É certeira a afirmação do músico Chico Nô em e-mail recebido pelo blogue, ao classificar a Tribo do Pixixita, que completa nove edições hoje, como “uma mostra da música maranhense contemporânea”, ele um dos discípulos do homenageado, o evento já cravado no calendário musicultural da Ilha.
Tribo é corruptela de tributo a este “artista quase sem obra”, conforme me confidenciou Nelsinho Martins, filho de José Carlos Martins, o Pixixita. “Ele era sobretudo um cara que gostava de brincar, de música e de ser amigo. Gostava de tocar sem compromisso, tipo, no teu quintal, numa farra; se tu chamasse ele pro palco, pra tocar no teu show, aí ele já ficava envergonhado, era muito tímido”, lembra o professor de capoeira do Laborarte.
Um time de bambas de primeira linha da música produzida hoje no Maranhão ocupará o Trapiche Bar, na Ponta d’Areia, mesmo em caso de chuva, a partir das 21h: Ângela Gullar, Célia Leite, Chico Maranhão, Criolina, Dicy Rocha, Erivaldo Gomes, Gerude, Instrumental Pixinguinha, João Madson, Nosly, Rosa Reis, Tutuca e Zé Maria Medeiros, além do citado Chico Nô e dos poetas Celso Borges, Moisés Nobre e Paulo Melo Sousa. Direto de São Paulo, o maranhense de Cururupu Tião Carvalho fará o show de encerramento da noite. Mas certamente muitos artistas não anunciados devem dar o ar da graça e arte nesta noite que promete.
Engenheiro civil de formação, Pixixita teve na música sua grande paixão: figura querida por quantos o conheceram, foi professor da Escola de Música do Maranhão. Falecido em 2002, tem sido lembrado anualmente por esta festa que cresce a cada edição. Os ingressos custam apenas R$ 20,00 e podem ser adquiridos no local. Abaixo, alguns momentos da edição de 2009, pra você entrar no clima, sacar qual é e ter desperto o desejo de pintar por lá mais tarde:
Foi a pergunta que fiz, até em tom de brincadeira, ao poeta Celso Borges, por telefone, na manhã quente desta quinta-feira-feriado. Recebi dele, por e-mail, com a singela intimação “eu quero é ver tu não ir. Te vira!”, fina ironia por tantos furos recentes, a imagem que ilustra este post, e-flyer que divulga sua próxima subida ao palco, acompanhado do poeta-músico-dj Beto Ehongue (eles já apresentaram juntos A palavra voando).
À leitura do título do espetáculo, me veio à cabeça o martelar da dúvida de quem tem uma razoável coleção de discos: pergunto à minha esposa se ela lembra de alguma música que fala em cerol (serol?). Ela diz que não e eu retruco um “mas eu tenho” e fico em dúvida sobre em que disco encontrá-la, já olhando para uma das estantes.
Cerol (serol?), cerol (serol?), cerol (serol?)… A palavra-dúvida ecoava em minha cabeça. “Cerol (serol?) foi feito pra cortar”, me veio o verso, matei a charada: era Pedra de cantarei, poemúsica de XXI (2000), primeiro livro-disco de Celso Borges.
Há palavras que de tanto falarmos (desde a infância), nunca escrevemos. “Cerol é com c ou com s?” “Com c, de cera”, me responde o poeta ao telefone. “Mas no XXI tá com s, ‘serol foi feito pra cortar'”, retruco, lendo o verso. “Lá ‘tá errado. Cerol é com c, não é, galera?”, ele responde, perguntando ao bando com que andava.
“pedra de cantarei/ o futuro ao deus dará o futuro sem deus/ serei serás/ serol foi feito pra cortar/ matei e cortei o passado papagaio presente/ lá vai!// pedra de cantarei/ meu futuro a mim pertence/ iris arco do non sense/ vídeo-rei/ eu não errei/ meu coração de charlie brown/ ninguém sabe onde foi dar/ só eu sei/ pedra de cantarei”, a voz de Zeca Baleiro no poema de Celso Borges com música assinada por ambos, a 42ª. faixa de XXI.
Não fui ao Aurélio matar a dúvida. Entre o C e o S cabe Celso BorgeS e sua Poesia com P maiúsculo.
Hoje (29), no Papoético, tem o lançamento do catálogo da exposição TrezeAtravésTreze, com recital dos poetas Antonio Aílton, Celso Borges, Couto Corrêa Filho, Eduardo Júlio, Fernando Abreu, Jorgeana Braga e Lúcia Santos. Paulo Melo Sousa, organizador da tertúlia semanal realizada desde novembro de 2010 no Chico Discos, o charmoso bar de que falo no post anterior, um dos 13 poetas da exposição e do catálogo, estará no Rio de Janeiro, onde participa do CEP 20.000, coordenado por Chacal. Esta edição, portanto, será pilotada por Celso Borges, que já homenageou o poeta em poema, nos anos 1980, época em que o carioca lançou Quampérius cá pela Ilha, mas issos são assuntos para outros posts.
Também estarão presentes alguns dos 13 artistas plásticos da exposição que propôs, entre o fim do ano passado e o início deste, na Galeria Hum, um diálogo entre as artes plásticas e a poesia.
Recebi, há alguns dias, cortesia do poetamigo Celso Borges, a publicação. Que posso até dizer-lhes que ficou bonita, que há poemas e imagens interessantes, que dá uma panoramizada na produção plástica e poética contemporânea no Maranhão, mas o bom mesmo é ir até lá, às 19h30min, conferir.
O Papoético tem entrada franca. Semana que vem (5/4), Bruno Azevêdo e Dyl Pires lançam livros lá.
Ao contrário do que muita gente é induzida a pensar o Chico Discos é um bar. Explico: quem diz isso é o próprio Francisco de Assis Leitão Barbosa, o Chiquinho, seu proprietário, em entrevista ao jornal Vias de Fato, em sua edição de março, que saiu da gráfica quinta-feira passada (22).
Uma entrevista hilária concedida ao colega de redação, copo & alma Emílio Azevedo, nosso redator-chefe, editor, gerente e quantas outras funções “a dor e a delícia” de parir este jornal às ruas mês após mês exigirem.
Chico, desde antes de eu conhecê-lo, e já se vão mais de 12 anos, ele uma dessas amizades qual uísque, que melhoram com o passar dos tempos, sempre foi, como este blogueiro, “um homem de vícios antigos”, sempre comprando muitos discos, livros e dvds. Não raro nos encontrávamos no saudoso Bar de Seu Adalberto, um dos “bares pequenos” que ele cita na entrevista e onde costumávamos beber (e onde A vida é uma festa começou), cada qual com uma sacola debaixo do braço num doce e saudável exercício de fazer inveja um ao outro, exibindo mutuamente nossas mais recentes aquisições literárias, musicais, cinematográficas, afetivas, enfim.
Chico diz que seu bar, localizado no segundo andar de um casarão na esquina das ruas Treze de Maio e Afogados, no centro de São Luís, não passa disso: um bar. Nega as charmosas denominações de “centro cultural”, “casa de eventos” e outras pomposas honrarias. O fato é que ele começou vendendo livros e discos usados e locando dvds, atividade que abandonou em sequência. Hoje em dia vende cervejas, cachaças e outros alcoóis, petiscos, tira-gostos e o que mais nós, chegados a um grogue, tanto gostamos.
Quinta-feira passada (22) estive lá. Participando do Papoético, que acontece semanalmente, sob organização de Paulo Melo Sousa, o primeiro à esquerda, na foto acima, feita a meu pedido por Andréa Oliveira, esposa de Celso Borges, o terceiro. O segundo sou este que vos tecla e o quarto o músico André Lucap, que na semana anterior iniciou uma temporada de shows no bar.
Preciso deixar a cretinice e a preguiça de lado e aparecer mais no Chico Discos, bar em que, ao lado do Bar do Léo, sinto-me bastante à vontade, em casa mesmo. No Papoético em que a foto que ilustra este post foi feita acontecia o lançamento da Campanha Estadual de Combate à Tortura, da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) e outras entidades do Comitê Estadual de Combate à Tortura.
Além do Papoético (às quintas, 19h30min, grátis) e da temporada de Lucap (uma sexta-feira por mês, R$ 10,00 o ingresso; este blogue avisará da próxima edição e seu autor estará na plateia), também o cineasta Beto Matuck tem organizado aos sábados (19h, grátis) a sessão Encontro com Cinema, seguida de música, com pesquisa de Eduardo Júlio (eles não estão na foto, mas também encontrei ambos, quinta passada).
Finalizo recomendando a leitura da entrevista, hilária, repito, de Chiquinho, no Vias de Fato, já nas bancas, que traz ainda dois textos meus, já publicados aqui e aqui.
Livro reúne 20 textos que o cientista político e professor da UFMA publicou em jornais de São Luís nos últimos dez anos
(A arte do convite e o texto são da assessoria do evento)
Guerrilhas [Pitomba!/ Vias de Fato, 2012] aborda de forma contundente assuntos da área de política, história, música, cinema e psicanálise, entre outros. O livro abre com a polêmica sobre a fundação de São Luís, tema de cinco artigos de Flávio Reis, que é cientista político e professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Maranhão. O autor escreveu também Cenas Marginais (2005) e Grupos Políticos e Estrutura Oligárquica no Maranhão (2007).
“Guerrilhas é um pequeno livro que nos ajuda a pensar o Maranhão, a entender por que chegamos até aqui do jeito que chegamos. No cerne de cada questão abordada está a luta contra o modo de pensar da classe dominante, que impõe a sua história, ora idealizada, ora subjugando o pensamento discordante”, afirma o poeta Celso Borges no prefácio do trabalho.
Na área de política, Guerrilhas ressuscita assuntos fadados ao silêncio, como o momento obscuro da política maranhense, nos anos 20 do século passado. Com base no livro Neurose do Medo (Nascimento de Moraes, 1923), resgata uma história com direito a governador neurótico, juiz arruaceiro, assassinato e suicídio. Quase 100 anos depois, mais um capítulo da política maranhense também é comentado pelo cientista, no artigo O Nó-Cego da Política Maranhense, que fala sobre a troca de governadores do estado, decidida pelo TSE em 2009.
O livro traz três artigos sobre cinema, abordando o radicalismo da estética marginal, dos anos 70; a obra do cineasta Frederico Machado, com destaque para o filme, Litania da Velha; e um olhar sobre Nietzsche em Turim, do diretor Júlio Bressane, um texto que vê o nascimento da loucura de um dos pensadores mais radicais do ocidente.
Na área de literatura, Guerrilhas se debruça sobre A Saga do Monstro Souza, de Bruno Azevêdo e Gabriel Girnos. Flávio Reis acompanha a trajetória do personagem principal, um cachorro-quente serial killer, inserindo colagens e notícias de jornais retiradas do próprio livro de Bruno e Gabriel. O artigo é uma busca obsessiva pela São Luís real e não aquela idealizada em campanhas publicitárias para atrair turistas.
A música está presente em Guerrilhas no texto Antes da MPM. O assunto trazido à tona é o debate sobre o que vem a ser realmente música popular maranhense, o termo MPM, ou a invenção dele. O autor sabe que esta “é uma questão complicada, que não comporta respostas fáceis”.
Serviço
Guerrilhas > Livro de Flávio Reis > Lançamento dia 16 de fevereiro (quinta-feira), às 19h30min > Local: Papoético – Chico Discos (Sebo do Chiquinho, Rua São João, 389, esquina com Afogados, sobre o Banco Bonsucesso) > Entrada franca > O livro custa apenas R$ 20,00.
Guerrilhas, coletânea de artigos publicados por Flávio Reis na imprensa maranhense ao longo da última década, campo minado de fustigações sem centro, sobrevoa e permite ver, como numa fotografia aérea, um traço terminante da aventura de seu autor, figura de exceção entre nossos pensadores e professores – o cultivo radical da dissidência.
Permite ver, mas veja, não é que o torne visível, isso não passa batido aos leitores de suas outras obras (Cenas marginais e Grupos políticos e estrutura oligárquica no Maranhão), tampouco aos alunos do homem magro de fala digressiva segurando livros como facas, misturando dois ou três autores para ver se explode; ocorre que nessa recente investida os elementos sobem todos à mesa – temas, sim, e o território. Dança imprescindível a toda guerrilha, saber jogar com o espaço, pervertê-lo em arapuca, cemitério de engodos. No caso, é mesmo nossa imprensa que, invariável e totalmente comprometida, por mil golpes de astúcia deixou-se infiltrar pelos mordazes artigos desse livro, também o próprio território das ideias, no qual Flávio opera articulações vitais, nunca no interesse dalgum “campo” mas da erosão de nosso oco solo mental.
O olhar esclarecedor sobre as relações de força, a política e suas redondezas – descaso, cinismo, violência –, espaço antigo da reflexão do autor, que nunca cedeu ao apelo das conciliações típico de certa esquerda “prática” ou de cartilha, notadamente a universitária, incapaz de se desvencilhar do desejo de mandar adivinhado no esgoto exposto das alianças; a exímia capacidade de enredar fios de nossa história mal contada, pondo-nos à vista de nós mesmos (“Antes da MPM”, “O nó-cego da política maranhense”, “Oligarquia e medo” etc.); o mergulho em obras de arte desestabilizadoras ou no mínimo provocantes, cuja incidência sobre sua escrita é a bela mostra dum pacto com as potências da imaginação; mesmo as incursões pela psicanálise, disciplina cujas sugestões e descobertas fundamentais nunca frearam uma tendência fortemente ordenadora, cheia de andaimes cientificistas propícios ao folclore burguês – Flávio é mestre em transformar tais zonas em impulso de nutrição, aproximando-se disso ou daquilo conforme as contingências da balbúrdia.
Apenas não se confunda o prisma de temas que o autor encara com o pano surrado da interdisciplinaridade, escudo acadêmico que nunca serviu, a olho nu, para mais do que recheio de linguiça em formulários de não-sei-quantas vias. Aqui o caso é de pura indisciplina, do livre pensar e do gosto por uma boa briga.
Panorama de intervenções na parca discussão local, a mira em riste no rumo de nossa arena de ideias, o Maranhão persiste como ruído de fundo em cada tópico, sem contar que é o centro mobilizador na quase totalidade dos artigos. Começando por uma sequência de pauladas dadas no epicentro da querela em torno da fundação de São Luís, que na verdade é a discussão dos níveis inacreditavelmente obtusos, para não dizer mesquinhos, em que se deram e dão as reações ao trabalho de Maria de Lourdes Lauande Lacroix, passando pelas análises matadoras do emaranhado atávico entre política, desmando e miséria, das condutas paroquiais com relação ao poder, e da ofensiva de mídia, mercado e academia no comércio ridículo da cultura, esta insígnia a ser ostentada por uma intelectualidade (no fundo um punhado de funcionários de governo distribuídos entre repartições, instituições de saber e a “classe artística”) que a tudo vê como se a um grande curral, com narcisismo indisfarçável e característico.
Compõe-se quadro a quadro uma galeria em que figuram, por exemplo, certo juiz, personagem de Nascimento Moraes num livro de 1923, trazido à roda em Guerrilhas, juiz de faroeste a resolver tudo na bala ou no bogue, à luz do dia, em pleno centro da cidade em cenas inacreditáveis sobretudo porque poderiam ter ocorrido na tarde de ontem. Ou quem sabe se repitam amanhã, como de fato se repetiriam, na execução do professor Flávio Pereira pelo policial civil Olivar Cavalcante (o pistoleiro segue solto) e na do artista Geremias Pereira da Silva, o Gerô, espancado até a morte por uma gangue de policiais militares – à luz do dia, em pleno centro da cidade, cabeça do século XXI.
A história geral de nossa canalhice, quer se exerça pela violência elevada a valor, a distinção social, com a invariável impunidade que não cessa de adoecer nossa sensibilidade coletiva, quer se exerça pela constrangedora passividade a alimentar eternamente a estrutura de nossa sujeição, praticamente voluntária, demonstrando que a única reforma eleitoral que importa é o suicídio coletivo dos políticos.
Assistindo, como assistimos, a uma escalada do uso oficial da mentira enquanto narrativa dos “feitos” de uns e outros (nossa cota, parece, da escalada do fascismo em várias esferas da vida nacional – passarela em que desfila com o perigoso traje da falsa ausência), nem se pode afirmar que o autor, nas fissuras que causa, enfoque as coisas pelo avesso, ou se pelo avesso ele as encontra.
Flávio, claro, tem estômago. A atenção que dedica à casca grossa dos eventos não passa sem uma reversa escrita de precisão & excesso, que revela para desviar ou o contrário, dilatando pupilas, abrindo narinas, temperando perspectivas. Correm por aí, nutrindo os planos de fuga, figuras de Júlio Bressane, Elyseu Visconti, Bruno Azevêdo, Cesar Teixeira, Celso Borges e tantos meliantes cumplices de arruaça nos quais o autor ensina a ver os truques para se manter vivo, isto é, íntegro e mandando bala.
Seu fôlego de saque se trama justamente na capacidade de farejar em temas, textos e acontecimentos o cheiro dalguma pólvora. “Isso aqui não é pra entender, mas pra sentir o cheiro”, quantas vezes não ouvi de Flávio em sala de aula ou pelas salas do afeto, diante de questões fascinantes e árduas ante as quais o lance sempre foi fazer o que se pode. Disso não faltam mostras em seu texto ágil, cheio de toques analíticos jamais impostos à força de argumentações exaustivas, mas ofertados na fluência de caracterizações e imagens.
A condição do pensamento é a de estar nas curvas mais sem amparo, distante do que já se sabe e impõe-se como instância regulamentar. Não é para ordenar que se necessita de ideias. O resto são intelectuais de Sessão da Tarde, erguendo-se aqui e ali para constranger proposições de problemas (“se nada presta, que fazer?”), como se o nebuloso das respostas desmentisse a evidência das perguntas.
Que fazer, então? Sempre, apenas, o que se pode; muitas vezes se avacalha. Como Tom Zé, Rogério Sganzerla ou os Sex Pistols, Flávio Reis ensina que quaisquer ingredientes servem à feitura de bombas, desde que haja sacação, argúcia, inteligência e – sobretudo – que o sujeito não arregue. É chegado o tempo do arsenal contra o repertório.
*Reuben da Cunha Rocha é poeta e pesquisador. Edita, com Bruno Azevêdo e Celso Borges, a revista de poesia, artes gráficas & sacanagem Pitomba!.
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Serviço: Flávio Reis lança Guerrilhas dia 16 (quinta-feira), às 19h. no Papoético (Chico Discos, Rua Treze de Maio, esquina com Afogados, sobre o banco Bonsucesso). Entrada franca. O livro custa R$ 20,00.
/Além do mais, somos criminosos. Ali, fora da lei, dizemos a verdade.// Não estamos pondo as coisas em ordem (isso é função das empresas): estamos apenas facilitando processos para que qualquer coisa possa acontecer.// Fazendo o que não sabemos fazer. Sem técnica.// Inútil cantar canções de ninar para quem não consegue dormir.// Fazemos o que fazemos por pura contradição.// Se não há esperança, não há com o que se preocupar.// O que temos não seria pior se chamado por outro nome. Veblen o chamou de sistema do preço, Mills o chamou de elite do poder. Provavelmente não passam de umas noventa e nove pessoas envolvidas com o mercado financeiro. Curiosa forma de jogatina.// Nós insistimos no uso contínuo das faculdades estéticas.// Não aprendemos nada com o que já sabemos.// O que já fizemos conspira contra o que ainda é preciso fazer.// Plataforma presidencial: prometo, sendo eleito ou não, continuar meu trabalho sem me preocupar com você; acabar com as leis; oferecer crédito ilimitado à sociedade inteira independentemente de nacionalidade.// Observando as diferenças, lado a lado com os derrotados, aprendendo com o oprimido a viver fora da lei sem cometer crimes. Escravizar-se a todas as coisas. (Não há por que se tornar Rei)// Às vezes nós borramos a distinção entre arte e vida; às vezes tentamos esclarecê-la. Não nos apoiamos numa perna só. Apoiamo-nos em ambas.// Estamos dando os primeiros passos. Em breve conseguiremos andar.// Não temos ídolos: nós acreditamos no que fazemos./
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O trecho acima é do famoso diário de John Cage (do qual, confesso: nunca tinha ouvido falar, do famoso diário, antes de lê-lo, este trecho, aqui). Traduzido e montado por meu amigo-irmão Reuben da Cunha Rocha, o petardo ocupa a contracapa do terceiro número da revista Pitomba!, editada por ele, Bruno Azevêdo e Celso Borges (clique aqui para baixar as duas primeiras edições).
Este blogue dá em primeira mão. Antes, o prefácio:
OUTRA HISTÓRIA Celso Borges*
Cada um luta com a arma que pode, com a arma que tem. A de Flávio Reis está na cabeça, no pensamento, na palavra. Afiada e lúcida, perpassa vários campos nesses 20 textos de Guerrilhas, em sua maioria publicada em jornais de São Luís nos últimos anos. Um pequeno livro que nos ajuda a pensar o Maranhão, a entender por que chegamos até aqui do jeito que chegamos. No cerne de cada questão abordada está a luta contra o modo de pensar da classe dominante, que impõe a sua história, ora idealizada, ora subjugando o pensamento discordante.
O livro abre com a polêmica sobre a fundação de São Luís. Cinco artigos desconstruindo o discurso oficial, que prefere idealizar a fundação da cidade pelos franceses, em lugar dos portugueses “bárbaros”. Um discurso que privilegia a filiação distinta de Daniel de La Touche, o fidalgo francês, Senhor de La Ravardière, em substituição a Jerônimo de Albuquerque, que nem português era, um mestiço do sertão. Analisando o debate em torno do nosso “mito fundador”, o autor afirma que a argumentação da maioria dos intelectuais e historiadores, sedimentada a partir do início do século 20, é resultado de uma visão narcísica que busca esconder uma história de violência e miséria em nome de um passado glorioso.
Guerrilhas ressuscita também assuntos fadados ao silêncio, como o momento obscuro da política maranhense, nos anos 20 do século passado. Com base no livro Neurose do Medo (Nascimento de Moraes, 1923), resgata uma história com direito a governador neurótico, juiz arruaceiro, assassinato e suicídio. Um verdadeiro circo de horrores, retrato da república em terra tupiniquim.
Quase 100 anos depois, mais um capítulo da barbárie política do Maranhão é revisto, agora sobre a troca de governadores do estado, decidida pelo TSE em 2009 (“O Nó-Cego da Política Maranhense”). Aqui ele aponta o dedo aos que sempre estão posando para a foto no baile dos vencedores. Mais adiante, no artigo em que saúda o primeiro aniversário do jornal Vias de Fato, (“Vias de Fato: um ano memorável”), retrata onde estamos metidos, imersos num jornalismo distante da comunidade, ressonando uma estrutura apodrecida.
Os primeiros nove textos de Guerrilhas são, portanto, uma radiografia de como a estrutura política dos últimos 100 anos nos obrigou a ler o Maranhão à sua maneira. Em seguida, o autor escreve sobre a violência urbana. E o Maranhão está ali também, como um “estado onde a moldura do poder oligárquico conseguiu atravessar o século sem grandes alterações, as polícias militar e civil sempre estiveram perpassadas por interesses políticos e prontas a se submeterem às vinganças privadas que passam ao largo do sistema judiciário.” (“Crime e Cinismo”).
Mais à frente, em artigo sobre “Litania da Vela”, poema de Arlete Nogueira da Cruz, toma por referência o filósofo Walter Benjamin e encara o poema como “ladainha do fim dos tempos modernos”. Poema do grotesco, prenúncio da nova barbárie, faz a descrição crua da miséria de uma velha na ‘cidade que se desfaz em salitre’. É a deixa para a retomada do primeiro assunto do livro. Como um boi triste e furioso, o autor continua ruminando o mito da fundação da cidade, tema que perpassa todo o livro. Nasce aí, talvez, o mais importante texto da coletânea: “A Saga do Monstro Souza”, sobre a obra de Bruno Azevêdo e Gabriel Girnos.
Nesta análise, consolida algo que me parece fundamental em Guerrilhas, um desejo de recontar a história numa busca obsessiva pela cidade real, não a de azulejinhos e boizinhos de butique, embalagem ideal para os turistas de pacote e o desenvolvimento de campanhas publicitárias, que alimentam a insossa cultura do elogio. Um Não à “Ó minha cidade, deixa-me viver…”, de Bandeira Tribuzi ou à Ilha Magnética de César Nascimento, mas um viva a São Luís de “Eh, Ponta D’areia, há muito tempo que eu não te vejo”, de Chico Maranhão. Flávio acompanha a trajetória do personagem principal, um cachorro-quente serial killer, inserindo colagens e notícias de jornais retiradas do próprio livro de Bruno e Gabriel.
A discussão sobre identidade reaparece através da música. O assunto trazido à tona é o debate sobre o que vem a ser realmente música popular maranhense, o termo MPM, ou a invenção dele. O texto é apenas a ponta de iceberg de um debate complexo e extenso. O autor sabe que esta “é uma questão complicada, que não comporta respostas fáceis”. Talvez tenha esquecido de destacar no bolo de influências de alguns compositores da tal MPM o reggae, que divide com o bumba-boi, o prato preferido desses artistas, de 1978 a 1998. Afinal, aquilo que se fez com o boi, tirando-o do terreiro para dentro dos estúdios (leia-se Papete e compositores do Bandeira de Aço), aconteceu também com o reggae, retirado dos salões para o sucesso das rádios (leia-se Beto Pereira, Mano Borges, César Nascimento, etc).
Da música para o cinema. Dos três artigos destaco “Marginal Sim, e por que não? Babaloo, Babilônia, Brasil”. Defesa enfática do cinema marginal, produzido no Brasil nos primeiros anos da década de 70, enaltecendo a postura dessa geração, que continuou com a câmera livre do cinema novo, mas sem as amarras deste: “de certa forma radicalizavam o mergulho no subdesenvolvimento preconizado anos antes por Gláuber Rocha, faziam a escancaração da barbárie sem a carapaça política e o sentido de missão”.
Os textos sobre cinema mostram uma opção clara pela radicalidade, com exceção da análise que faz sobre a filmografia do maranhense Frederico Machado, em que é mais ponderado. No olhar sobre “Nietzsche em Turim”, de Júlio Bressane, acompanha os passos-imagens do filósofo alemão enquanto a loucura toma sua alma. Um texto que vê o nascimento da loucura de um dos pensadores mais radicais do ocidente.
De Nietzsche para Lacan, Freud e companhia: recalque, desejo, angústia e pulsão. Dois artigos, dois peixes fora d’água, dois peixes dentro do mar da existência, o doloroso mundo da psicanálise. Talvez Flávio pudesse deixá-los de fora, mas como evitar a vida fora da arte?
*Celso Borges é autor de oito livros de poesia, entre eles “Pelo Avesso”, “Persona Non Grata”, “NRA”, “Música” e “Belle Époque”.
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2011 foi o ano em que conheci pessoalmente o desde antes e sempre admirado Flávio Reis. Entre as muitas lacunas em minha formação, uma delas certamente é não ter sido seu aluno. No entanto, tenho aprendido um bocado com seu convívio, nas reuniões do conselho editorial do jornal Vias de Fato, do qual “nosso mestre”, como o chamamos eu e Emílio Azevedo, é grande entusiasta.
Autor de Cenas Marginais (2005) e Grupos Políticos e Estrutura Oligárquica no Maranhão (2007), ambos editados às próprias custas s/a, o professor da UFMA agora bota na rua o bloco de Guerrilhas, “reunião de artigos escritos na última década, quase todos publicados na imprensa local, reeditados com pequenas correções”, cujo prefácio acima bem resume.
O livro “ainda não foi impresso, mas será” e o lançamento acontecerá em janeiro, detalhes o blogue dará em momento oportuno, antecipando que trata-se de uma publicação que envolve esforços do próprio Flávio Reis (às próprias custas s/a, ibidem), da editora Pitomba! e do jornal Vias de Fato, cujos selos comparecem à obra. Antes do lançamento os poucos mas fieis leitores deste blogue já podem baixar o pdf: Guerrilhas.
Aos 45 do segundo tempo, às vésperas do fechamento da edição de dezembro do Vias de Fato (nº. 27, capa acima, ora nas melhores bancas da Ilha), inventei de fazer uma retrospectiva cultural. No último dia 12 encaminhei a uma pá de agentes culturais um e-mail com a seguinte pergunta: “Para o bem ou para o mal, no campo cultural, o que você destacaria numa retrospectiva particular do ano que se encerra?”.
Alguns responderam, outros não; outros ainda o fizeram depois do fechamento do jornal. O blogue traz abaixo um mix do que saiu na edição impressa do mensal com respostas que chegaram depois à caixa de e-mails do blogueiro (os depoimentos em itálico só aparecem acá).
RETROSPECTIVA CULTURAL
O jornal Vias de Fato traz aos leitores uma retrospectiva construída a muitas mãos – a coletividade uma característica da publicação. Veja o que diversos agentes culturais destacaram entre os acontecimentos do ano que se encerra
ZEMA RIBEIRO
Ano em que o mensal Vias de Fato completou dois de circulação ininterrupta – apesar de todas as dificuldades – e véspera do quarto centenário da capital maranhense – há controvérsias – 2011 foi marcado por diversos acontecimentos na área cultural.
Em vez de fazer uma retrospectiva certamente incompleta, resolvemos ouvir gente da área, que entende do assunto. Maranhenses ligados ao setor, residentes ou não aqui ou mesmo nem nascidos, mas com alguma ligação com o estado, destacaram o que de bom e ruim aconteceu no ano que se encerra.
“Para o bem ou para o mal, no campo cultural, o que você destacaria numa retrospectiva particular do ano que se encerra?” foi a pergunta feita pelo Vias de Fato. Leia abaixo as respostas.
O crítico Alberto Jr.: otimismo
“A primeira coisa que me vem à cabeça ao pensar em cultura neste ano de 2011 é a palavra ‘otimismo’, sobretudo em relação ao trabalho que muitos artistas vêm desenvolvendo de forma independente na busca de uma cena cultural cada vez mais urbana e ‘conectada’ com as experiências desenvolvidas em outros estados.
Um exemplo disso é o pessoal do gênero pop/rock, que, neste ano, conseguiu produzir shows e eventos fazendo circular pela ilha bandas alternativas com trabalho autoral e promovendo esse diálogo musical dentro dos circuitos nacionais de festivais de música independente. Cito aqui o Coletivo Velga, Garibaldo e o Resto do Mundo, Gallo Azzuu, Megazines, Nova Bossa, entre outros.
Beto Ehongue, Dicy Rocha, Tássia Campos, Milla Camões, Bruno Batista e Djalma Lúcio me fizeram bater muitas palmas em todos os projetos que estiveram envolvidos.
Algumas casas noturnas também me ofereceram bons encontros e boas experiências sonoras. Salve o Odeon Sabor e Arte que voltou com boas energias e a novidade regueira que é o Porto da Gabi. Experiências transcendentais.
No difícil campo das artes cênicas, a Pequena Companhia de Teatro, a Santa Ignorância Cia. de Teatro e o talento do dramaturgo Igor Nascimento não deixaram eu me acomodar na confortável resignação de fruir de espetáculos simples. Foram geniais!
Tivemos quatro festivais de cinema com programação de qualidade e algumas com caráter popular que me fizeram chorar com a vida e arte de grandes artistas e inclusive com alguns filmes que serviram bem mais do que ter pago qualquer valor para um analista ou psicólogo. Quando a ficção ajuda até a tua subjetividade.
Enfim, pelos exemplos que citei, percebe-se a pouca referência a instituições ou órgãos públicos como apoiadores desses projetos. O otimismo está aí: essa sensação de testemunhar experiências culturais contemporâneas que nos afastam de qualquer saudosismo ou nostalgia com outras décadas e colocam nossos sentidos para viver o presente, sem vícios, sem dependências e com a coragem de quem confia na autoestima de nossa produção cultural contemporânea.
E o próximo ano será bem melhor!”
Alberto Júnior, radialista e crítico musical
“O fato mais marcante foi a grande quantidade de shows em São Luís no início do ano. Foi uma verdadeira explosão de bons shows e shows inéditos ou quase inéditos em São Luís. Infelizmente o ano de 2011 não prosseguiu com a grande “leva” de shows, talvez por acanhamento de muitos produtores, mas os primeiros meses do ano foram realmente surpreendentes. Só para lembrar, tivemos apenas em abril, Pitty, Marcelo D2, Lobão, Richie Spice, Doro Pesch e outros. O primeiro semestre de 2011 também nos agraciou com shows de Jason Mraz, Adriana Calcanhotto, Marcelo Camelo, Blues Etílicos, Arnaldo Antunes e muitos outros. O segundo semestre também pode ser lembrado com shows do Teatro Mágico e os internacionais Blind Guardian e Flo Rida. Dezembro será fechado com chave de ouro com show de Paulinho Moska, em mais uma edição do Prêmio da Rádio Universidade. Com certeza esqueci de mencionar vários outros shows, mas todos esses shows provaram que São Luís pode sim receber grandes nomes da música brasileira e exportações da música pop”.
Andréa Barros, jornalista, ex-assessora de comunicação da Lima Dias Turismo, agência responsável pela vinda de muitos dos shows citados à capital maranhense
Ehongue lembra a dinheirama despejada no carnaval carioca em detrimento dos artistas que produzem no Maranhão
“Queria tanto estar agora escrevendo algo de bom sobre os rumos culturais de nossa cidade/estado em 2011, sério mesmo. Queria poder dizer que grandes eventos aconteceram e melhor ainda acreditar que o ano seguinte mostra uma luz clara no fim do túnel, mas não dá. Ficamos carentes de políticas culturais onde ainda prevalecem as decadentes e assistencialistas programações de São João e Carnaval.
Os milhões dedicados à escola de samba Beija Flor, a Praia Grande abandonada e outros milhões dispersados em uma árvore de natal são só algumas das aberrações que indicam que nossa terra anda completamente na contramão das necessidades. Isso tudo merece um DELETE.
Fora da esfera oficial aconteceram coisas boas, como por exemplo o Prêmio Nacional de Música recebido pela dupla Alê Muniz e Luciana Simões. Isso serve de inspiração para toda uma geração de músicos maranhenses que mesmo sem o apoio ou a lembrança dos órgãos que trabalham com cultura continuam teimando com talento e criatividade.
Em 2012 desejo a todos um ano mais sincero e promissor.”
“Beto Ehongue, compositor e produtor musical, homem à frente das bandas Negoka’apor e Canelas Preta
“Destacaríamos, em 2011, o Papoético como uma ideia que germinou e está criando raízes no panorama cultural da cidade. Apesar de ainda não ter a visibilidade necessária na mídia, está se expandindo entre as pessoas que pensam e se preocupam com a cultura em São Luís e no Maranhão. Como evento, São Luís, Outros 400 [temporada de nove shows apresentada pelo compositor Joãozinho Ribeiro e convidados no Novo Armazém] foi um acontecimento que reuniu a nata da música e da cultura maranhenses nos últimos meses do ano.
Também citaríamos o Café Literário, promovido no [Centro de Criatividade] Odylo Costa, filho, organizado pela professora Ceres Fernandes e, finalmente lembramos, para lamentar, o pouco caso que a Prefeitura de São Luís dedicou à Feira do Livro, um evento agregador e com grande potencial econômico, turístico e cultural, mas que está sendo continuamente esvaziado devido à miopia dos atuais administradores da cidade”.
Beto Nicácio, arte-educador, publicitário e quadrinhista, e Iramir Araújo, historiador, publicitário e quadrinhista, a Dupla Criação
Para Mesito, Feira do Livro foi decepcionante
“A decepcionante 5ª. Feira do Livro de São Luís (Felis). Para mim foi a maior decepção cultural nos últimos tempos”.
Bioque Mesito, poeta
Para o editor da Pitomba!: "De mal (...) quase tudo que tenha (...) alguma oficialidade"
“O Papoético é um lance massa! É o que vejo de mais interessante, por ser um lance coletivo e agregador, sem falar na pinga. De mal houve quase tudo que tenha as mãos de alguma oficialidade: tombamento do boi, feira do livro, essas coisas”.
Bruno Azevêdo, escritor, autor de Breganejo Blues e O Monstro Souza, editor da revista Pitomba! e, a partir deste número, colunista do Vias de Fato
“Na música eu destacaria a trajetória de sucesso de Cine Tropical, que deu o Prêmio da Música Brasileira ao Criolina. Na literatura, o lançamento de aliado involuntário, novo livro de poemas de Fernando Abreu”
Celso Borges, poeta e jornalista, parceiro da Alê Muniz e Luciana Simões em São Luís-Havana, faixa que levou o troféu de melhor música no Prêmio Universidade FM 2010
Prêmio do Criolina e livro de Fabreu foram os destaques para CB, aqui visto em uma de suas elogiadas performances
“Vamos logo para o bem. Mesmo não sendo lá essas coisas, difícil não destacar no ano de 2011, no campo cultural e longe dos afagos oficiais, os lançamentos primorosos dos CDs de Bruno Batista e de Nosly, o amadurecimento da dupla Criolina, a garra e a beleza das performances de Celso Borges, o Papoético do Paulão [o poeta e jornalista Paulo Melo Sousa], o Café Literário, o livro do Fernando Abreu, os Outros 400, projeto de Joãozinho [Ribeiro] etc . Saldo positivo.
De tristeza: a continuada favelização da Praia Grande e a perda de D. Teté.”
Chico Saldanha, compositor, lançou Emaranhado em 2007 e, ao lado de Cesar Teixeira, Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho, levou o troféu de melhor show do ano no prêmio Universidade FM 2011
Memória cinemetográfica
“Como a minha área de atuação é o cinema, acho que é importante destacar que em 2011 tivemos várias mostras e festivais. Isso é uma importante conquista para o público, que certamente teve acesso a produções destacadas no cenário nacional e no internacional.
Não podemos esquecer também esse maravilhoso trabalho do cineasta Murilo Santos de devolver às comunidades aquilo que a sua câmera registrou com o passar dos anos, tanto na forma de sessões como na de belos painéis fotográficos, além dos novos vídeos gerados nesses encontros.”
Gildomar Marinho entra em estúdio em janeiro para gravar sucessor de Olho de Boi (2009) e Pedra de Cantaria (2010)
“O destaque é o próprio jornal, com sua linha editorial que se configura um contraponto à cultura vivenciada no Maranhão atualmente, eivada de vícios, paternalismos e extremamente violenta contra qualquer perspectiva de emancipação cultural. Vias vai às veias, às tripas, aos fatos. Um soco no estômago de uma elite autocrática. Um sopro de vida à verdadeira imprensa livre”.
Para Lena Machado, destaque foi o show de Cesar Teixeira
“O show Bandeira de Aço de Cesar Teixeira em julho, no Circo da Cidade. Ver o nosso querido poeta feliz e à vontade no palco, cantando clássicos, além de apresentar inéditas como Cubanita e Boi de Medonho foi maravilhoso. Tão bom que não canso de perguntar: e aí, Cesar, quando seremos presenteados com o segundo?!!”
Descaso com artistas entre as lembranças de Milla Camões, que estreia em disco ano que vem
“O que me marcou de forma positiva foi o Lençóis Jazz e Blues Festival. Claro, houve a minha participação, mas muito mais pelo fato de São Luís ter entrado, definitivamente, na rota comercial deste tipo de música, no Brasil. Além de, por falar em rota, termos tido também, bons shows (apesar de, às vezes, a preços exorbitantes, por conta da falta de espaço adequado para as apresentações ou mesmo falta de compromisso dos contratantes), boas peças de teatro, enfim. Vi um suspiro de qualidade entrando nas veias da cidade e isso me deixa feliz. Dois fatos me deixam extremamente triste: a falta de responsabilidade e compromisso de donos de bares, casas noturnas e governantes com a música em geral (não pensem que calotes, prejuízos etc., acontecem só com uma fatia: inclua aí TODOS os estilos), e, embora redundante, a pergunta anual, que continua sem resposta: “Até quando?”; e a perda de figuras importantes de nossa cultura, a exemplo de Dona Teté. Seu cacuriá continuará vivo, por que existem pessoas dispostas a se comprometer com seu legado. Mas quantos mestres morreram, esquecidos em interiores deste Estado, quantas culturas, quantas danças estão entrando em extinção, por não haver interessados em repassar ao próximo seu conhecimento? Aulas de cultura popular, de arte em geral, nas escolas; a aprovação e inclusão definitivamente dessa Lei [que torna obrigatório o ensino de música nas escolas], seria de grande valia. E que 2012 nos traga felicidade, poesia, música e arte ao cubo!”
Milla Camões, cantora
Falecimentos de Carlos de Lima e Dona Teté entre os maus momentos lembrados por Moema
“Tivemos bons e maus momentos, alegres e tristes. Com certeza a morte de D. Teté e a do Sr. Carlos Lima foram nossas grandes perdas. Alegres foram os outros momentos, incluindo (para quem gosta): o carnaval, as festas juninas, as feiras, principalmente a de livros e a de artigos de vários paises. O lançamento do livro de Aymoré Alvim, meu irmão, foi um dos melhores momentos da nossa Academia. Lamentáveis os fatos que envolveram o Prof. Saraiva [acusado de racismo por estudantes da UFMA], manchando uma reputação construida com muito sacrifício, ao longo de muitos anos”
Papoético de Paulão entre os mais lembrados na retrospectiva
“Acompanhei pouco as agitações culturais este ano. Só estive mesmo ligado no Papoético, mas, acho que a revista Pitomba! fez a diferença. Fazer literatura, no Maranhão, hoje em dia, é ato de heroísmo e publicar é altruísmo puro. A Pitomba! deu uma importante contribuição, aliando agitação literária com um material de qualidade, gerando, inclusive, polêmica, o que serviu para oxigenar o cenário da cultura local”.
Paulo Melo Sousa, jornalista e poeta, coordenador do Papoético, tertúlia semanal realizada no Chico Discos (Rua 13 de Maio, Centro)
“Eu destacaria o filme A alegria, de Felipe Bragança e Marina Meliande, bem como a Trilogia Coração no Fogo, da qual o filme faz parte, pelas razões que já expus aqui. É um cinema que produz, com suas imagens oxigenadas, outras maneiras de ver. Munição pesada para a imaginação, o sonho e a coragem”.
Ricarte Almeida Santos lembra bons momentos, apesar da ausência de política cultural, objeto de seu estudo no mestrado em Cultura e Sociedade (UFMA)
“Para o bem: o projeto Outros 400 [temporada capitaneada pelo compositor Joãozinho Ribeiro, no Novo Armazém]; o show Rosa Secular II [com Chico Saldanha, Joãozinho Ribeiro, Josias Sobrinho e convidados, Bar Daquele Jeito, 10/12]; o lançamento do cd Eu não sei sofrer em inglês, o segundo de Bruno Batista; o show Bandeira de Aço, de Cesar Teixeira [Circo da Cidade, junho]; a Mostra de Cinema Infantil [Cine Praia Grande, 12 e 13/10]; o Festival Guarnicê de Cinema; as várias rodas de choro em vários locais da Ilha (de shoppings a botequins); o lançamento do cd A Canção de Cartola na voz de Léo Spirro. Para o mal: nem um passo dado no sentido de uma política cultural para o Maranhão; o governo de Roseana Sarney financiando o carnaval da Beija Flor carioca; a morte de Dona Teté; a cultura de eventos que ainda prevalece; e o abandono da Praia Grande”.
Ricarte Almeida Santos, sociólogo e radialista, apresentador do dominical Chorinhos & Chorões, às 9h, na Rádio Universidade FM (106,9MHz)
Urias critica parte da classe artística
“São Luís, 400.000 lamentos. Um povo é o reflexo de seu governo ou o governo é reflexo do seu povo? Estamos no ápice da mediocridade no nosso fazer cultural (talvez com exceção para as “brincadeiras” populares). Uma secretaria medíocre, cercada de nós, artistas ainda mais medíocres, que sempre pensamos que nosso trabalho é a maravilha. A miséria que vem nos cercando, sem dúvida, vai sendo refletida na qualidade de nossos produtinhos “inventados” e não criados com um debruçar sobre si mesmo para por em prática um processo que venha alterar e complementar a consciência de quem somos nós. Ouvi outro dia de um amigo “artista”: “Ah!, esse negócio de processo (!!!!), de treino e ensaio pesado me enche o saco. Agora tudo é processo! Eu quero mais é fazer!”. Acho que todos nós realmente temos o direito de fazer o que nos dá na telha e nos desejos, mas na minha liberdade de pensar, penso também que esse papo é de “artista” que não tem que batalhar para viver da arte que faz e tem casa, comida e roupa lavada, além de não dar a mínima pro seu crescimento pessoal, o que por si só justifica a busca de um processo de trabalho..”
Urias Oliveira, ator premiado internacionalmente, botando o dedo na ferida
Wilson Marques é outro que destaca o cinema em 2011
“Destaco o primeiro Festival Internacional de Cinema, da Lume, evento de alto nível que infelizmente foi pouquíssimo prestigiado pelo público de São Luís”.
ZéMaria Medeiros destaca evento próprio e descaso com artistas pelo poder público
“Os 9,7 anos de A Vida é uma Festa, os lançamentos dos cds Onde tá o coro, de ZéMaria Medeiros & A Casca de Banana, e Arriba Saia, de Omar Cutrim, os falecimentos de Mundica e Dona Teté, os atrasos entre seis meses e um ano para pagamento de cachês de artistas, um absurdo!, o carnaval 400 anos da Beija Flor, ridículo!, o desprezo da produção musical do Maranhão pelos maranhenses, em valorização do axé, breganejo, pornoforró e tchans!”
ZéMaria Medeiros, poeta e músico, comanda há mais de nove anos o happening A Vida é uma Festa, que acontece semanalmente às quintas-feiras na Praia Grande
Bobos da corte maranhense refestelam-se no carnaval carioca: o povo paga a conta
Ontem encaminhei ao Vias de Fato a página de cultura da edição deste mês, que chegará às bancas junto com o terceiro número da revista Pitomba!: o lançamento desta está marcado para esta sexta (16), às 19h, no Bar do Porto, aberto ao público (a revista custa R$ 5,00).
O que fiz para o jornal “que não foge da raia”: uma retrospectiva cultural. Diversas personalidades da cultura do Maranhão responderam à pergunta “para o bem ou para o mal, no campo cultural, o que você destacaria numa retrospectiva particular do ano que se encerra?”
O resultado você poderá conferir na edição impressa do Vias de Fato (aqueles que foram questionados por e-mail e responderam após o fechamento da edição terão suas respostas publicadas cá no blogue, junto das dos que responderam a tempo) e talvez você estranhe eu tanto falar do jornal quando o post deseja outra coisa.
O lance é o seguinte: entre as boas lembranças de alguns agentes culturais está o nascimento, a consolidação da revista Pitomba! Houve mesmo quem lembrasse da polêmica, de que tomou parte este blogue, envolvendo a publicação e o leitor-livreiro José Lorêdo, cujo texto que remonta à inquisição, acabou indo parar nas páginas do número 3 da de-vez-em-quandal editada por Bruno Azevêdo, Celso Borges e Reuben da Cunha Rocha. Dúvida que não quer calar: venderá a livraria Resistência Cultural este número da Pitomba!?
Abre este post poster encartado no caroço da revista, publicado com exclusividade neste blogue, retratando personalidades como a cantora Alcione, o secretário de saúde Ricardo Murad, o de cultura Luiz Bulcão, a governadora Roseana Sarney, o “sempre ridículo” Pergentino Holanda (cf. Flávio Reis) e outros “poderosos”, baba-ovos e quetais. Os maranhenses na festa carioca da Beija-Flor, paga com dinheiro dos que não serão convidados para esta festa podre. O derramamento de dinheiro público para bancar o carnaval alheio, de samba-enredo fruto de ensandecimento coletivo, foi outro fato lembrado na retrospectiva cultural do Vias de Fato, “para o mal”.
Apesar da turma ilustrada por Joka, 2011 fecha com saldo positivo, as sobrevivências de Pitomba! e Vias de Fato, sem o apoio de quaisquer verbas governamentais, provas incontestes disso, exceto, é claro, em se tratando das contas bancárias dos editores das publicações.
Abaixo, detalhes sobre o lançamento do novo número da Pitomba! e os nomes de quem está nesta edição.
13 poetas somam-se a 13 artistas plásticos, ou vice-versa: a poesia atravessando as artes plásticas, ou vice-versa. Um panorama dos últimos 30 anos da produção poética e plástica do Maranhão. Para o poeta Celso Borges, “a ordem é e será a de expandir a língua, alimentar trocas, exercitar o atrito”, conforme afirma no release que recebi por e-mail. Ele, ao lado da marchand Ana Luiza Nascimento, curador da exposição TrezeAtravésTreze, cuja abertura se dá hoje, às 19h, na Galeria Hum (São Francisco), ficando em cartaz até o próximo 31 de janeiro.
Lista completa de poetas e artistas plásticos e maiores informações aqui.
Do Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira: “Iniciou a vida artística em 1984 na cidade de São Luís, capital do Estado do Maranhão.// Residiu em Minas entre os anos de 1986 e 1995, onde integrou a Orquestra de Violões do Palácio das Artes. No ano 2000 lançou pela gravadora Dabliu o cd Teu lugar, no qual interpretou várias composições de sua autoria, entre elas, Brinco, Noves fora e Japi, as três em parceria com Zeca Baleiro; Coração na voz (c/ Nonato Buzar e Gerude); Gueno (c/ Glauco Barbosa) e June, parceria com o poeta Celso Borges, entre outras.// No ano de 2003, ao lado de César Nascimento e Mano Borges, apresentou-se no “Projeto Prêt-à-porter”, com direção artística de Sérgio Natureza, no Teatro Café Pequeno, no Leblon, Zona Sul do Rio de Janeiro.// Em 2010 lançou o cd Nave dos Sonhos, no qual figura a faixa-título composta em parceria com o também maranhense Nonato Buzar, disco lançado em show homônimo no Bar Severyna, em Laranjeiras, Zona Sul do Rio de Janeiro. No show contou com a participação dos músicos Ney Conceição (baixo), Kiko Continentino (teclados) e Victor Bertrami (bateria).// Entre seus diversos parceiros destacam-se os letristas Celso Borges, Tibério Gaspar, Chico Anísio, Fausto Nilo e Sérgio Natureza, além do compositor e sambista carioca João Nogueira.”
Do texto do encarte de Parador [ouça na Rádio UOL], assinado pelo parceiro-produtor Zeca Baleiro: “Parador é o terceiro disco de Nosly, compositor maranhense que já zanzou por muitas plagas sem fixar-se em nenhuma – São Luís, Rio, Belo Horizonte, Düsseldorf… Como seu conterrâneo Gonçalves Dias, Nosly vive no exílio, no abandono apaixonado da música, urdindo canções como quem tece num tear seu artesanato de afetos, sua teia de ritmos (…)// Sem mais delongas, digo: Nosly é um craque inquestionável da sempre nova (e muito viva) canção brasileira”
Parador abre com a regravação de Aquela estrela (Ronald Pinheiro e Jorge Thadeu) e fecha com Maria Luiza (Nosly), único tema instrumental do disco, homenagem à mãe do compositor. Entre as 13 faixas, parcerias, regravações e inéditas.
Amanhã (29), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo, acontece o show de lançamento de Parador (2011), novo disco de Nosly, produzido por Zeca Baleiro (mais sobre o show no release escrito pelo parceiro Fernando Abreu). Abaixo, a entrevista exclusiva que o músico concedeu ao blogue, por e-mail.
ENTREVISTA: NOSLY
ZEMA RIBEIRO – Nosly, como foi sua infância e em que momento você sentiu que ia ser músico, que ia viver de música?
NOSLY – Nasci em Caxias/MA, em agosto de 1967. Sou o sétimo filho de uma família de 10 e carrego o nome do pai, Nosly. Cresci ouvindo muita música boa, música de qualidade, orquestradas e interpretadas por grandes nomes. A minha primeira lembrança, eu deveria ter talvez quatro ou cinco anos, foi colocar na “radiola”Agostinho dos Santos cantando Estrada do Sol (Tom Jobim e Dolores Duran). Depois, com sete, me divirtia com os instrumentos musicais (xilofones, saxofones, clarinetes etc.) que ganhava na época de natal. Acho que os meus pais, de alguma maneira, já identificavam meu interesse pela música. Só lá pelos 13 é que pintou o violão na minha vida. Daí foi paixão à primeira nota.
Parador pode ser considerado teu disco mais pop, embora nunca descartável, como acentua o parceiro Fernando Abreu no release de divulgação do show de lançamento. Como foi sua gestação? O disco começou a ser idealizado no começo do novo milênio, mas por conta da agenda do Zeca [Baleiro, produtor do disco] e a minha decisão de passar um tempo na Europa, foi sendo adiado, até, finalmente em 2010, partirmos pra por em prática e realizar o sonho antigo. Muitos e-mails trocados com o Zeca até chegarmos a esse repertório que aí está. Compus algumas coisas especialmente pra esse cd, como por exemplo Oh, baby perdoe (Nosly e Zeca Baleiro), Aldeia (Nosly e Celso Borges) e Apesar de doer (Nosly e Vanessa Bumagny). Muitas idas e vindas, São Luís, São Paulo, São Luís, até a conclusão e lançamento em maio deste ano.
O que o público ludovicense pode esperar do show de lançamento do disco, que contará com a participação especialíssima de Toninho Horta?O show tem como base o repertório do cd e toco ainda algumas músicas do primeiro [Teu lugar] e do segundo cd [Nave dos sonhos]. A banda é sensacional: VICTOR BERTRAMI – BATERA, NEY CONCEIÇÃO – BAIXO e KIKO CONTINENTINO – PIANO [grifos dele]. O Toninho é amigo desde 86, quando eu participei do I Seminário Brasileiro da Música Instrumental, realizado em Ouro Preto. Considero o Toninho um dos maiores violonistas, guitarristas do mundo, além de consagrado compositor, grande ídolo, desde o tempo que ouvia o Clube da Esquina. Melhor agora, depois de tantos anos de amizade, poder estreitar mais ainda nossos laços musicais e contar com a presença dele no show. É uma honra pra mim e acredito que será também para o público que vai nos prestigiar.
Parador traz uma série de parcerias, com nomes como Celso Borges, Fausto Nilo, Fernando Abreu, Olga Savary, Vanessa Bumagny e Zeca Baleiro, entre outros, o primeiro e o último aqui listados talvez os mais antigos, parceiros desde o começo da carreira. Como se dão essas parcerias? Como é lidar com essa pluralidade? Cada parceiro tem sua importância e admiro todos eles, pois a parceria nasce antes, no coração da gente, só depois vira música. Já compus de n maneiras distintas, não dá pra prever nem premeditar, tudo nasce como deve ser, naturalmente. Recebo letras de música, poemas, ideias de melodias, enfim cada caso é um caso. O importante mesmo é que o momento seja pleno e que a ideia venha à cabeça. Tive a honra de compor com grandes nomes da MPB, como Nonato Buzar, Chico Anysio, João Nogueira, Tibério Gaspar, Sérgio Natureza, Zeca Baleiro, Chico César, Fausto Nilo, Luis Carlos Sá, Celso Borges, Fernando Abreu, Gerude, Luis Lobo, Olga Savary, Lúcia Santos, Cláudia Alencar, enfim, a lista é longa e sempre cabe mais um. É muito bom poder compartilhar momentos e afinidades e a parceira é a junção dessas duas coisas.
Como foi trabalhar com o parceiro Zeca Baleiro assinando a produção? Foi muito prazeroso trabalhar com o Zeca. Já fizemos tantas coisas juntos no passado, que facilitou nesse agora. Temos muita afinidade, crescemos juntos e ouvimos muita música naquelas tardes de Monte Castelo. Além disso, nossa concepção é bem parecida, embora cada um tenha sua maneira particular de evidenciar isso. Pra resumir, foi uma beleza fazer esse cd produzido por ele, pelas ideias que dividimos e pelo despojamento sobre qualquer sentimento de vaidade que pudesse macular esse nosso encontro.
Faixas como Oh, baby, perdoe (Nosly e Zeca Baleiro), I’ll be over you (Steve Lukather e Randy Goodrum) e So I’ll have to say I love you in a song (Jim Croice), têm um acento brega, seja pela temática romântica da primeira, a segunda uma balada original que aqui ganha versão reggae e a terceira por ter tido uma versão em português gravada por um ídolo do gênero, Fernando Mendes. Sobretudo em relação às duas últimas, como se deu a escolha para que entrassem no repertório de Parador? Apesar de ter ouvido na infância Odair José, Fernando Mendes, Amado Batista, Wando etc., tudo aquilo soava natural, era rotulado de brega, mas isso já tomou outra conotação dos dias de hoje. Tanto é que grandes nomes da MPB continuam gravando esses compositores ditos brega até hoje. Nada foi intencional, recebi a letra do Zeca pela internet, via e-mail, daí apenas dei vasão ao sentimento do momento. Melodia não tem hora pra acontecer e nem se sabe como vai ser. Você sente e põe no violão. Quando gravamos não tivemos essa preocupação de fazer um acento como se fora brega. Quisemos sim, fazer rememorar alguns timbres dessa época que caíram em desuso. Seria, pois ,uma retomada de algo que foi bom e se perdeu durante um tempo e que agora temos a chance pelo menos de registrar à nossa própria maneira e entendimento.
A faixa-título é uma homenagem a um tio teu, em cuja casa tu moraste, no Rio de Janeiro. Composta em parceria com Gerude e Luis Lobo, também dá a ideia de um Nosly cosmopolita, que já morou inclusive na Alemanha, onde foi gestado outro disco teu, o anterior Nave dos Sonhos. Qual o melhor lugar em que você já morou, seja por aspectos pessoais, mas sobretudo musicais?É muito bom ser cidadão do mundo, falar quatro línguas, sair em busca do aprimoramento, da melhora que todos almejamos. Belo Horizonte é bem marcante na minha vida. Tenho saudades de lá. O Rio de Janeiro, especialíssimo, e tenho sangue carioca: meu pai era carioca. Foi muito importante pra mim o tempo que vivi lá. E por último Düsseldorf, na Alemanha, onde vivi por cinco anos maravilhosos. Fica difícil apontar essa ou aquela cidade, cada uma tem sua medida de importância em meu coração. E quanto aprendizado!
Como você analisa o cenário da produção musical do Maranhão hoje? E no seu caso particular, é mais fácil ser reconhecido aqui, sua terra, ou lá fora? Claro que se você está num grande centro, São Paulo, Rio, BH etc., você tem mais oportunidades de mostrar seu trabalho, não tem o que comparar. Quanto à produção local, acho que fazemos música de altíssimo nível, lindas poesias, letras, lindas melodias que poderiam com certeza embalar corações mundo afora. Basta, pra que isso aconteça, oportunizar, formar plateia e ocupar espaços ociosos com bons espetáculos, seja de música, teatro, poesia, artes plásticas, dança, enfim, qualquer manifestação cultural com que o povo se identifique. Na Europa, tenho público cativo, são três cds editados lá. No Brasil, minha música é ouvida de norte a sul. Vivo em busca do reconhecimento, não importa onde seja, onde esteja. Se o povo quer me ouvir, lá sempre estarei.
"Colônias de abutres colunáveis/ gaviões bem sociáveis vomitando entre os cristais", cantaria Sampaio na letra do parceiro Natureza
Temo ficar me repetindo em depoimento sobre o Sampaio mas, pra mim, ter sido parceiro dele é um marco na minha vida de autor, algo que muito me honra e envaidece, mesmo porque fui o único parceiro (dos poucos que ele teve) que ele gravou cantando, e cujo resultado – fizemos poucas canções, em quase todas ele letrou textos meus – suplantou minhas expectativas e teve excelente resposta de quem as ouviu, de quem teve contato com elas. Para mim, a obra dele mantém até hoje um fescor, uma autencidade, uma assinatura – tanto do ponto de vista do autor/compositor como do intérprete – incomparáveis. É impressionante ver a receptividade, o entusiasmo das novas gerações ao tomar contato com o trabalho dele: sentem-se imediatamente envolvidos com os temas, as melodias, o canto do Sampaio – mesmo quando os termos, as gírias, as citações ficam, de certa maneira, datadas. Ainda assim há uma identificação da moçada com as propostas dele, como se houvesse um estranhamento magnético, algo tão carismático que transcende o hiato temporal, a aparente facilidade melódica/harmônica, o coloquial das letras – textos que, por outro lado, evidenciam um artista informado, antenado, de muita leitura, culto (sem ser necessariamente acadêmico) – enfim… Sérgio Sampaio foi (e é) para mim um exemplo de que é possível, ao mesmo tempo, ser autodidata, intuitivo e, ainda assim, refinado – sem nunca deixar de ser popular. Muito há ainda por ser revelado para se fazer justiça à obra tão particular, tão rica na sua simplicidade – que é tudo o que um artista popular busca… e raramente encontra. Sérgio Sampaio encontrou, fez esta ponte, esta síntese. Cabe a nós reencontrá-lo. Ter, modestamente, participado do trabalho do Sampaio, me é muito gratificante.
Depoimento que Sérgio Natureza deu a este blogueiro por e-mail, dia 12 de abril de 2007. Ao lado do de Celso Borges e da microentrevista com Zeca Baleiro, devia ter me ajudado a escrever uma matéria sobre o “sampaio seis ponto zero” (assim estava escrito no campo “assunto” dos e-mails que trocamos), que acabou não saindo e cujos elementos resgato agora por conta do (re-)lançamento de Sinceramente (1982) pela Saravá Discos.
Natureza, parceiro de Sampaio em Cabra cega (de Sinceramente), Velho bode (de Tem que acontecer, 1976) e Roda morta (do póstumo Cruel, 2005), assina o texto do encarte do disco ora recolocado na “roda viva” pelo selo de Baleiro. Saravá!
Arrisco uma correção ao e-mail/depoimento de Natureza: outro parceiro gravado por Sampaio em vida foi Raul Seixas, em disco que o capixaba e o baiano gravaram ao lado de Miriam Batucada e Edy Star, o Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das dez (1971), hoje cultuado por sampaiófilos, raulseixistas e outros apreciadores de boa música.
O relançamento acontece no Papoético, organizado semanalmente, sempre às quintas-feiras, pelo poeta Paulo Melo Sousa, vulgo Paulão.
Acontece no Chico Discos, sebo charmoso que ocupa o segundo piso do prédio em cujo primeiro está o Banco Bonsucesso, na esquina das ruas Treze de Maio e Afogados, no centro da capital maranhense.
Em tempo: tristeza ver, esquinas antes, um banco, uma “loja de crédito” ocupando a casa em que outrora funcionou a saudosa Livraria Athenas.
Ingressos para o Papoético grátis. A Pitomba! sai por apenas R$ 5.