Sem tirar de dentro

A ginga de Patativa ladeada por Philippe Israel e Cauê Veloso. Foto: Zema Ribeiro

 

Philippe Israel (pandeiro e voz) cantou dois sambas da Madre Deus à guisa de aquecimento: Araçagi, de Cristóvão Alô Brasil, e um de Luís de França, uma das muitas lendas do bairro, berço do gênero na capital maranhense.

Patativa chegou trajando seus indefectíveis chapéu e galho de arruda na orelha esquerda. A maioria em pé, um bom público já aguardava no pátio do Centro Cultural Vale Maranhão (Av. Henrique Leal, 149, Praia Grande). A pedreirense, que acabaria por tornar-se a mais madredivina entre as sambistas, inaugurava a temporada 2018 do programa Pátio Aberto, com shows semanais gratuitos, sempre às quintas-feiras, às 19h.

Foi apresentada pelo cordelista Moisés Nobre, que emendou, com personalidade, versos de alguns sambas de Patativa ao chamá-la ao palco. Esta não se fez de rogada e atacou com um tambor de mina, abrindo a apresentação que se equilibraria entre músicas inéditas e algumas gravadas em Ninguém é melhor do que eu [Saravá Discos, 2014], até aqui seu único registro fonográfico.

Casos da própria Ninguém é melhor do que eu, Santo guerreiro e Xiri meu – que invariavelmente é a mais pedida pelo público, que dança e canta em coro. Entre as inéditas, destaque para Feijoada incompleta. “Chico Buarque tem a Feijoada completa; Patativa fez a Feijoada incompleta”, provocou Philippe. “Essa é uma boa história. Um dia um amigo me chamou para um aniversário. Eu fui. Chegando lá, me serviram uma feijoada que era só feijão e água”, contou para risos da plateia.

No intervalo entre uma música e outra, virou-se para Cauê Veloso (cavaco e voz): “bóra, meu filho, três sem tirar de dentro, pra eu sair ligeiro”, brincou. A apresentação durou cerca de 45 minutos.

Além de Philippe e Cauê, a banda se completava com ​ Kit (violão), Marcão (percussão), Osvaldo (percussão) e Ricardo (percussão). O show acabou com outro medley madredivino, com sambas compostos pelos saudosos Henrique Sapo, Paletó e Bibi Silva para o bloco Fuzileiros da Fuzarca, do qual Patativa é integrante.

O bis ficou por conta de Babado na favela, outra autoral gravada em Ninguém é melhor do que eu. “O show não acabou. Todo mundo pra Fonte!”, convidou Philippe Israel, anunciando o esticar da noite no tradicional Samba na Fonte, na Fonte do Ribeirão, cartão postal da cidade, agora emoldurado de samba.

Dos terreiros e arraiais aos salões de reggae

George Gomes apresenta Bumba Roots – Volume 01. Capa. Reprodução

 

Se “reggae e boi têm semelhantes passos”, como nos ensinou o mestre Inaldo Bartolomeu, na toada Luzes e estrelas (1997), do Bumba-meu-boi Mocidade de Rosário, George Gomes aprendeu bem a lição.

Ex-Legenda, banda que era considerada a “radiola viva” do Maranhão, o que estava para além de mero slogan, George Gomes integra um seleto time de músicos com rara desenvoltura: o dos bateristas que cantam, o que lhe faz par de astros como Ringo Starr (Beatles), Phil Collins (Genesis), Serginho Herval (Roupa Nova) e Don Henley (Eagles), para citar uns poucos.

Em George Gomes apresenta Bumba Roots – Volume 01, o artista torna reggae 10 toadas clássicas do período junino no Maranhão. As toadas deixam os terreiros e arraiais para frequentar os salões dos clubes de reggae. O resultado é curioso e agradável.

Boi de lágrimas (Raimundo Makarra), Boi da lua (Cesar Teixeira), Engenho de flores (Josias Sobrinho), Tempo de guarnicê (Gerude, Omar Cutrim e Ronald Pinheiro, no disco creditada apenas ao último), Urro do boi (Coxinho), Estrela do chão (Gerude e João Marcus), Lua cheia (Luís Bulcão e Zé Pereira Godão, no disco creditada apenas ao primeiro), Catirina (Josias Sobrinho), Mimoso (Ronald Pinheiro) e A natureza (Lobato), na ordem em que figuram no disco, pintam de verde, amarelo e vermelho o couro do boi.

George Gomes (produção, bateria, percussão e voz) acerca-se de um time que ele chama de Radiola Viva: Edinho Bastos (guitarra), Jayr Torres (guitarra), Davi Oliveira (contrabaixo), Jesiel Bives (teclados), Gabriel Fernandes (flauta) e Rui Mário (sanfona).

Hoje socialmente aceitos, tanto o bumba-meu-boi quando o reggae foram alvos de preconceitos em seus surgimentos por estas plagas: o primeiro era “coisa de negros”; o segundo também, e mais que isso, produto “importado”, portanto “ilegítimo”. Atualmente, são elementos da identidade do povo do Maranhão, com parcelas da população orgulhando-se de um e de outro.

O que George Gomes faz é fundi-los, talvez assim ampliando os horizontes de quem porventura ainda acredite que é preciso negar um para afirmar o outro. Se o nome disco termina em Volume 01, já há a ansiedade por um segundo volume, num futuro tomara que breve. Torno à lição de Inaldo Bartolomeu, que o artista aprendeu, mesmo sem gravá-lo de saída: “o orvalho da miscigenação/ madrugando costumes e compassos/ mestiçando Jamaica e Maranhão”.

A Jamaica no Brasil

O cantor Gregory Isaacs em foto exposta em Jamaica, Jamaica! Foto: Beth Lesser. Reprodução

 

SÃO PAULO – O quinto andar inteiro do Sesc 24 de Maio [Rua 24 de maio, 109, República, São Paulo/SP] está inteiramente ocupado com tudo o que diz respeito ao maior produto de exportação da Jamaica. É a mais abrangente exposição em cartaz sobre o reggae no Brasil.

Exemplares raros de compactos e LPs, equipamentos de estúdio, instrumentos musicais, sound systems, fotografias e manuscritos de Bob Marley e Peter Tosh mostram parte de um universo muito maior do que sonha a nossa vã filosofia.

Conectando um fone de ouvido é possível ouvir parte da história, através de gravações colocadas à disposição dos visitantes. A exposição conta, inclusive, com uma web rádio, que ficará no ar enquanto Jamaica, Jamaica! estiver em cartaz – até 26 de agosto, com entrada franca.

Por falar em cartaz, o cinema também é destaque: trechos de vários filmes são projetados, dando a exata dimensão da importância do reggae. Também são vistos por lá os cartazes original e o japonês de The harder they come (1971), estrelado por Jimmy Cliff, bem como a camisa preta com a estrela amarela de seis pontas usada pelo cantor-ator no filme de Perry Henzell, que no Brasil ganhou o título de Balada sangrenta – a música-título, em versão de Nando Reis, então nOs Titãs, virou Querem meu sangue.

Ao lado dos objetos já citados, maquetes reproduzem pedaços do país, o ambiente propício ao desenvolvimento de uma música feita para, mais que ouvida, ser sentida. Pinturas e esculturas resgatam elementos da religiosidade, algo a que o reggae sempre esteve muito ligado. Importante frisar esta característica da exposição: apesar do centro das atenções ser o reggae e outros gêneros musicais oriundos da Jamaica, antes e depois, como o mento, ska, rocksteady e dub, Jamaica, Jamaica! não se restringe à música, perpassando temas culturais, sociais, políticos e religiosos/espirituais.

O reggae – e seus derivados – é hoje um fenômeno mundial, embora outros nomes importantes para o gênero, lembrados na exposição, sejam ainda ofuscados pelo de Bob Marley, considerado o rei, o maior em todos os tempos. Em templo de tantas majestades, outro rei bastante lembrado é Lee “Scratch” Perry, ainda na ativa, bruxo fundamental para o desenvolvimento e popularização do dub – a que provavelmente faz referência o eco do título da exposição. Particularmente, penso também em sua abrangência e aí o nome da ilha caribenha poderia ser repetido indefinida e exaustivamente.

Ademar Danilo nos estúdios da Mirante FM, em meados da década de 1980. Reprodução

O Maranhão, como um dos terrenos brasileiros em que o reggae se tornou bastante popular, é lembrado com na exposição, através de panfletos turísticos, artigos de jornais e fotografias. Ademar Danilo, hoje diretor do Museu do Reggae do Maranhão, aparece, fotografado nos estúdios da Rádio Mirante FM, em meados da década de 1980, quando dividia com Fauzi Beydoun (que só depois viria a se tornar vocalista da Tribo de Jah), o comando do programa Reggae Night – hoje ele apresenta o África Brasil Caribe, aos domingos, das 10h ao meio-dia, na Rádio Timbira AM.

Também está lá, fotografado por Otávio Rodrigues (outra enciclopédia viva quando o assunto é o reggae e a Jamaica), Riba Macedo, colecionador pioneiro, um dos responsáveis pela popularização do fenômeno reggae por estas bandas.

Outro estado lembrado é a Bahia, onde o reggae se fundiu ao samba e o samba-reggae, espécie de avô da axé music, ganhou a força dos tambores de blocos como o Olodum. Um quadro intitulado Sound Systems de São Paulo também dá ideia da força que o reggae tem hoje na maior cidade da América Latina – certamente não à toa escolhida para abrigar a exposição.

Jamaica, Jamaica! chega maior ao Brasil, agregando elementos que ajudam a entender a força do fenômeno reggae no país, após ficar um ano em cartaz em Paris, concebida pela Cité de la musique – Philharmonie de Paris, com curadoria do jornalista e cineasta Sébastien Carayol. A abertura da exposição contou com a presença dos dois metros de altura de Nabii McIntosh, filho do ex-Wailers Peter Tosh.

Música sem fronteiras

A música se chama Marabaixo, ritmo típico do Amapá. Mas o grande homenageado é o tambor de crioula do Maranhão. A dupla Prettos, formada pelos cantores e instrumentistas Magnu Sousá e Maurílio de Oliveira, seus autores, gravou o segundo videoclipe do disco Essência da origem (2017) entre os Lençóis Maranhenses e o Centro Histórico da capital maranhense.

Magnu e Maurílio, ex-integrantes do Quinteto em Branco e Preto, grupo com relevantes serviços prestados à música brasileira e à preservação da memória de gigantes do universo do samba como Adoniran Barbosa e Ataulfo Alves, entre outros, fazem uma música sem amarras ou limites, sejam rítmicos ou geográficos.

Conheceram o marabaixo numa visita ao Amapá com a cantora Beth Carvalho, apaixonaram-se pelo tambor de crioula no Maranhão e, além dos dois ritmos das culturas populares locais, a faixa, batizada pelo primeiro, é um samba com pitadas de forró.

Beleza musical, beleza feminina: o clipe é estrelado por Deise D’anne, Miss Maranhão 2016, além das bailarinas Thalyta e Isabela Sousa e das coreiras do Tambor de Crioula da Alemanha – o duo Prettos gravou uma apresentação do grupo no São João maranhense, colocando a parelha em diálogo cênico com o cavaquinho e o pandeiro que emolduram versos como “olha a nega é bonita e faceira/ e tem muita tradição/ marabaixo, tambor de crioula de São Luís do Maranhão/ ela gosta de samba de roda, de dançar forró no Cachuera/ ai, meu Deus! Umbigada com ela é brincadeira”.

Sobram ginga e malemolência em samba bonito de ver e ouvir.

Veja o clipe de Marabaixo:

Dadivosa música

Foto: Zema Ribeiro

 

SÃO PAULO – O Palacete Teresa [Rua Quintino Bocaiúva, 22, Sé, São Paulo/SP] abriga a Casa de Francisca, bar que rapidamente se tornou literalmente um templo da boa música. O respeito pela prática é tanto que o serviço de bar e cozinha é suspenso durante as apresentações musicais.

Resultado: conferi a seco o bom show da cantora e sanfoneira Lívia Mattos, com participação especial de Ceumar, que a casa recebeu no último sábado (24) – também é proibido fotografar e, do mezanino, tive que me tornar um contraventor para garantir a foto que ilustra este post, ossos do ofício.

A artista subiu ao palco em uma roupa que lembra o figurino da capa de Vinha da ida, título de seu primeiro disco solo, lançado no fim do ano passado pelo programa Natura Musical – na capa do disco, a sanfona, seu instrumento, é a extensão do corpo de Lívia Mattos, artista de origem circense, como comenta ao longo da apresentação.

Ela é acompanhada de Maurício Paes (guitarra baiana e violão tenor), Rafael dos Santos (bateria) e Jefferson Babu (tuba), formação inusitada cuja soma de talentos converte o palco em picadeiro, para deleite da plateia.

Logo no começo, após um tema instrumental para aquecer banda e público, bota este para fazer o coro “uh, uh!” do refrão de Vou lá (parceria dela com o acordeonista franco-português Loïc Cordeone). Lívia vem da Bahia, onde bebeu nas fontes do circo, da antropofagia, do Tropicalismo e do universo de Glauber Rocha, como ela mesmo revela.

Melodia-a-dia (Lívia Mattos) ela oferece a “todos os circenses”. A música é um tango (circense, frise-se) que versa sobre os ofícios do circo, com o charme da tuba lembrando bandas em coretos de praças de cidades do interior.

Dessa herança circense é que provavelmente vem a força cênica de Lívia Mattos. Sua música é versátil, no tema e na melodia. “Deixa passar o que tiver de passado/ deixa ficar o que restou de sagrado”, diz a letra do xote Deixa passar (Lívia Mattos). Antes de cantar Sabia pouco do sal, gravada com a participação do pianista pernambucano Zé Manoel, contou a história da composição: “a música é a cara dele, eu acho que eu só fiz o download antes. Eu achava que só tinha feito uma parte da música, mandei para parceria, ele disse que tava pronta. Aí eu o convidei pra gravar comigo”.

Sob o céu, sobre o chão (Lívia Mattos) fecha com incidental de Alguém me avisou (Dona Ivone Lara).

Ao chamar Ceumar ao palco, sua convidada especial da noite, lembrou o show que fizeram juntas em 8 de março, Dia Internacional da Mulher, com repertório inteiramente dedicado a compositoras. Ao violão, Ceumar cantou Avesso (Alice Ruiz/ Ceumar), com Lívia Mattos na sanfona, dividindo os vocais. A banda volta a ser ouvida na segunda parte da música.

A anfitriã revela que o bolero Olhos de Teresa (Lívia Mattos) são uma homenagem à sua vó. “Na identidade o nome dela é Teresinha, mas meu avô a chamava de Teresa”, contou, lembrando algumas histórias de um funcionário do cartório local que “acabou com o mapa astral de muita gente”, para gargalhadas da plateia.

“Minha avó era um ano mais velha que meu avô, então na hora do casamento ele alterou a data de nascimento, por que era feio a mulher ser mais velha do que o homem. Um irmão meu nasceu no mesmo dia de outro, anos depois; ele pensou: aniversário no mesmo dia, vai dar confusão, vamos botar que ele nasceu uns dias depois”, contou, sorrindo e fazendo sorrir.

Xote inédito de Ceumar, composto em Petrolina/PE, Você e eu deu prosseguimento ao show, com ela e Lívia Mattos descendo do palco para cantarem dançando mais próximo ao público, ocasião em que a mineira brincou com a longa cauda do vestido da baiana. O público cantou junto o refrão: “ao som do coco, do reisado e do maracatu, maracatu, maracatu/ eu fui dançando e nessa dança eu só pensava em tu, pensava em tu, pensava em tu”.

Finda a participação de Ceumar, Lívia cantou Amarear (Lívia Mattos), faixa que fecha Vinha na ida, ali gravada com a adesão de Chico César – o paraibano, cuja banda a anfitriã integra, estava na plateia, prestigiando o show.

Não presente ao disco, ela cantou ainda Floricanto, da canadense Lhasa de Sela (1972-2008). Em Mais eu (Lívia Mattos/ Jurandir Santana), um provocante diálogo de sanfona e tuba, antes do retorno de Ceumar ao palco após os tradicionais pedidos de “mais um”. Encerrando o show, cantaram juntas O que eu quero levar (Lívia Mattos/ Loïc Cordeone) – cujos versos “viver é dívida/ promessa é dúvida/ o amor é dádiva” bem servem de sinopse do show e da própria dedicação da artista (bacharel em Ciências Sociais) à música – e Vou lá, com a plateia novamente fazendo coro.

Vozes imprescindíveis

As cantoras Camila Boueri, Tássia Campos e Milla Camões. Foto: divulgação

 

Sempre me causou certa angústia o ineditismo em disco de Milla Camões e Tássia Campos, cantoras de raro talento, cuja trajetória acompanho mais ou menos de perto há algum tempo.

Ambas já premiadas em categorias distintas no saudoso Prêmio Universidade FM, outrora uma espécie de termômetro da produção musical local.

Já há algum tempo também, a elas se juntou Camila Boueri, formando o Trio 123 (lê-se “um dois três”), que a julgar pelos talentos individuais, dispensa apresentações e maiores comentários – o grupo levou o troféu de melhor show também no Prêmio Universidade FM, em 2016.

Ouvir seu EP de estreia, intitulado simplesmente 123, explica parte da reclamação com que abro este texto. Teria sido fácil cada uma fazer qualquer coisa de qualquer jeito. Mas não é isso que as move. E isso também ajuda a explicar a qualidade do trabalho.

123 é soma. A soma dos talentos das envolvidas, não à toa eu já ter chamado, em texto, Tássia Campos de “recompositora” – o que também vale para suas parceiras.

É a soma de suas inquietações, suas posturas diante de um mundo em que elas têm andado na contramão, nadado contra a corrente, remado contra a maré.

Tais posturas estão demonstradas na escolha do repertório, de recados diretos, sem soar panfletário. Em quatro faixas elas revisitam e reprocessam o Choro de Lera (domínio público), A carne (Marcelo Yuka/ Seu Jorge/ Wilson Cappellette) e Geni e o zepelim (Chico Buarque).

O 123 é acompanhado por Márcio Glam (guitarra), João Paulo Cardoso (contrabaixo), Rui Mário (teclados), Thierry Castelo Branco (bateria em Geni e o zepelim e Choro de Lera), Fofo Black (bateria em A carne), Thiago Guerra (bateria em 123),

A única faixa inédita, que dá título ao EP, parceria de Herih e Andréa Frazão, também mete o dedo na ferida, sem rodeios, mas sem perder a delicadeza: “Eu sou feminina, quero a verdade/ minha poesia é o tesouro que me vale/ sei pra onde vou e de onde venho/ quem cola comigo sabe a força que eu tenho/ sigo meu caminho, faço a minha história/ desenho certinho o amanhã e o agora/ nossa canto ecoa, faz estremecer/ é canção de vida, é mulher divina e vou mostrar por quê”, diz a letra, que sintetiza as aventuras por que o trio passou até o EP – disponibilizado nesta quinta-feira (22) em plataformas digitais como Spotify, Deezer, Itunes e Google Play, entre outras.

Cachês de shows e pontos de rifas ajudaram a acalentar um sonho, cuja realização é fruto da força destas três mulheres e do fã-clube que colou com elas, não deixando a peteca cair.

O 123 não se curvou ante as adversidades e nos dá algumas lições com o EP homônimo: cantar afinado é importante, mas não basta; é cada vez mais necessário arregaçar as mangas – do que elas nunca se esquivaram.

A arte, em Camila Boueri, Milla Camões e Tássia Campos, está a serviço de várias causas, combatendo preconceitos, ajudando a compreender melhor determinadas situações, num mundo cada vez mais dominado por discursos de ódio, e a superar opressões cristalizadas.

Tudo isso com rara beleza poética e melódica, num exercício pleno de liberdade e emancipação, artística e feminina.

“Uma é pouco, duas é bom, três é bem melhor”, dizia o título do show que deu origem a tudo, em 2015, quando o Brasil ainda era presidido por Dilma Rousseff. No país do golpe, que tira não apenas o poder de uma presidenta legitimamente eleita, mas a vida de Marielle Franco, as vozes do 123 são imprescindíveis – a ousadia de sua soma precisa ser multiplicada.

Em tempo: em breve o Trio 123 anuncia uma temporada em São Paulo, assunto a que o blogue voltará oportunamente.

Alegria na contramão

Herih. Capa. Reprodução

 

Há força, frescor e originalidade na música de Heriverto Nunes, que agora assina simplesmente Herih – “estou em busca de mais leveza”, afirmou em entrevista a este resenhista e Gisa Franco, no Balaio Cultural de sábado passado (10), na Rádio Timbira AM (1290KHz), programa que apresentamos semanalmente ao meio dia.

Herih tem os dois pés fincados no terreiro, que remete à sua infância, embora sua obra não se limite ao rico universo da mãe África e das religiões de matriz africana – a Herih, o disco, comparecem, por exemplo, o samba (a autoral Só me lembra você (Samba de esquecer) e Bermuda, parceria com Lauande Aires) e o bolero (Do nada o amor, com Tiago Máci).

Herih, o disco, é uma espécie de antologia, dividia em quatro partes: Unplugged, com 10 faixas em que é acompanhado apenas do violão e guitarra de João Simas (que assina arranjos e produção); Olha Pemba, título de seu EP anterior (cujas cinco faixas aparecem aqui na íntegra), com direção musical e violão de João Eudes; Tambor de Mina, com pontos autorais (Nossa Senhora das Graças, Pedra preta, Arranca toco, Marinheiro e Cabocla braba) e de familiares, creditados como Tio Cristiano (Banzeiro do mar e Vovô Artur), Vovó Alenice (Princesa Maria) e Tia Dalvina (Preto velho do Ariri). Nestas nove faixas (gravadas ao vivo, com som captado por Beto Ehongue), o artista conta com a percussão de Mestre Eliezer e Banda Ajayô, além dos vocais de Camila Boueri, Milla Camões e Tássia Campos (o Trio 1, 2, 3, que dia 23 lança EP nas plataformas digitais), além de Mirna Voz. “Amigo é pra essas coisas. Botei as amigas pra cantar uma macumbinha”, agradeceu faceiro, na mesma entrevista.

Completam o rol de 27 faixas os bônus Pra sereia (Banco de areia) (Herih) e Pomba gira cigana, esta adaptada por Herih, incluindo um remix pelo dj Marcone Cutrim.

Na mesma entrevista, ele lembrou-se de um episódio de preconceito, sofrido ao apresentar uma música, por whatsapp, a um interlocutor não identificado que reagiu com um “Deus me livre”, “cruz credo” ou coisa que o valha. Era Seu tranca rua, música de sua autoria, que abre Herih, o disco que lança em show nesta quinta-feira (15), às 19h, no Buriteco Café (Rua Portugal, Praia Grande), com participações especiais de Milla Camões, Tiago Máci, Alex Ferr e Mestre Eliezer – o couvert artístico custa R$ 15,00.

Em tempos de preconceito, ódio e intolerância, a voz, a ginga e as criações de Herih se insurgem contra este triste estado de coisas. Ele personifica o espírito do brasileiro, que não deixa de fazer festa mesmo quando tudo parece conspirar contra.

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Veja o clipe de Olha Pemba (adaptação de Herih):

O protagonismo de Torquato

Torquato Neto – Todas as horas do fim. Cartaz. Reprodução

 

A voz de Jards Macalé em sua parceria com Torquato Neto em Let’s play that (1972) e a voz de Jesuíta Barbosa no poema Cogito, cujo último verso dá título a Torquato Neto – Todas as horas do fim [documentário, Brasil, 2017; em cartaz no Cine Lume, sessão diária às 20h30], abrem o filme de Eduardo Ades e Marcus Fernando, coalhado de referências, fazendo jus ao homem múltiplo e intenso que foi o tropicalista piauiense.

O primeiro anuncia: “quando eu nasci/ um anjo louco/ um anjo solto/ um anjo torto/ muito louco/ veio ler a minha mão”. E arremata: “vai bicho/ desafinar o coro dos contentes”. O segundo, voz que acompanhará o espectador por todo o filme, lê poemas, cartas e textos jornalísticos de Torquato Neto – cuja voz, de seu único depoimento gravado, de 1968, também é usada.

É um filme reverente, cuja montagem inteligente evoca todas as facetas de seu protagonista: poeta, letrista de música popular, jornalista, ator. Os depoimentos que ajudam a contar sua história são cobertos por trechos de filmes do cinema marginal e do cinema novo. As rápidas aparições de nomes como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Tom Zé são filmadas em super oito, de modo a manter a estética da época e não destoar das imagens de arquivo – resultado semelhante ao de No, de Pablo Larraín.

Curioso é o depoimento de Moreira Franco, ex-governador do Rio de Janeiro, hoje ministro-chefe da secretaria-geral do governo do ilegítimo, nome ligado a escândalos na política nacional, apelidado pelo saudoso Brizola de Gato Angorá, primeiro amigo de infância de Torquato Neto.

Entre as inúmeras citações cinematográficas – uns mais conhecidos, outros mais raros – comparecem O bandido da luz vermelha (1968, de Rogério Sganzerla), Vidas secas (1963, de Nelson Pereira dos Santos), Macunaíma (1969, de Joaquim Pedro de Andrade), Deus e o diabo na terra do sol (1964, de Glauber Rocha), Nosferato no Brasil (1971, de Ivan Cardoso, em que Torquato atua), O demiurgo (1970, de Jorge Mautner, em que Caetano atua), Apocalipopótese (1968, de Raymundo Amado), e Hitler terceiro mundo (1968, de José Agripino de Paula).

Se Gal Costa (uma das grandes intérpretes de Torquato) e Jards Macalé (um de seus muitos parceiros) não comparecem em depoimentos, aparecem cantando Mamãe, coragem (parceria com Caetano Veloso), ele tocando violão na banda dela. Não faltam composições como Pra dizer adeus (parceria com Edu Lobo), Geleia geral, A rua e Marginália II (as três com Gilberto Gil) e Deus vos salve esta casa santa (com Caetano), a dar ideia do quão relevante foi Torquato, não apenas para o Tropicalismo, apesar do suicídio aos 28 anos.

Torquato Neto escrevia compulsivamente. Foto: divulgação

A morte de Torquato Neto completou 45 anos em novembro passado e as homenagens que lhe têm sido prestadas ajudam a jogar novas luzes sobre sua obra. O piauiense foi o homenageado da última edição da Balada Literária, organizada pelo incansável Marcelino Freire – ano passado, além de São Paulo, seu território tradicional, chegou a Teresina, cidade natal de Torquato, e Salvador, para onde ele se mudou aos 16 anos e onde conheceu “o pessoal da Tropicália”.

A gaúcha radicada no Maranhão Isis Rost transformou seu trabalho de conclusão de curso em Ciências Sociais (UFMA) no livro O risco do berro – Torquato Neto: morte e loucura [ed. da autora, 2017], cujo projeto gráfico evoca a Navilouca, revista de número único editada por Torquato com Waly Salomão (1943-2003), que no filme sintetiza o amigo como uma atualização de Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Décio Pignatari. A autora foca, desde o título, em dois temas pouco presentes a Torquato Neto – Todas as horas do fim.

O documentário não especula, nem tira conclusões, mas faz bonito ao somar-se aos esforços de manter vivo o espírito de Torquato, protagonista da Tropicália, através de sua obra, vasta e diversa, para alguém que morreu tão jovem.

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Veja o trailer de Torquato Neto – Todas as horas do fim:

Titane percorre as estradas de Elomar

Titane canta Elomar – Na estrada das areias de ouro. Capa. Reprodução

 

Em show amanhã (10), às 21h, no Grande Teatro do Palácio das Artes, em Belo Horizonte/MG, a cantora Titane lança seu novo disco, inteiramente dedicado ao repertório do baiano Elomar Figueira Mello.

Titane canta Elomar – Na estrada das areias de ouro é o primeiro disco dedicado por uma mulher ao repertório do autor de O violeiro, Chula no terreiro, Cantiga do estradar e Na quadrada das águas perdidas, para citar algumas das 10 que ela gravou. O resultado é sublime.

Antes, em 1986, Xangai dedicou ao cancioneiro elomariano Xangai canta cantigas, incelenças, puluxias e tiranas de Elomar [Kuarup]. Recentemente, em 2015, seu filho João Omar gravou o instrumental Ao sertano – Peças para violão solo de Elomar F. Mello.

Sobre Titane canta Elomar – Na estrada das areias de ouro, conversei com exclusividade com a cantora, para a coluna mensal Emaranhado, que assino no site do Itaú Cultural. O texto fruto da conversa será postado por lá por estes dias (este post será editado com o link tão logo aconteça); antecipo a seguir a íntegra da conversa.

Foto: Luiza Palhares

Em sua carreira é a primeira vez que você dedica um disco ao repertório de um único compositor. A responsabilidade é maior?
Dedicar um disco todo à obra de um único compositor é novidade pra mim. Eu tenho, até aqui, feito discos e shows onde a grande variedade, mais que variedade, onde o contraste entre diferentes compositores é muito importante pra mim. Então, por um lado, nos meus shows, eu tenho, por exemplo, um anônimo de Araçuaí, do Vale do Jequitinhonha, ao lado de um Tom Jobim, ao lado do Edvaldo Santana, que é um compositor do subúrbio paulistano. Eu sempre tive muita necessidade desses contrastes pra dizer ao mundo o que eu penso da vida, que é uma vida cheia de contradições, uma cultura brasileira cheia de muitas culturas, um dia a dia que eu tenho que me faz estar em estradas de terra e em grandes avenidas asfaltadas. Enfim, eu sou aquela intérprete que leva recado de um mundo pro outro. Tem sido assim.

Por que Elomar?
Agora eu quis focar em um único autor e acho que fiz isso por que existe o Elomar. O Elomar me permite um recuo de espírito, lá pro fundo da alma humana, aquela alma que existe em todos os tempos, em todos os lugares, em diferentes culturas, então eu recuei pra esse mundo encantado do Elomar, que pra mim é o mundo da natureza humana no que ela tem de mais profundo. E não só profundo, mas inquieto, dolorido e cheio de beleza. Um mundo da natureza humana onde o homem tá sempre buscando entender o sentido da vida.

Diante de um universo tão vasto como o cancioneiro elomariano, como foi escolher as 10 que estão no disco?
As primeiras canções do Elomar que sempre me chamaram a atenção foram aquelas onde o Nordeste brasileiro está bem evidente. Então a primeira escolha, foi assim, foi com músicas onde o Nordeste se fizesse muito presente, inclusive ritmicamente. Os violeiros, os aboiadores, as mulheres firmes que vivem na seca. Depois, num segundo momento, que é a maneira como eu sinto muito o Elomar nesse instante, são as canções que contam histórias de reis, cavaleiros, aventureiros, que me conectam na nossa herança ibérica. Eu nunca tinha me debruçado sobre ela com tanta vontade. Até então meus discos, meu trabalho investigava muito a minha vida ligada ao mundo afro-brasileiro. E agora com Elomar eu caio de vez na cultura ibérica, assim de cabeça. A segunda temática assim, de canções escolhidas, é desse universo. E em terceiro lugar, logo que conversamos com Elomar sobre a possibilidade de gravar o repertório que a gente já começou a trabalhar, ele nos mandou uma lista de sugestões. Então eu incluí algumas sugestões do Elomar no repertório do disco.

Xangai já disse que o Brasil tem Tom Jobim, Pixinguinha e muitos outros, mas que Elomar é o maior. Você concorda com ele?
Tom Jobim, Pixinguinha e Elomar são genialidades irmãs, todas brasileiras. Cada um projeta um Brasil muito rico e complexo. O que talvez Elomar tenha diferente é que os grandes gênios do sertão, em sua grande maioria, são ainda conhecidos só lá dentro, e pouco apreciados. A gente tem pouca oportunidade de conviver com eles, mas eles são também a nossa alma cantante.

Seu disco é patrocinado com recursos públicos, através de mecanismos de renúncia fiscal [o disco é patrocinado pela Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais]. Como você avalia a necessidade destes mecanismos, sobretudo para artes que correm mais à margem do mercado, e como enxerga o momento de recuo das políticas públicas, não apenas culturais, no difícil momento que o Brasil atravessa?
Todos os lugares do mundo onde a produção artística é exuberante existem ou existiram em algum momento políticas públicas muito determinadas pra fazer a produção artística avançar e cumprir o papel que cabe a ela dentro da sociedade. No Brasil nós temos mecanismos que fazem, que intervêm realmente, na nossa produção cultural. Eu falo principalmente de Minas Gerais, que eu posso falar com mais tranquilidade. A existência dos mecanismos de apoio, de políticas públicas, são fundamentais pra que a nossa produção possa acontecer. Acho que o recurso público deve ser destinado a grandes segmentos da produção cultural que já não estejam excessivamente comercializados. Não faz sentido o dinheiro público ser usado pra grandes produções já comercialmente estabelecidas. Por quê? Por que quando se estabelece comercialmente uma grande faixa de mercado, é por que já há 10, 20 anos, há uma ou duas gerações, existe um grande coletivo de artistas elaborando aquela linguagem. Vamos usar como exemplo um grande ícone da axé music: ele só foi possível existir, de maneira comercial, como produto, por que há uma, duas, três gerações, existe uma grande comunidade, uma grande cultura consolidando aquela linguagem que vai ser a base de projeção comercial desse artista. A política pública tem que atuar no nascedouro, ela tem que atuar nas fontes criativas realmente da cultura e da arte, que são coletivas, que são disseminadas em muitos lugares, em muitos artistas. Sou contra o excesso, talvez até contra mesmo o uso de recursos públicos em grandes eventos comerciais. Esse momento pro país é terrível. A sensação de perda é muito grande, de história girando ao contrário. É nesse contexto que a gente teme pelas políticas públicas. Se nós saímos de um período em que houve um divisor de águas para melhor no governo Lula, por que a gestão do Gilberto Gil, ao lado do Juca Ferreira, foi uma gestão transformadora na ideia de cultura, na ideia institucional de cultura, na ideia das políticas públicas, o que estava por trás da gestão do Juca e do Gilberto Gil, dentro do governo Lula, era a ideia de um grande país com uma grande cultura construída por diferentes culturas étnicas e culturas de diferentes origens sociais, enfim, culturas urbanas, culturas sertanejas, culturas indígenas, de matriz africana, enfim. O grande conceito que se consolidou dentro da política pública no governo Lula foi esse conceito amplo, complexo, rico, que realmente corresponde à cultura brasileira. Nós estamos no momento, agora, onde acontece o contrário. É preciso acabar com a política pública da cultura, pensar que cultura, entre aspas, não existe, e o que deve haver é um monte de cabeças não pensantes, não produtoras de conhecimento, mas cabeças que atendam aos interesses econômicos que regem esse novo modelo político, que é o do governo Temer, que eu acho que são modelos econômicos pensados pra colocar o Brasil numa condição muito ruim internacionalmente mesmo, numa condição de servo das grandes empresas internacionais, pra gente ser apenas servo. Nós paramos de pensar nossa música, não damos palpite nas políticas de mineração, que são irresponsáveis e predadoras, enfim, por aí vai.

Outro guardião da obra de Elomar é o violonista João Omar, filho dele. Você teve algum contato na feitura do disco?
O João Omar é uma grande luz quando se trata da obra do Elomar. É um grande músico e se dedicar também à obra do Elomar é um presente pra nós todos. O disco do João Omar onde ele executa as peças para o violão feitas pelo Elomar é uma pérola, e o diálogo nosso com o João Omar começa nesse momento, ouvindo muito a maneira dele tocar, ouvindo a maneira dele proceder diante da obra do Elomar. Nós temos tido um contato já há algum tempo, o João Omar já nos ouviu tocando, cantando, espero que esse contato nosso se estreite cada vez mais. Eu tive uma oportunidade de cantar com ele, ano passado, num concerto do próprio Elomar. O Elomar convidou vários de nós em Minas pra poder participar da apresentação que ele fez comemorando seus 80 anos em Belo Horizonte. Nessa oportunidade a gente cantou juntos com Elomar, eu cantei e também cantei acompanhada pelo João Omar, e é uma experiência que eu espero que se repita muitas vezes.

Merece destaque o time de músicos arregimentado para esta empreitada. Vamos falar um pouco do convívio durante a realização do álbum?
Músicos todos inspiradores. Eu devo a atitude, a decisão de gravar esse disco a dois músicos: primeiro ao Kristoff Silva, que eu convidei pra produzir o cd junto comigo, que tempos atrás falou pra mim: “Titane, tá na hora de você dedicar um disco a um autor e esse autor deve ser o Elomar”. Então eu fiquei com isso em mente e agora na hora de gravar, convidei o Kristoff para produzir comigo. O segundo ser fantástico [risos] é Hudson Lacerda, que é um artista muito, muito, muito especial, um violonista privilegiado, virtuosístico, com uma formação acadêmica muito rigorosa, muito consistente, mas acima de tudo um grande músico brasileiro, que domina a música brasileira de todos os tempos, toca tudo, canta música da década de 1930, 40, 50, a produção nossa recente e também domina muito a música latino-americana. Então é um violonista que recentemente se dedicou à obra do Elomar tendo todo esse lastro de conhecimento e de prática com a música, como solista, inclusive, com a música brasileira e latino-americana. Junto com o Kristoff Silva, ele foi um dos quatro violonistas que transcreveu para partituras a obra do Elomar. Dos quatro, o Hudson foi o que pegou o violão para conferir as partituras ao lado do Elomar. É um privilégio ouvir Hudson tocando Elomar. Quando eu comecei a cantar com ele eu fiquei muito encantada, muito tomada pela excelência do violão dele, eu decidi fazer o repertório junto com ele, fizemos alguns shows juntos, só nós dois, em salas sem amplificação nenhuma de som, feitas pra música de câmara, e agora ele tá junto comigo no disco. O violão do Hudson no disco e também nos shows é o ponto de partida pra toda a construção dos arranjos e a chegada dos outros instrumentos. Nós, Kristoff e eu, decidimos pela inclusão de um contrabaixo, coisa que a gente tem pouca oportunidade de ver atuando no repertório do Elomar e precisávamos de um baixista atento, disponível e que topasse encontrar a melhor forma de fazer o baixo, de criar, de fazer o contrabaixo, que encontrasse a melhor maneira de fazer com que o contrabaixo cumprisse sua função dentro da música. Então a gente convidou o Aloízio Horta que fez isso com muito esmero. A presença do baixo é fundamental no disco, inclusive serve bastante como contraponto pra minha voz, que tem um colorido muito claro, eu sinto sempre muita falta do contrabaixo, dos tambores, contracenando com a minha voz e o Aloízio veio dar essa grande contribuição. O outro músico é André Siqueira, que é um músico com habilidades muito grandes assim, que toca várias cordas, violões, violas, charangos, cavaquinhos, toca isso tudo com muita versatilidade, com uma capacidade de improvisação muito grande. Ele foi convidado, trouxe vários instrumentos e acabou tocando a viola de 14 e o bouzouki [instrumento de cordas semelhante ao alaúde], que é um instrumento celta que ele trouxe e que se encaixou muito bem no que a gente gostaria de ter. O André Siqueira atualmente é radicado em Londrina e veio gravar conosco. O outro músico convidado, de presença definitiva no disco, e agora também convidado especial do show, é o grande Toninho Ferragutti. O Toninho Ferragutti tem um papel fundamental na construção da história do acordeom dentro da música brasileira. Eu considero o acordeom um dos instrumentos fundantes da nossa música e o Toninho, dentro da história do acordeom, ele é peça chave. É aquele cara que consegue pensar um instrumento e fazer com que ele colabore com todo tipo de linguagem musical, de linhagem musical, ele consegue mostrar o quanto o acordeom é fundamental e pode contribuir pra essa construção da música. Houve um momento em que eu conversando com Elomar, falei: “Elomar, em algumas canções eu queria ter um volume sonoro maior, uma variedade maior de timbre, tou pensando em que instrumento colocar”, e ele falou: “acordeom, acordeom, é claro que é o acordeom”. Foi seguindo o palpite do Elomar que a gente decidiu pelo acordeom e inevitavelmente recaímos sobre o Toninho Ferragutti e eu sou muito agradecida por ele ter topado trabalhar conosco. Não podia faltar o querido grande Pereira da Viola, um dos grandes violeiros da música brasileira, que inova na linguagem da viola e ao mesmo tempo permanece como um legítimo folião de reis, de uma família que faz sua folia de reis até hoje, lá no meio do sertão. Ele é muito querido, tem uma voz que evoca outras vozes, que nos remete a outros tempos. Ele está mais uma vez como meu convidado no meu disco. Eu sou convidada em vários trabalhos dele, ele é meu convidado também em vários dvds, cds, nossa parceria permanece.

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Veja a participação de Titane e Hudson Lacerca no Sr. Brasil, apresentado por Rolando Boldrin na TV Cultura. A dupla interpreta Cavaleiro do São Joaquim (Elomar):

Receitas para a liberdade

Taurina. Capa. Reprodução

 

Anelis Assumpção não é uma vaca sagrada da MPB. Tampouco descende de uma – Itamar Assumpção – ou é casada com outra – Curumin. Operária e artesã, Taurina [Scubidu/ Natura Musical, 2017], seu terceiro disco solo, demonstra a consolidação de uma carreira pautada pela coerência.

Pintada por Camile Sproesser, Anelis Assumpção figura na capa com os seios à mostra, misto de mulher e vaca, animal de muitos significados, segurando os ingredientes com que preparará e servirá o banquete, coisa fina.

A cantora posa para a pintura da capa do disco. Foto: Caroline Bittencourt

Sozinha ou em parceria, Anelis Assumpção é autora das 13 das 14 faixas – a única exceção é Receita rápida, parceria de seu pai com Vera Motta –, ambientadas entre a cozinha e a feira, com seu Pastel de vento (título de uma das faixas), seus Caroços (I e II, sambas em parceria com Russo Passapusso), sua Água (parceria com Rodrigo Campos) e sua Moela.

Segunda a sexta, primeiro single lançado (ainda em janeiro), fala de um amor proibido, de forma bastante sutil, pontuado pelo trocadilho entre o dia da semana e o utensílio em que se carregam frutas e verduras: “Eu fui na feira pra te ver/ você ñ foi na feira ñ/ é de segunda a sexta/ é de segunda a sexta/ de segunda a sexta/ eu fui sozinha pra te ver/ alguém pegou na tua mão/ meu coração na cesta/ meu coração na cesta/ coração na cesta/ minha fruteira está vazia/ burocracia mandou avisar/ tão insalubre que essa vida/ anda/ com dia e hora para te encontrar”, diz a letra.

Em Chá de jasmim, parceria com a irmã Serena Assumpção (falecida em março de 2016), a quem ela dedica Taurina, canta: “joguei água na chaleira/ deitei a flor do jasmim/ naquele dia/ eu te dava na cozinha/ cê gozava e eu fingia/ que tinha amor ali”.

Anelis Assumpção subverte. A feira e a cozinha, às quais as mulheres sempre estiveram confinadas, torna-se o lugar em que elas estão por opção, fazendo o que bem entendem. Pastel de vento, por exemplo, brinca com a típica iguaria para falar de amor e prazer: “Pastel de vento/ silêncio no meio/ receio meu coração dentro/ nada de recheio no recreio/ coração ao meio/ é lento e ligeiro/ meio tensão/ meio tesão”, canta.

Sobre a liberdade de estar onde quiser e fazer o que quiser, Anelis Assumpção também canta em Amor de vidro (parceria com Russo Passapusso e Saulo Duarte): “Nosso amor é feito de vidro/ ½ dúzia de cervejas que tomamos/ num boteco ali na esquina/ frágil e delicado nosso amor pode quebrar/ uma ampola e dois cigarros/ e me entrego sem pestanejar”.

Ex-integrante do cult DonaZica (que também tinha Andréia Dias e Iara Rennó, para citarmos apenas as cantoras), é difícil falar em disco solo de Anelis Assumpção, ela que está sempre bem acompanhada. Em Taurina destacam-se as guitarras de Lelena Anhaia e Cris Scabello, mellotron, wurlitzer, violão e piano de Beto Villares (produtor do disco), os contrabaixos de Zé Nigro (coprodutor) e MAU, a bateria de Bruno Buarque, além da participação especial do Negresko Sis (Anelis, Céu e Thalma de Freitas) em Receita rápida.

Por falar em receita, nas de Anelis Assumpção todo ingrediente vira música: neste disco, áudios de whatsapp de amigos (Tulipa Ruiz, Céu, Karina Buhr, Ava Rocha e Laís Sampaio em Chá de jasmim) dialogam com tudo o que está posto à mesa.

Merecem destaque ainda o reggae Paint my dreams e Escalafobética (parceria com João Donato), em que inventa palavras, num texto que evoca Graciliano Ramos para novamente falar da mulher – afinal de contas, pauta principal desta obra de arte.

O disco, aliás, abre com um convite: “senta aqui comigo nessa/ pedra/ descobre teu drama/ meu sangue/ rio escorre/ vamos dar um mergulho interior”, chama em Mergulho interior. Quem tiver apetite, curiosidade e sensibilidade não recusará.

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Veja o lyric video de Segunda a sexta (Anelis Assumpção):

Intimidade, bom humor, beleza e afeto

Foto: Zema Ribeiro

 

Zé Renato esteve em São Luís como convidado do show de lançamento de Avessa manhã, novo disco que Tutuca Viana lançou quinta-feira passada, do qual o capixaba tornado carioca participa.

Aproveitou a passagem pela ilha para uma hora extra e fez um show intimista e bem humorado, de repertório afetivo, para um seleto público, no Clube do Chico, ontem (3).

Subiu ao palco após apresentações de Gabi, Luiz Jr. e Marconi Rezende – com quem dividiu o primeiro número, quando o anfitrião confessou só ter descoberto recentemente que Feito mistério (Lourenço Baeta e Cacaso), que tanto ouviu com o Boca Livre, havia sido também gravada pelo grupo – de que Zé Renato é integrante – com a participação especial de Chico Buarque. Zé Renato agradeceu a participação especial elogiando-o: “Marconi Rezende Buarque de Holanda. Eu estava ouvindo o Marconi cantando, não só Chico Buarque, eu tenho certeza que qualquer autor gostaria de ser cantado por ele”, declarou.

Em Anima (Zé Renato e Milton Nascimento) – que Zé Renato já havia cantado em sua participação especial no show de Tutuca – contou a história: “eu morava num apartamento na Gávea, dividia com o Vinicius Cantuária e um dia o Chico Buarque apareceu. Pediu para mostrar o que estávamos fazendo, eu mostrei essa melodia, ele levou e disse que ia musicar. Daí eu fui fazer um show em Minas com o Boca Livre e mostrei pra Milton e disse que Chico ia musicar. Aí ele disse: diga para o Chico que essa quem vai musicar sou eu. Aí eu liguei para o Chico desconvidando, eu tenho isso no meu currículo”, riu junto com a plateia.

“Por falar em Milton, a primeira vez que eu o ouvi”, afirmou antes de cantar Travessia (Milton Nascimento e Fernando Brant). “Quando eu vi o show de Milagre dos peixes [1973], em que Milton era acompanhado pelo Som Imaginário, foi que eu decidi que música era o que eu queria para minha vida”, confessou.

Zé Renato passeou pelos repertórios de sua carreira solo e do Boca Livre, mas demonstrou também sua ascendência musical, enumerando nomes importantes para a sua formação. Antes de cantar Diana (Fernando Brant e Toninho Horta), anunciou: “essa é do Fernando Brant com um dos maiores guitarristas do Brasil”, ocasião em que lembrou que 2018 marca os 40 anos do Boca Livre. Em seguida cantou Mistérios (Joyce e Maurício Maestro), também do repertório do grupo.

Depois foi a vez de reverenciar outro nome da MPB. “Outro cara importante, o Boca Livre tem a honra de ter gravado Geraldinho Azevedo em dois discos”, lembrou, antes de emendar Barcarola do São Francisco (Geraldo Azevedo e Carlos Fernando) e Caravana (Geraldo Azevedo e Alceu Valença).

Em roteiro tão coeso, difícil apontar destaques, mas Acontecência (Cláudio Nucci e Juca Filho) botou parte do público para cantar junto. A hora e a vez (Ronaldo Bastos, Zé Renato e Cláudio Nucci) antecedeu Estácio, holly Estácio (Luiz Melodia), cujo compositor Zé Renato afirmou figurar em seu repertório afetivo.

“Agora uma compositora, a grande Sueli Costa”, anunciou antes de cantar Dentro de mim mora um anjo (Sueli Costa e Cacaso). Após cantar Diz que fui por aí (Zé Keti e Hortensio Rocha) lembrou de quando conheceu Zé Keti. “Meu querido José Flores de Jesus, Zé Keti. Eu já conhecia o Zé Keti compositor, sabia seus sambas, mas só depois de gravar o disco dedicado a seu repertório [Natural do Rio de Janeiro, de 1995] é que fui conhecê-lo pessoalmente. E o Zé Keti dava em cima de todo mundo. Inclusive de nossas mulheres, com nosso consentimento [risos]. Uma vez chamaram a gente para gravar um programa de tevê, ele lembraria a Lapa de seu tempo, eu falaria da Lapa de agora, na época. Tudo combinado, botaram o microfone lapela nele, ele vinha caminhando e de repente passa uma mulher e ele: que bela bunda! E o pessoal: corta!”, tornou a rir com a plateia.

Quando Zé Renato veio participar do 3º. São José de Ribamar Jazz e Blues Festival, no final de 2016, com o projeto Dobrando a Carioca, em que divide o palco com Guinga, Jards Macalé e Moacyr Luz, eles estavam lançando o cd e dvd ao vivo, de modo que o município da ilha recebeu o primeiro show após aquele trabalho ficar pronto. Desta vez ele trazia na bagagem Bebedouro [2017], seu novo disco, que ainda não teve show de lançamento. De lá, cantou Vamos curtir o amor, parceria com Moraes Moreira.

A bem humorada Como tem Zé na Paraíba (Manezinho Araújo e Catulo de Paula), do repertório de Jackson do Pandeiro, gravada por ele em Cabô [1999], lhe cai à perfeição: “mas o diabo é que eu me chamo Zé”, brinca a letra.

Outra do repertório do Boca Livre, Desenredo (Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro) precedeu o bloco dedicado a Chico Buarque – a que dedicou, ao lado de Noel Rosa, o disco Filosofia [2001]; o poeta da Vila, no entanto, não foi lembrado ontem.

Seguiram-se Morena dos olhos d’água (Chico Buarque), Samba do grande amor (Chico Buarque), Samba e amor (Chico Buarque) e Tua cantiga (Chico Buarque e Cristóvão Bastos), de Caravanas, disco mais novo de Chico Buarque. “Estou fazendo um show com Cristóvão Bastos, parceiro do Chico nessa música e pedi a ele umas dicas; se eu errar, vocês me perdoam, mas eu acho que vocês vão cantar juntos, vocês sabem tudo”, provocou, antes de cantar lendo a letra. O bloco de Chico foi fechado com Eu te amo (Tom Jobim e Chico Buarque), gancho para O amor em paz (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), que levou o cantor a se lembrar da honra do convite para gravar a trilha sonora de O tempo e o vento, de que a música faz parte.

Zé Renato devolveu a gentileza e convidou Tutuca Viana ao palco. Emprestou-lhe o violão e juntos cantaram Que prazer (Tutuca Viana), faixa que abre Avessa manhã, com a participação especial de Zé Renato. Do palco, Tutuca pediu a Zé Renato que mostrasse uma parceria inédita com Zeca Baleiro: “é a estreia mundial”, brincou Zé Renato. Depois cantaram juntos Boi danado (Sérgio Habibe), outra música gravada pelo Boca Livre.

Em Boca Livre, aliás, terminaria a noite. Ou melhor: o show de Zé Renato. Ele cantou Toada (Na direção do dia) (Zé Renato, Cláudio Nucci e Juca Filho), outra que já havia figurado em sua participação no Teatro Arthur Azevedo, dois dias antes. Atendendo aos pedidos de “mais um” emendou Quem tem a viola (Zé Renato, Cláudio Nucci, Juca Filho e Xico Chaves).

A noite continuou com a volta de Marconi Rezende ao palco, em gratidão que era sua mas que traduzia a de todo público presente, satisfeito com o espetáculo de rara beleza que presenciou.

Noite de prazer

Foto: Fernanda Torres

 

Tutuca Viana referiu-se acertadamente ao Teatro Arthur Azevedo como palco sagrado. Festejou seu reencontro com a casa enquanto cantor e compositor, ele que, costumeiramente, nos últimos anos, tem estado mais entre a plateia e os bastidores, assistindo ou produzindo shows.

O artista estava em casa, entre amigos. A começar pela banda: Marcelo Carvalho (teclado), Nema Antunes (contrabaixo), George Gomes (bateria), Darklilson (percussão) e Israel Dantas (violão, guitarra, arranjos e direção musical).

Fez um show divertido, tão à vontade se sentiu. Abriu com Broto (João Marques). Lembrou-se de seus tempos de esquina de Alecrim com Sete de Setembro, no Centro da cidade, quando começou a compor. Confessou influências e partilhou histórias com a plateia. Contou com a participação especial de Rui Mário (sanfona) em dois números.

Não se envergonhou ao admitir ter esquecido a letra de Tão dia, parceria com o piauiense Cruz Neto. O público aplaudiu mesmo o erro e ele começou novamente, sentado, ao violão, acompanhado apenas por Israel Dantas.

Ao longo do show, passeou por todo o repertório de Avessa manhã e, ainda sentado, ao violão, acompanhado pelo irmão Marcelo Carvalho, lembrou sucessos antigos: Beijo de luz (Tutuca Viana, Reinaldo Barros e César Nascimento), Canoa quebrada (Tutuca Viana e Gigi Castro) e Morada de trem (Tutuca Viana e Reinaldo Barros). A plateia fez coro.

Chamou a primeira convidada da noite. Acompanhada por Tutuca ao violão, e Darklilson ao tamborim, Tássia Campos cantou Nada como o tempo (Tutuca Viana e Veiga Neto), bonito samba inédito. Em seguida, ela ficou só no palco, gracejou com a solidão e a escuridão, desculpou-se por não ser uma exímia violonista, e lembrou-se de um prêmio recebido na Rádio Universidade FM por sua gravação de Logradouro (Kléber Albuquerque), que cantou.

Tutuca botou o público para estalar os dedos no jazz Meu grande amor (Tutuca Viana) e em seguida chamou Zé Renato ao palco, com quem dividiu os vocais em Que prazer (Tutuca Viana), faixa que abre Avessa manhã, que está tocando bem nas rádios locais. Ambos trocaram gentilezas e fizeram trocadilhos com o título da música e o prazer mútuo de estarem ali. O anfitrião revelou ter mostrado a música a Jards Macalé e este ter dito que “é a cara do Zé Renato”, imitando a voz do autor de Vapor barato. “Que bom que você gostou e topou participar”, tornou a agradecer.

Capixaba adotado pelo Rio de Janeiro, Zé Renato ficou sozinho ao palco e lembrou três sucessos, sentado, ao violão: Anima (Zé Renato e Milton Nascimento), Papo de passarim (Zé Renato e Xico Chaves), que intitulou o disco que dividiu com Renato Braz em 2011, e Toada (Na direção do dia) (Zé Renato, Cláudio Nucci e Juca Filho), talvez o maior sucesso do Boca Livre – certamente um aperitivo do show que ele não anunciou ontem, mas fará amanhã (3), às 20h, no Clube do Chico (Rua Uirapuru, 17, Calhau – entrada do Grand Park, pela Av. dos Holandeses, primeira à esquerda; ingressos: R$ 45,00; reservas limitadas pelo telefone (98) 99988-9186).

Tutuca lembrou-se ainda de “um cara que eu sempre admirei e acabei me tornando amigo, que infelizmente nos deixou”, antes de tocar “uma que não estava no script”, Na hora do almoço (Belchior). Com a banda de volta ao palco, teceu elogios a Zezé Alves, autor de Índio guri (parceria com Ricardo Valente), que defendeu “em um festival no [ginásio] Costa Rodrigues. Foi acompanhado por um coro de cinco crianças.

Encerrou o show com a pegada rock de O caos de cada dia (Tutuca Viana) e Segredo (Tutuca Viana e Sérgio Habibe). Com o público aplaudindo de pé, perguntou: “vocês querem que a gente saia, dê um tempinho e volte para o bis, ou a gente faz logo?”. Fizeram logo: Zé Renato voltou ao palco e novamente cantaram juntos Que prazer.

Alexandra Nicolas lança Coco Fulero, primeiro single de seu novo disco, Feita na Pimenta

[release]

Foto: Veruska Oliveira

Em seu disco de estreia, Festejos [Acari Records, 2013], completamente dedicado ao samba e ao elogio do universo feminino, a cantora maranhense Alexandra Nicolas já fazia esvoaçar a saia rodada, deixando à mostra a ponta dos pés e um desses pés já se voltava ao Nordeste.

Em Feita na Pimenta [2018], ela entra com os dois no terreiro, em cofo em que cabe de tudo o que se abriga sob o que costumeiramente chamamos forró – xote, baião etc. –, além de tambor de crioula e coco.

O disco equilibra-se entre temas caros ao forrobodó: amor e chamego, jocosidade e duplo sentido, com muita malícia e bom humor.

O primeiro single é Coco Fulero (João Lyra e Zeh Rocha), que não foge aos acalorados debates do momento: em ano eleitoral, Alexandra Nicolas dialoga com o noticiário político, em faixa recheada de referências atuais. “É uma música bem humorada, longe de pregar a alienação ou o voto nulo. Há um componente político forte, sem destoar de todo o conjunto do disco, que tem a festa como tema central, mesmo quando fala de amor – porque o amor é festa”, resume Alexandra.

“O título do disco brinca com a pluralidade feminina. É a mulher moleca, que arde em brasa na festa e no amor, no ‘chamego bom’, de que fala uma das letras, a mulher que é pura doçura, mas também a mulher que quando se zanga, sai de perto [risos]. E o Coco Fulero tem essa carga de revolta contra essa sacanagem, esse absurdo por que passa o Brasil”, continua.

Coco Fulero, que fecha o disco Feita na Pimenta, ganhou lyric vídeo, com produção e animação de Cristiano Pepi e direção de Cristiano Pepi e Alexandra Nicolas. A cantora é acompanhada por João Lyra (arranjos, violão e guitarra), Adelson Viana (sanfona), Durval Pereira (zabumba e pandeiros), Zé Leal (pandeiro e triângulo) e Ana Zinger, Jamil Filho, Marcio Lott e Viviane Godoy (coro). A música está disponível no iTunes, Apple Music, Deezer, Spotify, Google Play, Amazon MP3, Napster, Rádio Uol, YouTube, Vevo, Soundcloud e em outras mais de 100 plataformas digitais.

Brincar com as palavras e dizer as coisas de modo inteligente para fugir aos censores de outrora também sempre foi algo que o forró – e grande parte da dita música popular brasileira – soube fazer com maestria. Nos tristes tempos que o Brasil atravessa, parece mesmo que só o humor salva, e nisto também Alexandra Nicolas não é de meias palavras.

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Veja o lyric video de Coco fulero (João Lyra e Zeh Rocha):

Revirando o passado do avesso

Avessa manhã. Capa. Reprodução

 

Avessa manhã [2017], o novo disco de Tutuca Viana, é uma espécie de bootleg. A maior parte do conjunto de nove canções remonta aos anos 1980 e foi encontrada em uma velha fita k7. O cantor e compositor acercou-se de talentosos instrumentistas para trabalhar.

Comparecem Israel Dantas (violões, guitarras, direção musical e arranjos), Marcelo Carvalho (piano), Ricardo Cordeiro (contrabaixo) e Wallace Cardozo (bateria), além das participações especiais de Zé Renato (voz em Que prazer), Nicolas Krassik (violino em Meu grande amor e Índio guri), Zé Américo (acordeom na faixa-título) e Gabriel Grossi (gaita em Que prazer).

Atualmente mais conhecido como o bem sucedido produtor dos festivais de jazz e blues dos Lençóis e de São José de Ribamar, Avessa manhã marca também o reencontro de Tutuca Viana com estúdios e palcos.

O disco tem ecos do Clube da Esquina e da música popular que se produzia no Maranhão entre as décadas de 1980 e 90, no rastro do sucesso do LP Bandeira de Aço, lançado por Papete em 1978. Para termos ideia do peso do passado, é um disco “com gosto de guaraná e bolo”, para citarmos um verso de Broto (João Marques), gíria em desuso, que há décadas designava mulheres jovens e bonitas.

“Eu mostrei a música para [o compositor Jards] Macalé e ele me disse que era a cara do Zé Renato. Mostrei para Zé Renato, ele adorou, e topou participar”, revela Tutuca, sobre a participação de um dos convidados especiais do disco – que estará no palco no show de lançamento, amanhã (1º/3), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro). Os ingressos, à venda na bilheteria do Teatro, custam R$ 30,00 (com direito ao cd). A outra convidada do artista para o show é a cantora Tássia Campos.

Sozinho ou em parceria, Tutuca assina sete das nove faixas do disco. A faixa-título é uma parceria sua com Reinaldo Barros (in memorian), a quem Avessa manhã é dedicado. Reflexo de sua atuação como produtor – certamente Tutuca Viana será descoberto como cantor e compositor agora para a geração mais nova –, o disco traz elementos de rock, jazz, blues e balada.

Merecem destaque ainda Segredo, parceria com Sérgio Habibe, artista de uma geração anterior à de Tutuca Viana, e Índio guri (Zezé Alves e Ricardo Valente), que fecha o disco.

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Veja o clipe de Que prazer (Tutuca Viana), com participações especiais de Zé Renato e Gabriel Grossi:

O cabaré musical de uma estrela

Cabaré Star. Capa. Reprodução

 

Edy Star demorou 43 anos entre seu solo de estreia, Sweety Edy [Som Livre, 1974] e Cabaré Star [Saravá Discos, 2017], segundo disco de sua carreira. Aos 80 anos recém-completados, é o único remanescente do antológico pastiche Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das 10, clássico maluco que dividiu com Miriam Batucada, Raul Seixas (autor do bolero-título, cantado por Edy) e Sérgio Sampaio em 1971.

“Há muito tempo/ eu vivo dividido entre Caetano e Raul”, cita os conterrâneos em Rock’n’roll é fodaço (Edy Star), que brinca com A bossa nova é foda, do primeiro.

Baiano de Juazeiro, Edy Star é uma espécie de fênix da música popular brasileira. Com Ney Matogrosso, então de cara pintada e à frente do Secos & Molhados, cultivou a androginia, num período de maior conservadorismo (será?), abrindo veredas para todos/as os/as que viriam depois, com ou sem polêmicas (vazias).

Ney, Caetano e Raul – um trecho de entrevista abre O crivo (Waldir Serrão e Mauricio Almeida), que fecha o disco –, além de Angela Maria, Emílio Santiago, Felipe Catto e Zeca Baleiro (que divide a produção com Sérgio Fouad) estão no disco, como a recuperar o tempo perdido.

“É o maior barato […], é incrível”, elogia-o Raul. Caetano Veloso canta em Se o cantor calar (Zé Rodrix e Maria Lúcia Viana) e Merda, dele. Ney Matogrosso se/nos diverte em Peba na pimenta (João do Vale, José Batista e Adelino Rivera). Emílio Santiago deixou sua participação gravada antes de falecer em Ave Maria no morro (Herivelto Martins). Em Perdi o medo (Odair José), Edy Star recebe a visita de Felipe Catto. Já Zeca Baleiro participa de Dezessete vezes, de sua autoria, aberta por citação de Tango pra Tereza (Evaldo Gouveia e Jair Amorim), interpretada à capela por Angela Maria.

Há uma diversidade de temas, gêneros e gerações em Cabaré Star – marca de Edy desde a estreia. Os outros parceiros de Sociedade da Grã-Ordem Kavernista também comparecem: Sérgio Sampaio é o autor de O que será de nós e Miriam Batucada de Você é seu melhor amigo. Eu fiz pior, de Lula Côrtes, abre o disco, com estrofes bem humoradas sobre os bastidores do show business: “Meus parceiros, entre aspas/ meus cúmplices de nada/ cem críticos de arte que nem tinham emprego/ chegavam nos jornais/ com papo de manchete/ achando que uma enquete me faria medo”, canta Edy.

“A vida é um cabaré/ foi assim que eu aprendi/ sonho, emoção e prazer/ você escolhe o que quer/ se vai sorrir ou sofrer/ seja lá homem, mulher/ só interessa o viver/ na noite de cabaré”, canta em A vida é um cabaré (versão de Edy Star e Zeca Baleiro para Y’a la rumba dans l’air, de Alain Souchon), devolvendo elegância ao ambiente, também espaço de fruição artística, em oposição à visão pejorativa, porém rentável, de letras típicas do breganejo e da sofrência – “há muito tempo/ não ouvia tanta shit na MPB”, voltamos à letra de Rock’n’roll é fodaço.

O disco traz ainda Procissão, talvez a faixa mais conhecida do disco: é o clássico lançado por Gilberto Gil em 1967, cuja parceria só foi reconhecida em 2008 – de lá para cá, todos os discos lançados com a música trazem-na com os devidos créditos também a Edy Star.

Ele é acompanhado por Adriano Magoo (piano, teclados e acordeom), Tuco Marcondes (guitarra), Fernando Nunes (contrabaixo) e Kuki Stolarski (bateria e efeitos), além das participações especiais de Emílio Martins (percussão), Hugo Hori (saxes), Tiquinho (trombone e tuba de Bauru), Jorge Ceruto (trompete e voz de cafetão cubano em A vida é um cabaré), Zeca Baleiro (violão “peba” em Peba na pimenta), Swami Jr. (violão sete cordas e arranjo em Ave Maria no morro) e Webster Santos (violão, violão sete cordas, cavaquinho e bandolim em Procissão e Merda).

“Se no nosso país houvesse respeito ao talento e à dignidade de nossos artistas, o nosso Edy seria visto como um artista superior. Seria não, ele é!”, atesta o folclorista e produtor musical Roberto Sant’Ana (pai do músico Lucas Santtana), em texto no encarte de Cabaré Star.

“Edy é uma antologia que anda, sabe tudo de música brasileira e outras bossas o rapaz, um pé no rock e na transgressão, outro no cabaré e na reverência à tradição. […] Tudo com alma teatral, farsesca ou, como ele gosta de dizer, cabareteira”, arremata Zeca Baleiro, produtor e parceiro.

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Veja o lyric video de Rock’n’roll é fodaço (Edy Star):