A palavra acesa e celebrada de José Chagas

CAPA_CD

Em primeira mão, a capa de A palavra acesa de José Chagas, disco em que a poesia do mais maranhense de todos os paraibanos é tornada música. A maioria é inédita, mas estão lá Palavra acesa e Palafita, já gravadas pelo Quinteto Violado, a primeira, tema da novela Renascer, da Rede Globo. Um de nossos maiores versejadores, José Chagas completa 90 anos em 2014.

Participam do disco este timaço de feras listado na capa. A produção é de Celso Borges e Zeca Baleiro. Os desenhos são de Paullo César e o projeto gráfico é de Andréa Pedro.

O lançamento acontece na próxima quinta-feira (5), às 21h, no Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy). Haverá uma sessão de audição do disco e a exibição de um vídeo, realizado especialmente para o projeto.

O blogue voltará ao assunto.

Em tempo (já falei sobre, mas não custa repetir): a foto do cabeçalho deste blogue, clicada por Murilo Santos, mostra Josias Sobrinho e Cesar Teixeira fazendo um par de violeiros na peça Marémemória, baseada no livro-poema homônimo de José Chagas. O livro é de 1973, a peça, do ano seguinte.

Narciso em estado terminal

FLÁVIO REIS*

Um trabalho de Celso Borges é sempre promessa de surpresas. Poeta visceral, afeito a experimentações e radicalismos, há muito deixou de fazer propriamente livros, no sentido mais comum do termo. Apresenta, antes, objetos de arte. Foi o que vimos no esmerado design dos livros-cds que compõem a trilogia A Posição da Poesia é OposiçãoXXI, Música e Belle Epoque. O livro se completa noutra coisa, a poesia é lançada furiosamente ao encontro de sons, vozes, colagens, em meio a um grafismo elaborado, num jogo de cores, desenhos, fotografias, apropriações, citações, que são o invólucro para os petardos que estouram em nossas lentes, ouvidos e mentes.

O Futuro tem o Coração Antigo, lançado recentemente no Cine Roxy, é a nova e desconcertante iguaria desse alquimista da palavra, que vem misturando poesia com música, artes plásticas, cinema, fotografia, num esforço sempre múltiplo, coletivo. O jogo de Celso no entrelaçamento das palavras com as imagens e os sons ganha mais um capítulo, com duas faces.

De um lado, poemas curtos, como um click, chamados por ele mesmo de fotográficos, tendo ao fundo fotografias tiradas por alunos de um curso técnico do IFMA, coordenado pelo professor Eduardo Cordeiro. As fotos utilizam uma técnica antiga, criando imagens meio embaçadas, disformes, distantes, em uma palavra, fantasmagóricas.

De outro, a transposição dos poemas e fotografias para o formato de vídeo, num filme realizado em parceria com Beto Matuk, onde a experiência alcança sua maior complexidade, com a inclusão dos sons, a ampliação das imagens e a duração, revelando de maneira mais intensa todo o estranhamento que está na base da construção. Estamos falando de um momento de inflexão, em que o poeta olha sua longa relação/obsessão com a cidade sem saudosismo, somos logo avisados na abertura do livro/vídeo, mas como um “exercício de ternura” na “carne da cidade futura”.

A combinação aponta, no fundo, para um mergulho necessário e urgente nas sombras do passado. Não o passado da memória narcísica, inerte, perdido nos devaneios da autoglorificação, mas aquele turvo, borrado, sujo, que teimamos em recalcar na imagem dos casarões. O objetivo do salto é de estabelecer um novo encontro com o passado, sem as fantasmagorias que nos impedem de olhar de frente os olhos do futuro.

Celso carregou na vida a paixão da cidade natal, que demarca em três momentos bem distintos: da infância até os 30, quando criou a sua experiência de São Luís e inscreveu a cidade em si; depois, os vinte anos seguintes passados em São Paulo, quando a cidade ganhou os contornos da memória; por fim, a volta em 2009 e o encontro com uma “terceira cidade”, quando os alicerces da memória são então sacudidos pela crueza de uma realidade na qual “cercas elétricas se engalfinham sobre os muros” e o cenário é de destruição e medo.

O livro/vídeo é sobre este terceiro momento, mas se constrói de maneira que não aparece apenas como presente ou simples evocação do passado, e sim como fantasmagoria, uma projeção do passado no presente.  Compõe-se de dois poemas, o poema-título e A Terceira Cidade.

No primeiro, um bordão forte, “o futuro tem o coração antigo”, serve de base para a artilharia diversificada de Celso, alvejando lugares, figuras, situações, de ontem e de hoje, embaralhando as coisas e os tempos, enquanto “os azulejos portugueses encardidos nos observam do alto de sua nobreza rachada”. É a certeza de que “o futuro tem o coração antigo porque a fonte do ribeirão nunca vai secar e os condomínios do renascença morrem de medo”, “porque gullar ainda não escreveu o poema sujo e gonçalves dias não conheceu sabiás empalhados”, “porque o maria celeste ainda queima no cais da sagração” e, principalmente, “porque faustina faustina faustina”, eco que se perde no oco do tempo.

Em pequenos flashs são provocados nomes e imagens emblemáticas da nossa história. Uma história nebulosa, onde o fundador é uma miragem e “ninguém sabe se bequimão é uma força ou uma farsa na forca”. Celso trabalha à vontade em meio aos pedaços, pois sabe que “o futuro tem o coração antigo porque precisamos continuar bebendo na fonte de marcel duchamp”.

No poema A Terceira Cidade, mais longo e propriamente na forma de “poema fotográfico”, vemos todo o impacto da antiga cidade dos azulejos violentada num progresso devastador, mas ao mesmo tempo o anúncio do rompimento do casulo em que a cidade se manteve até então. A abertura não deixa dúvida, “Ó, ilhéus, abris os portais do futuro para o renascimento do maravilhoso”. O recomeço indica que o tempo passou, pois “alguma coisa já não é mais a mesma”. O enredo é simples: “era uma vez uma cidade e a cidade já era”.

Desfilam a devastação e a violência vivenciadas hoje nos quatro cantos da Ilha. São trechos quase sempre estarrecedores, mesmo em sua acidez crítica, expondo as muitas fraturas de uma cidade perdida em meio a ruas engolidas por buracos, a destruição ambiental e a lenta agonia dos casarões, quando “o berro mudo dos cupins devora a pele podre da parede do prédio”, enquanto “uma boca de lobo uiva na camboa”, “jegues abandonados vagueiam em procissão pelas estradas da maioba” e “centenas de carros rosnam na jerônimo de albuquerque”.

Superposição de cenas cotidianas: “ratos mascam chiclets num bueiro de vinhais. baratas brincam de esconde-esconde no calçadão da rua grande. impossível fotografar”. A cidade atulhada de carros, retratados de maneira turva, entupindo as vielas entre os casarões perdidos no tempo, mergulhados na sujeira e no abandono, por trás das placas cheias de cifrões com as promessas nunca cumpridas de reconstituição. Tudo parece distante e, no fundo, totalmente próximo, incômodo. Fantasmas que nos paralisam mesmo quando agonizam.

Momento de morrer, momento de renascer, “a mais bela flor do mundo agoniza. osso duro de morrer”. É também o momento do encontro entre as três cidades, entre as três eras, como um ajuste de contas. Onde se esconde São Luís? Onde se encontra São Luís? Em que visões, em que memórias, em quais sonhos? Terá a antiga cidade dos azulejos virado um grande pesadelo? Ou este foi sempre seu retrato mais fiel, sua imagem mais profunda? Ciente da urgência, Celso sabe que “chega uma hora em que chegou a hora”, “uma hora em que os gatos latem os cães piam e os bambis atiram pra matar”. Para São Luís e os ludovicenses essa hora parece soar. “O centro da cidade é um ciclope se mirando no espelho: narciso em estado terminal”.

Submetida a um processo desordenado e brutal de expansão, sem a resolução mínima de problemas estruturais seculares, chegando mesmo ao ponto de explosão, a cidade afunda a olhos vistos, sob a complacência de uma elite mesquinha apodrecida. “fidumaséguas!” berra o poeta. O fundo do poço em que nos encontramos parece o momento final da cidade na lenda da serpente, evocada no fecho do poema. A hora mítica do despertar, da destruição das fantasmagorias que dominam a nossa cultura. Momento possível, atual, de quebra da adoração vazia dos símbolos em que estamos atolados, seja da cultura ateniense, da cultura popular ou da união hipócrita de ambas executada sob o comando da mídia, em prol de uma apropriação criativa da própria história, pela invenção, pela negação desse futuro perverso vendido como redenção, onde o “turista de pacote clica a tanga da brincante do boizinho de butique”.

Uma obra em processo, que não tem programa, roteiro ou atores definidos, nem precisa, pois começa a se desenhar anarquicamente em experiências descontínuas e dispersas neste momento de cruzamento de gerações, traduzindo-se em movimentações variadas que podem confluir de maneira a criar fendas nas visões canônicas da cultura e da identidade ludovicenses. Nada mais adequado para celebrar a urgência deste “espírito destrutivo”, aliás, que a própria dedicatória feita por Celso naquela noite. Em sua maneira direta, diz apenas: “Chega de boferagem. Viva a fúria!”.

*Flávio Reis é professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA, autor de Cenas Marginais (2005), Grupos políticos e estrutura oligárquica no Maranhão (2007) e Guerrilhas (2012).

O reencontro do poeta com a cidade

Não que poesia careça de explicação, não é disso que estou falando, mas a melhor definição de seu novo livro é o próprio Celso Borges quem dá. Os versos impressos na contracapa – e que o abrem – anunciam: “o futuro tem o coração antigo/ não é um livro saudosista/ mas um exercício de ternura/ a pele da flor na carne da cidade futura”.

O título do livro é mantra que martela a cabeça do poeta, que já havia usado a frase do italiano Carlo Levi como epígrafe em XXI (2000), seu primeiro livro-disco, que inaugura a trilogia A posição da poesia é oposição, continuada com Música (2006) e completada com Belle Epoque (2010).

O futuro tem o coração antigo [Pitomba, 2013] é um livro de poemas curtos, que marcam o reencontro de Celso Borges com sua São Luís natal, após 20 anos de São Paulo – ele voltou a morar aqui em 2009 e em rápida apresentação, divide sua existência em três blocos, as três cidades de São Luís em que viveu: a primeira entre 1959 e 1989, a segunda, a mudança para São Paulo, e a terceira o retorno, período em que foram concebidos os poemas deste novo livro.

Celso Borges não é saudosista, “antigamente era antigamente e era muito pior”, já disse num poema [A saudade tem seus dias contados, que fecha Belle Epoque]. Mas em tempos de instagram e toda tecnologia do mundo recorre a recursos, digamos, rudimentares, para compor seu novo livro: O futuro tem o coração antigo é datilografado e ilustrado por retratos da cidade realizados através da técnica pin hole. Sua poesia, sincera e marcante, prescinde de ferramentas e técnicas. Exige, sim, seu coração de homem antenado com a realidade, batendo no compasso do ofício pelo qual foi escolhido – poeta!

Em preto e branco juntam-se os poemas de Celso Borges às fotografias dos alunos de Eduardo Cordeiro no IFMA, sob o design de Luiza de Carli, que já havia materializado ideia do poeta na revista Pitomba, de que é um dos editores.

Seu reencontro com a cidade – sem mágoas, expectativas ou juízos de valor – não faz do livro obra para iniciados – ou faz? Qualquer um que tenha nascido, vivido, passado (ainda que rapidamente) ou ouvido falar de São Luís poderá apreciá-lo – como à cidade, sob algum ângulo. E mesmo quem não conheceu Faustina ou A vida é uma festa – evento semanal ainda na ativa –, o Cine Éden do passado ou o Box idem, poderá extrair beleza dali, o que O futuro tem o coração antigo transborda. Foi Fabiano Calixto ou Marcelo Montenegro – dois poetaços – quem disse uma vez, não faz tanto tempo numa rede social, que Celso Borges faz os livros mais bonitos do mundo?

Há várias maneiras de lermos este O futuro tem o coração antigo. Como um longo poema. Como vários poemas curtos. Como pílulas poéticas, cartões de visitas, guias para um passeio pelas cidades, que São Luís é várias, mesmo se nos contentarmos com a clássica divisão cidade nova versus cidade velha, as pontes por sobre o Rio Anil, este também um personagem, unindo a São Luís horizontal com a vertical. Ou ainda como um álbum de fotografias que retrata São Luís entre o belo e o feio, o casario tombado pelo patrimônio histórico e o prestes a tombar pela falta de conservação por parte de proprietários e poderes públicos irresponsáveis, os buracos que se tapam e reabrem a cada chuvisco, o esgoto a céu aberto, os cartões postais, a São Luís real, de verdade, pura poesia. Mesmo quando trisca em política, o que temos de mais nojento desde sempre, o autor soa poético, o que talvez lhe explique a alcunha de homem-poesia com que o tratam os amigos.

Mas a intenção aqui não é estabelecer um manual de instruções para o livro. Cada um o apreciará à sua maneira, difícil mesmo será quem não o faça – haverá?

Depois da volta de Celso Borges à Ilha, o Cine Roxy, quase em ruínas e então exibindo apenas filmes pornôs, tornou-se o Teatro da Cidade de São Luís – embora velhos como este blogueiro ainda prefiram chamá-lo pelo antigo nome –, hoje palco de importantes acontecimentos no cenário cultural da capital maranhense, o que inclui o lançamento de O futuro tem o coração antigo, amanhã (21), às 19h, com entrada franca. Na ocasião o livro será vendido por R$ 30,00 e haverá a exibição de um vídeo, o teaser abre-ilustra este post, realizado por Beto Matuck e Celso Borges.

O futuro tem o coração antigo e o passado tem lugar certo em nossos corações. Sem nostalgias baratas ou gratuitas, que pra frente é que se anda, “um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar”, como disse outro poeta cujo futuro foi abreviado. Um pé no passado, outro no futuro, a poesia de Celso Borges é um espaço-lugar em que a cidade não para no tempo – para o bem e/ou para o mal, “a cidade só cresce”, sem saber onde vai dar, sem saber se é desta vez que a serpente vai acordar.

Exercício de raiva e traição*

CELSO BORGES**

Por que escrever apenas dos 16 aos 20 anos? Virar pelo avesso a poesia ocidental e depois abandonar a literatura e rumar para a Abissínia em busca de algumas moedas de ouro? Assim fez o poeta Jean Nicolas Arthur Rimbaud, que ao lado de Charles Baudelaire forma a dupla mais importante da poesia moderna, nascida na França na segunda metade do século 19. “Não penso mais nisso”, diria mais tarde Rimbaud ao amigo Delahaye quando questionado sobre literatura.

O enigma da renúncia do bardo francês atravessa gerações e permanece sem resposta. No caso de Rimbaud, essa deserção tem um caráter mais agudo, pelo curto espaço de tempo que escreveu e pela importância de sua obra para a poesia de seu tempo e além. Para poetas como eu, que carregam a palavra por todo o corpo e nunca pensaram em abandoná-la, a atitude de Rimbaud traz desconforto e alguma angústia. Um lado meu procura compreendê-lo. O outro, chora a perda de um cúmplice e sente o golpe. Como uma traição.

Rimbaudemônio é um grito e um exercício de imaginação contra os fugitivos da literatura, além de uma afirmação da poesia. É um texto de raiva e revolta contra Rimbaud, ainda que dê a ele chances de se defender. Narra um encontro imaginário entre o poeta e o demônio. Depois de beber inspiração no cálice satânico para escrever alguns dos versos mais belos de sua época, Rimbaud abandona a poesia. Antes, porém, sente-se no dever de comunicar isso ao seu grande mestre e para isso vai visitar o diabo no inferno, que se revolta contra ele. 

O inferno, aqui eleito como fonte de desregramento, delírio e rebeldia, é resultado de uma idealização romântica, ou mesmo de uma falsa idealização. Na educação cristã que recebi na infância, a presença de um Deus punitivo e de um juízo final implacável sempre foram mais presentes do que a figura do diabo e do fogo do inferno. Mais tarde, revoltei-me contra essa simbologia do medo. Rimbaudemônio é também, por isso, uma reação, mas sobretudo uma provocação contra esse universo. Para isso, investi num conceito de transgressão que tivesse origem na figura do demônio e no cenário de fogo regido por ele. É dentro dessa concepção que nascem a beleza e a rebeldia de Rimbaud.

Cinco tradutores do poeta francês alimentaram a construção deste texto: Augusto de Campos [Rimbaud Livre], Ivo Barroso [Arthur Rimbaud – Poesia Completa], Lêdo Ivo [Uma Temporada no Inferno & Iluminações], Maurício Arruda Mendonça e Rodrigo Garcia Lopes [Iluminuras – Gravuras Coloridas], além dos ensaios Rimbaud e Jim Morrison – Os Poetas Rebeldes [Wallace Fowlie]; A Hora dos Assassinos [Henry Miller]; O Castelo de Axel [Edmund Wilson]; Diabo – Uma Biografia [Peter Stanford]; e inspirações libertárias do Gênesis, de Roberto Piva, dos Pequenos Poemas em Prosa e da obra completa de Charles Baudelaire, e do clássico Simpathy for the Devil (Jagger/Richards), do Rolling Stones, relido pela lente do cineasta Jean Luc Godard.

Sem Lêdo Ivo, o primeiro tradutor de Rimbaud no Brasil, não haveria Rimbaudemônio. Devo muito deste trabalho à sua tradução de Uma Temporada no Inferno & Iluminações, que me trouxe de volta a rebeldia do poeta. Li esse livro há mais de 20 anos e confesso que somente na releitura, no início de 2008, percebi com mais lucidez o impacto de seus versos sobre a poesia moderna.

Lêdo Ivo está fora de minha lista de poetas/tradutores preferidos, talvez por ser um ícone da Geração 45, com a qual não me identifico em razão de sua excessiva e equivocada rejeição ao modernismo de 22 e aos seus desdobramentos. Mas devo reconhecer que bebi do seu entusiasmo no pequeno ensaio que assina no prefácio do livro. Durante a leitura dos versos de Uma Temporada no inferno & Iluminações, esse entusiasmo cutucou minha inspiração e estimulou alguma raiva contra a renúncia do poeta francês. Daí nasceu a ideia de construir um diálogo entre Rimbaud e o demônio.

Outra tradução mais recente, Iluminuras – Gravuras Coloridas, de Rodrigo Garcia Lopes e Mauricio Arruda Mendonça, foi essencial como diálogo com a tradução de Lêdo Ivo. Sobretudo pelos ensaios curtos e luminosos do posfácio, que me ajudaram a compreender um pouco mais o alcance da obra de Rimbaud e mudaram meu olhar, de certa forma ainda ordinário, sobre os truques e trovões rítmicos do poeta de Ardennes.

É importante destacar, no entanto, que Rimbaudemônio está longe dos primeiros experimentos com a técnica cut-up do norte-americano William Burroughs, quando usou trechos das Iluminações (ou Iluminuras, como preferem os tradutores Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça). Aproxima-se muito mais do método detournement (desvio, descaminho, roubo ou rapto, em francês) criado por Lautreamont, cujo objetivo é modificar frases existentes pela troca de algumas palavras ou pela adição de outras cuidadosamente escolhidas. “O plágio é necessário. O progresso exige” (Lautreamont).

A partir de hoje a peça será encenada todas as sextas-feiras, até dezembro, sempre às 21h

*Este texto foi originalmente distribuído aos meios de comunicação junto do release da peça. ** Celso Borges é poeta e jornalista.

Como é que se diz eu te amo

[O Estado do Maranhão, Alternativo, ontem]

10 coisas que eu podia dizer no lugar de eu te amo, um disco sobre o amor que foge da pieguice

Kléber Albuquerque escreve e canta o amor sem soar cafona

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O ALTERNATIVO

As 10 coisas que eu podia dizer no lugar de eu te amo [Sete Sóis, 2012] são, na verdade, 14, este o número de faixas do novo disco de Kléber Albuquerque, um de nossos mais interessantes compositores da atualidade.

O repertório, inteiramente autoral, é quase todo inédito – Kléber recria Tevê, parceria com Zeca Baleiro, gravada por ele em O coração do homem bomba, e Devoluto, parceria com Sérgio Natureza, homenagem a Celso Borges, gravada em Música, livro-disco do poeta, de que ambos participam – aqui o reencontro de Kléber e Baleiro, que canta nas duas regravações. Outros parceiros que comparecem são Sérgio Lima (Brincadeira de amor), Lúcia Santos (All Star e Terra do Nunca) e Gabriel de Almeida Prado (Sujeito objeto). Elaine Guimarães divide com ele os vocais em Vazante – momento sublime, de versos como “lágrima/ água com navalha/ migalha de mar/ mágoa é água parada”. Entre os músicos André Bedurê (contrabaixo), Michelle Abu (percussão), Ricardo Prado (teclados) e Rovilson Pascoal (guitarras).

É um disco sobre o amor, o que entrega o título e o colorido florido da chita (maranhense?) da capa – o próprio Kléber assina produção musical e projeto gráfico, este com Vivi Correa –, mas fugindo do piegas. “Essa tal de poesia/ é coisa que vicia/ e maltrata o coração/ faz rimar fel e folia/ faz amar quem não devia/ dá rasante na razão/ mas em comparação/ com outras profissões/ vê mais sol/ vê mais lá/ vê mais dó”, canta em Maquinário, sobre o próprio ofício.

Nem só de amor vive o artista, que brinca com gramáticos e dicionaristas em Sujeito objeto: “Ei, Pasquale/ por que o andar dessa menina/ sempre rouba palavras da minha boca?/ Ei, Aurélio/ por que o olhar dessa garota/ planta versos na minha cabeça oca?/ Michaelis/ então me diga o motivo/ de tantos adjetivos”. Quer dizer, é sobre o amor, sim. Tevê é sarro com a sociedade consumista: “comercial de xampu/ cerveja e celular/ mentiras para crer/ e credicard”. No fundo, é também sobre o amor, aquele amor-preguiçoso esparramado no sofá da sala.

São 15 anos de carreira, inaugurada em 1997 com 17.777.700. 10 coisas é o sexto disco de um dos compositores preferidos de nomes como Ceumar e Rubi, para ficarmos em duas das melhores vozes que já o interpretaram. São mais de 15 anos dedicados à música, que o amor ao ofício não começa no disco. A continuar nestas trilhas, o número de apaixonados por Kléber Albuquerque e sua obra só tende a aumentar.

Cinema via poesia: subiu Giuliano Gemma

Sempre que penso em Giuliano Gemma (ou Montgomery Wood, seu pseudônimo americano), a primeira lembrança que me vem à cabeça é o poema de Celso Borges: “belas as baladas de Cat Stevens que me abalam/ as balas de Giuliano Gemma que não me calam”.

A partir deste poema, que conheci cantado-entoado por Rita Ribeiro em XXI (2001), foi que cheguei ao cinema do ator italiano. Desde então é sempre assim: à menção de seu nome, lembro o poema e depois penso nos tantos filmes que já assisti com o galã.

O mocinho nunca morre no final. É no que vou continuar acreditando para sofrer menos com a subida deste meu herói. Gemma não resistiu aos ferimentos provocados por um acidente de carro e faleceu ontem, na Itália.

“Fui em direção ao jornalismo movido pelo interesse pela linguagem poética”

[Íntegra da entrevista publicada hoje no Alternativo, O Estado do Maranhão]

Jornalista, poeta e letrista de música, Ademir Assunção fará três participações na 7ª. Feira do Livro de São Luís. Com nove livros publicados, um cd lançado e outro a sair ainda este ano, ele concedeu entrevista exclusiva a O Estado do Maranhão

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O ALTERNATIVO

Jornalista, poeta e letrista de música, Ademir Assunção tem nove livros publicados: LSD Nô (poesia, 1994), A Máquina Peluda (prosa, 1997), Cinemitologias (prosa poética, 1998), Zona Branca (poesia, 2001), Adorável Criatura Frankenstein (prosa, 2003), A Musa Chapada (com Antonio Vicente Pietroforte e Carlos Carah, poesia, 2008), Buenas Noches, Paraguaylândia (poesia, Assunção, Paraguai, 2009), A Voz do Ventríloquo (poesia, 2009) e Faróis no Caos (coletânea de entrevistas, 2009). Em 2005 lançou o cd Rebelião na Zona Fantasma, com participações dos parceiros Edvaldo Santana e Zeca Baleiro. Tem inéditos um cd – que lança ainda este ano – e quatro livros – três de poesia e uma coletânea de reportagens publicadas em diversos veículos. Alô, editores do meu Brasil!

Já ganhou alguns prêmios com sua produção, mas não é o tipo de cara que espera por bons ventos ou tempos de vacas gordas: o lance dele é o mar bravio, em que se mete a largas braçadas e pernadas, cara e coragem. Para lançar seu primeiro disco, por exemplo, à época, vendeu um carro. Para selecionar as 29 entrevistas de Faróis no Caos, passou dois meses isolado em uma praia.

Formado na Universidade Estadual de Londrina, o autor, convidado da 7ª. Feira do Livro de São Luís, passou pelas redações da Folha de Londrina, O Estado de São Paulo, Jornal da Tarde, Folha de S. Paulo, Marie Claire, Veja São Paulo, além de frilar por outras: Revista dos Bancários (SP), O Tempo (Belo Horizonte), Gazeta do Povo (Curitiba), A Notícia (Joinville), Cult, IstoÉ, Revista Educação e Caros Amigos. Quando o jornalismo, sobretudo o cultural, começou a ficar careta ele caiu fora – um de nossos mais interessantes jornalistas está exilado das redações.

Ademir Assunção fará três participações na 7ª. FeliS: dia 28 de setembro (sábado), às 18h, no Auditório da Associação Comercial do Maranhão (Praça Benedito Leite), com mediação deste jornalista, ele profere a palestra “A farsa da big mídia e as revistas fora do centro: uma outra história”. Domingo (29), às 19h30min, apresenta-se no recital Poesia no Beco, no Beco Catarina Mina (Praia Grande), acompanhado do guitarrista Marcelo Watanabe. Dia 30 (segunda-feira), às 16h30min, divide um Café Literário com o também jornalista e poeta Eduardo Júlio. “Poesia rima com rebeldia: Leminski, Torquato e cia. Ilimitada” é o tema da conversa, que acontece na Galeria Valdelino Cécio (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande).

Em entrevista por e-mail a O Estado, Ademir Assunção falou de poesia, jornalismo, música, revistas literárias, sua trajetória, redes sociais e da expectativa por sua primeira visita à São Luís do Maranhão.

ENTREVISTA: ADEMIR ASSUNÇÃO

O Estado do Maranhão – Ano passado você lançou o livro de poemas A voz do ventríloquo e a coletânea de entrevistas Faróis no caos. Sua trajetória parece desde sempre marcada por essa, digamos, vida dupla: a poesia e o jornalismo. Em que sentido um e outro se ajudam e completam e/ou atrapalham?
Ademir Assunção – Fui em direção ao jornalismo movido pelo interesse pela linguagem poética. Peguei um período em que era possível praticar um jornalismo bem mais instigante do que o atual. Era possível desenvolver um estilo, ou vários estilos de escrita, e discutir questões relevantes com mais profundidade. Sempre fui fascinado pela página grande de um jornal, com todas as suas possibilidades criativas, desde a linguagem gráfica, fotográfica, até a própria escrita. O jornalismo me ajudou a criar uma disciplina e a procurar uma poesia mais impura, mais misturada ao cotidiano. E o estudo da tradição poética me ajudou a praticar um jornalismo mais criativo, enquanto foi possível. Embora sejam linguagens e meios bem diferentes, procurei contaminar um ao outro, levando uma consciência poética ao jornalismo e trazendo um pouco das impurezas da linguagem jornalística para a poesia.

Poesia “é saber usar a língua para extrair gemidos, uivos e palavras obscenas das mulheres mais vagabundas”. Esta é a resposta que você deu ao também poeta Edson Cruz, em O que é poesia? [2009], livro que ele organizou. O que mais é poesia? E levando em conta essa definição, você arriscaria um chute? Há muitos ou poucos poetas por aí? Bons ou ruins? Não gosto da poesia como algo puro, uma espécie de virgem imaculada no alto de um pedestal. Prefiro a poesia que vai para o meio da rua, que lambe as feridas dos trombadinhas, que se deixa violentar por tudo o que é humano, que se arrisca aos altos voos mas que tem consciência de que o asfalto é duro é áspero. Como diria Nietzsche: “de tudo o que se escreve, aprecio somente o que é escrito com o próprio sangue.” Sim, há muitos poetas que escrevem com essa fúria e essa urgência. São esses os que mais me interessam.

A mediocrização do jornalismo cultural brasileiro te obrigou a um exílio voluntário. Entrevistas como as reunidas em Faróis no caos estão cada vez mais raras na chamada grande mídia. Neste aspecto, uma volta ao passado parece mesmo impossível? Nada é impossível e o tempo não é linear como pensamos. É possível que a qualquer momento surja uma nova tribo de jornalistas que encare o exercício da escrita e da informação de maneira apaixonada e ousada, e não apenas como uma profissão, onde “quem pode manda e quem tem juízo obedece”. Para mim, isso é uma total falta de juízo. É preciso também que as condições se apresentem para que essas mudanças aconteçam. Quanto ao meu exílio, não foi tão voluntário assim. Passei períodos difíceis, sem grana, sem conseguir trabalho em jornal ou revista algum. Mas nunca estive disposto a vender o que tenho de mais precioso: a minha inquietação.

Muito do conteúdo dos poemas de A voz do ventríloquo é uma crítica a essa sociedade do espetáculo e do consumo desenfreado, que vai mais a um show ou a um restaurante para postar a foto do artista no palco e da comida no prato que para apreciar um ou outro. A experiência parece só existir se compartilhada. Escrever é um exercício solitário, que vai na contramão disso tudo. Como você dosa o exercício de escritor com a exposição na medida que o mesmo deve ter, divulgando a obra, conquistando leitores? Sinceramente, nunca me preocupei em conquistar mais leitores. Sigo fazendo o que tenho que fazer. A escrita, para mim, é vital. Tenho tanto prazer em passar madrugadas escrevendo solitariamente quanto em subir em um palco e apresentar meus poemas com minha banda. É claro que tenho intenção de influenciar mais pessoas, de interferir no resultado do jogo, mas que isso aconteça sem concessões descabidas. A poesia é capaz de abrir o olho de muita gente. Não a encaro como um entretenimento. Não tenho nenhuma dúvida de que minha percepção seria mais pobre se não tivesse lido Uivo, de Allen Ginsberg, ou a tradução da Ilíada por Haroldo de Campos, para citar dois exemplos.

Além dos livros de poesia e prosa e da atividade jornalística, outra atividade sua é a música. Para você, há diferença na hora de compor uma letra de música ou escrever um poema? Apenas diferenças técnicas. No meu caso, a maior parte das minhas parcerias musicais nasceu de poemas já escritos. Poucas vezes escrevi poemas para harmonias ou melodias já prontas. Acho um equívoco pensar que a “grande poesia” só pode existir no livro. Itamar Assumpção, por exemplo, é um poeta de altíssima voltagem. Só que em vez de publicar livros, gravou discos. São meios diferentes, com possibilidades diferentes. Gosto muito do poema cantado de Gilberto Gil [Metáfora, do disco Um banda um]: “Na lata do poeta tudo nada cabe / Pois ao poeta cabe fazer / Com que na lata venha caber / O incabível.”

Depois de Rebelião na Zona Fantasma você está preparando um novo disco, fundindo poesia com rock e blues, numa experiência para muito além de recitar poemas com fundo musical. A banda que te acompanha se chama Fracasso da Raça, um belo nome que já traduz uma opinião, uma visão de mundo. Deste novo disco – como se chamará? – já tive a oportunidade de ver o clipe de Bang bang no sábado à noite e ouvir Lena [enviada por e-mail em primeira mão]. Em ambas estão referências fundamentais para tua literatura, como Bob Dylan, John Lee Hooker, Sérgio Leone. O que mais esperar? E qual a previsão de lançamento? Este novo disco, que se chama Viralatas de Córdoba e será lançado em novembro, está mais radical do que Rebelião na Zona Fantasma. Das 14 faixas, há apenas uma cantada, um blues interpretado pela cantora Fabiana Cozza. É um poema que Edvaldo Santana musicou, sem nenhuma alteração. Todos os outros são entoados, com ritmos, com modulações, com intenções de voz diferentes. Porém, meticulosamente encaixados em harmonias e compassos musicais. Como você frisou, não se trata de poemas falados com um “fundo musical” aleatório, improvisado. O processo de composição com os músicos Marcelo Watanabe [guitarrista que o acompanhará em Poesia no Beco, durante a 7ª. FeliS], Caio Góes e Caio Dohogne foi muito curioso. Os próprios compositores jamais haviam trabalhado desta maneira. Gravei também O Deus, parceria com Edvaldo Santana e Paulo Leminski e Nossa Vida Não Vale um Chevrolet, do Mário Bortolotto. Ambas são canções, originalmente cantadas, mas fiz uma versão falada (ou “entoada”, como prefiro). Em Chevrolet acrescentei o poema Eu Caminhava Assim tão Distraído, do poeta e dramaturgo Maurício Arruda Mendonça.

As revistas literárias e culturais são tema de uma das mesas de que você participa na 7ª. Feira do Livro de São Luís. Recentemente a editora Abril fechou a Bravo!, que apesar de já não ser como quando iniciou, ainda tinha alguma importância. É um sinal dos tempos? Ou sempre foi assim: a tesoura que corta o orçamento pega primeiro na cultura? Essa é a realidade do mercado editorial. Se uma publicação comercial não dá lucro financeiro, acaba sendo extinta. Não era um leitor assíduo da Bravo!, mas lamento seu fim. Particularmente, preferia que a Veja fosse extinta e a Bravo! continuasse.

Você é um dos editores da revista Coyote, que já conta 10 anos, 24 edições, um pequeno apoio da Prefeitura de Londrina e muita paixão e teimosia dos editores – a teimosia uma espécie de sal da poesia, tempero que não pode faltar. A meu ver é a mais importante revista de literatura do Brasil, hoje. Como surgiu a ideia e o que os leva a resistir? Rodrigo Garcia Lopes [também convidado da #7felis], Marcos Losnak e eu fizemos outras revistas antes, juntos, ou separados. A Coyote nasceu de uma necessidade nossa de mostrar autores, tanto do passado quanto do presente, que considerávamos importantes e que não víamos em outras publicações. E há uma particularidade da Coyote que as pessoas notam de cara: a linguagem gráfica. Para mim, Losnak é um gênio do design gráfico. Não entendemos a revista apenas como “suporte” para textos. A própria linguagem gráfica assume um papel de altíssima significância.

Que outras revistas literárias te fizeram e/ou fazem a cabeça? Várias, da Navilouca à Azougue. Muitas revistas surgiram nas últimas décadas, a maioria desapareceu, mas deixou contribuições importantes. Para citar algumas: Bric-a-Brac (Brasília), Orobóro e Medusa (Curitiba), Imã (Vitória), Ontem Choveu no Futuro (Campo Grande), Carioca e Inimigo Rumor (Rio de Janeiro), Pulsar (Teresina, se não me engano), Pajeurbe (Fortaleza) e Revista de Autofagia (Belo Horizonte). Há várias outras que me escapam à lembrança no momento.

Você conhece a Pitomba, editada aqui por Bruno Azevêdo, Celso Borges e Reuben da Cunha Rocha? Qual a Coyote, também tem periodicidade de-vez-em-quandal e é feita com pouquíssimo apoio, no fim das contas sai do bolso do trio mesmo. O que acha da publicação? Gosto do tom de provocação e irreverência da Pitomba. Cada poeta ou grupo de poetas traz suas referências críticas e criativas. É importante que elas apareçam, que causem atritos. Os atritos provocam movimento, abrem novos horizontes perceptivos.

Outro tema que você debaterá é relação entre poesia e rebeldia, passando por obras de Paulo Leminski e Torquato Neto, entre outros, poetas que também influenciaram teu trabalho, você um rebelde. Quem são os rebeldes de hoje, que nomes valem a pena e mereceriam uma indicação tua, a um amigo, dentro de uma livraria? É preciso situar o termo “rebeldia”, para que não se torne algo caricato. Atitudes rebeldes surgem da necessidade de se firmar outras maneiras de viver e de fazer as coisas. Elas são vitais para ampliar a percepção, as experiências, para não cair na vala da acomodação, do mais-do-mesmo. Espíritos rebeldes sempre existiram, no passado, no presente e existirão no futuro. A lista dos poetas vivos que mais me instigam não é pequena. Para citar apenas cinco deles, eis alguns que procuro acompanhar com grande interesse: Douglas Diegues, Rodrigo Garcia Lopes, Fabrício Marques, Celso Borges e Micheliny Verunschk. Mas há um punhado de outros, que podem se sentir incluídos.

Você participa ainda do Poesia no Beco, em um espetáculo de voz e guitarra, espécie de miniatura do que será o disco. Quais as expectativas para esta apresentação e em geral, nesta sua primeira visita à Ilha natal de Ferreira Gullar? O que vou apresentar em São Luis do Maranhão, com o guitarrista Marcelo Watanabe, é uma versão, digamos, mais descarnada das composições que estão nos dois discos, o Rebelião e o Viralatas. Não tem os arranjos, com bateria, baixo, backing vocais, percussão, que estão presentes nos discos. As composições serão apresentadas mais próximas da raiz, de como elas nasceram. Tomara que as pessoas se sintam estimuladas com o que vão ouvir. Quero aproveitar essa minha primeira viagem ao Maranhão para mostrar o que estamos fazendo e também conhecer o que os criadores daí estão aprontando.

Este blogueiro na Feira do Livro

Começa sexta que vem (27), a 7ª. Feira do Livro de São Luís. Os poucos mas fiéis leitores deste blogue já podem ler e baixar a programação completa e escolher o que mais lhes interessa durante os 10 dias de evento. A aba #7felis, aberta aí em cima, trará novidades, matérias, links e, na medida do possível, a cobertura própria deste blogue para o maior acontecimento literário do Maranhão.

Há muita coisa bacana na programação e foi uma honra (e um prazer e uma correria e uma canseira, as dores e as delícias de que fala o poeta) integrar a equipe de curadoria que auxiliou Celso Borges, o homem-poesia, na montagem deste imenso quebra cabeça literário.

Como ele mesmo disse, em matéria que escrevi para O Imparcial, “trata-se de uma feira de retomada. Foi visível o abandono do evento em suas últimas edições”. Não há como discordar.

De outros assuntos falaremos depois. Por enquanto deixo a quem interessar possa, minha agenda na programação da 7ª. FeliS, muy bien acompanhado.

Poeta, jornalista e editor da Coyote, Ademir Assunção virá pela primeira vez à São Luís

Dia 28/9 (sábado), às 18h, no auditório da Associação Comercial do Maranhão (Praça Benedito Leite), eu medeio papo com Ademir Assunção: A farsa da big mídia e as revistas fora do centro: uma outra história.

O jornalista Xico Sá, candidato a galã da 7ª. FeliS

2 de outubro (quarta-feira), no mesmo horário, medeio prosa com Xico Sá, sobre Jornalismo, literatura e futebol, no Teatro João do Vale (Rua da Estrela, Praia Grande).

Nem preciso dizer da imensa honra e responsa em dividir os microfones com estes cabras, importantíssimos em minha formação, a quem só tenho a agradecer o carinho, a paciência e os diálogos de sempre.

Feira do Livro de São Luís cresce em sua sétima edição

[NO Imparcial de hoje; aqui com umas poucas modificações e acréscimos]

Evento acontecerá na Praia Grande e pela primeira vez terá convidados internacionais

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O IMPARCIAL

A maior Feira do Livro que São Luís já teve. É o que promete a curadoria do evento, coordenada pelo poeta e jornalista Celso Borges. “Trata-se de uma feira de retomada. Foi visível o abandono do evento em suas últimas edições. É também a primeira Feira com convidados internacionais”, adianta.

Auxiliam-no nos trabalhos de curadoria o escritor Alberico Carneiro, o poeta Josoaldo Rego e o jornalista Zema Ribeiro. “São três figuras ligadas ao universo literário: Alberico é editor de um importante suplemento literário, o Guesa Errante, e também um autor de ficção; Josoaldo é um poeta respeitado nacionalmente; e Zema tem praticado a crítica literária num cenário infelizmente hostil”, justifica.

A 7ª. Feira do Livro de São Luís (Felis) acontecerá entre os dias 27 de setembro e 6 de outubro, em diversos espaços da Praia Grande, no Centro Histórico da Capital: Morada dos Artistas, Univima, Teatro João do Vale, Praça Nauro Machado, Beco Catarina Mina, Praça Valdelino Cécio, Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho e Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (incluindo o Cine Praia Grande, o Teatro Alcione Nazaré e a Galeria Valdelino Cécio), entre outros.

O tema da 7ª Feira é “Livro e leitura: do impresso ao virtual sem perder a poesia”, que, segundo Celso Borges, busca “tratar de questões como a convivência do objeto livro, o livro de papel que alguns temos tanto prazer em tocar e ler, com os formatos digitais”. Mas as diversas palestras, mesas redondas, oficinas e lançamentos de livros abordarão diversos outros temas.

O poeta em frente à sua efígie na praça que leva seu nome

Patrono – O poeta Nauro Machado é o patrono desta edição, que homenageia ainda o poeta Catullo da Paixão Cearense, por seus 150 anos de nascimento, o escritor Aluísio Azevedo, por seus 100 anos de falecimento, o poeta Salgado Maranhão, maranhense há muito radicado no Rio de Janeiro, e a folclorista Zelinda Lima, que como todos terá um espaço batizado com seu nome, onde será exposta a relação da literatura com a gastronomia.

A cerimônia de abertura será realizada no Centro de Criatividade Odylo Costa filho, a partir das 18h30min de 27 de setembro, com a presença de autoridades. Em seguida, o poeta Ivan Junqueira ministra a palestra “A obra de Nauro Machado no contexto da poesia brasileira”, que será mediada pelo também escritor Ricardo Leão.

Benjamin Moser proferirá a palestra “Que mistérios têm Clarice?”

Entre os nomes confirmados para a 7ª FELIS estão o do americano Benjamin Moser (autor de Clarice, biografia da escritora Clarice Lispector), os jornalistas Xico Sá (Big Jato) e Ronaldo Bressane (V.I.S.H.N.U.), os escritores Mário Prata (Os Anjos de Badaró) e Bruno Azevêdo (A intrusa), o biógrafo Fernando Morais (Os últimos soldados da Guerra Fria), o quadrinista Allan Sieber (É tudo mais ou menos verdade), a professora Lucia Santaella (PUC-SP) e a ensaísta Walnice Nogueira Galvão, estudiosa das obras de Euclides da Cunha e Guimarães Rosa. Também virão a São Luís o poeta Lirinha, ex-Cordel do Fogo Encantado, Bráulio Tavares, letrista, especialista em ficção científica, e a poeta Alice Ruiz, duas vezes ganhadora do prêmio Jabuti de Poesia.

“Será uma grande feira, qualitativa e quantitativamente. A Feira manterá o espaço para o comércio de livros, que sabemos que é importantíssimo, mas deixará de ser somente isto, como foi nos últimos anos. Muita gente interessante falando sobre temas tão diversos, muitos deles pela primeira vez em São Luís”, comemora o curador.

Poesia – A poesia tem especial destaque na programação. O Beco Catarina Mina será tomado por recitais de poesia e música. Deles participarão nomes como Ademir Assunção (A voz do ventríloquo), Marcelo Montenegro (Garagem Lírica), Rodrigo Garcia Lopes (Canções do Estúdio Realidade, cd), Fernando Abreu (aliado involuntário), Oliveira de Panelas, Bráulio Tavares, Artur Gomes, Alan Mendonça, Ricardo Corona (Curare), Lirinha, Lúcia Santos, Reuben da Cunha Rocha, Lilia Diniz e Adeilton Lima, entre outros.

“São Luís tem uma tradição poética bastante forte, portanto é natural que vários dos homenageados desta feira sejam poetas. Os convidados contribuirão com discussões em mesas redondas e palestras e aproveitando a passagem pela ilha também apresentarão seus espetáculos, como têm feito em seus locais de origem e Brasil afora”, anuncia Celso Borges, referindo-se a espetáculos de poesia que ocorrem em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro.

Outras linguagens – Engana-se quem pensa que a 7ª. Felis estará restrita ao tripé livro, leitura e literatura. “Já estaria de bom tamanho, mas vamos além”, provoca Celso Borges. A programação contará com shows musicais, esquetes, oficinas de dança, percussão e grafite. Entre os destaques estão o espetáculo Os operários da agonia, de Tácito Borralho, sobre a obra de Nauro Machado, e o show Bandeira de Aço 35 Anos, que homenageia um dos discos mais importantes da música brasileira feita no Maranhão. “Afora a programação que os próprios escritores com certeza irão armar, um circuito alternativo, paralelo, off-feira, durante suas estadas por aqui. Serão 10 dias bastante intensos, para ficar na história. Ao menos até a próxima feira”, finaliza.

O evento é uma realização da Prefeitura de São Luís, por meio da Fundação Municipal de Cultura (Func), correalização do Serviço Social do Comércio (Sesc/MA) e da Secretaria Municipal de Educação (Semed). E, tem apoio das Universidades Federal e Estadual do Maranhão, Associação dos Livreiros do Maranhão (Alem), Governo do Estado Maranhão, por meio da Secretaria de Estado da Cultura (Secma) e da Secretarias Estadual de Educação (Seduc) , e o patrocínio da Vale.

7ª. FELIS EM NÚMEROS: Mais de 100 autores convidados > 38 estandes > 36 palestras > 27 cafés literários> 25 saraus poéticos > 12 espaços culturais > 10 shows de música > 2 convidados internacionais

Marcos Magah no Sebo no Chão

O Sebo no Chão tem ajudado seus frequentadores a vencer aquela depressão em geral causada pela musiquinha tocada no encerramento do Fantástico, aos domingos.

Neste agora, por exemplo, a partir das 20h, tem show de Marcos Magah, com participações especiais de Tiago Máci e Celso Borges, além de discotecagem brega com Bruno Azevêdo, papa no assunto.

A propósito, está nas bancas o Vias de Fato de agosto (leia o editorial), com a entrevista que fizemos, eu e Igor de Sousa, os autointitulados Los Perros Borrachos, com Magah, que já está em estúdio gravando O homem que virou circo, aguardado sucessor da bem sucedida estreia Z de Vingança, assuntos que ele aborda, entre outros, ao longo da conversa.

Recomendo os três: show, entrevista e disco. Neste domingo você encontra tudo na praça da Igreja do Cohatrac, bairro em que Magah começou, com a extinta banda Amnésia.

35 anos do antológico Bandeira de Aço são celebrados com grande festa no Arthur Azevedo

Público lotou o teatro na primeira edição do BR-135 em 2013. Repertório do disco foi tocado na íntegra

Um encontro para a história da música brasileira

O Teatro Arthur Azevedo ficou absolutamente lotado para a celebração aos 35 anos do disco Bandeira de Aço, de Papete, divisor de águas da música brasileira produzida no Maranhão.

O projeto BR-135, capitaneado pelo casal Criolina, Alê Muniz e Luciana Simões, propôs uma revisita ao repertório do antológico LP lançado pela Discos Marcus Pereira e revelou o que todos já sabíamos: todo mundo que faz música aqui bebe na fonte do disco que reuniu a obra dos “compositores do Maranhão”, como assinalava a capa da obra que muitos ouvem hoje como se fosse uma antologia, dada a qualidade do repertório. Não à toa Bandeira de Aço encabeçou a lista dos 12 discos mais lembrados da música do Maranhão, recentemente realizada pelo jornal Vias de Fato.

Um balanço do projeto ao longo do ano passado mostrou números impressionantes no telão, principalmente de artistas que passaram pelos palcos do BR-135 – iniciado no ainda desativado Circo da Cidade, que precisa ser urgentemente reativado pela atual gestão municipal –, e de público presente aos eventos, cujo principal objetivo é a formação de plateia – o que se viu ontem no TAA é o bom resultado da iniciativa.

A projeção de um documentário, dirigido e narrado pelo poeta e jornalista Celso Borges, revelou histórias que jogam luz às polêmicas que sempre envolveram o Bandeira de Aço, sempre envolto por uma aura mística, justo também por isso. Entre os entrevistados, os quatro compositores das nove faixas, Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota (o único que não mora no Maranhão e que não participou do show de ontem) e Sérgio Habibe, além do intérprete Papete, Chico Saldanha (que jogou a fita com a obra dos quatro nas mãos do percussionista maranhense e este apresentou-a a Marcus Pereira e o resto é história) e de diversos artistas para os quais o álbum é referência.

Ao longo do show o filme continuou dialogando com a plateia, entre uma música e outra, apresentando o contexto da época, as insatisfações de cada compositor com a interpretação de Papete para suas obras, o clima em que foi gestado e a repercussão do disco para suas carreiras artísticas e para a música do Maranhão e do Brasil em geral.

A homenagem do BR-135, a exemplo das edições anteriores do projeto, propôs também um diálogo entre a velha guarda e a nova geração de instrumentistas, cantores e compositores, percebido desde a formação da ótima banda que acompanhou a todos os artistas que pisaram no palco para a celebração: Erivaldo Gomes (percussão), Isaías Alves (bateria), João Paulo (contrabaixo), João Simas (guitarra) e Rui Mário (teclado, sanfona e laptop). Alê Muniz assinou os arranjos do que foi ouvido na noite histórica.

O repertório seguiu a ordem do disco, sob o cerimonial do ator César Boaes, ou de sua personagem na comédia Pão com ovo, sucesso de bilheteria que volta ao palco do TAA nas comemorações dos 196 anos da casa de espetáculo: o mestre de cerimônias carregou no humor, os risos da plateia em peso garantidos também pelas deliciosas histórias que os protagonistas relatavam.

Boi da lua, de Cesar Teixeira, abriu o show com interpretação do autor, num arranjo próximo ao original. De Cajari pra capital (Josias Sobrinho) foi interpretada por Bruno Batista, entre a lentidão e uma “porrada de pista”. Flávia Bittencourt interpretou Flor do mal (Cesar Teixeira), música registrada por ela em Sentido (2005), seu disco de estreia. Boi de Catirina (Ronaldo Mota) teve o vigor interpretativo de Madian, com vocais das Afrôs. Fechando o lado a, Josias Sobrinho cantou e dançou sua Engenho de flores.

O lado b seguiu com Josias Sobrinho sendo interpretado pelas Afrôs: Dente de ouro, com direito a mina incidental. Eulália, interpretada por seu autor Sérgio Habibe ficou entre o bumba meu boi e a cantiga de ninar, reforçada pelo teclado de Rui Mário – muita gente foi ninada pelas letras das músicas do disco. Catirina, de Josias Sobrinho, ganhou arranjo reggae na interpretação competente de Dicy Rocha. Com introdução tango, o casal Criolina subiu ao palco para interpretar a faixa título, que fecha o disco. Entre o tango e o bumba meu boi, convidaram Papete ao palco, e depois todos os outros que por lá já haviam passado. A plateia tornou-se um imenso arraial, com muitos dos presentes batucando pequenas matracas distribuídas pela produção, e já que todo mundo havia engrossado o coro do batalhão, o assíduo Zé da Chave também estava no palco, dividindo a percussão com Erivaldo Gomes.

Há tempos eu não via o Arthur Azevedo tão cheio para um espetáculo de artistas genuinamente maranhenses. Que a semente do BR-135 floresça, a começar por um bis desta homenagem a Bandeira de Aço e, quem sabe, ainda este ano, uma homenagem ao também antológico Lances de Agora, de Chico Maranhão, outro disco trinta-e-cincão de nossa música. Fecho com o que declarou o dj Joaquim Zion (esposo de Dicy) em sua conta no facebook: “uma noite pra ficar na história da Música Popular Brasileira”.

Os 12 discos mais lembrados da música do Maranhão

[Vias de Fato, abril/maio de 2013]

No ano em que completam 35 anos os discos Bandeira de Aço, de Papete,  e Lances de Agora, de Chico Maranhão, lideraram as lembranças de 11 pessoas do meio musical convidadas a votar em uma lista para o Vias de Fato

POR CELSO BORGES E ZEMA RIBEIRO

Esta lista já estava virando lenda. Da ideia às páginas que ocupa nesta edição do Vias de Fato já se vai mais de meio ano. O escritor Bruno Azevêdo já a havia citado em um texto [Homem lúcido e perigoso se dirigindo para o centro da cidade, O Estado do Maranhão, Alternativo, 15/12/2012] sobre Z de Vingança, de Marcos Magah, cuja prensagem pagou do bolso e em que votou em sua lista afetiva. “A ordem é alfabética que meu coração não hierarquiza”, afirmou sobre sua seleção.

O “amadurecimento” da lista ao longo desses seis meses (e pouco) não significa sua “melhora”. Certamente alguns dos convidados a votar mudariam alguns votos, se o convite surgisse hoje. Ou se, sabe-se lá, surgisse daqui a seis meses. Ou ainda se estivéssemos agora vendo uma lista publicada há seis meses ou um ano. Tanto faz.

Lista é foda: sempre excludente. Não tem como: fica um monte de gente boa de fora, mas é um exercício para reflexão e muita, muita discussão e polêmica, principalmente em mesa de bar – ou apenas por lá? O que vão falar mal não está no gibi, mas nem por isso vamos deixar de dar a cara pra bater – coisa que, aliás, o Vias de Fato sempre fez.

O jornal reuniu literalmente um time com 11 titulares ligados à música – djs, jornalistas, poetas, radialistas, escritores, pesquisadores e uma cantora (ainda inédita em disco) – para escolher os 12 discos mais importantes (há controvérsias) da música produzida no Maranhão nos últimos 40 anos (1972-2012). 12 o número médio de faixas de um vinil, se carece explicação, embora a lista no geral não soe saudosista.

Em 2013 completam-se 35 anos dos lançamentos dos discos Bandeira de Aço, de Papete, e Lances de Agora, de Chico Maranhão, que figuram na proa da lista final, embora esta, a lista, antes de elaborada não tivesse certeza de nada – embora seus idealizadores suspeitassem que eles liderariam a “eleição”.

Esta lista que o Vias de Fato ora publica acaba sendo, pois, a homenagem do jornal aos 35 anos destes discos, importantes não só para a música produzida no Maranhão. O primeiro acabou constituindo-se em um marco, por registrar pela primeira vez em disco obras de compositores fundamentais daqui – Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe – que ajudariam a definir o que se convencionou chamar, depois, de “música popular maranhense”; o segundo, até hoje nunca reeditado em cd, orbita em aura mística, por sua gravação na sacristia da Igreja do Desterro, em quatro dias, pelo lendário Marcus Pereira, que descobriu e registrou tanta gente boa Brasil adentro.

Homenagem – As comemorações não param nesta lista: no próximo dia 28 de maio, às 21h, no Teatro Arthur Azevedo, sob o manto já consagrado de sucesso do projeto BR-135, diversos nomes da nova cena musical do Maranhão interpretam o repertório de Bandeira de Aço em um tributo capitaneado, como o BR, pelo casal Criolina, Alê Muniz e Luciana Simões.

O show contará ainda com as participações dos “Compositores do Maranhão” – como consta na capa do vinil Bandeira de Aço – então gravados por Papete. Entre os novos nomes destaques para o duo Criolina, Afrôs, Bruno Batista, Dicy Rocha, Flávia Bittencourt e Madian. Na ocasião será apresentado ainda um documentário sobre o disco, assinado pelos jornalistas Andréa Oliveira, Celso Borges e Maristela Sena.

OS 12 MAIORES DISCOS DA MÚSICA DO MARANHÃO (1972-2012)

Bandeira de Aço, Papete, 1978, 10 votos > Este deve ser uma unanimidade. Puta discão, apesar das mil falhas e (talvez) também pelas polêmicas. É um disco que traça certa paisagem sonora e fica encravado na memória afetiva de quem teve contato com ele. (Bruno Azevêdo)

Lances de Agora, Chico Maranhão, 1978, 6 votos > Considero este um dos discos fundamentais da música maranhense. Poucas vezes um álbum reuniu tanta poesia embalada em ótimas melodias. (Ademar Danilo)

Cine Tropical, Criolina, 2009, 4 votos > O disco aponta os caminhos tropicalistas da paisagem sonora maranhense que encontra ecos no Caribe, Jamaica e outros portos musicais ameríndios e pós-coloniais, tudo com cores e brisas tropicais. (Alberto Júnior)

Bumba meu boi de Pindaré, 1973, 4 votos > Este disco pioneiro contém uma das mais brilhantes gravações já feitas de bumba meu boi. São as raízes maranhenses cantadas por Coxinho. Um mergulho profundo na alma rústica da nossa identidade. (Eduardo Júlio)

O som e o balanço, Nonato e seu Conjunto, 1975, 4 votos > O sucesso Cafua e outras pérolas habitam esse disco formidável que abre a seleta. Viva o maestro Nonato! (Franklin Santos)

Shopping Brazil, Cesar Teixeira, 2004, 4 votos > Autor de um sem número de clássicos da música maranhense, Cesar Teixeira já tinha mais de 35 anos de carreira, contados a partir dos primeiros festivais de que participou, ao estrear em disco solo, já tendo fornecido pérolas para o repertório de muita gente, daqui e de fora – por exemplo, o saudoso menestrel mineiro Dércio Marques, que registraria sua Namorada do Cangaço em Fulejo (1983). O compositor relê parte de sua vasta obra já registrada – Bandeira de aço, Flor do mal e Ray ban – e apresenta inéditas – Met(amor)fose, Vestindo a zebra e a faixa-título, composta ainda na década de 1970, quando o autor se deparou com o primeiro lixão ilhéu (e uma senhora que o habitava) –, além de homenagear “vodus” de nossa música: Antonio Vieira e Dona Teté (que participam do disco), Mestre Felipe e Dona Elza (que comparecem com excertos de gravações do tambor de crioula e do caroço, respectivamente), Rosa Reis (coro), Laurentino (citado em Mutuca) e João Pedro Borges (que assina o arranjo de Flor do Mal). Cesar mistura tradição e modernidade em pirão musical de farta sustança. (Zema Ribeiro)

Antoniologia Vieira, Vários, 2001, 3 votos > Interpretado por 16 vozes a obra deste compositor cuja carreira se sedimentou aos 80 anos contribui para esquadrinhar a trajetória da música popular feita no Maranhão num intervalo de 40 anos. Arranjado por Adelino Valente, o disco reúne as canções mais conhecidas de Antonio Vieira [nota do blogue: acima, no vídeo, a capa do disco; esta gravação não está em Antoniologia]. Os Ingredientes do Samba (música interpretada por Letice Valente) se sobressaem na obra deste compositor de letras simples, sem rodeios, como Na cabecinha da Dora. Sem o esmero da tecnologia, a gravação ganha ainda mais valor como registro. (Henrique Bóis)

Balaio, T. A. Calibre 1, 2002, 3 votos > Costelo (vocais), Ramuzyo (baixo), Christian (guitarra) e Franklin (bateria) fizeram um disco que propõe um diálogo mais próximo entre o hip hop e os ritmos de cultura popular maranhense. (Celso Borges)

O Boizinho Barrica, Boizinho Barrica, 1988, 3 votos > A brincadeira de rua vai para o estúdio e registra os nossos principais ritmos populares: o boi e seus vários sotaques, o divino, o coco. Um disco que também é fundador, para o bem e para o mal. Para o bem porque tem lindas composições de Godão e Bulcão. E para o mal porque abriu a porteira para o chamado boi de butique. Sugiram mais de 30 diluindo e empobrecendo o que o Barrica inaugurou. (Celso Borges)

Claudio Lima, Claudio Lima, 2002, 3 votos > Um disco que ouvi muito, e até hoje me pego botando na vitrola pra cantar Ray ban (Cesar Teixeira) e a “puta que pariu” que a Rádio Universidade censura. Pensa pra fora e grita alto, com um pé dentro, mas só um pé, que quem coloca os dois se atola! (Bruno Azevêdo)

Eu, você e a cidade, Nicéas Drumont, 1982, 3 votos > Natural de Rosário, Nicéas Drumont morreu cedo, aos 39 anos. Deixou mais de 100 composições e foi gravado, em vida ou postumamente, por nomes como Alcione, Leandro e Leonardo, Moacyr Franco, Nando Cordel, Nando Reis, Noite Ilustrada e Rosa Reis. Foi pioneiro ao registrar dois reggaes neste disco: Gavião vadio e Senzalas, com que tomou de assalto as rádios locais. (Zema Ribeiro)

Regueiros Guerreiros, Tribo de Jah, 1992, 3 votos > A banda de Fauzi Beydoun encabeça só pedras neste disco que é a cara dos Regueiros Guerreiros do Maranhão. Destaque também para a linda Neguinha. (Franklin Santos)

AS LISTAS COMPLETAS (SAIBA QUEM VOTOU EM QUE DISCOS) [incluindo a lista comentada deste blogueiro]

Continue Lendo “Os 12 discos mais lembrados da música do Maranhão”

Por causa de Jacques Tati

Ei, tu aí,
Jacques Tati!
Onde estás?
Aqui, aqui, Jacques Tati.
Eu aqui, tu aí,
Jacques Tati

Converso contigo numa noite de S. Paulo.
Os cachorros seguem tio Hulot
e lambem com carinho os farrapos de teus passos.

Pousas numa poça?
Danças numa praça?

O passarinho que olhas canta pra ti, Tati.
Te pede a luz da janela que abres
e teus olhos acompanham esse som infinito
de Satie?
de Bach?
de Debussy?

um som que teu silêncio embrulha
como presente pra mim, Tati.
som imenso e simples
que ninguém consegue samplear.

São Paulo, 1997, depois de ver Meu Tio

&

Poema de Celso Borges que eu trago da caixa de comentários ao espaço principal do blogue. Promoção do Sesc, a mostra Tati por inteiro segue até sábado no Cine Praia Grande, de graça (ingressos devem ser retirados com meia hora de antecedência na bilheteria do cinema). Abaixo, programação d’hoje, que nunca é demais repetir, Tati, Tati, Tati…

Cuspindo os caroços na cara dos leitores

[Entrevista que os autointitulados “los cachorros borrachos” fizemos e publicamos na edição de fevereiro do jornal Vias de Fato. Em 2013 vocês ainda vão ouvir falar bastante deste trio cá no blogue: Bruno Azevêdo deve lançar ao menos três livros (começando por A intrusa, cujo anúncio está aí na cabeça), Celso Borges lança O futuro tem o coração antigo e Reuben da Cunha Rocha estreia, tudo pela editora Pitomba]

Vias de Fato entrevista os editores de sua irmã, a revista Pitomba

Os editores da Pitomba: Reuben da Cunha Rocha, Bruno Azevêdo e Celso Borges

POR IGOR DE SOUZA E ZEMA RIBEIRO*

O jornal Vias de Fato e a revista Pitomba têm muito em comum. Feitas quase sem apoio nenhum, as publicações buscam, cada qual a seu modo, dar voz a quem não tem na chamada grande – e “séria” – mídia.

Juntas, as publicações editaram, entre o fim de 2011 e início de 2012, o livro Guerrilhas, coletânea de artigos que Flávio Reis, guru dessa galera, entre entrevistadores e entrevistados, infiltrou na imprensa, tradicional e alternativa, ao longo destes primeiros anos do milênio.

Pitomba e Vias de Fato incomodam. A primeira não toca em política, ao menos não de maneira convencional. É uma revista de poesia, artes gráficas, literatura e sacanagem, no dizer dos próprios editores, os ludovicenses Bruno Azevêdo, Celso Borges e Reuben da Cunha Rocha.

Na mais recente passagem do último por São Luís, Vias de Fato aproveitou para ir ao encontro deles. Era uma tarde cinzenta, a cidade de ressaca das chuvas e do carnaval. Mais que uma entrevista, um descontraído bate-papo dos repórteres do jornal com os editores da Pitomba.

Uma caminhada por algumas ruas do Renascença, os dois repórteres e o trio de entrevistados, antes de ligar o gravador e pedir emprestada a Bruno Azevêdo a máquina fotográfica que captou alguns momentos do encontro (as fotoscas são de Zema Ribeiro). Destino: um boteco próximo, encher os cascos que ele tinha no apartamento com a cerveja que regaria a conversa. De volta ao apê, misto de residência e editora, os melhores momentos do bate-papo.

ENTREVISTA: BRUNO AZEVÊDO, CELSO BORGES E REUBEN DA CUNHA ROCHA

Vias de FatoComo foi que surgiu a ideia da revista?

Reuben da Cunha Rocha – Conheci Bruno na véspera de viajar [Reuben saiu do Maranhão para cursar Mestrado, primeiro em Santa Catarina, depois em São Paulo. Hoje está no Doutorado em Ciências da Comunicação da USP], começo de 2008. Nesse ano a gente conversou bastante por e-mail. Celso sempre foi um papo, de muitos anos. E aí tinha a história da Pitomba, da editora, que era uma discussão que tava rolando.

Celso Borges – A gente criticava o texto que Bruno fez [o Manifesto Pitomba, impresso nos livros que Bruno Azevêdo publicou por sua editora]. Ele é meio que um manifesto, é uma ideia de um texto… e aí, conversa entre a gente… vamos fazer uma revista? Eu sempre gostei de revista.

Reuben – Na verdade, a ideia de fazer revista, ela existe o tempo inteiro na cabeça de quem escreve, eu acho. Desde que me entendo por gente e converso com outras pessoas que escrevem, esse papo de “vamos fazer uma revista” sempre existiu.

Celso – E Bruno sempre trabalhou com fanzine.

#1

Vias de FatoTodo mundo tem alguma experiência, ou com fanzine, ou com blogue, que é uma coisa menos palpável. CB com a [revista] Guarnicê [editada por um grupo de poetas que levava o mesmo nome] ainda na década de [19]80, na época mais novo do que vocês hoje.

Celso – Antes. O [grupo poético] Arte e Vivência, final dos anos 70, aquelas revistas dentro do saquinho. Então, eu faço revista, de estar envolvido, desde o final dos anos 70. Depois veio o [grupo] Guarnicê, depois teve a [revista] Uns e Outros [do grupo Akademia dos Párias]. Eu gosto, acho que a revista dá uma alegria, é muito prazeroso fazer. Agora o exato momento em que decidimos fazer, não lembro.

Bruno Azevêdo – Isso tava sendo discutido, “vamos fazer uma revista”, “vamos fazer uma revista” e rolaram várias coisas. Mas o negócio para mim, pelo menos até onde eu me lembro, virou uma coisa “vamos fazer” quando Celso e Reuben baixaram lá em casa com uma pilha de um metro de revistas de poesia, “ó, é isso aqui que a gente quer fazer”. E eles deixaram lá em casa e vazaram. Vocês lembram disso?! Um monte de revistas! [Enfático, gesticula com as mãos, para dar ideia da grande quantidade]

Vias de FatoNessa pilha de revistas, por assim dizer, as referências da Pitomba? O que inspira vocês em termos de outras revistas que já existiam, ou melhor, que continuam a existir?

Celso – A Coyote inspira a Pitomba, a Oroboro, a Medusa, puta que pariu! São tantas. A Nuvem Cigana é uma coisa linda.

Reuben – A Revista de Autofagia é uma coisa importante também.

Celso – Quando me mandaram por e-mail um fascículo, aquilo é uma coisa linda, bicho, um exemplar único [a revista Nuvem Cigana teve número único]. Só tem uma e lá estão Chacal, Haroldo [de Campos], Augusto [de Campos], Hélio Oiticica, Wally Salomão… toda aquela energia dos anos 70, bicho, aquela revista é linda. Fotos, intervenções, tipografias, tudo ali naquela limitação, quer dizer, a gente chama de limitação porque vê de hoje, com a tecnologia que se tem, mas as intervenções iconográficas, porra, tu é doido? Aquilo é uma referência máxima. Para mim é.

Reuben – Mas acho que uma motivação fundamental, pelo menos para mim, era a coisa da editora. Quer dizer, fazer uma revista com o nome da editora, que é uma forma da editora circular mais rapidamente do que a edição de livros, que, pelo menos na minha cabeça, seria uma coisa mais lenta do que a edição de revistas, que seria uma forma de fazer acontecer.

Celso – Eu acho que revista tem um coração coletivo, coisa que para mim é muito estimulante. Com uma revista você consegue não só motivar as pessoas que estão fazendo, mas ao seu redor criar uma alegria, uma motivação, um esperar por uma Pitomba nova, um esperar por uma revista nova, o que é que vem ali, que forma, que poema. Isso aí é muito mais que um livro, até. Você não espera um livro. Uma revista você espera, você acalenta: “qual vai ser a da próxima revista?”, ou então “posso mandar um poema para revista?”, “posso escrever pra revista?”. As pessoas também querem fazer parte, tem uma coisa de divisão que eu acho legal.

Vias de FatoPorque tem isso de ser um espaço de publicar o material de vocês, quem faz poesia faz, quem faz tradução faz, quem faz quadrinhos faz, quem faz sacanagem faz. Mas tem o lance de publicar coisa dos outros e a revista não tem periodicidade, mas aí tem dois anos e cinco números, então mais ou menos um número a cada quatro, cinco meses. Mas isso não tá definido em lugar nenhum, acho que nem na cabeça de vocês.

Bruno – Não tem nada definido nessa revista em lugar nenhum, a não ser conteúdo. [risos]

Vias de FatoComo é que vocês decidem o conteúdo e a hora de fazer uma Pitomba nova?

Celso – Rapaz, é uma guerra… É uma guerra… [risos]. É uma briga, porque tem uma série de coisas que trabalham contra a gente também, contra cada um de nós e contra nós três juntos, que é a vida que cada um leva, que cada um tem que pagar suas contas, cada um tem sua vida, cada um tem não sei o quê mais.

Vias de FatoA questão geográfica atrapalha um pouco ou não? [Reuben mora em São Paulo]

Celso – Eu acho que a questão da operacionalização é uma coisa difícil, porque Bruno é um cara que trabalha em meio ao caos. Ele faz muita coisa ao mesmo tempo e a gente tem, eu tenho na minha relação com ele, eu tenho que ser um pouco assim…

Bruno – [interrompendo, enfático] Chato!

Celso – Eu tenho que hostilizá-lo, ele me hostilizar, porque é uma guerra, aí são três, mas a minha relação é mais próxima com Bruno porque ele está aqui e Reuben não tá, ele tá longe e então tem uma dificuldade.

Bruno – O trabalho de edição da revista é bem mais fácil que o de editoração da revista, que é até ela sair daquele computador bem ali [aponta para o cômodo do apartamento em que trabalha] para chegar no arquivo impresso. Isso é o mais traumático porque é o que demora mais.

Celso – A ausência de Reuben é sentida, não só por ser uma companhia, um cara que faz falta de estar junto, mas porque se senta eu, ele e Bruno numa tarde a gente já monta o esqueleto, entendeu? Agora eu ficando sozinho com Bruno, e Reuben lá, fica mais complicado porque tem uma dificuldade nessa operacionalização.

Reuben – Importa dizer que muito do trabalho recai sobre Bruno, porque só ele consegue diagramar a revista.

Celso – De texto, geralmente ele não quer se meter. [Irônico:] “ah!, eu não leio poesia” e não sei o quê mais, aquele negócio do rabicó do poema [gargalhadas gerais]. Isso eu divido meio com Reuben: “ah, tá ruim!”, “ah, tá legal!”, quando chega uma coisa com que ele concorda. Mas tem as discordâncias também, porque Bruno não quer ter o voto de minerva, ele se omite. Mas a distância de Reuben também faz com que surjam outras iluminações, coisas que ele descobre por lá, enfim.

Reuben – Mas o negócio de coletar material acaba cada um sacando o que acha interessante, ou pega e lembra alguém, se tem material suficiente para fechar as 44 páginas.

#2

Bruno – Tem coisas que pertencem e não pertencem ao que a gente imagina que a revista comporte. Nós três vamos te dar repostas diferentes sobre o que a revista comporta, mas no final das contas, esse lance que Reuben está falando da coleta, da cota, “pô!, isso daqui vai ficar massa” ou “isso daqui não ia ficar massa”, ou de repente tem um cara que nós três conversamos, que a gente acha uma inteligência, por assim dizer, que poderia estar por aí, tipo o [poeta Fabiano] Calixto, agora nessa última edição que saiu, que é um cara massa e blá blá blá, que está fazendo coisas legais e não sei o quê.

Celso – A gente fica naquela coisa, de abrir a revista, porque a princípio pensou em fazer um negócio de escritores do Norte e Nordeste, ou que estando fora, atuem nesse circuito. Eu já penso que pode abrir e sair um pouco desse sufoco, de que não necessariamente sejam artistas do Norte, mas tem um conceito que a gente não tem mais certeza se continua ou não.

Reuben – Nunca conversamos sobre isso com o passar do tempo. Isso foi posto inicialmente, e eu com o passar do tempo passei a achar que é um conceito armadilha.

Vias de FatoDe repente colocar alguma coisa que possa “despitombar” a revista?

Reuben – Que pode ser bom. Na verdade a gente fica naquela de ficar cavoucando nessa história de Norte e Nordeste e isso servir para legitimar uma ideia de folclore, regionalismo ou panela, de ter que colocar o cara porque ele é nordestino. Então para mim é a mesma questão de colocar gente do sul ou de qualquer lugar e ver que, pera lá!, isso não tem nada a ver.

Bruno – A própria ideia de fundar a editora é porque, num determinado momento, depois de fazer zines e livros, eu percebi que estava completamente marginal, fora do mercado. No final das contas tinha só eu lá dizendo “olha meu livro!, olha meu livro!” e que coisa antipática! A editora impessoaliza, parece uma instituição. Então, o critério para mim parece muito mais: esse sujeito aqui não consegue espaço; é bom e não consegue espaço em algum outro lugar. Porque, porra!, na prática você sabe que se mandar o original para 20 editoras, nenhuma vai te responder. Nenhuma mesmo! A maioria delas, na hora que tu abres o negócio [site], “não recebemos originais, exceto do Paulo Coelho”. Ou se tiveres uma indicação de dentro. Então, nesse aspecto, quando tu estás geograficamente distante, aí o critério geográfico é legítimo, tu não consegues existir, porque tu só consegues mesmo ter acesso a esses caras quando tu conheces alguém, e tu só conheces alguém numa mesa de bar, num lançamento e alguma coisa assim. De outra forma tu não existe, pô! Tu não existe mesmo.

Celso – Tem um elemento na revista que eu acho que não devemos abrir mão, embora seja uma característica e um traço que incomode muita gente, que nós temos essa coisa da despersonalização: as revistas não só não têm um nome na capa, como ela não tem o nome de quem escreve na capa e isso irrita muita gente. Mas esse retorno é pequeno, em todos os sentidos. Então eu acho que tem que manter o atrito, é uma característica da revista. Isso a gente não tem que abrir mão, nem é essa coisa do atrito, é a coisa da irritação mesmo.

Vias de FatoEu acho que é a única revista que não tem o nome na capa.

Bruno – É, porque se colocar o nome vai ter que colocar junto “revista de literatura contemporânea brasileira”. Imagina que coisa ridícula…

Celso – Ia ter que fazer editorial como se fosse um slogan, como se fosse uma frase.

Vias de FatoA propósito, o primeiro editorial de vocês é muito marcante, e eu acho que dá um pouco a ideia, além dessa coisa toda de despersonalização e talvez um pouco de não se levar a sério, eu não sei bem se é isso ou se é só isso, mas o lance do “quer fazer faz” [este, o texto do editorial], já que vocês não têm apoio ou os apoios que têm são pequenos, não cobrem a edição, o negócio sai do bolso mesmo, o lance de não ficar só reclamando, que “o poder público não me apoia”, que “a iniciativa privada é tímida”, isso e aquilo, então é aquela coisa de botar o bloco na rua.

Reuben – A prática é ficar 40 anos esperando até alguém reconhecer que eu sou um bom artista e tem interesse em… [se interrompe] Isso não vai acontecer! Não vai acontecer mais em lugar nenhum, isso acabou, é coisa de até metade do século XX e quem não sacou isso daí, não vai rolar mais nada, entendeu? [risos]. Então, não é uma reação à falta de apoio, é uma reação à mentalidade que espera apoio. Nós não temos apoio, portanto faremos. Porque raios a gente vai esperar apoio se a gente quer fazer o negócio e o quê que isso tem a ver com o Estado? 

Bruno – Os meios são completamente democratizados, digo os meios, as ferramentas, nós somos pessoas adultas, conseguimos excedentes com o nosso trabalho que dá pra fazer essa porra, então que diabos a gente vai ficar esperando uma secretaria abrir um edital?

Vias de FatoMas vocês entrariam num edital?

Bruno – Eu não! A revista não. Não mesmo, cara.

Celso – A gente não botou nem o nome na revista, vai botar o logo de uma fundação ou sei lá… É uma questão de postura mesmo, eu acho que tem que ter um distanciamento, eu acho que eventualmente, não com a revista, mas você pode, como escritor, fazer parceria com o poder público em algum momento, ou como poeta ou como artista subir num palco. Eu já fiz isso. Nenhum livro meu tem um carimbo de uma secretaria de cultura ou fundação cultural. Não vou dizer que nunca vai ter isso, eventualmente pode até ter, mas dentro de mim eu me sentiria um pouco constrangido com aquilo. Eu prefiro não ter, eu acho que o artista tem que manter um distanciamento. Ele pode eventualmente até fazer parceria com o poder público, mas ele tem que manter o poder público como um inimigo, como um cara que não deve se aproximar muito. Eu acho que é ele que não deve se aproximar muito para que não seja atraído, sei lá como é que se pode dizer isso, a gente trabalha com mais autonomia, trabalha com mais força para dizer aquilo que quer porque o poder público, ele vai calar você.

Bruno – Tem a questão que o poder público é tudo, menos público. Ele é pessoalizado. Ele não é pessoalizado apenas ideologicamente, mas socialmente.

Vias de FatoNão é querendo que vocês coloquem ou não uma logomarca, concorram ou não a um edital, recebam ou não recurso. O poder é pessoalizado e aí, tipo: se não tem a Pitomba recebendo verba pública, tem uma porcaria recebendo verba pública e difundindo arte e literatura de qualidade duvidosa.

Bruno – Por mim tudo bem, pra mim tá tranquilo. Eu acho que não devia ter verba pública investida em arte!

Celso – No caso aqui de São Luís é mais triste, não tem nenhuma revista do poder público! É triste! O poder público não faz uma revista de literatura. Podia juntar, fulano me dá um artigo tal, fulano me dá um quadro tal, mas ninguém tem é motivação. Eles não saberiam como administrar a divisão desse bolo. Como eles não podem contemplar a todos, só poderiam contemplar alguns, então eles decidem não fazer e não fazem.

Bruno – Pois é, porque não haveria nenhum critério estético, haveria um critério de geração, de subservilismo [sic].

Celso – Em Natal, por exemplo, existe revista do poder público.

Bruno – Tem aquela revista da Biblioteca Pública de Curitiba.

Vias de Fato[O jornal] Cândido. Cândido é lindo! [A revista] Helena e tal, que é dessa grossura [gesticula com os dedos], que é da biblioteca também.

Reuben – Tem um uma coisa interessante nesse negócio de edital no Brasil, que é por meio deles, especialmente da Petrobrás, que se tem conseguido que o artista se coloque como profissional. Ele pode ficar oito meses ou um ano escrevendo um livro. Isso é um trabalho, não é um favor. Isso não deixa de ser interessante, a figura do artista como profissional, que vai ter um dinheiro para fazer isso e não ter que correr numa coisa para, pelo menos, conseguir pagar o livro. Isso historicamente não é desprezível, mas isso gera uma série de comprometimentos que não faz sentido o sujeito se meter nisso daí. Você pega um livro de Joca [Reiners Terron, escritor], que o cara teve que passar por uma série de burocracias assim enorme só para mudar o título, que tinha sido inscrito um título e ele queria colocar outro e não podia. Com o mercado não é diferente, não dá pra dizer que se eu estiver sendo patrocinado por uma empresa privada eu seria mais livre do que se estivesse sendo patrocinado por uma empresa pública. Pra mim não faz diferença.

Bruno – A questão é, até onde eu consigo ver, a política do edital tá fazendo gente rica ficar mais rica.

Celso – O cara pode entrar também, pode fazer a parceria com o poder público, mas manter sua integridade.

Reuben – O problema é que, por onde começou essa história, não sei por onde começou, mas por onde se desenvolveu bastante foi no cinema, em que se chega a um ponto onde o sujeito não faz filme se não tiver dinheiro público. Quer dizer, não passa pela cabeça do sujeito que se ele não tiver 100 mil para fazer o filme, ele que faça o filme. Tu achas que as verbas vêm de onde? Se o sujeito quiser fazer um filme ele faz nesse apartamento aqui, com duas câmeras ou uma câmera, e seis atores. Ele não vai conseguir fazer um épico hollywoodiano, com duzentas locações, um filme na Amazônia etc., alguns projetos dependem realmente de dinheiro, mas o que eu quero chamar a atenção é para a imobilidade do cineasta. O sujeito não faz. Mais radical e mais independente que se possa fazer no Brasil, hoje ele tem dinheiro de lei de incentivo.

Vias de FatoPatrocínio da Petrobrás. Todo filme brasileiro começa “este filme foi selecionado pelo Programa Petrobrás Cultural” e depois logomarca, logomarca, logomarca.

Reuben – E se o sujeito não conseguir, ele não vai fazer o filme.

Bruno – Tem gente que faz filme massa sem dinheiro público, como no [documentário] Brega S/A [sobre a cena musical contemporânea em Belém do Pará], que começa logo “esse filme não tem dinheiro público nenhum”.

Celso – Mas isso é muito excludente, cara. Porque um filme como esse vai ter um público muitíssimo menor.

Reuben – Não necessariamente.

Bruno – Eles distribuem de graça na internet.

Vias de FatoTem um ponto, voltando a essa história da Pitomba aqui e do cenário, que é a história da Pitomba, que está em São Luís e São Luís que tem um histórico de artistas e intelectuais a serviço de dados grupos políticos. Como é que a revista se situa nesse campo, já que ela está à margem?

Celso – Ela se situa contra essas pessoas. Se tu pegares a primeira Pitomba, lá no [texto de Roberto] Bolaño [traduzido por Reuben na contracapa] é uma porrada; a segunda contracapa, cada contracapa é uma porrada. Na revista tem todas as repostas que tu tá falando aí. Acho que a segunda é que fala melhor dos artistas, aquilo é uma porrada!

Bruno – A revista tem uma série de indicações, mas as coisas não são dadas.

Reuben – A própria ideia de se manter distante dessas relações já fala sobre esses artistas e o fato de nenhum deles estar na revista.

Vias de FatoSe a esquerda abomina, a direita ignora.  Aquela história de alienante e alienado. A esquerda clássica, naquele modelo de partidos e sindicatos.

Celso – Há um silencio. Me mostre alguém que tenha se manifestado sobre a Pitomba publicamente. [O artista plástico] Jesus Santos [link para assinantes com senha] que escreveu n’O Estado do Maranhão.

Bruno – E [José] Loredo [proprietário da Livraria Resistência Cultural, que se negou a vender exemplares da revista, alegando ofensas ao cristianismo], que excomungou a gente! É o silêncio total. Não existe discussão sobre arte em São Luís.

Celso – Com raríssimas exceções, esses três, Loredo, Jesus Santos e o blogue do Zema, nunca ninguém falou nada sobre a Pitomba publicamente. Esse é o ponto!

Vias de FatoModéstia às favas, não existe crítica.

Bruno – Queria ou não a gente tenta ainda fazer, nem que seja resenhando livro um do outro.

Celso – A única crítica que rolou foi do Loredo e do menino lá, o Ronald [Robson], defendendo em blogue e tal. Agora, que a gente sabe que pessoas da esquerda não gostaram, a gente sabe. O que eu quero dizer é que não existe, a única vez que alguém falou foi da direita. Por que a revista tem a provocação, ela tem arrogância, vamos dizer assim.

Vias de FatoÉ iconoclasta total, se é que isso pode ser um adjetivo.

Celso – A gente sabe que nos bares se fala dela.

Bruno Azevêdo dá um gole durante o papo

Bruno – A revista tem uma existência concreta nem que seja nas conversas de bar, e, porra!, eu quero é estar na conversa de bar.

Celso – Na Pitomba, às vezes, se sobressai um pouco o lance da imagem, um editorial ou uma coisa que Bruno faça. Mas ali, velho, estão 60% de poesia, pode ver, ou é tradução ou é alguma coisa que eu faço, ou é coisa de alguém.

Bruno – Pode ver que esse negócio de poesia deu tanto na minha cabeça que fiz uma fotonovela.

Vias de FatoQue eu achei sensacional! E isso volta para aquela discussão sobre financiamento, independência e coisa e tal, porque se tu tivesses um apoio do que quer que fosse, tirando [o bar] Chico [Discos] e [a livraria] Poeme-se, mas tu irias criticar tua própria revista dentro da revista?

Bruno – Rapaz, ninguém ia me publicar senão eu. Quase todas as coisas que eu escrevo, não é nada enquadrado assim, ninguém consegue transformar em um produto fácil para dizer “isso aqui é isso aqui” e a revista tá meio nesse negócio.

Reuben – Isso é uma coisa que deve perturbar a leitura de quem está aqui porque talvez a leitura da revista seja um negócio difícil de localizar. Primeiro que a revista não é uma revista de poesia. Não tem uma ordem, não tem uma prioridade. Então, [o professor] Flávio Reis contou uma história do primeiro lançamento da revista que talvez possa ser ilustrativo. Ele disse que tava sentado no lançamento da revista e tinha um pessoal dizendo “vem cá, olha isso daqui, essa revista não tem como vender”, querendo dizer que era um negócio mal acabado e tal. O que não deixa de ser interessante também. E Flávio perguntou: “rapaz, vocês acham que esse pessoal está interessando em vender?” Mas eu tô dizendo isso porque eu tenho a impressão de que a gente não tá preocupado com nada, então, isso dá certa flexibilidade de critérios, que no fim das contas a gente bota o que tá a fim de botar e não bota o que não está. Pronto.

Celso – E as pessoas ficam, talvez, procurando um sentido, uma estratégia.

Bruno – Uma razão de ser, [irônico:] onde se situa o marxismo contemporâneo na narrativa.

Celso – Tem um negócio de confundir, de desabilitar, de você não saber direito. Rapaz, você tem uma tradução de [o poeta e. e.] cummings e o cara lá comendo as hóstias, tem a pornografia, tem as coisas opostas, que não teriam uma unidade. A revista trabalha quase como se não houvesse um conceito que ligasse uma coisa a outra.

Reuben da Cunha Rocha ri: “a Pitomba não tem absolutamente nenhuma seriedade”

Reuben – Agora aí, eu acho, e pessoalmente, se ninguém percebeu, isso precisa ser dito, que daí vem talvez o mais interessante da revista: o fato de que ela não tem absolutamente nenhuma seriedade. De critérios, e não tem nada assim que se possa dizer que a revista não publicaria, poderia até não publicar por falta de interesse ou gosto pessoal nosso, como não achar bom, mas coisa tipo censura de conteúdo, moralismo, não tem como dizer que não tem uma revista na literatura que se possa dizer isso. Toda revista de literatura é séria. A seriedade acompanha, seja a poesia seja a prosa. Escritor é um sujeito sério. Foi a única revista até hoje que conseguiu fazer isso daí foi a Pitomba. Inclusive daí vem alguma fraqueza, porque a gente publicou muito texto ruim ao longo dessas cinco edições. Agora, o que levou a isso foi de onde vem a principal força dela, que é isso daí.

Celso – Agora imagina uma revista em que você faz um assassino de funcionários públicos [a série O matador de funcionários públicos, de Bruno] onde 80% da população é funcionário público. É claro que você vai ter uma raiva introjetada na cabeça de muita gente.

Vias de FatoÉ porque também tem muito o lance de você só poder falar de dentro. Para você falar de funcionário público você tem que ser funcionário público.

Bruno – E funcionário público não vai falar porque já está morto de feliz por estar lá.

Vias de FatoOu você tá empertigadinho lá, contente porque o salário não atrasa etc., até atrasa [lembrando o calote de João Castelo (PSDB) às vésperas de deixar o cargo e o parcelamento da dívida pelo atual prefeito Edivaldo Holanda Jr. (PTC)]. O que fica provado é que o pessoal perdeu a capacidade de rir de si mesmo. Seja funcionário público, seja sei lá o quê.

Bruno – Esse negócio dO matador ninguém comenta, eu acho isso tão engraçado, ninguém diz nada.

Reuben – Nem pra dizer que “eu não gostei disso”.

Bruno – Moreira da Silva passou a vida inteira sendo motorista de ambulância. O cara, um dos criadores do samba de breque, um dos maiores cantores do samba brasileiro, teve uma carreira longeva no samba e ele chegou a viajar e passar três meses em Portugal fazendo turnê e o chefe dele dizendo “não se preocupe que você é um funcionário de utilidade nacional” e pronto. Tu não achas que houve gente que precisou ser socorrida pela ambulância que Moreira dirigia, ou deveria dirigir? Eu não posso achar graça disso, por mais que seja engraçado.

Celso – Tem também a história da alta e da baixa cultura. Muitos olhares sobre a revista são de crítica, do mau gosto que algumas pessoas devem achar, mas também que há eventualmente uma pobreza, que pertence a uma baixa cultura, que não é uma literatura que seja levada a sério. Eu acho que isso a Pitomba também coloca na cabeça das pessoas. “Isso daqui é literatura?”, isso é uma questão que também vem à tona. Tem a questão do pornográfico e erótico. E aí se tem um especialista no assunto [aponta para Bruno]. Tu olhas lá o [quadro] A origem do mundo, do [pintor Gustave] Courbet e mostra o sexo lá e tal. Pois é, isso é mau gosto? É erótico ou pornográfico? Eu sempre venho observando essa coisa, do que é mais literatura, do que é literatura mais séria, do que não é.

Vias de FatoVocês acham que há um desprezo total por parte da crítica? É por isso que ninguém comenta O matador de funcionários públicos ou outra coisa?

Bruno – Que crítica? Não existe crítica! A gente desprezaria se a crítica existisse.

Celso – O único cara que fez alguma crítica foi Ronald Robson. O único, o único! Foi uma crítica de acordo com o que ele pensa.

Reuben – Uma crítica inteligente, o cara leu a revista e raciocinou em cima daquilo ali, se dispôs a escrever sobre uma revista da qual ele sequer gostou. Por outro lado, a gente não deixa de ter respostas entusiasmantes. Não dá para ser injusto.

Bruno – Rapaz, o papel da revista é grosso demais para ser papel higiênico. Então de alguma forma alguém lê.

Reuben – Também, essa relação é tipicamente nossa, né? Quem foi que gostou, quem foi que não gostou e a gente começa a mapear o negócio. A diferença é que a gente está fazendo isso daqui sem nenhuma intenção de por conta disso o negócio começar a “fulano de tal não entra, cicrano também não”. Então a questão não é tanto de gostarem ou não gostarem, mas de um retorno que dissesse que a revista é interessante por isso, não é interessante por aquilo.

Bruno – Eu penso muito mais em livros do que na revista. Eu penso muito mais na proposta do livro, que ‘nego’ tem que fazer seus livros e tal. Talvez eles tenham uma possibilidade de exploração de ideias mais interessante, enfim, a ideia é continuar fazendo livro e revista.

Reuben – A revista essencialmente é um negócio efêmero, por mais que ela continue, que tenha 20 edições, com o tempo ela vai se perdendo. Livro, o sujeito guarda. Revista chega uma hora em que o cara vende pro sebo, dá pros amigos, perde e tal. Agora, isso não é um problema, o lance é permitir que ela fosse mais experimental ainda, mas “isso daqui vai se perder”, foda-se! O importante é testar a mão e ver o que dá para fazer e o que não dá para fazer.

Vias de FatoCelso, tu estás com mais de 50 e já fazia revista com menos de 20.

Celso Borges: poesia e teimosia

Celso – Rapaz, se eu tiver saúde com 80, uma revistinha lá eu vou estar fazendo…

Vias de FatoPor tudo aquilo que a gente conversou aqui às vezes tu não te sente meio pregando no deserto, não bate certa depressão? Será que alguém vai ler a revista?

Celso – Não bate depressão. Acho que às vezes bate um desestímulo. Mas aí tem o lance da disciplina. Sempre foi assim e sempre vai ser. Tá na minha cabeça, tá na minha alma, não tem resposta para isso. É como se fosse uma coisa que eu precisasse fazer.É uma doença, uma maldição, como diz Fabreu [o poeta Fernando Abreu].

Vias de FatoComo é a seleção do que a Pitomba, a editora, não a revista, o que ela publica e não publica?

Bruno – É uma questão pessoal, o que eu acho que deva ser publicado.

Vias de FatoUma vez eu perguntei, que eu nem lembro sobre o quê, mas qual é a sensação de colocar um selo na capa de um livro, e tu me respondeu que era ilusão de achar que tem uma editora.

Bruno – É. É isso mesmo.

Vias de FatoComo é o financiamento disso? Tu? Tu e o autor? Depende?

Bruno – O disco [Z de Vingança] do [Marcos] Magah eu paguei todo. Exceto a gravação, o resto eu paguei tudo. Porque eu peguei o disco, esse cara ta aí, não tem dinheiro nenhum. Ele tá com o disco tem uns seis meses e esse disco precisa existir. Tem tudo a ver com a ideia da editora. Porque eu só fiz O Monstro Souza porque Souza [proprietário do cachorro-quente homônimo que inspirou o livro] me deu boa parte da grana para fazer o livro, então eu tenho uma certa obrigação e vamos ver o que vai acontecer. O trabalho de editoração de outros livros eu não cobrei nada pra ninguém. Do [poeta] Dyl [Pires, O perdedor de tempo], da [poeta] Jorgeana [Braga, A casa do sentido vermelho, a ser publicado em breve]. Por enquanto é assim que funciona, o livro da [jornalista] Karla [Freire, Onde o reggae é a lei] eu e ela que pagamos tudo pro livro sair.

Vias de FatoE as vendas?

Bruno – Já vendeu umas 110 cópias. No Riba [livraria Poeme-se] já esgotou, eu repus hoje; na [livraria] Leitura eu ainda não fui; no Chico eu também ainda não fui. Tem tido certa saída. Já recuperou 30% do gasto. Eu nunca espero dinheiro de volta. Quer dizer, só em prestação de serviços que pode ser reinvestido como em achar um cara como Magah. Vai sair o livro de Reuben, o da Jorgeana. Tem uns livros para lançar aí e sempre aparecem outras coisas. Mandam coisas, me mandam originais, mas eu fico sempre desconfortável em ler porque vai que eu leio e o livro é uma merda? Então eu sempre tenho que dizer alguma coisa. Se me aparecer um livro de poesia eu jogo para esses dois aqui.

Vias de FatoEntão, a editora usa os editores da revista como conselho editorial, digamos assim?

Bruno – É, eu jogo direto para eles. Ainda mais porque se aqui em São Luís sabem que tem uma editora que publica livro de poesia, tu é doido!, ia ter todo dia 20 livros de poesia aqui em casa. Todo mundo é poeta, sabe aquele cara bem ali? [aponta um transeunte pela janela] Ele é poeta, pô! “Ó, São Luís”, e coisa e tal. A poesia é apologética em relação à cidade ou preocupada em falar da própria poesia. É o negócio do rabicó.

Reuben – Para mim essa é a grande ironia, a maior obra de Nauro Machado é essa tiração de onda de com todo mundo: “Ô, meu poeta!”, todo mundo é poeta.

Bruno – Esculhambou geral.

Vias de FatoOutra afinidade de vocês é a música. Vocês estiveram juntos no palco para o lançamento de Belle Epoque [mais recente livro de poemas lançado por Celso]. Tem alguma possibilidade ou previsão de vocês tocarem juntos novamente?

Celso – A gente queria fazer um lance de rock’n roll com leitura. O grande lance é a disponibilidade de tempo. Pra mim é na hora, fazer um som com esses camaradas. Agora tem que ser uma coisa igual ao que teve no Belle Epoque. Ali a gente teve um mês livre para fazer aquilo. [O baterista André] Grolli, [o violonista André] Lucap, esse rapaz [Bruno] totalmente disponível, [o guitarrista] Reuben. No dia em que Bruno me ligar pra gente fazer um som eu tô aqui na hora e Reuben pega o helicóptero dele.

Reuben – Ah, de novo não, mas outra. Fundamental é o cara quebrar a ideia de que ele vai conseguir manter as coisas. O fundamental aqui sempre foi fazer tudo. O sujeito tem tempo para fazer um som, ele vai fazer, não tem, ele vai fazer outra coisa. Tem para um zine, ele vai fazer, não tem, faz outra coisa. Se não ele vai ficar a maior parte do tempo parado e fazendo as coisas no tempo livre, as coisas não vão durar. O lance é o tempo livre. Se juntar de novo, as coisas vão mudar, tudo muda o tempo todo.

 

Celso – A música talvez seja a coisa que mais nos ligue. Eu tenho uma preferência, Reuben tem outra, mas entre a gente bota ali o rock. A gente se une bastante, bota o rock’n roll ali. Tem uma identificação com a linguagem do rock. Tem essa diferença de Bruno não gostar de poesia, tem a formação dele em quadrinhos. A minha é precária, ficou para trás. Eu tento pegar alguma coisa com ele, mas eu não tenho a formação e a influência que tem na obra dele.

Reuben – Restos Inúteis [título de poema de Celso que deu nome à banda que o acompanhou no show de lançamento do livro] foi um nome que muita gente não gostou, quer dizer, algumas pessoas. Porque não é sério. Não basta ser resto, ainda tem que ser inútil.

Bruno – Se fosse Parnasianos Alados…

Tribo do Pixixita lembra seu legado de amizade e maestria

José Carlos Castro Martins (1/4/1952-12/4/2002), o Pixixita, ganha mais um tributo neste sábado (13), às 20h, no Trapiche (Ponta d’Areia). Mais que um tributo, aliás, a Tribo do Pixixita é uma grande festa que congrega amigos e admiradores do saudoso músico.

O nome parece mais apropriado, para além das feições indígenas do engenheiro civil de formação que tinha na música sua maior paixão e acabou se tornando professor da Escola de Música do Maranhão. Chegando em 2013 à sua 10ª. edição, a Tribo do Pixixita é um espaço plural que reúne música, fotografia, poesia e vídeo.

“O evento acontecerá mesmo em caso de chuva!”, exclama o material de divulgação do espetáculo, que tem confirmados os nomes de Afrôs, Ângela Gullar, Celso Borges, César Nascimento, Chico Maranhão, Chico Nô, Chico Saldanha, Flávia Bittencourt, Gerude, Instrumental Pixinguinha, Josias Sobrinho, Rosa Reis, Sérgio Habibe e Tutuca. Tudo pode acontecer – inclusive alguns dos nomes anunciados não aparecerem; ou aparecerem nomes não anunciados.

O que não acontecerá é a festa não acontecer. A Tribo do Pixixita já é uma tradição no calendário cultural da cidade que o músico tanto amou. “O Chico Nô e a Anne Martins, uma amiga e aluna, fizeram primeiramente uma homenagem para ele n’A Vida é Uma Festa [espetáculo poético-musical comandado desde 2002 todas as quintas-feiras na Praia Grande pelo músico e poeta ZéMaria Medeiros] em 2004, e a partir daí ficamos na pilha de realizar algo um pouco mais abrangente. No ano seguinte nos juntamos ao César Roberto, radialista que também tinha essa ideia, e fizemos o tributo no Armazém da Estrela [bar na Praia Grande, hoje fechado]. Foi o maior sucesso, lotamos o Armazém numa terça-feira chuvosa, todo mundo adorou. Depois fizemos no Dom Calamar [bar no Turu, hoje também fechado]. Novamente o evento foi muito bom, reunimos além do Chico Nô, Rosa Reis e Claudio Leite, que estiveram no ano anterior, Josias Sobrinho, Sergio Habibe e Chico Maranhão. Depois não paramos mais”, conta Nelsinho Brito, professor de capoeira, herdeiro de Pixixita, hoje vice-presidente da Fundação Municipal de Cultura de São Luís.

A Tribo do Pixixita tem, ao longo dos anos, reunido um bom público em suas edições. Para além do talento das atrações que se revezam no palco ano após ano, pela energia que contagia o evento, entre produção, artistas e plateia, pelo espírito gregário do homenageado. “Pixixita sabia ouvir muito bem todo mundo, sempre saía com palavras surpreendentes e adequadas. Para muitos era o guru da galera [risos], não discriminava ninguém, na vida e na música. A rapaziada do rock era apaixonada por ele. Era calmo e inteligentíssimo, e exageradamente metódico”, lembra Nelsinho.

Fazer amigos talvez seja o maior legado de Pixixita, cuja obra enquanto compositor é pequena. Amigos e alunos se confundem e não raro os dois substantivos consubstanciam-se na mesma pessoa, não poucas vezes. Não o conheci em vida, uma lacuna; mas é recorrente entre os que tiveram a oportunidade qualificá-lo como grande figura humana, amigo, professor, mestre. Místico, “acreditava muito na astrologia, sempre fazia o seu mapa astral e o meu também [risos]. Jogava tarô e adorava seus cristais. Eu os guardo até hoje”, lembra o herdeiro da simpatia e popularidade de Pixixita.