Uruguaios na roda de choro

Ricarte Almeida Santos apresenta, neste domingo, em seu Chorinhos & Chorões, a música do La Chorona, grupo uruguaio que se dedica ao choro. O blogue entrevistou Gonzalo Perera, violonista do quarteto.

Eles são uruguaios. Mas tocam como brasileiros. E nem de longe isso é desmerecer os hermanos, a analogia só é possível por tratar-se do mais brasileiro de todos os gêneros musicais: o choro. Outra analogia, cabível ou não, seria dizer de meninos que tocam como gente grande: os músicos do La Chorona têm entre 32 e 37 anos, são, pois, gente grande, e tocam como tal.

Gonzalo Perera (violão), Martin Perez (sax soprano), Nacho Delgado (pandeiro) e Santiago Silvera (bandolim e cavaquinho) formam o grupo de Montevidéu que passeia com desenvoltura por composições de nomes de lá e cá.

Deste lado da fronteira, grandes mestres da música brasileira, o choro em especial: André Victor Correia, Donga, Jacob do Bandolim, Lina Pesce, Nelson Cavaquinho, Noel Rosa, Pixinguinha, Waldir Azevedo e Zequinha de Abreu, espalhados nos dois discos que o grupo gravou até aqui: Instrumental (2005) e Chorando al sur (2010), ambos gravados de forma independente, este último quase todo dedicado à turma de Pindorama – das oito faixas, apenas La Rita é assinada por Santiago Silvera.

História – O “embaixador” do choro no Maranhão, Ricarte Almeida Santos, recebeu os dois discos do La Chorona de presente do amigo César Choairy, que topou com o grupo tocando em uma praça em Florianópolis/SC, conforme a história que conta aqui, anunciando seu programa de amanhã (27), o Chorinhos e Chorões, às 9h, na Rádio Universidade FM (106,9MHz).

Por e-mail, este blogue conversou com Gonzalo Perera, que carinhosamente agradeceu a divulgação do disco por estas plagas – as perguntas foram enviadas em português, as respostas vieram num misto de português e espanhol e aqui publicadas em português, numa quase-tradução de Zema Ribeiro.

ENTREVISTA: GONZALO PERERA, DO LA CHORONA

Zema Ribeiro – Desde quando o La Chorona está na ativa?
Gonzalo Perera – O La Chorona começou no ano 2003, com Santiago Silvera, atual cavaquinho e bandolim do grupo. Depois disso, mudou várias vezes de integrantes até hoje.

Como descobriram a música brasileira, sobretudo o choro? A música brasileira é muito difundida e o povo uruguaio gosta muito. O contato com o choro vem da pesquisa. Em busca de outros ritmos e estilos apareceu o choro, primeiro num disco de vinil de Altamiro Carrilho, depois apareceram Waldir Azevedo, Jacob do Bandolim, Pixinguinha… e aí não largamos mais!

Onde está sediado hoje o La Chorona? Desde o ano passado estamos radicados em Florianópolis.

Vocês sonham dividir o palco com algum músico brasileiro? Os músicos com que gostaríamos de dividir o palco são muitos… todos, eu acho. Hamilton de Holanda, por dizer algum. O [grupo] Choro das Três (não só porque são lindas, mas porque tocam muito), o Trio Madeira Brasil…

Que músicos uruguaios você recomendaria aos brasileiros conhecer? Alfredo Zitarrosa e o Quarteto Zitarrosa, que são os músicos que o acompanhavam. Jorginho Gularte, que faz candombé. Jaime Roos, Hugo Fatorusso, Trio Ibarburu, todos com estilos diferentes entre si.

Na sua opinião, qual o maior músico brasileiro? É muito difícil dizer qual é o maior músico brasileiro. Inclusive acho injusto com muitos outros. Mas a título pessoal, dentro do choro, acho o Jacob do Bandolim um gigante. Chico Buarque, outro estilo, outro gigante.

O engodo Paula Fernandes

(OU: A FALSA NINFETA)

“A marca registrada da mineira são os figurinos com cintura marcada, decotes e minissaias. Ela sabe o que isso provoca. “Paula sempre pede para encurtar a saia e apertar a cintura o máximo que puder”, conta Fabiola Senra, consultora de estilo da artista. Fora dos palcos, usa blusinha e calça jeans. “Ela já me disse que não gosta do visual ‘Barbie sertaneja’, mas são negócios”, diz o amigo e ex-assessor da cantora, Mauricio Santini. Gostando ou não, o fato é que Paula não está preocupada em ser cool. Ela representa o oposto das cantoras festejadas pelos críticos, como Tiê, Karina Buhr e que tais: usa de todo o seu arsenal para ser cada vez mais popular e ganhar dinheiro. Tem funcionado.”

Antes do vídeo, trecho da matéria Lady Paula, assinada por Ana Luiza Leal na revista Alfa [nº. 15, nov.2011, p. 78-79, Pelé na capa].

No vídeo, Paula Fernandes canta e dança um tema da novela global O Clone, recentemente reexibida [a ele chegamos, na busca do YouTube, através de dica em outro trecho da matéria, p. 80].

A confissão acerca do visual ‘Barbie sertaneja’, na modesta opinião deste blogueiro, traduz o que de fato é Paula Fernandes: um engodo. Antes, confesso: o er… an… crítico musical que aqui lhes escreve um dos que sempre que necessário elogia merecidamente estrelas como Tiê, Karina Buhr e não só, Céu, Mariana Aydar, Tulipa Ruiz, Juliana Kehl, Ceumar, Patrícia Ahmaral, Roberta Sá, Lena Machado, Tássia Campos e tantos outros nomes deste país de cantoras.

Quiçá não seja só o virual ‘Barbie sertaneja’ o que lhe desagrada: talvez Paula Fernandes sequer goste de música sertaneja, tendo caído de paraquedas no filão. Isto é, canta música sertaneja como poderia cantar qualquer outra coisa que esteja (ou estivesse) fazendo sucesso (forró, pagode, calipso etc.) e isso nada tem a ver com versatilidade. Se não, vejamos: ela estourou para o Brasil após um mise-en-scène em que era a ninfeta derramando-se para o “coroa” mais popular do país (em termos musicais, já que outro “coroa” superpopular estrela a capa de Alfa): Roberto Carlos. A partir daí tem sabido como ninguém explorar sua imagem, vide, novamente, as confissões da matéria (ou do trecho que recortamos para acá).

Ou seja, “a imagem sexy no palco e o vozeirão de mulher em contraste com o jeitinho virginal e meio moleca virou a cabeça dos homens” [Alfa 15, p. 76]. O que ela quer é capitalizar, discordo com o “vozeirão” (ela quase não abre a boca para cantar e isto está longe da naturalidade de, por exemplo, Marisa Monte). Paula Fernandes sabe que a beleza não dura para sempre, logo, o quanto puder ganhar em menos tempo, usando mais da beleza (fabricada?) que do canto (idem?), ganhará, para que, em poucos anos, passado seu boom, possa gozar uma confortável aposentadoria.

Em tempo: Paula Fernandes se apresenta hoje em São Luís, na Nova Batuque (Cohama), à caça de mais níqueis para atingir seu intento.

Última

Hoje (18), logo mais às 21h, no Novo Armazém (Rua da Estrela, 401, Praia Grande), o poeta e compositor Joãozinho Ribeiro comanda a última edição da temporada São Luís Outros 400, ocasião em que receberá uma pá de gente boa, anunciada no e-flyer abaixo:

Os ingressos custam R$ 10,00. Maiores informações aqui.

Bruno Batista emociona em português

 [Sobre Eu não sei sofrer em inglês, show de lançamento do disco homônimo, Bruno Batista, Teatro Arthur Azevedo, ontem (11)]

Maranhense nascido em Pernambuco, Bruno Batista veio da São Paulo onde hoje mora lançar em São Luís seu novo disco, Eu não sei sofrer em inglês, o segundo da carreira, festejado por público e crítica.

A faixa-título abriu sua apresentação ontem (11) no Arthur Azevedo, com pouquíssimo atraso. O teatro não estava lotado, mas o público era bom e emocionou-se em língua pátria com o artista.

O show teve como base o repertório completamente autoral de Eu não sei sofrer em inglês, que traz regravações de Já me basta e Acontecesse, do primeiro disco. Bruno Batista cantou ainda duas músicas inéditas, uma já com alguma idade, outra mais nova, uma balada que certamente fará sucesso quando tocar nas rádios.

O compositor trouxe de São Paulo sua banda, com quem no palco repetiu o clima pop-festivo do disco – gravado em três sessões, ao vivo no estúdio: Chico Salem (guitarras, violão e direção musical), Rovilson Pascoal (guitarras), Marcelo Castilha (acordeom, piano e teclado) Chico Valle (bateria) e Guilherme Kastrup (percussões), além do próprio Bruno Batista ao violão. Só não eram ensaiadas sua emoção, timidez e carisma.

As participações especiais de Cláudio Lima e do Criolina (Alê Muniz e Luciana Simões), um show à parte. O primeiro reinventou Vaidade, música que, no disco, tem participação especial de Rubi – os dois, grandes intérpretes, cada qual à sua maneira; os segundos trouxeram ao palco sua O Santo (de Cine Tropical, segundo disco do duo) e entoaram vocais viscerais para Hilda Regina.

A exemplo do disco, o show foi fechado com As cigarras, já no bis. Ficou um gosto de quero mais: Bruno Batista já não cantava em São Luís há quatro anos, o último show, Hein?, no Teatro Alcione Nazaré, quando dividiu o palco com Cláudio Lima. Que não demorem tanto os próximos show e disco.

Trem musical, Parador de Nosly encosta amanhã (29) na estação Arthur Azevedo

Do Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira: “Iniciou a vida artística em 1984 na cidade de São Luís, capital do Estado do Maranhão.// Residiu em Minas entre os anos de 1986 e 1995, onde integrou a Orquestra de Violões do Palácio das Artes. No ano 2000 lançou pela gravadora Dabliu o cd Teu lugar, no qual interpretou várias composições de sua autoria, entre elas, Brinco, Noves fora e Japi, as três em parceria com Zeca Baleiro; Coração na voz (c/ Nonato Buzar e Gerude); Gueno (c/ Glauco Barbosa) e June, parceria com o poeta Celso Borges, entre outras.// No ano de 2003, ao lado de César Nascimento e Mano Borges, apresentou-se no “Projeto Prêt-à-porter”, com direção artística de Sérgio Natureza, no Teatro Café Pequeno, no Leblon, Zona Sul do Rio de Janeiro.// Em 2010 lançou o cd Nave dos Sonhos, no qual figura a faixa-título composta em parceria com o também maranhense Nonato Buzar, disco lançado em show homônimo no Bar Severyna, em Laranjeiras, Zona Sul do Rio de Janeiro. No show contou com a participação dos músicos Ney Conceição (baixo), Kiko Continentino (teclados) e Victor Bertrami (bateria).// Entre seus diversos parceiros destacam-se os letristas Celso Borges, Tibério Gaspar, Chico Anísio, Fausto Nilo e Sérgio Natureza, além do compositor e sambista carioca João Nogueira.”

Do texto do encarte de Parador [ouça na Rádio UOL], assinado pelo parceiro-produtor Zeca Baleiro: “Parador é o terceiro disco de Nosly, compositor maranhense que já zanzou por muitas plagas sem fixar-se em nenhuma – São Luís, Rio, Belo Horizonte, Düsseldorf… Como seu conterrâneo Gonçalves Dias, Nosly vive no exílio, no abandono apaixonado da música, urdindo canções como quem tece num tear seu artesanato de afetos, sua teia de ritmos (…)// Sem mais delongas, digo: Nosly é um craque inquestionável da sempre nova (e muito viva) canção brasileira”

Parador abre com a regravação de Aquela estrela (Ronald Pinheiro e Jorge Thadeu) e fecha com Maria Luiza (Nosly), único tema instrumental do disco, homenagem à mãe do compositor. Entre as 13 faixas, parcerias, regravações e inéditas.

Amanhã (29), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo, acontece o show de lançamento de Parador (2011), novo disco de Nosly, produzido por Zeca Baleiro (mais sobre o show no release escrito pelo parceiro Fernando Abreu). Abaixo, a entrevista exclusiva que o músico concedeu ao blogue, por e-mail.

ENTREVISTA: NOSLY

ZEMA RIBEIRO – Nosly, como foi sua infância e em que momento você sentiu que ia ser músico, que ia viver de música?

NOSLY – Nasci em Caxias/MA, em agosto de 1967. Sou o sétimo filho de uma família de 10 e carrego o nome do pai, Nosly. Cresci ouvindo muita música boa, música de qualidade, orquestradas e interpretadas por grandes nomes. A minha primeira lembrança, eu deveria ter talvez quatro ou cinco anos, foi colocar na “radiola”Agostinho dos Santos cantando Estrada do Sol (Tom Jobim e Dolores Duran). Depois, com sete, me divirtia com os instrumentos musicais (xilofones, saxofones, clarinetes etc.) que ganhava na época de natal. Acho que os meus pais, de alguma maneira, já identificavam meu interesse pela música. Só lá pelos 13 é que pintou o violão na minha vida. Daí foi paixão à primeira nota.

Parador pode ser considerado teu disco mais pop, embora nunca descartável, como acentua o parceiro Fernando Abreu no release de divulgação do show de lançamento. Como foi sua gestação? O disco começou a ser idealizado no começo do novo milênio, mas por conta da agenda do Zeca [Baleiro, produtor do disco] e a minha decisão de passar um tempo na Europa, foi sendo adiado, até, finalmente em 2010, partirmos pra por em prática e realizar o sonho antigo. Muitos e-mails trocados com o Zeca até chegarmos a esse repertório que aí está. Compus algumas coisas especialmente pra esse cd, como por exemplo Oh, baby perdoe (Nosly e Zeca Baleiro), Aldeia (Nosly e Celso Borges) e Apesar de doer (Nosly e Vanessa Bumagny). Muitas idas e vindas, São Luís, São Paulo, São Luís, até a conclusão e lançamento em maio deste ano.

O que o público ludovicense pode esperar do show de lançamento do disco, que contará com a participação especialíssima de Toninho Horta? O show tem como base o repertório do cd e toco ainda algumas músicas do primeiro [Teu lugar] e do segundo cd [Nave dos sonhos]. A banda é sensacional: VICTOR BERTRAMI – BATERA, NEY CONCEIÇÃO – BAIXO e KIKO CONTINENTINO – PIANO [grifos dele]. O Toninho é amigo desde 86, quando eu participei do I Seminário Brasileiro da Música Instrumental, realizado em Ouro Preto. Considero o Toninho um dos maiores violonistas, guitarristas do mundo, além de consagrado compositor, grande ídolo, desde o tempo que ouvia o Clube da Esquina. Melhor agora, depois de tantos anos de amizade, poder estreitar mais ainda nossos laços musicais e contar com a presença dele no show. É uma honra pra mim e acredito que será também para o público que vai nos prestigiar.

Parador traz uma série de parcerias, com nomes como Celso Borges, Fausto Nilo, Fernando Abreu, Olga Savary, Vanessa Bumagny e Zeca Baleiro, entre outros, o primeiro e o último aqui listados talvez os mais antigos, parceiros desde o começo da carreira. Como se dão essas parcerias? Como é lidar com essa pluralidade? Cada parceiro tem sua importância e admiro todos eles, pois a parceria nasce antes, no coração da gente, só depois vira música. Já compus de n maneiras distintas, não dá pra prever nem premeditar, tudo nasce como deve ser, naturalmente. Recebo letras de música, poemas, ideias de melodias, enfim cada caso é um caso. O importante mesmo é que o momento seja pleno e que a ideia venha à cabeça. Tive a honra de compor com grandes nomes da MPB, como Nonato Buzar, Chico Anysio, João Nogueira, Tibério Gaspar, Sérgio Natureza, Zeca Baleiro, Chico César, Fausto Nilo, Luis Carlos Sá, Celso Borges, Fernando Abreu, Gerude, Luis Lobo, Olga Savary, Lúcia Santos, Cláudia Alencar, enfim, a lista é longa e sempre cabe mais um. É muito bom poder compartilhar momentos e afinidades e a parceira é a junção dessas duas coisas.

Como foi trabalhar com o parceiro Zeca Baleiro assinando a produção? Foi muito prazeroso trabalhar com o Zeca. Já fizemos tantas coisas juntos no passado, que facilitou nesse agora. Temos muita afinidade, crescemos juntos e ouvimos muita música naquelas tardes de Monte Castelo. Além disso, nossa concepção é bem parecida, embora cada um tenha sua maneira particular de evidenciar isso. Pra resumir, foi uma beleza fazer esse cd produzido por ele, pelas ideias que dividimos e pelo despojamento sobre qualquer sentimento de vaidade que pudesse macular esse nosso encontro.

Faixas como Oh, baby, perdoe (Nosly e Zeca Baleiro), I’ll be over you (Steve Lukather e Randy Goodrum) e So I’ll have to say I love you in a song (Jim Croice), têm um acento brega, seja pela temática romântica da primeira, a segunda uma balada original que aqui ganha versão reggae e a terceira por ter tido uma versão em português gravada por um ídolo do gênero, Fernando Mendes. Sobretudo em relação às duas últimas, como se deu a escolha para que entrassem no repertório de ParadorApesar de ter ouvido na infância Odair José, Fernando Mendes, Amado Batista, Wando etc., tudo aquilo soava natural, era rotulado de brega, mas isso já tomou outra conotação dos dias de hoje. Tanto é que grandes nomes  da MPB continuam gravando esses compositores ditos brega até hoje. Nada foi intencional, recebi a letra do Zeca pela internet, via e-mail, daí apenas dei vasão ao sentimento do momento. Melodia não tem hora pra acontecer e nem se sabe como vai ser. Você sente e põe no violão. Quando gravamos não tivemos essa preocupação de fazer um acento como se fora brega. Quisemos sim, fazer rememorar alguns timbres dessa época que caíram em desuso. Seria, pois ,uma retomada de algo que foi bom e se perdeu durante um tempo e que agora temos a chance pelo menos de registrar à nossa própria maneira e entendimento.

A faixa-título é uma homenagem a um tio teu, em cuja casa tu moraste, no Rio de Janeiro. Composta em parceria com Gerude e Luis Lobo, também dá a ideia de um Nosly cosmopolita, que já morou inclusive na Alemanha, onde foi gestado outro disco teu, o anterior Nave dos Sonhos. Qual o melhor lugar em que você já morou, seja por aspectos pessoais, mas sobretudo musicais? É muito bom ser cidadão do mundo, falar quatro línguas, sair em busca do aprimoramento, da melhora que todos almejamos. Belo Horizonte é bem marcante na minha vida. Tenho saudades de lá. O Rio de Janeiro, especialíssimo, e tenho sangue carioca: meu pai era carioca. Foi muito importante pra mim o tempo que vivi lá. E por último Düsseldorf, na Alemanha, onde vivi por cinco anos maravilhosos. Fica difícil apontar essa ou aquela cidade, cada uma tem sua medida de importância em meu coração. E quanto aprendizado!

Como você analisa o cenário da produção musical do Maranhão hoje? E no seu caso particular, é mais fácil ser reconhecido aqui, sua terra, ou lá fora? Claro que se você está num grande centro, São Paulo, Rio, BH etc., você tem mais oportunidades de mostrar seu trabalho, não tem o que comparar. Quanto à produção local, acho que fazemos música de altíssimo nível, lindas poesias, letras, lindas melodias que poderiam com certeza embalar corações mundo afora. Basta, pra que isso aconteça, oportunizar, formar plateia e ocupar espaços ociosos com bons espetáculos, seja de música, teatro, poesia, artes plásticas, dança, enfim, qualquer manifestação cultural com que o povo se identifique. Na Europa, tenho público cativo, são três cds editados lá. No Brasil, minha música é ouvida de norte a sul. Vivo em busca do reconhecimento, não importa onde seja, onde esteja. Se o povo quer me ouvir, lá sempre estarei.

Ainda Sérgio Sampaio

Na Semana Sérgio Sampaio, que este blogue promoveu há uns dias, ocorreu um lapso imperdoável.

Deveríamos ter falado, e tentamos corrigir agora a falha, de Juliano Gauche, o moço dos clipes abaixo, em que canta Nem assim e Brasília, ambas de Sérgio Sampaio, acompanhado do Duo Zebedeu:

Dizê-lo meramente cover do capixaba é reduzi-lo, embora Gauche encarne Sampaio com raros talento, competência, simpatia e sensibilidade.

Em 2009, acompanhado apenas do par de violões do Zebedeu, leia-se, Fábio do Carmo e Júlio Santos, ele lançou o ótimo Hoje não!, inteiramente dedicado ao repertório do gênio de Cachoeiro do Itapemirim, altamente recomendável.

Release

Carlinhos Veloz e Fátima Passarinho em Outros 400

Joãozinho Ribeiro contará, em show da temporada, com participações de duas das mais belas vozes da música do Maranhão

Às vésperas do feriado do dia dos servidores públicos, a eles será dedicada a oitava edição de São Luís – Outros 400, temporada musical capitaneada pelo compositor Joãozinho Ribeiro, também funcionário público: o autor de Erva Santa e Milhões de Uns é servidor da Receita Federal.

“Ao menos para nossos colegas funcionários públicos o acordar cedo não será desculpa para perderem esta edição de Outros 400”, alerta o próprio Joãozinho, com toda a razão.

É que ele terá, no palco, como convidados, dois intérpretes talentosíssimos, de belas vozes e repertório idem: Carlinhos Veloz e Fátima Passarinho. “Passarinho cantando e voando Veloz, deixando um rastro de canto afinado, melodias bonitas, talentos indiscutíveis, performances irretocáveis”, poetiza Joãozinho Ribeiro, o anfitrião, fazendo o chamamento a seu público.

Clássicos da lavra de Joãozinho Ribeiro e outros nomes da música produzida no Maranhão e no Brasil não faltarão ao repertório. Ele e seus convidados serão acompanhados do Regional 400, formado por Arlindo Carvalho (percussão), Celson Mendes (violão e direção musical), Fleming (bateria), Mauro Travincas (contrabaixo) e Miranda Neto (trompete).

Serviço

O quê: São Luís – Outros 400. 8ª. edição da temporada.
Quem: Joãozinho Ribeiro. Participações especiais de Carlinhos Veloz e Fátima Passarinho.
Quando: dia 27 (quinta-feira), às 21h.
Onde: Novo Armazém (Rua da Estrela, 401, Praia Grande).
Quanto: R$ 10,00.

Semana Sérgio Sampaio #4

Por conta do (re-)lançamento de Sinceramente (1982), de Sérgio Sampaio, pelo selo Saravá, de Zeca Baleiro, este blogue ofereceu a seus poucos-mas-fieis leitores a Semana Sérgio Sampaio, que se encerra com este post, que traz a entrevista, inédita, que Rodrigo Moreira, autor da biografia Eu quero é botar meu bloco na rua (2000, esgotada), concedeu a este blogueiro, por e-mail, em 10 de abril de 2007.

Não há merchandising na parada: a Semana Sérgio Sampaio é a soma de forma e ocasião de eu desovar material inédito que ficou na gaveta. Penso que Sampaio e seus fãs mereçam! Espero que tenham gostado (tirei daqui o recorte que abre o post).

ENTREVISTA: RODRIGO MOREIRA

ZEMA RIBEIRO – O que te levou a escrever a biografia de Sérgio Sampaio?
 
RODRIGO MOREIRA – Bem, eu sempre fui fã, e como todos os demais fãs, não muito esclarecido sobre como foi mesmo a trajetória dele. Isso fez crescer a curiosidade, que aliada à vontade de fazer algo por seu resgate, acabou me levando a começar a pesquisa, cerca de dois anos depois de sua morte.

Quais as principais dificuldades enfrentadas? Na verdade, eu até que tive sorte, pois logo no início de tudo conheci Sérgio Natureza, amigo e parceiro dele, que já tinha delineado o projeto de resgate Balaio do Sampaio. Ele facilitou bastante meu trabalho, me apresentando diversas pessoas importantes na vida de Sampaio, como familiares, ex-mulheres, músicos, produtores etc. Minha maior dificuldade foi mesmo não ter conhecido Sérgio Sampaio pessoalmente, talvez se tivesse sido amigo dele eu pudesse ter muito mais informações.

A que você credita o quase total desconhecimento dele por parte da população brasileira? Bem, ele realmente não chegou a se tornar um artista conhecido em larga escala, apesar de ter tido uma música de sucesso que marcou época, que foi o [Eu quero é botar meu] Bloco [na rua]. Acredito que o fato daquele sucesso não ter tido uma continuidade, uma permanência maior, ele acabou sendo esquecido, ficando apenas na memória de uma parcela mais retrita do público, que são os fãs, que acompanharam e curtiram suas outras obras e foram aos seus shows ao longo dos anos.

Qual a importância de iniciativas como o Balaio do Sampaio, de Cruel e de tua biografia no sentido de preservar a memória de Sérgio Sampaio e de torná-lo conhecido das gerações mais jovens? Na realidade, todas essas iniciativas não foram isoladas, foram meio que interligadas. Primeiro foi o cd, depois minha biografia, ambos correndo paralelos, e mais à frente o Cruel, a pilastra definitiva do resgate. Pelo menos pra mim tudo faz parte de um mesmo projeto (de uma mesma ideia pelo menos), que foi o Balaio do Sampaio. Acho até que deveríamos ter criado um logotipo, ou coisa assim, que estampasse as capas desses trabalhos. Bem, acho que todo esse esforço serviu para, ao menos, chamar a atenção de parte da mídia e do público para a obra que o Sérgio deixou. Inclusive ele estava inédito em cd até a época que saiu o Balaio (1998), depois disso o Charles Gavin editou em cd o primeiro disco (na época troquei informações com ele, na realidade chamei sua atenção para o Tem que acontecer, já que ele estava trabalhando na ocasião com os arquivos da Continental/Warner, mas ele acabou fazendo o primeiro disco). Depois saiu uma coletânea (Warner 25 anos), que contém todas as músicas do Tem que acontecer, mais algumas raras músicas de compactos.

Outro grande achado musical

Jataí (2011) é mais um grande disco recém-lançado disponibilizado por seu autor, em sua página na internet, para download. Eu já o havia baixado há dias e marquei bobeira em, até agora, não ter dito nada sobre esta verdadeira obra-prima. O grande Edvaldo Santana brinda-nos com mais um belo disco carregado de sua poesia e seu blues caboclo.

Acima, A poda da rosa, ótimo exemplo do que estou falando. Baixem o disco – a capa é do não menos gênio Elifas Andreato – clicando nos links do post. E deleitem-se com a doçura poética do mel de Jataí.

Cidade lagoa

Música de Sebastião Fonseca e Cícero Nunes, composta entre o fim da década de 1930 e o início da de 40, sacada genial acerca do caos urbano do Rio de Janeiro da época, atualíssima e aplicável a qualquer cidade com tais problemas. O blogue traz duas gravações distintas e belíssimas, acima a de Moreira da Silva, o Kid Morengueira (a faixa não integra o disco O último malandro, de 1958, que ilustra o “vídeo”: encontrei-a em Moreira da Silva fotografa o Rio, coletânea com data de lançamento incerta).

Olha a letra, transcrita do encarte de Iaiá [Biscoito Fino, 2004], de Mônica Salmaso, cuja gravação se ouvê ao final do post:

Essa cidade que ainda é maravilhosa
Tão cantada em verso e prosa
Desde o tempo da vovó

Tem um problema vitalício e renitente
Qualquer chuva causa enchente
Não precisa ser toró

Basta que chova mais ou menos meia hora
É batata, não demora
Enche tudo por aí

Toda cidade é uma enorme cachoeira
Que da praça da Bandeira
Vou de lancha a Catumbi

Que maravilha nossa linda Guanabara
Tudo enguiça, tudo pára
Todo trânsito engarrafa

Quem tiver pressa seja velho ou seja moço
Entre n’água até o pescoço
E peça a Deus pra ser girafa

Por isso agora já comprei minha canoa
Pra remar nessa lagoa
Cada vez que a chuva cai

E se uma boa me pedir uma carona
Com prazer eu levo a dona
Na canoa do papai

Então, poucos-mas-fieis leitores, lembrem da chuva que castigou São Luís na manhã de hoje (20) e adaptem a letra a seu gosto: “É uma enorme cachoeira a ilha onde moro/ que da praça Deodoro/ vou de lancha ao Araçagy”. Ou “Que maravilha nossa linda São Luís/ ainda querendo ser Paris/ sem ter uma luz acesa”. Fiquem à vontade para o exercício.

Da minha casa até o trabalho de minha esposa pego exatos 10 semáforos (nem conto o resto do trajeto, que faço do trabalho dela ao meu): com aquela chuva apenas dois funcionavam. Na avenida Camboa, no bairro homônimo, os três por que passamos estavam apagados. Em São Luís acontece de tudo: água empoça até mesmo sobre a ponte (aconteceu na do São Francisco).

São Luís, cidade lagoa. Abaixo a belíssima gravação de Mônica Salmaso para a música-epíteto da capital maranhense, com o luxuoso acompanhamento do Quinteto Sujeito a Guincho (feliz coincidência, aliás: carros estacionados em áreas alagáveis, e estas não são poucas, com a chuva estão o nome do quinteto):

Outra gravação para Cidade lagoa que merece atenção é a de Jards Macalé em O q eu faço é música [Atração, 1998]. O blogue agradece a Ricarte Almeida Santos, pela memória e hipertexto.

Longe de onde, não sei, já sei: perto de meus ouvidos

O sarro Ciranda do incentivo (no vídeo acima). As ternas Plástico bolha e a faixa título. Não tinha como não gamar no som de Karina Buhr, quando de sua estreia “no gráfico/ do mercado fonográfico”.

A pernambucana de sotaque acentuado, bela voz e uma impressionante presença de palco (fala aqui quem só a viu em vídeos como o acima, tem um monte no Youtube) foi saudada como “revelação”. Esqueceram que ela já havia cantado, antes, no Eddie (o show é amanhã, hein, galera?), para ficar em apenas uma experiência pré-carreira-solo da moça.

Eu menti pra você foi um dos “meus discos” ano passado, embora eu nada tenha escrito sobre ele.

E agora escrevo este post ao som de Longe de onde, novo bom disco de Karina Buhr, disponível para download em seu site.

Dia de gratas surpresas musicais, gracias Reuben!

Vão Wadeá!

Taí a capa de Samba 808, “o disco inexistente” que Wado acaba de botar na roda. O que signfiica dizer: acaba de disponibilizar em seu site para download. Prática do artista, um dos mais instigantes de nosso tempo: todos os discos dele podem ser baixados em sua página na internet.

Quem me avisou do “lançamento” foi, novamente, a leitoratenta Thayane, que me guiou ao Scream & Yell, que colou lá o pdf que está na pasta de download do disco. “Estar em selo/gravadora servia para distribuição e para dar visibilidade, visibilidade gravadora não tem dado e distribuição… Os caminhos na internet têm resolvido isso melhor” é das coisas que o alagoano nascido em Santa Catarina diz, no texto (leiam-no completo no Scream & Yell ou depois de baixar Samba 808).

O disco roda enquanto escrevo isso, que não é uma crítica, resenha ou coisa que o valha. É, como também disse Wado no citado texto/pdf: “Lançar ao mesmo tempo para o público e mídia foi nossa ideia, dando brechas para sorte e subvertendo as antigas prioridades do sistema de distribuição, que tinha como pré-requisito a aceitação da mídia e espaços comprados para a divulgação”.

Eu, que há tempos já não sei se sou público ou se sou mídia, se sou ambas as coisas ou se sou nada, a única certeza que tenho é que não sou pago, ao menos não para blogar, não poderia deixar de compartilhar o disco, e antes a informação, com os poucos-mas-fieis leitores deste modesto blogue. E digo: Wado é dos raros artistas que eu recomendaria acá mesmo sem ter ouvido o lançamento, confiando na qualidade e no nível de seus trabalhos anteriores, exatamente o que faço agora.

Bem, o disco acabou antes de eu terminar de escrever o post, é hora de apertar novamente o play, deixa eu ir lá. “De ser o Samba 808 tocado com uma máquina velha reutilizada” será meu caso? Queimei um cd-r e estou ouvindo-o e reouvindo-o num cd-player convencional. Play it again!

Semana Sérgio Sampaio #2

Acima, trecho da apresentação de Eu quero é botar meu bloco na rua, de Sérgio Sampaio, na interpretação do autor, no Festival Internacional da Canção, em 1971. O trecho está disponível no dvd Phono 73 (de que tenho uma cópia em casa).

Abaixo, depoimento que o poeta Celso Borges, sampaiófilo, à época ainda morando em São Paulo, me deu, por e-mail, em 10 de abril de 2007:

Sérgio Sampaio é um dos poucos artistas que sempre ouço e reouço e nunca canso de ouvir, porque sinto verdade naquilo que canta. Parece cantar com o coração na mão, seja quando diz versos de amor ou quando critica o policial e o dentista ou o colunista social. É um filho verdadeiro dos anos 70, que nunca conseguiu aceitar o mercado que abriu as portas pra ele quando gravou Eu quero é botar meu bloco na rua. Foi um rebelde, um amargo, um inadaptado, um compositor que não se sentia bem no meio da “manada dos normais”, como bem disse seu parceiro e amigo Sérgio Natureza numa linda parceria com Sampaio. Sérgio não conseguia sorrir quando lhe pediam porque só conseguia sorrir quando o coração dele queria. E ele, por “ene” razões, não queria rir sempre. Alguns dias antes de ele morrer, vi na placa de um bar de São Paulo, no bairro do Paraíso: “Dia 14, show de Sérgio Sampaio”. Meu coração se iluminou. Putz, finalmente poderia ver o show de um cara que sempre desejei ver ao vivo. Na semana seguinte soube de sua morte. Ficou um gosto amargo na boca e no coração. Ao ouvi-lo, seja em suas próprias intepretações, seja na voz de [Luiz] Melodia ou na de Zeca Baleiro, que o resgatou de maneira profunda, sinto-me um homem feliz e pleno. Ali está um artista que tem verdadeiramente um pouco da alma do mundo.

CB, o homem-poesia, concedeu-me este depoimento para a matéria que eu escreveria sobre os 60 anos que Sampaio completaria naquele abril.

A Semana Sérgio Sampaio é a forma deste blogue homenageá-lo pelo relançamento de Sinceramente (1982) em cd, saravá, Zeca Baleiro!