e muito mais. Basta colar no espaço, sobretudo aos fins de semana, mas não só. Não à toa o Centro Cultural foi incluído na programação Caia na Rede, da 9ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes, ano passado. A proposta da Caia na Rede era atrelar o evento realizado pelo Sesc/MA a iniciativas que já existiam em São Luís, com o fornecimento de infraestrutura, divulgação e pagamento de cachês – outras contempladas foram A vida é uma festa (Praia Grande) e Sebo no Chão (Cohatrac).

Como se não bastasse tudo isso, o Centro Cultural Mestre Amaral volta a surpreender e anuncia para esta sexta-feira (19), um arraial com um quê de inusitado. O Arraial do Amaral terá como principal atração um show do duo Criolina (Alê Muniz e Luciana Simões), que na onda de seu recém-lançado ep Latino-americano, atacam de forró-pé-de-serra. No show prestarão reverências a nomes fundamentais de sua formação musical – e de resto, da maioria dos artistas nordestinos –, como Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e João do Vale, entre outros.

A festa, que conta com o apoio da Rádio Casarão, contará ainda com as participações de Madian, Coletivo Gororoba e da dj Joana Golin. A produção promete: “o tambor também vai apanhar a noite inteira com a turma de Mestre Amaral”. O som está anunciado para começar às 21h. Os ingressos custam R$ 10,00 e podem ser adquiridos no local.

Camila Reis Brito mergulha no universo do Divino e do Cacuriá em livro pioneiro

Cantigas Divinas. Capa. Reprodução
Cantigas Divinas. Capa. Reprodução

 

Até a abertura dos cursos de música das universidades Estadual e Federal do Maranhão a Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo, fundada em 1974, foi, durante muito tempo, responsável pela formação da quase totalidade de nossos músicos em atividade. Durante um bom período foi também questionada com base em uma equação simples: se a maioria dos músicos ali formados iria atuar com cultura popular, em carreiras solo ou em grupos, por que a base do currículo era erudita?

As coisas vêm mudando pouco a pouco, mas partindo dessa premissa, a musicista Camila Reis Brito lança hoje (17), às 19h, no Laborarte (Rua Jansen Müller, 42, Centro), com entrada franca, o livro Cantigas Divinas [Laborarte, 2015, 41 p., distribuição gratuita, disponível para download no site do projeto], conjunto de partituras de músicas executadas por caixeiras, na Festa do Divino Espírito Santo e no Cacuriá – dança tipicamente maranhense originada na festa e coreografada em seu encerramento. O livro será distribuído gratuitamente a escolas, bibliotecas e instituições de ensino de música.

Filha de dois expoentes da cultura popular do Maranhão, o ator e diretor Nelson Brito e a cantora Rosa Reis, Camila, qual os pais, membro do Laboratório de Expressões Artísticas (Laborarte) e brincante do Cacuriá de Dona Teté, pioneiro e mais famoso grupo da dança, indagava-se o porquê de nunca ter visto, no currículo de sua formação musical, peças – do Divino e do cacuriá – que faziam parte de seu círculo de convivência na cultura popular.

Daí surgiu a ideia de Cantigas Divinas, realizado pelo Laborarte com patrocínio da Fundação Cultural Palmares e Ministério da Cultura, em que ela e o cantor, compositor e professor Gustavo S. Correia transcrevem 20 partituras de músicas bastante conhecidas de foliões e “folioas” do Divino (e do cacuriá). A obra é ilustrada por Layo Bulhão, coordenador do Festival de Arte Contemporânea do Maranhão e da revista Insight Photo.

As cantigas são apresentadas “em linguagem infantil e didática com o objetivo de possibilitar que estas músicas façam parte de trabalhos de iniciação musical e de fazer um registro destas em formato de partitura”, afirma a autora na apresentação do livro. O livro de Camila deve interessar não só a maranhenses, já que a Festa do Divino Espírito Santo é uma manifestação de catolicismo popular presente em todo o território nacional.

Nas páginas de Cantigas Divinas estão contemplados um breve histórico acerca da festa, de quem a faz, do cacuriá, além de um glossário. Nas partituras estão cantigas de todas as fases dos festejos. O leitor ou músico, como se em procissão, passeia por versos que emocionam, como “meu Divino Espírito Santo/ a vossa capela cheira/ cheira cravo, cheira rosa/ cheira flor de laranjeira” (de Cheira flor de laranjeira), a músicas tornadas hits pela saudosa voz de Almeirice da Silva Santos, mais conhecida pela alcunha de Dona Teté. Quem não já cantou (e/ou dançou) o Choro de Lera, Passarinho verde, Mariquinha, Jacaré e Jabuti? Todas as músicas do livro são de domínio público.

Cantigas Divinas reúne em sua feitura as doses certas de necessidade, ineditismo, devoção e paixão. Um livro importante não só para os que fazem a cena da cultura popular do Maranhão, mas também para eruditos e mesmo àqueles que só cantam no chuveiro ou ninando as crianças.

Turíbio Santos toma posse e faz concerto na AML

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Turíbio Santos está de volta à sua Ilha natal: veio para tomar posse na Academia Maranhense de Letras (AML), para a qual foi eleito em outubro passado. Ocupará a cadeira nº. 28, que pertencia ao poeta José Chagas, falecido em maio de 2014. A solenidade de posse, para convidados, acontece amanhã (17), às 19h30, na Casa de Antonio Lobo (Rua da Paz, 84, Centro). No dia seguinte (quinta-feira, 18), no mesmo local e horário, o violonista dará um concerto beneficente – a renda será revertida em favor da AML. Os ingressos custam R$ 50,00 e podem ser adquiridos pelo telefone (98) 99909-0653. A iniciativa foi do próprio músico.

Aos 72 anos, Turíbio Santos é um dos mais conhecidos e respeitados violonistas no mundo – radicado no Rio de Janeiro, já morou na França e é dono de discografia monumental, com destaque à divulgação da obra de Heitor Villa-Lobos. À beira da piscina do hotel em que está hospedado, acompanhado da esposa Marta e do amigo João Pedro Borges, o músico conversou com o blogue.

Titular da cadeira 38 da Academia Brasileira de Música (AMB) desde 1992, recentemente presidiu a instituição. Ele declarou-se emocionado com a eleição para a AML. “É muito emocionante, é minha terra, sou muito ligado a São Luís. Mudei daqui com três anos de idade, mas meu pai vinha praticamente todo ano para cá e o felizardo que vinha com ele era eu, menino ainda. Íamos para a Rua das Hortas [no Centro], um casarão daqueles maravilhosos, com o quintal enorme. O que isso faz com a cabeça de uma criança é espetacular. Eu tenho lembranças assim, de ficar esperando o bonde, botando bolinha de gude no trilho para fazer cerol depois, pra empinar pipa. Era um sonho total. São Luís representava liberdade pra valer”, lembra, emocionado.

Para ele, assumir uma cadeira da AML é um processo natural. “Eu já era sócio correspondente, essa iniciativa foi do Jomar Moraes [escritor, membro da AML], que me ligou. Aí veio essa questão de assumir uma cadeira, novamente o Jomar. Eu fiquei um pouco preocupado com a questão do tempo. Depois entendi o que era. É uma homenagem a um filho da terra, o que achei muito justificado”.

Entre os livros publicados por Turíbio Santos destacam-se Heitor Villa-Lobos e o violão [1975], Segredos do violão [1992], Mentiras… ou não? Uma quase autobiografia [2002] e Álbum de retratos – Turíbio Santos (de Hermínio Bello de Carvalho) [2007], além da recém-lançada autobiografia Caminhos, encruzilhadas e mistérios [2014], cujo encarte traz um dvd com o músico executando peças de Villa-Lobos, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e Chiquinha Gonzaga.

O músico lembrou também o início da carreira: um concerto em julho de 1962, num completamente lotado Teatro Arthur Azevedo (TAA), promovido pela Sociedade de Cultura Artística Maranhense (Scam). “Minha carreira começou em São Luís por acaso. Dona Lilah Lisboa [pianista que dá nome à Escola de Música do Estado do Maranhão] era presidente da Scam, e ela me viu tocar numa festinha, ficou encantada. Eu tinha 19 anos, nem sabia o que era ser profissional. Ela me disse: “você tem que vir”; retruquei: se a senhora pagar a passagem de meu pai, ele há muito tempo não vem aqui, vai ser uma grande alegria para a família”. Ela topou e eu fiz o meu primeiro concerto. Quatro dias depois eu fiz para o Sesc, no mesmo local, outro concerto”, conta.

Turíbio afirmou não conhecer profundamente a música produzida atualmente no Maranhão. Disse se atualizar através de presentes de amigos, quando de suas vindas à capital, geralmente cds de bumba meu boi e outras manifestações da cultura popular. “A música daqui é muito forte. Há uma espécie de clima geral nesse ambiente do planeta, onde todos os países viram caribenhos. São Luís tem uma coisa com o Caribe muito forte. Seja a brisa, a influência da cultura negra, as mulheres bonitas, as músicas muito sensuais, todas”, elogiou.

Semana passada o violonista realizou três concorridas apresentações no Clube do Choro de Brasília/DF. Sobre o concerto que fará um dia após a posse na AML adiantou que buscará lembrar parte do repertório do primeiro concerto, há mais de 50 anos. “Eu recapitulo permanentemente [a trajetória]. Aqui eu vou recapitular de propósito, nesse concerto na Academia Maranhense de Letras, um pouco do repertório do meu primeiro concerto no Teatro Arthur Azevedo. Eu fui ver detalhadamente o repertório, e vi que havia peças consistentes, peças difíceis, poderosas, do repertório do violão: Variações sobre um tema de Mozart, de Fernando Sor, A catedral, de Augustin Barrios, músicas de Villa-Lobos, inclusive o Choros nº. 1”, adiantou.

Indago-lhe se o discurso para a posse já está pronto. Bem humorado, abre um sorriso e responde: “Já!”. Volta a falar da posse, não sem um quê de poesia: “Esse ato coloca um selo definitivo na minha ligação com São Luís”.

A festa de poesia, música e causos de Jessier Quirino

Vizinhos de grito. Capa. Reprodução

 

Ao lançar seu primeiro livro pela recifense Bagaço, que até então trabalhava exclusivamente com literatura infantil, o paraibano Jessier Quirino colocou a pequena editora no circuito nacional. Sucesso de crítica e público, Paisagem de interior predestinava a carreira do arquiteto de formação, poeta, músico e contador de causos por vocação.

Jessier Quirino seguiu fiel à Bagaço, por onde lançou outros livros e discos – era necessário gravar sua voz, já que certos trejeitos e entonações a palavra grafada na página não era capaz de transmitir. Assim surgiram os dois volumes de Paisagem de interior, após livros como Papel de bodega, Bandeira nordestina, Prosa morena e Agruras da lata d’água, entre outros. São oito livros e dois cds.

No youtube, diversos vídeos com seu nome atingem a marca de 300 mil visualizações cada, poucos postados por ele próprio. O fenômeno instigou-o a lançar Vizinhos de grito [2015, R$ 35,00 na Passa Disco], dvd do espetáculo homônimo, também publicado pela Bagaço.

A gravação aconteceu dias 5 e 6 de abril de 2013, no Teatro Boa Vista, em Recife/PE, tendo sido veiculada meses depois pela Globo Nordeste como parte das programações de fim de ano da emissora. Nos extras, trechos da participação de Jessier Quirino no programa Ensaio, comandado por Fernando Faro, além de uma entrevista com o artista.

Jessier Quirino é acompanhado por Adriano Ismael (baixolão e violoncelo), Antonio China (percussão), Claudia Beija (vocal), Laerte Bandeira (violão nylon), Matheus Quirino (percussão), Roberto Muniz (violão 12 cordas, violão sete cordas e sanfona), Vitor Quirino (violão aço e violão nylon) e Ylana Queiroga (vocal).

A apresentação mistura a poesia de Jessier Quirino – falada e escrita, o dvd acompanha libreto com as letras –, causos e música, popular e erudita. O Bolero de Isabel (Jessier Quirino), por exemplo, cita o quase homônimo Bolero, de Ravel, e Uma paixão pra Santinha (Jessier Quirino) traz em si o Estudo nº. 6 de Fernando Sor.

Matança (Augusto Jatobá) tem a participação de Xangai, responsável pela popularização da música. Maciel Melo participa de Paisagem de interior (Jessier Quirino), a que mescla sua Rainha de todos os dias. Ele volta ao palco em Mistério da fé, parceria de ambos.

Não faltam ao roteiro números clássicos e por demais conhecidos de Jessier Quirino, como Parafuso de cabo de serrote (Jessier Quirino), Coco do pé de manga (Jessier Quirino), recém gravada por Túlio Borges em seu novo disco, Batente de pau de casarão, e Papel de bodega (Jessier Quirino), desenvolvida a partir dos versos de Boneca de trapo (Adelino Moreira), que traz como incidental o Choro abodegado (Roberto Muniz).

Para ver e ouvir, dançar ou sorrir, Vizinhos de grito é dvd bastante apropriado. É o produto ideal para rodar, por exemplo, em tevês de barzinhos pelo Brasil. Já que é difícil conquistar este espaço (em disputa), recomendo-lhe começar pela sala de sua casa: os vizinhos (de grito) que virem/ouvirem se interessarão.

Com devoção e elegância Silvério Pessoa volta a visitar Jackson do Pandeiro

Cabeça feita. Capa. Reprodução
Cabeça feita. Capa. Reprodução

 

Silvério Pessoa é descendente musical direto de Jackson do Pandeiro, de cujos genes nunca negou a influência. Desde Fome dá dor de cabeça (1998), único disco que lançou como integrante do Cascabulho, banda de seu início de carreira, já estava impregnado do Micróbio do frevo – ali Jackson do Pandeiro já comparecia ao repertório, com 17 na corrente (Manoel Firmino Alves e Edgar Ferreira). Não à toa, depois, batizou seu segundo disco Micróbio do frevo (2003), inteiramente dedicado ao repertório do mestre – antes, inaugurando sua bem sucedida carreira solo lançou Bate o mancá – O povo dos canaviais (2000), dedicado ao repertório de Jacinto Silva.

Agora volta à carga com este Cabeça feita – Silvério Pessoa canta Jackson do Pandeiro [2015, R$ 25,00 na Livraria Poeme-se], em que buscou aproximar-se da sonoridade original das gravações do homenageado, tanto no uso dos instrumentos quanto no puxar dos “erres”. O repertório não se limita a um “best of”: embora músicas mais conhecidas gravadas por Jackson do Pandeiro formem a maior parte do repertório, Silvério também foi buscar lados b do cantor.

Forró, frevo, xote, coco, rojão, samba: à primeira vista o disco pode parecer predominantemente junino – e acertadamente o fará quem usá-lo como trilha sonora em festas do período –, mas, como toda a obra do homenageado, pode ser ouvido o ano inteiro. Parte do que se ouve em Cabeça feita já foi ouvida também em recriações de outros intérpretes, caso da faixa-título (Sebastião Batista da Silva e Jackson do Pandeiro), gravada por Gal Costa em Profana (1984), Forró em limoeiro (Edgar Ferreira), por João Bosco em 1995, A ordem é samba (Jackson do Pandeiro e Severino Ramos), por Ney Matogrosso e Pedro Luís e a Parede em Vagabundo (2004), além de, entre outras, Casaca de couro, por Zé Ramalho, e Na base da chinela, por Geraldo Azevedo com o grupo Cascabulho, estas últimas em Jackson do Pandeiro revisto e sampleado (1999), tributo coletivo ao rei do ritmo.

Com repertório tão vasto e tantas releituras, é justamente a devoção o que torna original a ourivesaria musical em torno do nome do paraibano Jackson do Pandeiro empreendida pelo pernambucano Silvério Pessoa. Nem capa e encarte, repertório menos ainda, soam óbvios. O maestro Spok (saxofone) é o convidado de Coco social (Rosil Cavalcanti), que ajuda a traduzir a elegância e o cenário em que posa o cantor na capa do disco: “ele é pernambucano, do canavial/ veio pro salão, é social”, diz a letra, sobre as origens e a chegada do coco aos salões e colunas sociais.

Cabeça feita repagina 24 músicas em 15 faixas, nas quais Silvério Pessoa é acompanhado por Raminho (zabumba), Luis Carlos (triângulo, congas, pandeiro, tamborim, maracás e ganzá), Renato Bandeira (viola de 10 cordas e violão), Israel Silva (contrabaixo), Vanessa Oliveira (coro), Pepê (violão de sete cordas, cavaquinho e banjo) e Dudu do Acordeom.

Ao repertório não faltam músicas de duplo sentido, de um tempo em que seu uso exigia alguma inteligência do ouvinte: o pot-pourri que reúne Vou de tutano (José Cavalcante e José Gomes Filho), Xote de Copacabana (Jackson do Pandeiro), Xarope de amendoim (Paulo Patrício e Severino Ramos) e Cremilda (Edgar Ferreira), além de Quadro negro (Rosil Cavalcanti e Jackson do Pandeiro).

Silvério Pessoa não joga conversa fora em Cabeça feita, como adverte a letra da faixa-título: “sou cabeça feita/ não jogo conversa fora/ se o papo é legal eu fico/ se não serve vou embora”. Disco festivo e inteligente, de cujo baile nordestino o leitor, festivo e inteligente idem, não cansará, mesmo após gastar todo o repertório e sandália.

Homens, máquinas, amor e música

Sobre noites e dias. Capa. Reprodução
Sobre noites e dias. Capa. Reprodução

 

Sobre noites e dias [Diginóis, 2014, R$ 25,00 na Livraria Poeme-se], novo álbum de Lucas Santtana, é um disco que cai bem em qualquer momento: das ensolaradas Diário de uma bicicleta (Lucas Santtana/ De Leve) e Mariazinha Morena Clara (Lucas Santtana) às noturnas Montanha russa sentimental (Lucas Santtana) e Blind date (Lucas Santtana). Basicamente o trabalho retrata relações: entre seres humanos (entre si) e máquinas. Human time (Lucas Santtana) abre o disco falando, em inglês e francês, em “máquinas e seres complexos”, com adesão da atriz francesa Fanny Ardant (voz e tradução para o francês).

Em seu sexto disco, o artista continua esbanjando talento em várias frentes: é cantor, compositor e instrumentista (pilota harmônio, baixo synth, cavaquinho, violão, digital drums, melotron, guitarra e cordas), joga nas 11 com igual desenvoltura, versando em português, na maioria das faixas, mas também em inglês, francês e espanhol – o poliglotismo justificado pela boa aceitação da obra de Santtana lá fora.

É um disco que atualiza o amor, retratando sua vivência em dias atuais. “Mas se rolar um clima/ ele beija ele/ ela beija ela/ para eles o amor é livre/ ela não é gay/ ele não é viado/ e não são mais classificados”, prega o Funk dos bromânticos (Lucas Santtana), faixa que conta com a presença da atriz Camila Pitanga (beatbox).

“Todo mundo na montanha russa sentimental/ burilando seu smartphone emocionado/ todo mundo quer viver romance como no cinema/ doce ilusão, vida real e seus problemas”, constata Montanha russa sentimental, dedicada a Lulu Santos, autor de O último romântico.

Sobre noites e dias é acentuadamente eletrônico, mas no pop de Lucas Santtana cabem também o violão sete cordas de Luis Filipe de Lima e o contrabaixo de Bi Ribeiro (Paralamas do Sucesso) em Partículas de amor (Lucas Santtana e Gui Amabis), inspirada canção, versando sobre o eterno tema deste universo: “Ao te conhecer, desacreditei/ como pode uma mulher assim?/ Toda solar, me derreteu/ Virei água do mar, evaporei/ Agora eu sou partículas de amor”, começa a letra. Em Alguém assopra ela (Lucas Santtana), o maestro Letieres Leite, baiano como Lucas, assina o arranjo de sopros e regência. Aos sintetizadores predominantes no disco juntam-se clarinete (Pedro Robatto), flauta (André Becker), oboé (Gustavo Seal) e fagote (Jeã Marques).

Músicas de pista – de dança ou de asfalto – Diário de uma bicicleta (Lucas Santtana e De Leve) e Mariazinha Morena Clara (Lucas Santtana) contam com as adesões de De Leve (voz), a primeira, e Kiko Dinucci (guitarra) e Thiago França (sax alto, sax tenor e arranjo de sopro), a segunda. As faixas evocam o sol dos dias do título do álbum. Cantada em português, a primeira tem refrão em inglês, abrindo-a: “You, me, us/ and our friends/ sun, grass, bicycles/ and happens”. Na segunda, evocando a personagem-título, ele passeia por Holanda e Tailândia, preferindo o Brasil: “Vem que até a Guanabara em forma de baia/ quer rir pra ti/ sei que você vive na praia/ mas o sol que abraça só tem no Brasil”. As faixas ainda guardam semelhanças nas citações de craques do futebol: numa o brasileiro Robinho, noutra o holandês Van Persie.

Sobre noites e dias foi financiado através de crowdfunding – a arrecadação superou as expectativas. Aos que investiram na iniciativa, Santtana agradece no encarte, “a todos que colocaram sua fé nesse disco mesmo antes de ouvi-lo”. Após cinco discos e tornando este sexto seu melhor álbum até aqui, o investimento e a crença são mais que merecidos.