O filósofo e poeta Antonio Cicero – foto: ABL/ divulgação
A profusão de homenagens ao poeta, letrista e filósofo Antonio Cicero (1945-2024) é mais que merecida: qualquer brasileiro/a cantarola várias de suas letras, não raro sem saber que ele é o autor.
Antonio Cicero saiu de cena por vontade própria: recorreu ao suicídio assistido (eutanásia), ontem (23), na Suíça, onde a prática é legalizada. Para além de debates no campo religioso (reafirmou seu ateísmo na carta de despedida), optou por uma morte digna quando acreditou que o mal de Alzheimer já não lhe garantia uma vida idem.
Consciente até o fim, talvez seu gesto tenha tido uma intenção política. Mesmo que não, a discussão que se poderia/deveria abrir é justamente essa: o direito a uma morte digna quando a vida já não o é – ou quando assim for considerada.
Demoro a processar certas mortes. Antonio Cicero era imortal – da Academia Brasileira de Letras (ABL) – e parecia mesmo eterno, o que se comprovará ao continuarmos assobiando seu legado vivo.
A finitude também foi tema de suas criações, como por exemplo em “O Meu Sim” (parceria com a irmã Marina Lima, que a gravou): “quem sabe o fim não seja nada/ e a estrada seja tudo”.
Não faltaram, nas citadas homenagens, a escolha de letras de música e poemas prediletos, um exercício difícil, dado o volume e a qualidade da obra de um de nossos grandes criadores.
“Inverno” (parceria com Adriana Calcanhotto), “Holofotes” (com João Bosco e Waly Salomão), “O Circo” (com Orlando Moraes), “Maresia” (com Paulo Machado), “Dono do Pedaço” (com Gilberto Gil e Waly Salomão), “Os Ilhéus” (com José Miguel Wisnik), “O Último Romântico” (com Lulu Santos e Sérgio Souza), “À Francesa” (com Cláudio Zoli), “Acende o Crepúsculo”, “Fogo e Risco”, “Bobagens, Meu Filho, Bobagens”, “Pra Começar”, “Fullgás” “Virgem” (com Marina Lima), nas vozes, respectivamente, de Adriana Calcanhotto, João Bosco, Maria Bethânia, Zeca Baleiro, Gilberto Gil, José Miguel Wisnik, Lulu Santos, Gal Costa, Ney Matogrosso e Caetano Veloso, além da própria Marina Lima, parceira primeira e maior, são alguns (poucos e) ótimos exemplos, entre tantos possíveis.
Não “guardei” o motivo pelo qual desperdicei a única chance que tive de conhecer Antonio Cicero pessoalmente: ele era uma das atrações da IX Feira do Livro de São Luís (2015), mesma edição que trouxe Marcelo Yuka (1965-2019) – que também não conheci –, sob curadoria do poeta Fernando Abreu, seu admirador confesso.
Hamilton de Holanda e Mestrinho no palco do Festival Ilha Sinfônica, ontem (29) – foto: divulgação
Os telões que ladeavam o palco do Ilha Sinfônica mostraram: coreiras do Tambor de Crioula de Mestre Felipe dançando tango, enquanto Hamilton de Holanda (bandolim) e Mestrinho (sanfona) tocavam “Libertango” (Astor Piazzolla). A imagem sintetiza a proposta do festival, que juntou música clássica e música popular, com um elenco que uniu a Orquestra Ilha Sinfônica (formada por músicos ludovicenses para o evento) aos dois citados, expoentes em seus instrumentos, além de nomes já bastante conhecidos da cena local, incluindo o homenageado da noite, o cantor e compositor César Nascimento.
A apresentação de Hamilton de Holanda e Mestrinho, que pela primeira vez tocaram juntos em São Luís, começou com “Canto de Xangô” (Baden Powell e Vinícius de Moraes) e baseou-se no repertório de Canto da Praya (Deck, 2020), álbum que lançaram juntos. Em aproximadamente uma hora de apresentação, desfilaram temas como “Escadaria” (Pedro Raimundo), “Te Devoro” (Djavan) – juntos cantaram o refrão, para delírio da plateia –, “Drão” (Gilberto Gil) – cantada por Mestrinho –, “Afrochoro” (Hamilton de Holanda), “Evidências” (José Augusto e Paulo Sérgio Valle), que o público cantou a plenos pulmões, “Isn’t She Lovely” (Stevie Wonder) e “Palco” (Gilberto Gil). No bis, “Te Faço Um Cafuné” (José Abdon).
Antes da dupla, o Quarteto de Cordas da Orquestra Ouro Preto preparou o terreno. Hamilton de Holanda e Mestrinho ainda voltariam ao palco com a Orquestra Ilha Sinfônica, regida por Jairo Moraes e pelo regente convidado Rodrigo Toffolo (maestro da Orquestra Ouro Preto); o primeiro solou “Bela Mocidade” (Donato Alves) e o segundo, “Engenho de Flores” (Josias Sobrinho). A apresentação da orquestra marcou também o lançamento de “Valsa Ludovicense” (César Nascimento), disponível nas plataformas digitais desde 8 de setembro, aniversário de São Luís.
A Orquestra Ilha Sinfônica acompanhou artistas como Nosly (que cantou e tocou violão em “June”, parceria sua com Celso Borges), o idealizador e produtor do evento Emanuel Jesus (“Filhos da Precisão”, de Erasmo Dibell), Adriana Bosaipo (cantora (e compositora) talentosa que errou a letra de “Eulália”, de Sérgio Habibe) e César Nascimento, que se emocionou ao relembrar “Ilha Magnética”, já um clássico de sua autoria, e “Corêro” (Josias Sobrinho), que encerrou a noite da orquestra com todos os participantes cantando junto, no palco. O Bumba Meu Boi Unidos de Santa Fé, sob o comando de Zé Olhinho ainda se apresentaria.
O cerimonial anunciou que ano que vem tem mais, encerrando o mês de aniversário da capital brasileira do reggae, do bumba meu boi e do tambor de crioula. Tenho certeza que todos os presentes à praça lotada ontem (29) já aguardam ansiosos.
O compositor Chico Saldanha – foto: Ribamar Nascimento/ divulgação
O compositor Chico Saldanha (acompanhado por Marcão ao violão) é o convidado desta quarta-feira (25) no projeto Quarta no Solar. Capitaneado por Aziz Jr. e Chico Nô e aberto pela discotecagem de Pedro Dreadlock, o evento semanal, em pouco tempo, consolidou-se no calendário cultural da capital maranhense, sendo realizado sempre a partir das 19h no Solar Cultural da Terra Maria Firmina dos Reis (Rua Rio Branco, 420, Centro). O couvert artístico individual custa apenas R$ 15,00.
Chico Saldanha é um dos mais versáteis compositores maranhenses, passeando com igual desenvoltura pelos ritmos da cultura popular de seu estado natal e gêneros como o blues, o choro e o brega, num caldeirão sonoro de referências as mais variadas, entre a música, a literatura e o cinema, além, é claro, de sua própria memória prodigiosa, ao evocar e trazer para suas criações personagens como Babalu (na canção homônima), famoso dublador dos primórdios da TV Difusora, e Mário Mentira (em “É Tudo Verdade”), um vizinho seu na São Pantaleão que fez jus ao apelido que lhe deu sobrenome, entre outros.
Natural de Rosário, Saldanha mudou-se cedo para São Luís, vindo morar numa São Pantaleão habitada por gênios da estirpe de Cesar Teixeira (que chegou a ver engatinhando), João Pedro Borges e Ubiratan Sousa – no encarte de Emaranhado (2007), estes três nomes comparecem aos agradecimentos àqueles que os levaram ao caminho da música.
Entre os covers de Beatles da juventude aos grandes festivais – sua “Absolutamente” venceu a etapa maranhense do Canta Nordeste, festival outrora promovido pela Rede Globo de Televisão –, Chico Saldanha é um nome consolidado na história da música popular brasileira produzida no Maranhão, como compositor, autor de quatro álbuns até aqui – além do citado, Chico Saldanha (1988), Celebração (1998) e Plano B (2017) –, incluindo pérolas como “Itamirim”, “Linha Puída” e “Choro de Memórias”, e como memória viva, enciclopédia deste fazer musical.
Arrisco-me a soar imodesto, mas entre os poucos mas fiéis leitores não preciso esconder o orgulho em ser seu parceiro em “Dolores”, letra que escrevi em homenagem a Dolores O’Riordan (1971-2018), vocalista de The Cranberries, que ele musicou e gravou com a participação especial de Regiane Araújo.
Não preciso lembrar também que foi através de Chico Saldanha que as músicas hoje tão de conhecidas do repertório do elepê Bandeira de Aço (1978) chegaram a Marcus Pereira (1930-1981) e a Papete (1947-2016) – seu parceiro em “Pindaré”, para citar mais um clássico. O resto é história e é sempre um enorme prazer ouvi-lo contar. E cantar.
Chico Saldanha completou 79 anos em junho passado e segue ativo e criativo. Uma de suas mais recentes criações já têm duas gravações: além do próprio autor, antes Elizeu Cardoso gravou o presente que ganhou e fez de “Arco-íris” clássico instantâneo, do verso que intitula este texto, que eu não canso de pedir em rodas de violão ou qualquer outra oportunidade que me surja diante dos olhos, ouvidos e coração.
Cátia de França e banda no palco do Festival BR-135 – foto: Zema Ribeiro
Ontem (15), na segunda e última noite do Festival BR-135 Cátia de França reencontrou o público ludovicense – era apenas a segunda vez que a paraibana se apresentava como cantora no Maranhão; a primeira, na Casa d’Arte (Raposa), há pouco mais de dois anos, no formato voz e violão. Antes, já tinha passado por aqui na década de 1970 integrando trupes teatrais.
Graças à redescoberta, pelas gerações mais novas, de seu álbum solo de estreia, 20 Palavras Ao Redor do Sol (1979), no youtube ou em plataformas digitais, ao ver uma juventude conhecendo seu repertório e cantando parte dele junto, não apenas seus maiores êxitos, mas coisas já do último álbum, No Rastro de Catarina (2024), não pude deixar de pensar em meus primeiros contatos com sua obra: entre o fim da infância e início da adolescência ouvindo sua “Kukukaya (Jogo da Asa da Bruxa)” na voz de Xangai no antológico Cantoria 1 (1984).
Ela abriu o show com uma música do novo álbum, “Fênix”, que evoca sua própria trajetória: antes de ser merecidamente reconhecida, sobretudo a partir de Hóspede da Natureza (2016), Cátia de França não era nome comum entre curadorias de festivais – ainda bem que isso mudou, nunca é tarde.
No Rastro de Catarina, o álbum que forneceu a base do repertório de sua apresentação, costura composições novas e resgate de criações que datam ainda da década de 1970. Cátia de França tem a veia e a alma nordestina sem tirar um pé do rock, que o diga a formação da banda que a acompanhou: Cristiano Oliveira (viola), “melhor amigo do mundo”, Marcelo Macêdo (guitarra), Elma Virgínia (baixo) e Beto Preah (bateria) – a mesma formação com que gravou o álbum, faltando apenas Chico Corrêa, que esteve no palco no dia anterior, com Seu Pereira e Coletivo 401.
Em “Espelho de Oloxá” dá o recado: “cada mulher que se impõe nos liberta”, no que fala também de si mesma, jogando luzes sobre o empoderamento feminino, preocupação da curadoria do festival, que montou um line up completamente nordestino e valorizando grandemente a presença feminina em seus dois palcos.
Se o captador do violão quis lhe atrapalhar, ela levou na esportiva. A princípio brincou com sua própria timidez, dizendo ao roadie (e ao público presente): “eu já venho nervosa para cá, ainda acontece um negócio desses”. Mas depois tirou de letra, alternando-se entre os caxixis e o triângulo – nada que espante quem já conhecia a sanfoneira do primeiro disco de Zé Ramalho (1978).
“Negritude” é das músicas da nova safra que mais empolgam o público, que foi ao delírio com a levada reggae com que trajou “Academias e Lanchonetes”. “É a terra do reggae”, saudou a ilha, antes de “Bósnia”, do recado “toda guerra é feia”. Ao ouvir um grito de “gostosa!” vindo da plateia, rebateu, bem-humorada: “mentiroso!”. Respondeu com um “é lá no fim” ao pedido de “Kukukaya” e com um “não sei, não” ao de “Estilhaços”.
Não era um show para a galera do “oba, oba”: Cátia de França apresentou, em um festival gratuito e a céu aberto, o repertório de seu novo álbum, embora não tenham faltado clássicos como “Ensacado”, “Kukukaya”, “Vinte Palavras Girando ao Redor do Sol” e “Quem Vai Quem Vem”, demonstrando ser merecedora da atenção, carinho e reconhecimento com que vem sendo tratada Brasil afora, mais recentemente. Antes tarde do que mais tarde.
Chico César se apresentou ontem (2), na Praça das Mercês, no Desterro, no Centro Histórico da capital maranhense, na programação do aniversário de 412 anos de São Luís. Cantou por pouco mais de hora e meia, numa demonstração de sua relação atávica, umbilical e orgânica com a cidade. Muita gente, ainda hoje, acredita que o paraibano é maranhense.
Prestes a completar 30 anos de sua estreia fonográfica, com Aos Vivos (Velas, 1995), ele escolheu “Beradêro”, faixa que abre o citado trabalho, para inaugurar seu show, com a plateia cantando junto desde ali e direito a um “viva Paulo Freire (1921-1997)!” – o educador é citado na letra – respondido a plenos pulmões pelo público presente.
Artista experiente e experimentado, com pleno domínio de palco, Chico César soube fazer o público cantar junto, aplaudir, dançar e vibrar, em êxtase coletivo. Marcado para às 21h, o show só foi começar pouco depois de 23h30. O artista desculpou-se, mas disse que o atraso nada tinha a ver com ele e sua equipe, que esperaram pacientemente todas as apresentações que o antecediam. E revelou: “a gente preparou um show de duas horas, mas vai ter que diminuir um pouquinho. Minha equipe precisa estar no aeroporto às duas”. Após ouvir um “ah” de insatisfação do público, respondeu: “amanhã vocês trabalham”. E o público, para rir de si mesmo: “não!”.
Chico César conhece o chão que pisa, sabia que estava na ilha do reggae. Após “Beradêro” mandou “Árvore”, clássico do baiano Edson Gomes (que ele havia cantado em duo com Marcelo Jeneci em Night Club Forró Latino (volume I), álbum mais recente do sanfoneiro), seguida por “Mama África”, “Brilho de Beleza” (Nego Tenga) – trocando o nome de Bob Marley (1945-1981) da letra original pelo de Marielle Franco (1979-2018) – e finalizando o longo medley com “Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores” (Geraldo Vandré), transformando a praça num salão de baile em que os presentes não têm intervalo para interromper a dança.
Dizer que o público foi à loucura pode ser redundante em se tratando deste show, de muitos pontos altos. Chico César cantou “Sereia Linda de Cumã” (Humberto de Maracanã/ Zé Maria), faixa de Aldeia Tupinambá (Ná Music/ Tratore, 2020), de que ele participa (quem esteve no Festival Zabumbada em 2022 não esquece o encontro do paraibano com o batalhão, na mesma Praça das Mercês). A esta seguiram-se “Vestido de Amor” e “À Primeira Vista”, com citação de “Samurai” (Djavan), numa apresentação recheada de intertextos, em que Chico César vai descortinando sua formação e sua relação com o lugar, sem nunca forçar a barra.
No palco ao lado do Monumento da Diáspora Africana, na Praça das Mercês, Chico César exaltou o papel dos negros e das mulheres, por vezes repetindo a frase “lugar de mulher é onde ela quiser” – metade do sexteto que o acompanha – a banda Machifeme, como ele apresentou – é feminino: Síntia Piccin (saxofone e flauta), Richard Fermino (trompete e flauta), Larissa Humaitá (percussão), Gledson Meira (bateria), Helinho Medeiros (teclado e sanfona) e Lana Ferreira (baixo).
“Pensar em Você” trouxe outras citações: “Nossa Canção” (Luiz Ayrão), além de um trechinho de “Dia Branco”, de Renato Rocha e Geraldo Azevedo – com quem Chico divide Violivoz (Ao Vivo) (Chita/ Geração/ LF + C, 2023). Quando cantou “Deus me Proteja” agradeceu a Dominguinhos (1941-2013) e Juliette, por colocarem sua composição no coração dos brasileiros. Presenteou os presentes com uma inédita, “composta ontem” – quando postou-a no instagram: “Namorar no Maranhão”, uma toada que primeiro cantou sozinho ao violão e depois acompanhado da banda. Dedicou-a a “Josias Sobrinho e Chico Saldanha, meus mestres”, que estavam presentes. Outra viria mais à frente, “composta durante a pandemia, mas também parece que foi ontem”, sobre os Lençóis Maranhenses – que ele revelou não conhecer, “ainda”, brincando com o fato de serem “muita areia para seu caminhãozinho”.
“Agalopado” (Alceu Valença), faixa que abre Espelho Cristalino (Som Livre, 1977), inaugurava um bloco de formadores de Chico César, como ele mesmo revelou. Seguiram-se “Sobradinho” (Sá e Guarabyra), cuja regravação pelo paraibano foi abertura de novela da Rede Globo, e “Admirável Gado Novo” (Zé Ramalho). O fio autoral foi retomado com “Palavra Mágica” e “Da Taça”, com incidental de “Lenha”, do parceiro maranhense Zeca Baleiro (com que Chico divide o álbum Ao Arrepio da Lei (Saravá/ Chita, 2024). O medley se completava com “Proibida Pra Mim” (Chorão/ Marcão/ Champignon/ Pelado), sucesso do grupo Charlie Brown Jr., também regravada por Baleiro, “Onde Estará o Meu Amor”, “Diana” (Paul Anka em versão de Fred Jorge [1928-1994]) e “Filme Triste” (John D. Loudermilk [1934-2016] em versão de Romeu Nunes), na porção jovem-guardista do espetáculo.
“Eu vou cantar uma música que eu lembro que a primeira vez que eu cantei em público foi aqui, num carnaval, em cima de um trio elétrico. Não é fácil a gente lançar uma música assim”, lembrou-se antes de cantar “Pedrada”. Como ontem, este repórter estava lá e lembra do impacto da mensagem, em pleno carnaval de 2019. Pelo meio da música mandou a palavra de ordem: “sem anistia!”.
Em meio a “Estado de Poesia” gritou “viva Celso Borges (1959-2023)!”, lembrando o parceiro que o apresentou a Zeca Baleiro. Quando cantou “Pedra de Responsa” (Chico César/ Zeca Baleiro) voltou a apresentar a banda, referindo-se a cada músico como uma pedra de responsa, a gíria maranhense que designa os reggaes muito bons, os prediletos. Era a noite do povo de axé, e Chico César terminou a apresentação cantando “Mamãe Oxum” à capela. O tema de domínio público, adaptado por Zeca Baleiro, foi cantado em dueto por ambos no álbum de estreia do maranhense, Por Onde Andará Stephen Fry? (MZA Music, 1997).
Chico César saudou São Luís pelos 412 anos que a cidade completará no próximo dia 8 de setembro e disse esperar estar de volta em 12 anos para esta festa. O gracejo de um artista que adora o lugar, por ele é adorado e tem vindo com frequência, para alegria de seu público fiel: de 2019 para cá, só não se apresentou em 2020 e 2021, os anos mais graves da pandemia de covid-19.
Passava um pouco de uma da manhã quando as luzes do palco se apagaram e os resistentes começaram a fazer o caminho de volta para casa, satisfeitos, mas com o gosto de quero mais por contradizer-lhes, certamente em estado de poesia.
O multifacetado Claudio Lima – foto: Cláudia Marreiros/ divulgação
Desde seu álbum de estreia, lançado em 2001, o cantor e compositor Claudio Lima constrói pontes interessantes entre a cultura popular do Maranhão e a obra de grandes nomes do jazz, da bossa nova e da música popular brasileira.
Multifacetado, além de artista da música, Cláudio Lima é também designer (ele mesmo é o autor dos projetos gráficos de seus álbuns), escritor (autor de Esplêndido – o guará que não conseguia ficar vermelho) e artista visual (atualmente com duas exposições em cartaz na Sala Sesc (Condomínio Fecomércio, Av. dos Holandeses, Jardim Renascença): “Pássaras de Upaon-Açu” e “Bicharada Nativa de Upaon-Açu”. Seu quarto álbum está em processo de produção e deve ser lançado muito em breve.
Atualmente considerado uma das grandes vozes da música brasileira em atividade, Cláudio Lima é o convidado desta quarta-feira (28) do projeto Quarta no Solar, evento já integrado ao calendário cultural da capital maranhense, que acontece semanalmente no Solar Cultural da Terra Maria Firmina dos Reis (Rua Rio Branco, 420, Centro). O sarau musical é capitaneado pelos cantores e compositores Aziz Jr. e Chico Nô, além do DJ Pedro Dreadlock.
Em sua apresentação, Cláudio Lima passeará por temas de nomes como Catoni (1930-1999), Cesar Teixeira, Dori Caymmi, Lupicínio Rodrigues (1914-1974) e Mercedes Sosa (1935-2009), entre outros.
O Quarta no Solar começa às 19h e o couvert artístico é colaborativo.
O último dia 21 de agosto marcou os 35 anos do falecimento de Raul Seixas (1944-1989). Neste sábado (24), o cantor Wilson Zara apresenta mais uma edição do já tradicional “Tributo a Raul Seixas”, que apresenta desde 1992 – quando ainda morava em Imperatriz/MA e o show tinha por título “A hora do trem passar”.
Ouvir “Ouro de tolo” (Raul Seixas) foi marcante para Wilson Zara, que chegou a iniciar o curso de Letras e a passar em um concurso para bancário – à época o emprego dos sonhos, que abandonou para viver de música. No final da década de 1990 o artista mudou-se para São Luís, onde tornou-se um dos mais importantes nomes da noite da ilha.
O 33º. “Tributo a Raul Seixas” acontece às 21h, no Mestre Cana (Rua Portugal, 58, Praia Grande) – os ingressos custam R$ 30,00, à venda no local, na Luso Eventos – (98)991519512 – e na loja Ilha da Fantasia no instagram. O evento tem apoio de O Colibri Hotel e Colonial Comunicação Visual.
No palco, Wilson Zara (voz e violão) estará acompanhado por Marjone (bateria e vocais), Mauro Izzy (baixo), Moisés Ferreira (guitarra), Felipe Van Halen (guitarra) e Marco (teclado), e contará ainda com as participações especiais de Beto Ehong, Pedro Cordeiro, Alê Durrock e Thiago Pinheiro. A abertura fica por conta da banda Altas Doses e do DJ Cláudio.
Mas as homenagens a Raul Seixas começam antes. Na data, acontecerá a primeira passeata raulseixista em São Luís, organizada pela Sociedade Ilha da Fantasia, fundada em 2006 por Maidson Machado, Antônio Ednir, Thyago Thardelly e Muchila, todos fãs de carteirinha de Raul Seixas. A concentração acontece na Praça Nauro Machado (Praia Grande), onde Zara dará uma canja, antecipando um pouco do show, cujo repertório é formado por clássicos e lados b do repertório do cantor e compositor baiano. A passeata fará o curto percurso entre a praça e o local do show.
Também sábado, quem homenageia recebe homenagem: Wilson Zara é o convidado da Rádio das Tulhas, evento semanal que acontece de meio-dia às 18h, na Feira da Praia Grande, sob o comando dos DJs Victor Hugo e Lenda Brother.
Aos 35 anos sem ele, nunca foi tão atual o grito de “Toca Raul!”.
Show no Miolo Café Bar dia 30 precede gravação de álbum dedicado ao gênero
O poeta e compositor Joãozinho Ribeiro. Foto: divulgação
Em 2002 e 2003, quando percorreu 18 bairros de São Luís com o circuito Samba da Minha Terra, ficou comprovada a importância da verve sambista de Joãozinho Ribeiro, poeta e compositor versátil que se vira muito bem em outros gêneros, como também o provam centenas de composições suas, gravadas por nomes os mais diversos da música popular brasileira.
Em setembro Joãozinho Ribeiro entra em estúdio para gravar o segundo álbum de sua carreira, que já conta 45 anos, desde a estreia em um festival universitário de música em 1979. O sucessor de Milhões de Uns – Vol. 1, gravado ao vivo no Teatro Arthur Azevedo em 2012 e lançado no ano seguinte, será dedicado ao samba, com direção de Zeca Baleiro, produção de Luiz Cláudio e participações especiais de insuspeitos bambas – entre os nomes confirmados, além do próprio Zeca, estão Rita Benneditto, Chico César e Fabiana Cozza.
Como uma espécie de aquecimento para o registro do álbum, Joãozinho Ribeiro se apresenta no próximo dia 30 de agosto (sexta-feira), às 21h, no Miolo Café Bar (Av. Litorânea, nº. 100, Calhau). No show, intitulado “45 Anos: Letra e Música”, o artista experimentará o repertório que pretende levar ao estúdio, acompanhado por João Eudes (violões de seis e sete cordas e direção musical), João Neto (flauta), Juca do Cavaco (cavaquinho) e Carbrasa (percussão).
No show, Joãozinho Ribeiro contará ainda com as participações especiais de Adler São Luís, Fernanda Garcia, Chico Saldanha e Neto Peperi. No repertório, clássicos como “Milhões de Uns”, “Saiba, Rapaz” e “Estrela”, para destacar alguns sambas e choros de sua lavra.
“Este show vai ser uma confraternização, um encontro com parceiros, instrumentistas e intérpretes, já pensando no que a gente vai fazer quando entrar em estúdio. Tudo está sendo pensado com muito carinho e cuidado, tanto para o palco, quando a gente vai sentir o termômetro do público, quanto para o estúdio, quando a gente vai para um registro definitivo de uma obra que eu sigo construindo, num álbum que está sendo pensado de forma equilibrada entre músicas bastante conhecidas no Maranhão, mas também apresentando inéditas”, promete Joãozinho Ribeiro.
Serviço
O quê: show “45 Anos: Letra e Música” Quem: o poeta e compositor Joãozinho Ribeiro e Regional Quando: dia 30 de agosto (sexta-feira), às 21h Onde: Miolo Café Bar (Av. Litorânea, nº. 100, Calhau) Quanto: R$ 25,00 (couvert artístico individual)
Vanessa Ferreira (contrabaixo acústico) e Arismar do Espírito Santo (baixo elétrico) na segunda noite do Festival Plural InstrumentalAmilton Godoy (piano) e Sidmar Vieira (trompete)
Arismar do Espírito Santo subiu ao palco muito à vontade, trajando um macacão jeans com uma camisa de estampa florida e sandálias havaianas. O despojamento no vestir traduziu-se na sonoridade apresentada por ele, com vocais a la Hermeto Pascoal, entre seu baixo sozinho, em duo com Vanessa Ferreira, e os escudeiros Eduardo Farias (piano) e Cassius Theperson (bateria)..
Era a segunda noite do Festival Plural Instrumental em São Luís, no palco do Teatro João do Vale. Extremamente tímida para falar – a timidez inversamente proporcional ao talento da instrumentista ao contrabaixo – Vanessa Ferreira conseguiu agradecer a oportunidade de estar ali, diante de um dos monumentos vivos do baixo e da música instrumental brasileira. É tocando com os grandes que você se torna um, ela demonstrou tocando, mais do que dizendo algo parecido.
A música de Arismar tem sabor, como quando ele contou a história de “Pitaia”, composta após a inspiração vir de um raio de sol, que atravessava a lona furada de uma barraca na feira, iluminando a fruta. Quem esteve no teatro lambuzou-se de som, um deleite.
No segundo show da noite outro encontro de gerações: Amilton Godoy, fundador do igualmente lendário Zimbo Trio, recebeu Sidmar Vieira, jovem trompetista, já senhor de seu instrumento, que não titubeou ao receber o convite para um duo de trompete e piano com o mestre.
Não esconderam a predileção por Johnny Alf (1929-2010), passeando também por repertório autoral, de Godoy, de quem Sidmar lembrou-se de ter se aproximado a partir de um concerto de piano e orquestra apresentado pelo pianista junto a uma orquestra jovem integrada pelo trompetista.
No preâmbulo de “Canção do Sal” (Milton Nascimento e Fernando Brant [1946-2015]), Godoy abriu um parêntese que fez a plateia gargalhar: “tudo que eu conto já faz muito tempo”, disse, para lembrar que fez o arranjo da música ali pelo fim dos anos 1960, quando Milton ainda não era conhecido e estava atrás de intérpretes para gravar suas músicas. “Nara Leão (1942-1989) não demonstrou interesse, Elis gravou e vocês sabem o que aconteceu depois com Milton Nascimento”, resumiu, antes de tocarem juntos o mesmo arranjo gravado à época pela gaúcha.
A cantora e compositora Jurema – foto: Evandro Teixeira/divulgação
Com três singles lançados, quarto álbum da cantora e compositora baiana, previsto para agosto de 2025, reflete temas atuais e entrecruza áreas de interesse e formação da artista
POR ZEMA RIBEIRO*
A cantora e compositora baiana Jurema está trabalhando em um novo álbum, provisoriamente intitulado “Florestas”, cujas faixas serão conhecidas mensalmente até agosto do ano que vem.
O trabalho entrecruza diversas áreas de interesse e formação da artista, também historiadora e advogada, com atuação prioritária em causas ambientais, mas está longe de ser monotemático ou panfletário.
O primeiro single, lançado ainda no ano passado, é “Somos Onça”, poema de Micheliny Verunschk musicado por Chico César – o contato entre ambos, amigos de Jurema, se deu por inciativa da artista.
A ele seguiram-se os recém-lançados “Lamento Sincero”, do chileno Jorge Solovera, cantada em espanhol em dueto com ele, que também produziu a faixa, e “Americano Nagô”, de Diego Moraes, produzida por Léo Mendes, que Jurema interpreta em duo com Marcos Vaz, parceiro desde “Batuque de Canoa” (2002), seu álbum de estreia, em que é acompanhada pela banda Zero à Esquina, com que começou a trilhar os caminhos da música quando ainda vivia em Salvador – a artista está radicada em São Paulo atualmente.
“Somos Onça” teve produção de Érico Theobaldo e cordas de Webster Santos. Em “Lamento Sincero” e “Americano Nagô” Jorge Solovera e Marcos Vaz gravaram todos os instrumentos, respectivamente.
Vai se desenhando um álbum bonito, diverso e sincero refletindo questões urgentes de nosso tempo. “Somos Onça” transita entre a Amazônia, o Pantanal e sua fauna em espertos jogos de palavras. Radicado na Bahia há mais de 20 anos, a canção de Jorge Solovera reflete sua relação com a morte: o artista nasceu sob a égide da ditadura de Augusto Pinochet (1915-2006); e “Americano Nagô” joga luz sobre a bipolaridade dos séculos XX e XXI, trazendo a via do diálogo e da diplomacia no lugar da guerra.
O próximo single de “Florestas” a chegar às plataformas digitais é a releitura de Jurema para “Saga da Amazônia” (Vital Farias), em setembro.
*ZEMA RIBEIRO é jornalista. Produz e apresenta o programa Balaio Cultural – em que já entrevistou Jurema –, aos sábados, das 14h às 16h, na Rádio Timbira FM (95,5). Escreve no Farofafá.
O compositor Chico Saldanha – foto: Ribamar Nascimento/ divulgação
Com quatro álbuns gravados – Chico Saldanha (1988), Celebração (1998), Emaranhado (2007) e Plano B (2017) –, o compositor Chico Saldanha costuma brincar acerca do intervalo entre seus lançamentos. “A imperfeição é mais fácil de tolerar em doses pequenas”, diz, citando a poeta polonesa Wislawa Szymborska (1923-2012).
Autor de clássicos da música popular brasileira, entre os quais “Itamirim” e “Linha Puída”, o rosariense é considerado entre seus pares como a memória viva da música popular brasileira produzida no Maranhão: foi o responsável por fazer chegar aos ouvidos de Papete o repertório registrado pelo artista em Bandeira de Aço (Discos Marcus Pereira, 1978); integrou a primeira formação do Regional Tira-Teima, tendo tocado violão na gravação do antológico Lances de Agora (Discos Marcus Pereira, 1978), de Chico Maranhão; em 1985, com os parceiros Giordano Mochel e Ubiratan Sousa, produziu o compacto Sotaques, em que canta “Fuzileiro de Novo”, com que comemorava a volta dos Fuzileiros da Fuzarca naquele ano; e entre outros feitos produziu, com os mesmos parceiros, o compacto Velhos Moleques (1986), que reuniu Antonio Vieira (1920-2009), Agostinho Reis (s/d), Cristóvão Alô Brasil (1922-1998) e Lopes Bogéa (1926-2004). Para se ter uma ideia, o primeiro só viria a estrear em disco solo em 2001, com O Samba é Bom, produzido por Zeca Baleiro.
Só estas referências iniciais já garantiriam a Saldanha um lugar no panteão sagrado da MPB. Mas o artista, que completa 79 anos hoje (11), segue produzindo, mantendo a qualidade característica e, sorte a nossa, tem disponibilizado alguns singles, em sua própria voz ou de intérpretes de mútua admiração. São os casos recentes de “Dolores” – uma singela homenagem a Dolores O’Riordan (1971-2018), vocalista dos Cranberries, de que tenho a honra de ser o parceiro letrista –, interpretada por ele em um inspirado dueto com a cantora Regiane Araújo; “Dom Quixote”, parceria com Ivan Sarney, repescada do repertório setentista dos festivais de música de que participou, que finalmente ganhou o mundo na voz de Lucas Sobrinho; e “Arco-Íris”, toada solitária de rara beleza, interpretada por Elizeu Cardoso, cuja honra de cantá-la ele considera um verdadeiro presente.
Marcando seu aniversário de 79 anos, para não fugir do clichê-reclame de loja popular: o artista aniversaria mas quem ganha o presente somos nós, ouvintes ávidos e atentos, sedentos desta rara beleza que só Chico Saldanha pode nos proporcionar: ele lança hoje single duplo com as faixas “Passou, Pintou e Bordou” e uma releitura da citada “Arco-Íris”.
A música é o pote de ouro de Chico Saldanha, longe disto ser uma metáfora financeira: ambas as letras citam arcos-íris. A primeira tem construção sui generis, transitando entre bossa nova, blues e samba e fechando com a sutil citação do bolero “Alguém me Disse” (Jair Amorim [1915-1993] e Evaldo Gouveia [1928-2020]), sucesso de Anísio Silva (1920-1989).
Já a releitura de “Arco-Íris” pelo autor ganha ares de fado, no diálogo entre o bumba meu boi (originalmente trata-se de uma toada) e a influência moura, que levou o produtor Luiz Cláudio a explorar os sofisticados vibratos das vozes de Chico Saldanha e Neném do Vale – com quem canta em dueto –, como o sotaque de orquestra, natural de Rosário, feito o compositor, a dar as mãos ao fado português, encontro este que se reflete no arranjo da música.
“Passou, Pintou e Bordou” acaba sendo também uma homenagem a Zezé Alves (1955-2024), pois é um dos últimos registros do músico em estúdio. Além de sua flauta, a ficha técnica da faixa se completa com Fernando Hell (bateria), Mauro Travincas (baixo), Daniel Nobre (guitarra, violão e arranjo) e Luiz Cláudio (percussão e arranjo).
Já em “Arco-Íris” as vozes de Chico Saldanha e Neném do Vale estão emolduradas por Arlindo Pipiu (violão e baixo elétrico), Emílio Furtado (baixo acústico), Robertinho Chinês (cavaquinho), Jovan Lopes da Silva (trombone), Natan Jefferson Moreira Silva dos Santos (trompete), Luiz Cláudio (percussão e arranjos) e Anna Cláudia (vocalizes).
Pela média destacada no início do texto, um próximo álbum de Chico Saldanha ainda demoraria uns três anos. Ainda é cedo para dizer se estes singles são um aperitivo. Compositor de destinos, como diria um outro colega seu de ofício, senhor da razão, o tempo dirá.
Apresentação do violonista Augusto Nassa no programa Pátio Aberto, do Centro Cultural Vale Maranhão, em 2020
Todo mundo já ouviu falar ou já pode testemunhar a riqueza, a força e a diversidade da cultura popular do Maranhão. Estamos em junho, mês em que isto pode ser demonstrado ainda mais intensamente na prática: grupos de bumba meu boi, tambor de crioula e cacuriá, entre muitas outras manifestações, ocupam os arraiais da capital e interior.
O diálogo entre estes e outros ritmos e a música de concerto é a matéria-prima do Festival Gestores em Movimento, marcando o encerramento do programa homônimo, que capacitou 35 gestores e produtores culturais ao longo de seis dias de imersão ao longo da etapa ludovicense do citado programa.
Os cursistas aprofundaram temas como a visão geral do funcionamento de orquestras e salas de concerto, a formatação de projetos para leis de incentivo, elaboração de orçamentos públicos e privados, contratos e legislações sobre estes, além de planejamento e execução das etapas de produção, noções básicas de economia da cultura e rotinas de palco, como iluminação e sonorização, entre outros.
Simbolicamente chamado de Sala Guarnicê, o evento acontece de hoje (7) a domingo (9), no Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy, Rua do Egito, Centro), com entrada franca, sempre às 19h, com patrocínio do Instituto Cultural Vale através da Lei Federal de Incentivo à Cultura.
“Clássicos do Maranhão” é o título do concerto de abertura do evento, hoje (7), apresentado pelo violonista Augusto Nassa. Amanhã (8) é a vez do Instrumental Pixinguinha, o primeiro grupo de choro do Maranhão a registrar seu trabalho autoral em disco – o cd Choros Maranhenses, estreia do grupo, foi lançado em 2005. O choro foi recentemente declarado patrimônio cultural imaterial brasileiro. Domingo (9), no encerramento da programação, se apresentam a soprano Rose Nogueira e a pianista Ângela Marques.
Elizeu Cardoso é engraçado. Quem acompanha suas postagens nas redes sociais tem uma pequena amostra de sua capacidade de rir, às vezes de si mesmo, e de fazer rir. É contagiante. Mas lê-lo nas telas não chega nem perto de privar de sua amizade e ouvir seus causos diretamente dele.
Posso dizer que tenho o privilégio de sua amizade e mais – não é à toa que ele chama a minha mãe também de mãe, testemunha de tantas rodas de prosa, violão e conversa fiada regada pelas delícias que ela prepara e cerveja gelada.
Cantor, compositor, escritor, professor, webradialista e sei lá quantas outras credenciais lhe assentam feito carapuça, Elizeu Cardoso completa, neste 2024, 30 anos de ilha, desde que chegou, menino vindo de Pinheiro, o violão debaixo do braço, a passagem por alguns festivais onde começou a bordar sua história, o estudo de Geografia na Universidade Federal do Maranhão, orgulho de pai, mãe e incontáveis irmãos.
Como é de seu feitio, a Festança (certamente mistura de festa e sustança) com que celebra a efeméride acontece hoje (24), a partir das 19h30, no Miolo Café Bar (Av. Litorânea, 100, Calhau), reunindo uma constelação de craques da música popular brasileira produzida no Maranhão, pequena parte de um círculo de amizades que Elizeu Cardoso vem amealhando com seu talento, simpatia e reciprocidade.
Elizeu Cardoso (voz e violão) estará acompanhado por João Simas (violão e guitarra) e Dark Brandão (bateria e percussão). A divulgação do show anuncia as participações especiais de Aziz Jr., Chico Nô, Chico Saldanha (autor da toada “Arco-Íris”, single mais recente do pinheirense), Daffé, Helyne, Josias Sobrinho, Klícia, Santacruz, Tiago Máci e Tutuca Viana, mas sua alma (negra) agregadora certamente fará chegar gente que não está no convite.
Citei várias credenciais de Elizeu Cardoso e afirmo: esbanja talento em tudo o que faz por não fazer nada de qualquer jeito. A Festança de hoje poderia ser só um encontro de amigos em um bar para tocar, beber e trocar abraços – e em certa medida é. Mas acompanho os bastidores há pelo menos um mês, sua preocupação com cada detalhe, confirma quem vai, chama fotógrafo, isso, aquilo e aquilo outro. Ele é puro capricho e zelo.
Eu poderia passar um bom tempo enaltecendo as qualidades de Elizeu Cardoso – e são muitas. Já escrevi aqui e acolá sobre sua literatura. Mas quero ater-me à música, esta faceta que ele escolheu para celebrar suas três décadas de ilha – “do Boqueirão pra lá tudo é diferente”, costuma repetir.
Quem primeiro me chamou a atenção para a qualidade de suas composições foi o amigo e parceiro comum Gildomar Marinho. Antes de conhecer a figura, conheci a obra e fui tomado por sua beleza, por uma construção que alinha as ancestralidades africanas impregnadas em nossa formação sociocultural – exacerbada em Elizeu –, indo de temas românticos, homenagem à cidade natal até questões sociais e geopolíticas.
Um artista raro, de talento nato, que tem muito a nos oferecer, em uma época em que carecemos tanto de beleza e delicadeza. Para quem porventura ainda não conhece, a Festança de hoje é um bom começo.
O poeta e compositor Joãozinho Ribeiro no traço de Nuna Gomes
“Tem uma sexta na minha terça”, dirão os brasileiros comuns na véspera do feriado de 1º. de maio, dia do trabalhador e da trabalhadora. Já os brasileiros que frequentam o Solar Cultural da Terra Maria Firmina dos Reis (Rua Rio Branco, 420, Centro) dirão que “tem uma quarta na minha terça”. Para que ninguém fique confuso, abrevio a prosa e explico: em razão do citado feriado, a próxima edição do projeto Quarta no Solar acontece nesta terça (30).
Realizado há cerca de dois meses, o projeto vem conquistando um público fiel, sob o comando de Aziz Jr. (voz e violão) e Chico Nô (voz e violão) – acompanhados por Totó Sampaio (percussão) e Athos Lima (guitarra) –, que a cada quarta-feira recebem um/a convidado/a especial e a presença de artistas na plateia transforma o fim da festa em uma animada jam session.
Nesta terça-feira, o convidado é o poeta e compositor Joãozinho Ribeiro, que completa 69 anos na segunda-feira (29) e celebra também o marco dos 45 anos de trajetória musical, iniciada em um festival universitário de música na UFMA, em 1979.
Joãozinho Ribeiro estará acompanhado por um Regional – formado por Arlindo Pipiu (violões de seis e sete cordas), Jovan Lopes (trombone), Madson Peixoto (percussão) e João Eudes (cavaquinho) – e passeará por clássicos de sua lavra, a exemplo da premiada “Milhões de Uns” – sucesso de Célia Maria – “Choro na Tralha” e “Ternura e Pão”, parcerias com Ivandro Coelho. A noite contará ainda com a participação especial da cantora Fátima Passarinho.
O show começa às 19h e o couvert artístico individual custa R$ 10,00.
Chorinho (1942), de Cândido Portinari (1903-1962) – reprodução/ Acervo Projeto Portinari
No rastro do recém-celebrado Dia Nacional e Estadual do Choro (23 de abril), recentemente reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil, acontece hoje (25), no Convento das Mercês, a 10ª. edição do projeto Choro, Samba e Outras Bossas, realizado mensalmente pela Fundação da Memória Republicana Brasileira (FMRB).
O evento acontece mensalmente desde o ano passado. Nesta edição a banda que leva o nome do projeto e o Quarteto Crivador acompanham Alysson Ribeiro, Quirino, Jailson Pereira, Leo Viana, Elizeu Cardoso, César Nascimento, Andrezinho do Acordeom, Adriana Bosaipo, Itaércio Rocha, Célia Maria e Carlinhos Arafé, e contará ainda com as participações especiais de Fátima Passarinho e Roberto Brandão, homenageando os recém-falecidos Cláudio Pinheiro (1957-2024) e Zezé Alves (1955-2024).
A programação começa às 19h e os ingressos solidários custam um quilo de alimento não-perecível ou fraldas (infantis ou geriátricas). A arrecadação será destinada ao Hospital Aldenora Bello. Sede da FMRB, o Convento das Mercês fica na Rua da Palma, 502, Desterro, no Centro Histórico da capital maranhense.